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Na falta podem ser sugus

Dostoievski é um daqueles escritores que todos temos direito a ter um próprio: ‘o nosso dostoievski’; mesmo que nem o tivéssemos lido (hoje existe uma forma consagrada de conhecimento que é o ‘ter ouvido falar de’) demos-lhe direito a entrar nos nossos melhores pesadelos. E os nossos piores pesadelos são os que aparecem num sono de tarde, de siesta: um homem levanta-se, motivado exclusivamente pelos desígnios dum inconsciente em formato bomba injectora, por sorte não dá de frente com nenhum ser humano com relações de sangue ou de registo civil e que tenha adquirido o direito de lhe pedir explicações sobre o seu estado psicomotor, e vai directo à prateleira sacar dos Irmãos Karamanzov , como se procurasse queijo manchego. É fodido ser movido em causa próxima pelos sonhos, pois nesses casos nem se distingue bem o papel impresso do leite fermentado. Felizmente o livro já estava muito sublinhado pela raiva adolescente, e Ivan dizia a Aliocha no início do ‘ grande inquisidor’ que ‘estás tã...
Luna Park «Dostoievski interessou-me na adolescência. Os adolescentes adoram Dostoievski, por causa do fogo-de-artifício e das discussões, mas não penso que os livros sejam muito bem construídos.» de Robert Dessaix, em entrevista ao suplemento ‘Ypsilon’, ‘Público’, 23 de Março
Quaresma XXXI’ Isto sim... «Em Dostoievski (...) quando as personagens desejam qualquer coisa, preferem ser repudiadas a ser exaltadas. (...) No desejo já gozam o prazer; no prazer sentem já o fastio; no acto saboreiam o arrependimento, e(..) no arrependimento sentem de novo a acção. (...) Mas o que é mais surpreendente é a análise do amor. (...) Para ele o amor não é um estado de felicidade, um acordo, mas uma luta sublimada. (...) Quando as personagens de Dostoievski se amam com um amor retribuído, não encontram a calma; nunca são tão agitadas pelas contradições do seu ser como no momento em que o amor corresponde ao amor. (...) O fenómeno do amor duplo, tão complicado nos outros romancistas, é banal, natural em Dostoievski» ... são amores para homens; como bem descreve Stefan Zweig no seu ‘Três mestres- Balzac-Dickens-Dostoievski’ (ed. Civilização, 1976, pg 209 e segs). E por isso desconfiem sempre das reais capacidades de um homem seguro num amor correspondido.
Quaresma XXXI E aparentemente sem pozinhos de cheiro... «A desordem é geral. E geral também a inquietação. O que tortura esses seres não são a doença ou o temor do dia seguinte: é Deus. Por gentileza do seu autor, estão libertos das pequenas arrelias e preocupações quotidianas a fim de serem colocados, nus, em face do Mistério. A sua vida activa corresponde à nossa vida profunda. Eles são nós mesmos observados do interior. Graças a esse método de ‘tomada de vistas’, o que está mais perto do operador é o tormento mais inconsciente, o que dele está mais afastado é a carne, a roupa, a luz do dia. (...) E, quando nos mostram essa prova de nós mesmos, não nos reconhecemos melhor do que numa radiografia» ... é este o Dostoievski que H. Troyat descreve no capítulo da sua Biografia ( ed Lello & irmão, pg 377) dedicado aos ‘Irmãos Karamanzov’, no qual o escritor faria a tal conciliação dos inconciliáveis: «o fantástico e o real».
Quaresma XVII Vias sacras alternativas na correspondência de Dostoievski... «Je ne sais pas écrire des lettres» Il ne sait non plus terminer une lettre, multiplie les post-scriptum,(…) des vœux de santé et des embrassades, comme un paysan. « Je ressens douloureusement et mieux qui quiconque mon vice littéraire : la prolixité, mais je ne parviens pas à m’en débarrasser» A côté des négligences de syntaxe, d’emploi impropre de vocables, il s’est crée une ponctuation à lui où abondent les tirets, parfois doubles ou triples, combinés avec des points, et qu’il charge d’un sens particulier ; il abuse des parenthèses, il les inclus même dans autres parenthèses, il met une majuscule après les point virgule, mélange les chiffres romains et arabes» .. descritas no prefácio do III vol da sua correspondência completa, traduzida por Nina Gourfinkel ( ed Calmann- Levy) e que se desculpam, pois como ele diz numa destas cartas: «pardonnez la négligence,(…) n’y voyez pas un manque d’égards». É isso, tud...
Quaresma II Armado em Kundera… «Que deve fazer um romancista que apresenta aos seus leitores tipos inteiramente ‘vulgares’, para não dizer pouco interessantes? (…) Na nossa opinião, o autor deve esforçar-se por descobrir matizes interessantes e sugestivos, mesmo nas pessoas vulgares. Mas quando, por exemplo, a características dessas pessoas reside na sua sempiterna vulgaridade ou, melhor dizendo, quando, apesar de todos os seus esforços para sair da vulgaridade e da rotina, recaem nelas irremediavelmente, então adquirem certo valor típico; tornam-se representativos da mediocridade que não quer continuar como é e que visa a todo o custo à originalidade e à independência, sem dispor de meios para a conseguir. (…) Nada há de mais vexatório do que ser, por exemplo, rico, de boa família, de aspecto atraente, razoavelmente instruído, nada tolo, bom até, e, não obstante, não ter qualquer talento, nenhuma característica pessoal ou até qualquer singularidade, não pensar nada por si; enfim, ser ...
Contos de 1881 Dostoievski tinha acabado de entregar a alma ao criador e Picasso preparava-se para dar com o corpinho ao manifesto. Anastasia estava na flor da idade e hesitava entre ir ter com Fiodor, que agora talvez já lavasse a barba e não rezasse responsos por cada vez que fornicava, ou aguentar um bocado e ir fazer de terebentina no leito do desenhador de minotauros. Em qualquer dos casos ela já sabia que corria o risco de poder vir a ser a santinha, ou a bezerra sagrada, ou o floco de apontamentos ou o filamento de ráfia. Oscilava na escolha entre apascentar as vísceras que trabalhavam num subterrâneo de culpas, ou ser feno bem enfardado duma besta que suava às cores. Ela sabia que queria fugir do usucapião amoroso, mas também sabia que não lhe era digno deixá-los de calças na mão, sem sorte, nem arte. Entregar-se-ia ao russo ou ao espanhol? Era esse o seu dilema em 1881. Ela sabia que seria o testemunho, ela sabia que seria a mulher de charneira, pois estava nas suas mãos, calc...
O nojo dos dias. A saga continua Das minhas coisinhas Portugal vive hoje claramente um dos momentos de maior decadência como Estado político independente e soberano da sua história recente. Uns quantos políticos com caderneta profissional devidamente carimbada e que passeiam os seus chocalhos amestrados por essa Europa fora, lembraram-se de destapar a tampa da conveniência e das devidas aparências que, pelos vistos caridosamente, nos preservavam da imagem pública de povo irrelevante, e disseram ao rapazito que lá aparecia de vez em quando aos almoços, apresentando-se como primeiro-ministro, que gostariam muito de o ver a fazer de mordomo no pavilhão de caça. O seu entusiamo juvenil era tanto, que seria impossível recusar face à miragem duma dispensa cheia de tulicreme , comparada com as tísicas prateleiras do seu humilde apartamento que pouco mais mostravam que umas escanzeladas ferreirinhas com leite. O rapazola recém-casado e deslumbrado com uma amante supostamente mais experiente, d...
Fantasia para dois sargentos e um tanque da roupa Passaram já umas boas semanas sobre a onda laudatória em relação a uma “livro/literatura” que pretensamente seria uma lufada de ar fresco resgatadora da épica ironia nacional. Ele era descobridor de caracteres, decifrador de tiques, desenganador de frágeis e ocos mitos, esparramando as debilidades do burgo. Ele era revolucionário no discurso, rasgador da narrativa convencional, destilada na ordem dos novos “paradigmas romanescos”. Ele era palavras recuperadas ao ritmo da formiga trabalhadora, verbo sempre fracturante e inimagináveis rotinas semânticas. Desavergonhada e orgulhosa dos subsídios recebidos, tornou-se até a escrita funcionária mais chique. E a que melhor era lambida pela corte. Frágil e passageiro consolo o que se baseia no artificialismo das meras técnicas de discurso diferentes, que são tão criativas como um molho de grelos num cocktail de camarão. Frágil e passageiro consolo o que se baseia num passeio de palavras, como q...
Russos traduzidos Tenho três traduções de " Almas Mortas ". A segunda nem a li toda. Parecem livros diferentes. Estou ansioso de ler uma versão traduzida do russo a sério da "Ana Karenina". ou será Anna Karennina... Decidam-se tradutores. E um Oblomov recente, e novo "Pais e Filhos" do Turgueniev ! Já nem falo de Lermontov e de Saltikov Chtchedrine. Pelo menos as biografias do Troyat, que ele escreveu em francês! ( há para aí umas duas traduzidas...) Eu não sou do meio mas... Abrupto e Aviz exerçam as vossas influências ...se é que estão interessados... Eu estou a falar de traduçóes novas, bem feitas, até apanhando esta nova "onda" e seguindo algum bom trabalho recente feito com Dostoievski e Tchekov. E adorava uma tradução para português do "Le Roman Russe " de E.-M de Vogué. O original francês confesso já me custaria a ler outra vez. Termino : Griboiedov ! Como eu gostaria que houvesse uma tradução!!! Já desabafei. Pode ser que algu...