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A mostrar mensagens de novembro, 2014

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anos faz hoje que Churchill nasceu. Tratou-se dum homem que debaixo duma pele vitoriana conseguiu transcender essa sua condição e viver dentro e (mas) suspenso do seu tempo, numa sucessão impressionante de factos (e até contrafactos) históricos. Ainda hoje muito se poderá aprender no que foi dizendo sobre a Rússia, o médio oriente, a democracia, e por aí adiante. Um homem contraditório por excelência, resoluto por devoção e assertivo por vício, avisou-nos para um ocidente: «decided only to be undecided, resolved to be irresolute, adamant for drift». 

Placebo nas canelas

Vamos conviver nos próximos meses com uma figura virtual que, mais pontual ou mais persistentemente, irá condicionar (animar?) a nossa, digamos, relação com a realidade. Hoje o novo dicionário não ilustrado irá descodificar os seres dos outros mundos , assinalando assim as várias possibilidades que dispõe (e dispomos) aquele de quem se fala e que se instalou seráfica e filosoficamente para as bandas do templo de Diana. Fantasma – espécie de zeus da paranóia, podemos escolher o formato fumaça ( para evasões fiscais) ou o formato lençol ( para lavagens de capital) Sombra – entidade da família das assombrações, mas mais acessível para países em rescaldo de regate, pois vivem apenas em 2D. Basta um solzinho em cima para desaparecerem Vulto – são semelhantes às eminências pardas mas sem a parcela ( sempre mais cara) da eminência. Alimentam-se apenas da fugacidade e podem ser transportados em qualquer porta- luvas Avatar – algo ali entre o demónio, o parasita e o cook...

O Divã Disto Tudo IV

A imagem da revolução No fim de semana, semi ofuscado pela nuvem da notícia, o mestre de oratória Louçã, disse, qual trostski do quelhas: «não basta pedalar, pedalar é passear, é preciso derrubar os muros», e depois, João Semedo, na mesma linha, disse que «não havia atalhos para o confronto» A vida é um manual de convivência entre a conservação e a revolução. Vivendo e alimentando-se uma da outra, amam-se sem poder assumi-lo, qual amantes reprimidos e até secretos. Mas, por regra, a demagogia encaixa mais na mensagem revolucionária, e esta não a enjeita, cavalgando mesmo nela com prazer. O que seria o homem se não gostasse de enganar, enganar-se, e ser enganado. O pior das forças revolucionárias está quando perdem a força da demogogia, quando evitam o espírito de coup d’etat. Para que nos serve um revolucionário sem táticas cínicas, sem contradições viscerais e sem manipulação de almas? Esperava mais das gémeas mortáguas. 

O Divã Disto Tudo III

A imagem da palavra Os tempos são de eufemismos irónicos; poderíamos usar antes hipérboles exasperantes, mas temos as consciências mais treinadas para o sarcasmo do que para a exaustão. Se geralmente o eufemismo expõe uma capacidade para a ambiguidade, a hipérbole acaba por expor uma inabilidade para a ironia. Ambas são sinaléticas dos tempos. A hipérbole vai ficar como reserva de valor para os carismáticos enquanto o eufemismo fica como o recurso dos pobres de carisma. Mas tem graça que hoje a acusação de eufemismo tem mais uso do que a acusação de exagero. No fundo, o eufemismo é a hipérbole dos novos tempos. Tempos de controlo de danos. Saudade dos tempos danosos.

O Divã Disto Tudo II

A imagem do Estado Poderíamos abordar a realidade pelo lado do ‘isto só visto’ , ou então pelo desabafo do ‘quem te visa teu amigo é’, no entanto parece claro que o Estado tem alguma dificuldade em vestir a sua pele e precisa sempre duma mãozinha que começa por ser invisível até estar à vista de todos. Como muitas vezes no mundo maravilhoso dos negócios a pedra filosofal está na segmentação, e assim, no âmbito da vistocracia, deveriam ser criados vários tipos de vistos para cidadãos fora da comunidade por forma a acelerar a recuperação nacional no sentido da construção do 6º império face à inoperância do 5º. Assim, deverão estar previstos vários tipos de vistos que acompanhariam o casamento entre as diversas oportunidades e as necessidades criadas pela vida contemporânea. A saber: Visto Silver – destinado a mulheres estrangeiras que emprenhem pelo menos três vezes com sémen nacional. O filho mais esperto terá ainda direito a uma bolsa e será, depois de licenciado com os ...

O Divã Disto Tudo

a imagem do poder Hoje, Carlos Amaral Dias, numa entrevista ao Jornal de Negócios, aborda a queda da família Espirito Santo como uma queda de imagem, de poder, como um partir do espelho, como uma ferida narcísica que não tem betadine prometeico que lhe valha. A teologia moral moderna geralmente resolve estas questões dando a alguns pecados/vícios uma espécie de poder aglutinador que acaba por dispensar discursos ( e razões) mais longos. Abençoadas, assim, a ganância e a inveja que resultam óptimas para podermos passar à frente. O chamado cidadão interessado e atento – aquilo, no fundo, que quase todos gostamos de ser reconhecidos como (apesar de Pires de Lima preferir o ‘cidadão que faz’) - tem então para escolher, a via psicanalítica ou a via moral, ou, os mais piquinhas , ficar ali a meio caminho, entre os sonhos de Sigmund e as Parábolas do Filho de Deus (o nosso utópico "werde was du bist" ) C.A.Dias (que aprecio e que, de longe, é o único pensador portugu...

Parvosterona

Sabe-se da literatura, da televisão, da história, e dos jornais, que o poder corrompe, sabe-se também que o poder afasta da realidade (esta vai-se tornando cada vez mais difícil de suportar), sabe-se igualmente que isola, etc, etc, bla-bla. Aparentemente todos esses desligamentos (versão mais fina das alienações ) podem ser condimentados – somos periodicamente relembrados disso – de alguma actividade glandular que torna os detentores do (algum) poder, por assim dizer, excêntricos (a versão fina de parvos). O que torna o capricho em personalidade, e a incompetência em distração, também pode, com a ajuda do fantástico mundo da metonímia, fazer com que a parvoíce se transforme em génio.

Ciclovia

Estando impedidos de criar – com cê grande – resta-nos definir ciclos , algo em que, diga-se, temos (nós, a humanidade pensante) mostrado uma competência bastante decente. Claro que o rolo da história trata de os ir amalgamando com o decorrer do tempo; por exemplo, se hoje, e só depois do 25 de Abril, podemos encontrar o (i) ciclo pós revolucionário, (ii) o ciclo cavaco, (iii) o ciclo guterres, (iv) o ciclo sócrates e (v) o ciclo passos- troika (coitado, será que nem sequer vai ficar com um ciclo só dele?) daqui a uns anitos tudo isto não será mais do que um ciclo maiorzito (ao qual ainda se juntarão o (vi) período salazar e (vii) a primeira república – dos detrás – e mais uns quantos que ainda virão no futuros) que, se calhar, os nossos trinetos chamarão de grande ciclo bosta ou então ciclo maravilha, consoante a parte do copo para que estejam a olhar. Certo é que daqui a uns anos Salazar e Cunhal, Afonso Costa e o Cardeal Cerejeira, Gungunhana e Vasco Santana farão parte do mes...

On a billboard

Pela recente biografia de Philip Roth (de Claudia Pierpont) soube-se que ele flirtou ao de leve («briefly dated», é a expressão usada) Jackie Kennedy em 1964. Alegadamente terá sido convidado a subir depois de um jantar num restaurante e «when he finally kissed her, it was like kissing the face on a billboard» (pág. 45). Apesar de tal se ter passado entre duas pessoas famosas , e que não apresentarão deficit de variedade de beijos na vida, tenho para anunciar que todos e quaisquer beijos a uma mulher são, para um homem, beijos em ‘quadros de avisos’. Nenhuma mulher beija sem a intenção - mais ou menos declarada - de mostrar ao homem qual é o lugar dele, seja ele qual for. Felizes os que percebem os avisos - a tempo.

O Conde Corado

No reino tinha estalado o escândalo. O Conde deixara a noiva à beira do altar e fugira com uma amante estrangeira de seu nome Eurora. Várias razões, todas moralmente inválidas, saliente-se, eram invocadas nos mais diversos foros de coscuvilhice do reino, desde os oficiais (o parlamento do reino) até aqueles mais informais (o barbeiro de sua majestade, ou a dildograria das princesas solteiras) passando pelos clandestinos (o bordel da tia Conspurcácia, onde o Rei se abastecia regularmente de pecados, nos intervalos da virtude). A escandaleira passou as etapas definidas pela praxe estabelecida no Grande Protocolo da Hipocrisia e, passado algum tempo, o Conde já dava entrevistas, de mão dada com Eurora, dissertando sobre o futuro do Reino e o seu enquadramento nas mais diversas galáxias, ao ritmo de suaves acenos de queixo providenciado por uma corte de fiéis semi-defuntos que aumentava de dia para dia, alimentada de subsídios e indulgências várias. Mas Eurora era uma mulher...

[5] Deuteronómio

Haverá algo intermédio entre a bênção e a maldição? Este é o primeiro dilema do homem depois de ter a suspeita de que existe um Deus que possui algo que aproximamos a sentimentos, valores e justiça. O homem foi-se construindo como um mamífero de compromissos. Desde que descobriu que o mal absoluto é algo que não está ao seu alcance tenta gerir a existência como um bem menor - andando de coligação em coligação. Deverá Deus fazer um pacto com os Homens – era a questão que estava na ordem do dia. Não bastava a Natureza e seria preciso a Lei? No Céu desconhecia-se o significado da Lei até o homem ter andado de êxodo em êxodo, de exilio em exilio, de escravidão em escravidão, de rebelião em rebelião. Ou seja, o homem, antes que Deus pestanejasse, já O tinha tentado esquecer. Haverá então algo intermédio entre a bênção e a maldição? Assim algo como ser viúvo sem nunca ter casado, ser órfão sem nunca ter sido filho? Ser ladrão sem nunca ter roubado? Ser perdoado sem nunca ter o...