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A mostrar mensagens de fevereiro, 2011

diana chaves, c'est moi

Gosto cada vez mais de telenovelas. Gosto do ar revisteiro das cenas, gosto da previsibilidade dos enredos, do arrastamento para fazer render o tempo, gosto daquele perfume barato do escândalo primário, dos volte-faces inverosímeis, gosto da repetição das cenas já vistas, gosto do ar postiço, gosto que me digam nem acredito que vejas isso, gosto de separar os bons dos maus, da sensação de história enlatada, gosto de reconciliações com música de fundo, gosto dos bairros a simularem que são do tamanho do mundo, gosto das tentativas falhadas de mostrar o espírito do tempo, dos exageros mal conseguidos, gosto que me digam já te vi a fazer aquela cara, gosto das teorias sobre personalidades fortes e fracas, gosto dos que fazem de paneleiros, gosto de ir beber água a correr para não perder uma cena, gosto do riso fácil, gosto de ficar a pensar que já me fizeram aquilo, gosto de ficar com pena que acabe, gosto de cenas de amor foleiras, de mulheres guerreiras, gosto de confirmar...

e agora o dê

Acredito sem especiais restrições que a situação da Libia preocupe genericamente o mundo em geral e particularmente às almas mais dadas à preocupação em particular, incluindo a judite de sousa, e o helder postiga. Não queria deixar no entanto de frisar que muito mais preocupado me deixaria se existissem problemas na zona do Libido, e se isso viesse acompanhado com problemas na minha Lábia ainda mais preocupado me colocaria. Em regra eu dou muita importância à combinação de lábia e de libido, (em contra-corrente com as teorias que apostam mais na imaginação e/ou nos lubrificantes) mas a Líbia em si e isoladamente não me costuma criar reconhecíveis ansiedades, talvez porque, pelo menos conscientemente, também nunca fui confrontado com a necessidade de desentupir o canal de Suez para satisfazer quaisquer tipo de exigências, hormonais ou other else . Resumindo, mas não concluindo: ora se a África já tem um corno também tem direito a um libido. E há que dar essa possibilidade e oportunidade...

música à 6ª

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verso à terça

Mas se é razão ser eu a que pareça, De mim mais vos direi quando emudeça E a vós menos me mostro se atrevida Natália Correia, in Sonetos Românticos

Man lebt nicht einmal einmal

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Leio os evangelhos diariamente há carradas de anos e sempre que pego nessa leitura tenho a mistura de três sensações: a) sensação epifânica : porra nunca tinha lido isto; b) sensação indianajónica: é hoje que eu vou descobrir o que nunca foi descoberto; c) sensação bulímica : fosgasse, não retive nadinha. A Bíblia é, por um lado, um livro de boa (ilusória) economia, quero eu dizer: com poucos recursos de leitura consegue devolver um conjunto robusto e diversificado de retribuições, mas, por outro lado, de má economia: pode devolver mais incógnitas e mais complexas do que aquelas que investimos. Os católicos tentam resolver de várias formas este aparente desequilíbrio, mas a mais corrente e experimentada é com uma boa almoçarada seguida duma sesta (também surtia efeito com foda) bem dada. Acabei de cumprir apenas a primeira metade da receita (e está tudo aos gritos cá em casa devido a um problema de logística doméstica do qual eu já devidamente e em muito boa hora me auto-absolvi) e le...

MnhEC

[desmaker corner] Miguel Esteves Cardoso escreve há uns tempos no Público sobre as miudezas da sua vida, a chamada vidinha. Mas, infelizmente, - do que acompanho, há sempre esta ressalva técnica - não conseguiu descolar da figura que fazem aqueles jogadores de futebol que tiveram carreiras de sucesso baseadas na sua grande velocidade (geralmente pelos flancos) e que, depois, sem essa muleta da velocidade, tentam adaptar o seu jogo às novas circunstâncias, com novas fintas e outras posições no campo, uma espécie de futre a experimentar a posição de beckenbauer. Man, vai por mim, não deu, não dá. Tens de perceber, pá, nós fizemos aquele esforço atento para ver o que ias conseguir, do género: «vá, pode ser que ele dê o tal golpe de asa, (como talvez Tolstoi também conseguisse fazer anedotas de alentejanos, ou Pavese conseguisse também largar uma ou outra piada sobre pívias de elefantes) ele talvez consiga descer ao sentimento-do-dia-a-dia e dar-lhe um pinote para cima, pô-lo n...

História Breve do Egoísmo. Hipótese #3

De tous les moyens de faire sa fortune, le plus court et le meilleur est de mettre les gens à voir clairement leurs intérêts à vous faire du bien. La Bruyère, Les Caractères , pág 276, ed Le Livre de Poche

História Breve do Egoísmo. Hipótese #2

Quelles que soient nos prétentions, nous ne pouvons, au fond, rien demander de plus à la vie que la permission d'être seul. Nous lui offrons ainsi l'occasion de se montrer génereuse, et même prodigue... Cioran (sempre na moda nas colecções Outono/Inverno), Le Crépuscule des Pensées , pág 375, Oeuvres, ed Gallimard

música à 6ª

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História Breve do Egoísmo. Hipótese #1

On commence par n'aimer personne. Puis on aime tous les hommes en général. On n'en aime plus ensuite que quelquns-uns, puis une seul et puis le seul. Albert Camus, (agora na moda outra vez)   Carnets II , pág 255, ed gallimard.

The dark side of the wool # n+3

Na equação da tosquia presta-se vassalagem a duas incógnitas: o alívio da ovelha e o lucro do fiadeiro.

verso à terça

Importa a liberdade De não ceder à vida, Um segundo sequer. Ser de pedra por fora E só por dentro ser. - Falavas? Não ouvi. - Beijavas? Não senti. Natércia Freire , in Liberta em Pedra

manual de camuflagem de escrita

Existem os clássicos desinibidores de discurso, como sejam situações caricatas da realidade, entrevistas de políticos, descobertas da pólvora, gaffes diversas, cenas absurdas, pores-do-sol com lavagante, preocupações apocalípticas, revelações do Altíssimo, and so on, que vivemos, presenciámos ou ouvimos falar, mas, ao fim e ao cabo, tratam-se sempre de motivos banais para alimentar uma qualquer necessidade fútil de nos exprimirmos, exibirmos, desabafarmos, vendermos, o que seja. Mas muito mais interessante é todo o universo que se desenvolve em torno dos inibidores de discurso, tudo aquilo que gravita na zona das circunstâncias sobre as quais nós quereríamos mesmo falar, mas que, pelas mais diversas razões, não sabemos por que ponta lhes pegar, não só pela dificuldade e ambiguidade das mesmas, mas também pelo receio típico de 'o que irão pensar disto' a vasta multidão de marios castrins que nos rodeia. Enquanto as mulheres dominam relativamente bem (se pusermos de parte o mecan...

Mário e o seu Calendário

Hesitava todas as quintas, dissimulava, feito um pintas, sempre na primeira sexta do mês, e na última escrevia meia dúzia de glosas, sentia-se incompreendido às segundas-feiras chuvosas e, horror: dizia sempre uma mentira no dia do senhor; mas era um bocado banana, pensava na morte e em todos os males secundários a meio da semana, jejuava fora dos dias de preceito, mas nunca teve tendência para bater no peito, sentia-se só todos os dias seis, fornicava quando calhava, calhava-lhe always, iam-lhe comer à mãozinha nos dias trinta e um, chamavam-lhe senhor doutor nos sábados de muito calor, e chefe nas quartas de frio, «às terças nunca me rio», desenhava nos fins de semana prolongados, só no natal escutava piedosos recados, nunca desconfiava de ninguém nos dias pares e, dizia-se, guardava a quaresma para os azares, mesmo para os que aparecem de repente; guardava para o carnaval o acinte, numa ou outra sexta achava-se atraente, logo ridículo no sábado seguinte, apreciava conversa ...

música à 6ª

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Lossana nas Alturas

Hoje, Grande Loição, quando anunciou a sua moção, afirmou solenemente que «Portugal estava num beco». [ a grande fissura ideológica no bloco é entre a corrente 'portugal está um trapo' liderada por L. Fazenda e 'portugal está uma nojeira' onde pontifica JM Pureza. Louçã assume-se equidistante a todas as correntes e por isso, à primeira vista, terá optado pela solução de teor mais reformista 'beco'] Mas se ouvirem bem a declaração repararão certamente numa nuance pronunciográfica: ele fonetou béco , em vez do mais tradicional e corrente - a sul de Pontevedra e a oeste de cáceres - bêco . Julgo estarmos perante uma significativa e ponderada alteração. Não se trata de uma, agora se diria, reforma fonográfica em preparação (depois de esgotado tema ortográfico) mas sim duma verdadeira inovação no que diz respeito aos locais mitológicos onde portugal se pode situar, e inclusivamente à abrangência e amplitude do conceito de beco. Como sabemos portugal está recheado d...

The dark side of the wool # n+2

A explicação do Mundo Aparentemente uma auditoria ao FMI (não confundir com o Facundo Macário Induvial de quem aqui deixei extractos do diário há uns meses) relatou que este organismo não teria sido capaz de detectar a aparecimento de uma crise financeira em larga escala porque (em expressões sacadas de um artigo do Público) padeceu de «elevado grau de pensamento de grupo», foi afectado de «captura intelectual» e deixou-se levar por um «quadro mental generalizado». Bonito: o estado do mundo todo escarrapachado em três larocas expressões dum soturno relatório de auditoria. Quem melhor conhece o rebanho é o talhante e não o pastor.

A Alegoria de Leonardo

Leonardo Bluff era encadernador de revistas nos arredores de Bruxelas quando um dia, depois de ter assistido ao atropelamento de um bezerro por uma charrete (uma versão aparolada do que a cena do cavalo chicoteado significou para Nietzsche, poderemos todos perfeitamente deduzir) decidiu que tinha de introduzir algum sentido na sua vida, e diferente daquele ao que lhe estavam a levar a cola, o fio e a cartolina que preenchiam os seus dias correntes, ou mesmo o curtume, nos dias melhores. Olhando para o bezerrinho (se estiverem a ficar já muito comovidos podem mudar para a tvi) Leonardo viu que o destino é um negócio com Deus. Fechou-se na casa que uma tia avó da parte da mãe tinha em Lille, e que ele herdaria quando a velha batesse a bota (leio-lhe apenas os pensamentos, registe-se) e esperou a revelação entre duas (dúzias) de kronenbourges. Enquanto jogava um crapôzinho percebeu com mais detalhe o significado desta nova forma de lidar, definir e encarar Deus. Pegou num papel e escreveu...

do félix vallotton

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para a mm

verso à terça

Diremos prado bosque primavera, e tudo o que dissermos é só para dizermos que fomos jovens. Diremos mãe amor um barco, e só diremos que nada há para levar ao coração Diremos terra mar ou madressilva, mas sem música no sangue serão palavras só, e só palavras, o que diremos. Eugénio de Andrade, em Mar de Setembro

'o que parecia irrepetível repete-se sem se repetir'

(frase duma carta de Julio Cortazar a Juan Carlos Onetti (a propósito da obra deste) e que aparece citada na badana interior do 'O Estaleiro', editado por cá no final do ano passado) Munique, Setembro de 2013 Malvina Merckel, James Camarão, Pívio Berlaitoni e Nicolas Bruni reuniram-se em Munique (75 anos depois de uma outra 'famosa' reunião) para analisar de que forma se podem compatibilizar os desejos alemães de criar uma zona exclusiva para o seu novo europanzer (um novo lebesraum financeiro) e o equilíbrio no artesanato europeu, designadamente a protecção ao queijo feta, ao bloomsday, às castanholas,e à loiça das caldas. Sócrates, que tinha fornecido os computadores para o playcenter onde estavam os filhos dos diplomatas, teve também direito a comparecer, mas atrás do cortinado a controlar as fichas triplas. James Camarão - Querida Malvina, não achas um bocadinho de mais essa tua coisa de quereres criar uma nova moeda só para comprar os produtos alemães... Malv...

acordar com o pê de fora

Os portugueses têm uma relação umbilical com o problema recente no Egito que me parece óbvia e que ninguém (mon dieu) dá a devida nem a indevida saliência: com a reforma ornitografica o dito perdeu o 'p'. Fosgasse e ninguém vê isto? É evidente que sem o pê, o Egipto não é a mesma coisa. Ao menos que o pê tivesse ficado guardado nas Pirâmides que já têm um e que de certeza não se incomodariam de ter outro, ou então ao colinho da Esfinge a fazer de enfeite, mas não, deram-lhe o corte de fininho e ficaram a assobiar para o lado, a falar do carlos castro e do jorge lacão. Pensam o quê, que o pessoal lá do crescente fértil não se ia revoltar com isso? Quer dizer, pensavam que os egípcios iam continuar assim na vidinha deles, mubaraque para aqui, mubaraque para ali, assistindo impávidos e serenos aos tugas a aliviarem-se do seu, deles, pê!? Uma civilização que deu amenófis e ramsés, domesticaram os gatos e sabe-se lá se até os douradinhos da iglo não foram os gajos que inventaram? Os...

música à sexta

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The But Biography

Desde que foi dispensado de ter pensamentos profundos que se dedicou à vã diletância, mas como não tinha efectivos dotes de diletante esta transformou-se em verborreia, mas como a escrita não lhe estava gravada no cabrão do genoma, deslocou-se para o paleio, mas como lhe faltavam sempre as palavras importantes assentou na tirada rápida, mas ao não ser iluminado pelos raios do sincretismo pôs-se a estudar os russos, mas como não fora talhado para a tristeza aplicou-se na piada lateral, mas como deixaram de o olhar de frente refugiou-se no desconstrutivismo, mas como ficou com as ideias presas por arames tentou confortar-se na aguarela abstracta, mas como lhe doíam sempre as costas inclinou-se um pouco para a literatura da decadência, mas como nem sequer estava a decair em condições entusiasmou-se com o memorialismo, mas como não tinha recordações decentes experimentou a fantasia, mas como fantasiava em excesso ponderou a playstation, mas como emperrou num irritante 2º lugar dum sinuoso ...

verso à terça

Nada do que é visível e, à primeira vista, situado e transformável, aqui surge com outro valor; o vazio, designando assim aquela porção de «ausência» destacada da Ausência mais geral, o substitui melhor, ou antes, o troca por um sentimento puramente humano, acessível e, em certos instantes de uma vida, absoluto e necessário. Nuno Júdice , em 'O mecanismo romântico da fragmentação'