Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2005
A salvação está ao alcance de qualquer bolsa, basta pôr a cabecinha a render nos conceitos mais em conta; hoje o dicionário não ilustrado até acaba por entrar na 2ª milena e apresenta soluções para todos os gostos recolhidas nas mais cristalinas hermenêuticas; há sempre uma ou outra em promoção, e com o acompanhamento certo marcham todas muito bem. Eu aconselhava tinto, mas não faço questão. Há alturas em que até é melhor a seco. ( entradas 1.001 a 1.009) (e começo logo por uma muito original) A Relativização – Descobrir a excepção que pode safar a regra de ser violada, tornando-se até emancipada Os Pormenores – Estão para as chamadas coisas importantes como a lubrificação para o coito O Espirito Santo – Ser que vive temporadas na orelha mas que não precisa de se pendurar em brincos de argolas para dar nas vistas A Intimidade - Aquilo que é verdadeiramente incompatível com as molas da roupa, mas dá-se lindamente com o ferro de engomar A Ilusão – Produto químico produzido numa zona de ...
Conto deles de lado ali Ela acabou por se sentar num banco de jardim. Praticamente já não há contos em que elas se sentam em bancos de jardim, ali, assim, para ser admiradas de perfil, mas eu vou dar um jeito nisso, vou-me sentar ao lado dela, mas calma vou ter juízo, e até fica mais genuíno, torna as coisas mais fáceis, eu faço de beduíno e ela será o oásis, só os separa o olhar, o deserto do olhar, é ondulante o olhar, como as dunas, claro, só que eles estão num jardim, e vão ter de falar de pombos, já me esquecia, ele hoje sou eu, para variar, dá-me jeito, aconchega-me o peito, vocês vão-me desculpar, mas vocês não existem, claro, isto sou eu a sonhar, mas as coisas agora vão acelerar, ela é muito bonita e ele nunca a tinha visto de perfil, é daquelas coisas nunca tinha calhado, mas ele, que sou eu, não era de ficar engasgado, fingia olhar para as pombas, armava-se em engraçado, sacudia-se um bocado – ainda tombas, praí – isto foi o meu lado narrador a dar de si, atormentado pelo ci...
Fase enzimática Um homem já tem muitas razões para ficar a pensar na vidinha mas escusava agora era de ser confrontado com a fragilidade da sua condição à conta de conferir aquilo que os filhos andam a estudar. Eis senão pois que sou confrontado com a fantástica ‘respiração aeróbia’, um tal de método que os seres vivos têm para produzir energia (abençoados sejam os calhaus). A primeira coisa que me deu logo uma carga de nervos foi ter percebido que a glicose é fosforilada! Eu já suspeitava que a gaja não se dava com a fermentação mas também bolas chegar ao ponto de se fosforilar para que depois na rua lhe chamassem «ó minha rica frutose», sinceramente, acho que não abona nada, e como se não bastasse nem perde tempo e arrefinfa logo com outra fosforiladela rapidinha perdendo os poucos electrões que ainda lhe restavam. Não é pois de estranhar que no final desta cegada já ande ácido pirúvico a rondar por tudo que é sítio, ora esse tipo não é de intrigas e tem energia para todas, mais fosf...
La vieille cuisine Agora voltou à moda tratar do prato do relativismo’ como sendo o grande amigo do fiel da balança. Quando se confunde o joker com o duque de paus geralmente acaba-se de mãos a abanar e a jogar a feijões com a avozinha mexendo-lhe o chá. Sem rede, mas o post vai ser sintético (para desenjoar) e absolutamente a borrifar-se para os trejeitos da argumentação retórica ou não. Organizem-se pá, toda a mensagem do cristianismo é um hino à decente relativização, mas dentro duma criação em que no final tudo será ‘ou sim ou sopas’. Jesus relativizou com o seu nascimento, relativizou com Marta, relativizou com o papel fascinante que tem N. Senhora na história e nos desígnios de Deus, relativizou com os milagres, relativizou com o poder, relativizou com os Judeus, relativizou com as angústias da alma (as d’Ele na morte por exemplo), fez jogo de cintura com as profecias, as parábolas são tão óbvias como as tácticas do Peseiro, a unicidade e a trindade de Deus revela-se como um autê...
Every string ao molho moment Da tensão. Uma corda esticada, um coração aos pulos, uns nervos de aço temperado à pressa, uma desculpa baralhada num ora essa, uma ausência notada, uma ideia mal abortada, um Charlie Parker cantado, um útero raspado, sentir-se mal amado, um satanás que não vai de rectro, um centímetro que nunca mais chega a metro, um passado que mora ao lado, uma procissão que não sai do adro, um nariz que se esqueceu de franzir, uma princesa que preferiu ficar a dormir, depois do beijo, quando pressinto mas o não vejo, um claninete perdido num quarteto de cordas, como encostado nas bordas elásticas do ringue, e uma torneira que só pingue, que nem faça o pong, and aquela so beautiful song , que nunca mais oiço como deve de ser, perdido que estou no parecer, no belo efeito de quem não vendeu a alma mas emprestou o peito, para que respirassem por ele, tal o medo que tinha de que quando respirasse fundo, no final já não houvesse mundo, e o arco ficasse ali a abanar, a vi...
Lassie in de skay withe almondegas A união dos sindicatos dos anjos da guarda teve de se reunir de emergência; já não se dava uma crise tão grande desde que, por causa de Freud, passaram a ter de fazer horas extraordinárias à noite por conta dos sonhos marados do pessoal. Agora tinha-se instalado um tumulto do tamanho duma montanha-movida-a-fé-de-primeiro-cristão-catacumbico por causa da escolha do novo papa. Havia inesperadas crises de vocação, havia paramentos deitados ao chão como toalhas em balneários, havia beatas a bichanar aos gritos e arremessando terços, havia sacristães a exigir semana inglesa, havia comunas a bater no peito em ritmo hip hop e jacobinos a ameaçar enforquilhar peregrinos que ainda tivessem a supina lata de rezar umas avé marias pela saúde e esclarecimento do novo pontífice; estava mesmo montada uma grande Las Vegas global no reino da igreja militante, e a corporação angélica achava que as 60 horas de formação anual- da lei do fiel Bagão - não eram suficientes....
Yesterday builders O passado é a maior invenção do homem. É uma espécie de desforra da nossa condição de seres reféns da imaginação, dum sentido para a vida, e dum tal de fio condutor. (Não me refiro à memória, essa tem um carácter instrumental, e é um assunto estafado, ora mitificado, ora metaforizado, ora neuro-biologicamente modificado à base de rodriguinhos experimentais) Falo mesmo do ‘passado’, dessa construção humana, do resultado dessa poção mágica que o criador nos deixou à mão de semear: podermos escavar um terreno que já foi drenado, assoreado, seco e inundado, pasto e poisio, aplainado e esburacado, e de lá sacar fósseis que ainda se riem ou choram à mercê das cócegas que lhes façamos com o pincel arqueológico da nossa mente. O passado é uma ficção mais ou menos plausível que vive da manobra daquelas sensaçõezinhas de fotonovela, dos odores, dos sons, das cores, dos floreados de alma, dessas brincadeiras de deuses que fazem de figura de artistas de circo na constante festa ...
Um post liberal daqueles à antiga, praticamente ângulo-saxofónico e tudo Ontem ouvi o ministro da saúde ameaçar que já não informava mais o povo das suas brilhantes medidas porque haveria gente que tinha o desplante de se pôr a «especular com exemplos» ( sic). Eu também acho isso duma indelicadeza extrema, a política não deve ser conspurcada com a realidade porque senão qualquer dia ainda vêm com a maçada de ter de fazer sentido. O tema teria a ver com as famosas ‘taxas moderadoras’ e com o enriquecimento da sua função; é um assunto que me encanta, porque é uma expressão composta por duas palavras que podem significar tudo aquilo que nós quisermos, se bem que, diga-se em abono da verdade, nunca vi chamarem isso nem ao carapau de escabeche, nem ao elevador da Bica; mas vou directo ao assunto e de rebarbadora em riste porque um homem que se preze pelo menos uma vez na vida deve mostrar que tem umas mãos de oiro sem ser a afastar um rendilhado, ou a desabotoar um corpete, ou a destravar u...
Beautiful words O ‘enamoramento’ é uma palavra de facto muito bem conseguida. Incorpora o ‘amor’ adverbalizando-se sem ser ostensiva, acolhe singularmente o prefixo ‘en’, o que lhe confere uma noção de movimento, de continuidade e até de quantidade ao mesmo tempo, e esconde qual biombo lacado o incomodativo kitschismo do ‘namoro’. A languidez do termo ajuda a afastá-lo conceptualmente da brusquidão própria das paixões desgovernadas e um certo arrastamento fonético permite-lhe o ar blazé que fica bem a qualquer palavra que se queira dar com as boas famílias. A tendência para se consumir o final na economia da dicção – o ‘to’ não precisa de todo de ser bem vincado – confere-lhe uma terminação com a suavidade das ondas a bater na areia como na maré vazia: isto não é exacerbamento lírico mas a simples constatação dum facto de registo analógico que nem sequer aspira a metáfora. É além disso uma palavra da ordem meramente laboratorial: ou seja, ninguém diz na linguagem corrente «estou enamor...
O iníçio dum nôvo siclo de mudanssa nota técnica: Primeiro ministro: josé sócrates Líder do psd – marques mendes Líder do pcp – jerónimo de sousa Líder do pp – (provavelmente) telmo correia Sendo o mano oliveira já dono da lusomundo, cá por mim narciso miranda pode avançar para presidente da caixa geral de depósitos, e vasco pulido valente pode então assumir finalmente o papel de intelectual católico do regime para sossego de todos. Quem ficasse com comichões poderia ir para a frente da casa fernando peçonha. E filomena mónica para busto da república, já. Isto é um país cério, ora eça.
Conto do por acaso acho que não, joão ( por causa das ‘loiras no mercedes’ e outros engarrafamentos ) Ela ia num renault clio, meio a cair aos bocados, tinha um olhar encantador, perturbador, talvez de cio, mas devia estar isenta de pecados, parou mesmo atrás de mim e vendia felicidade ainda por cima, cheiraria a jasmim ? não sei, mas agora dava-me jeito prá rima, estava ao telefone, tinha mesmo um sorriso lindo, aberto mas não enorme, não sei se estão a ver, cabelos escorridos, envergonhadamente morenos, mal penteados, mas serenos, não falava comigo, não se ria para mim, isso julgava ela claro, ninguém marca o destino do seu riso, friso: ninguém é dono do seu sorriso, mal somos donos da nossa tristeza, e lá estava ela enfiada num banco de espuma já estafada, tão desnecessariamente bonita, sim na verdade um homem não precisa de tanta beleza, mas quem seria o estúpido que açambarcaria a voz dela ao telefone, aquilo não era riso de entre-mulheres, as mulheres entre si não conseguem rir a...
Byron at stock exchange market Take a shower Dress a flower Look at me What you see? «I see a guy Asking why God bless him Over his sin» Take a towel Inspire well Close your eyes Break your ties Take a chair And look at there: He's making those smiles That never wiles.
‘So long’ (mas também se um blog não serve para isto serve para quê?) A primeira vez que estive com João Paulo II foi em Roma em 1980. Nessa altura vivia-se ainda um ambiente de novidade, recheado de sinais duma fé – que até parecia diferente - viril e piedosa ao mesmo tempo, dum papa que fazia ski, falava do comunismo sem travões, rezava a Nossa Senhora ora como um menino ora como um teólogo austero, e gostava de dar a cara dizendo até o que lhe iria no coração. Inesperadamente encontrei-me nessa altura com um grupo não muito grande, numa audiência improvisada para rapaziada ávida de estar com esse Papa que parecia tão perto de nós e ao mesmo tempo tão lá ‘longe’ ao pé d’Ele. Ao meu lado nesse momento, recordo-me, estava um brasileiro, recém convertido, meio esgazeado, daqueles que nos fazem exercitar logo a inveja porque o imaginávamos a descobrir Deus entre duas miúdas no Leblon e uma descida em parapente pelo morro do corcovado, intervalando as avé marias com umas caipirinhas:«ora ...
O homem, o orgulho de existir The love as we will know it «A verdade que a Revelação nos dá a conhecer não é o fruto maduro ou o ponto culminante dum pensamento elaborado pela razão. Pelo contrário, apresenta-se revestida de gratuitidade, obriga-nos a pensá-la, e exige ser acolhida, como expressão de amor. » ‘Fides et ratio’, encíclica de João Paulo II
Mas há uma expressão que eu gramo ‘Estado de graça’; assenta sempre bem, tanto aos parvos como às eminências pardas.