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A mostrar mensagens de janeiro, 2005
“Amo-te Lopes” Uma cadeia de bares só para cabeleireiras Cortaram-lhe a cabeça nas fotografias, não há direito, tanto couro cabeludo massajado a preceito, tanto tratamento vitaminado, tanto sangue estimulado, tanta raiz acarinhada, e tudo para nada. Há um grande desconsolo aqui no salão, nós que lhe demos sempre a mão, nós que até lhe escondemos a caspa nos dias de maior borrasca, vemo-nos arredadas da festa, agora quanto muito tiramos-lhe as borbulhas da testa, mas isso é fraca compensação para quem lhe espalhava o gel como se tivesse melaço nas mãos. Mas vais ter o nosso apoio, saberemos catar os piolhos que andam no ar, e se no momento da verdade ainda sobejarem algumas lêndeas, damos-lhes com a chave de fêndeas ( sorry, não resisti) ; Não deixes enfraquecer essas pontas, sei lá, faz uns implantes, não deixes que brinquem contigo, eles são um horror, manda-os pra cá q’a gente enfia-os no secador. Não gostamos de te ver assim, pareces ensimesmado, parece que tomaste um valium marado,...
“Amo-te Portas” uma cadeia de bares só para costureirinhas Está ali que nem precisa dum arremate, nunca há bainha que o atormente, nem precisa de debrum, porque a casa e o botão parecem os dois em um, e abençoados os pespontos que lhe fiz naquela nobre cabecinha flor-de-lis; E quando o fui casear, vi que tudo nele faz sentido, que nenhum fio fica solto, nenhuma debutante resiste a um pedido, e até parece que veste cetim mesmo com um trapo revolto; com ele toda a rosa arredonda a saia, e toda ela arredonda bem, é q´ele não é da vossa laia ó meus filhos da mãe. Quando o levei a ver-me orlar, e ele pôs o dedo em riste, aquele dedo feito divino sinal que nem precisa de dedal, e até o fio se enrolou na agulha, credo, que convicção, até se me tremeu a mão, meninas segurem-me que eu estou a perder o tino com tanto brilho, tanto empolgamento, lembra-me a minha mãe no dia do casamento. Saiam-me daí, sou eu que lhe vou tirar as medidas, e quando chegar ao imaculado tronco que lhe envolve o largo...
Mind & heart routines ‘cause today is nine my memory is working so fine avoiding what is cruel and strange and winging over a flying fringe
“Amo-te Louçã” uma cadeia de bares só para beatas Ai ele nesse altar fica muito escondido, valha-me Deus, temos de lhe dar aquele que fica ali ao pé das velas, e é tão giro o que ele escreve nas pagelas, aquilo é que se reza tão bem ao pé dele, a graça de Deus até parece que vem em forma de tobleronnnes, cruzes qu’é gula, mas depois a gente respira todas muito fundo, tão fundo que as palavras entram-se-nos como se quem me falasse fosse o meu querido defunto, e o que ele dá bem conta do diabo, só visto manas, até se lhe desfalece o rabo e os corninhos se desfazem em pó, até mete dó, e quando a voz lhe vem lá bem de dentro da alma, sai como o gargarejar dos anjos, parece um locutor da rádio a dar-nos os tops, parece a sabedoria em forma de xaropes, sempre a pôr os pontos nos is, nós estamos para ele como os bichinhos pró S. Francisco d’Assis, arredem daí filhas que eu quero ser a primeira a ser aspergida com o sangue da sua ferida, ó estigmatizado do meu coração, quando o teu rebanho ati...
“Amo-te Sócrates” uma cadeia de bares só para varinas Tão querido, e beijou-me, e prometeu que eu nunca seria co-incinerada, que o deficit nunca me levantaria a saia, que o país com ele nunca daria raia, que na minha padiola só haveria dourada e daquela bem espetada e do mar alto, e que calores quando me disse que com ele só haveria partos sem dores, Jesus, vejam, ele até me pareceu quase tão religioso como o outro, e com ele vai ser tudo sustentado, se calhar nem precisa de ser esfregado, benzó Deus, destes que nem dão trabalheira é cagente precisa ó meninas, mas eu vou querer experimentá-lo primeiro, vocês só o levam depois da primeira remodelação, até lá nem pensem em deitar-lhe a mão, ainda pra mais é engenheiro, e o que eu me dou bem com engenheiros, inspiram logo confiança, deixam-se escalar sem espernear muito, são de espinha crocante, dão-se mal nas omeletes mas o que eles rendem nos filetes, e nunca secam nos assados, abençoados, qu’isto minhas queridas só aparece uma vez na v...
Apenas carinho Ou da aridez em versão geonecolográfica Eu por acaso enternecem-me os que estão sempre a falar das suas queridas terrinhas. Da sua Lisboazinha das colinas de wonderbra sem alça, do seu Portozinho da ribeira sem traineira ou do bolhão sem pato, do seu Douro dos torneados de rio bêbedo e sem mulher que o ature, dos seus Montes vistos de Trás, do seu Tejo visto do Além, da sua Beira tão interior que até chateia o que se tem de desabotoar, do seu Algarve entalado no bivalve em salmonela, ou até da sua Coimbrazeca que nem serve para um rio desaguar; ora é porque são quentinhas, ora é porque são geladinhas; eles são os jardinzinhos onde namoraram, os beira-mar onde apalparam, os penedos onde arejaram, as esquinas onde tropeçaram, as sombras onde arrefeceram, os parque de estacionamento onde foderam, os prados onde correram a mostrar as pernas, ou as repartições de finanças onde mostraram o rabo, todos vivem ansiosos por Poussin lhes decorar a memória, todos ansiosos por Renoir...
Acho que ainda não acabei o post anterior mas apetecia-me escrever um assim: Última hora: o diabo não quer escolher. Infelizmente vamos mesmo de ter de ser nós. Eu cá, já se sabe, voto para onde for a ‘minha’ Fátinha Felgueiras.
Quaresmas antecipadas Sebo nas canelas a caminho de Jerusalém com um carregamento de sudários [1][2][3][4][5][6] (chega meia dúzia) “Murphy pertencia à classe dos eleitos que exigem que cada coisa lhes recorde outra coisa” in Murphy de S. Beckett [1] É só para alertar que este ano a Páscoa é mais cedo. É melhor escolher já quem vai ser o crucificado de turno para depois não ficarmos de calças na mão; senão até o Barrabás começa a ficar nervoso. [2] Mas não se deve abusar das imagens bíblicas, porque como nem tudo nos foi revelado ainda podemos dar algum pontapé na gramática. Contudo, ainda acho que dê para arriscar que só há vendilhões se houver templo. [3] Termos ficado assim seres tão sensíveis acabou por ser uma surpresa para o criador. Ele ainda teve uma ténue esperança de nos ver a safar um bocadinho mais às três pancadas; tentou desesperadamente que nos contentássemos com a escrita cuneiforme, mas finalmente teve de resignar-se a que fizéssemos versos e babássemos sentimento...
É tempo dos eugénios descerem à terra dos andrades O sampaio que nos saiu na rifa na última rodada da quermesse estava em êxtase com a sua ideia originalíssima dum governo de convergência e união nacional; queria fazer doutrina, queria demonstrar à urbis e à ruris, que andavam com penitências por cumprir, mas que éramos o tal povo destinado às grandes fusões&tesões. O entusiasmo levou-o a convidar para o almoço de ano novo a dupla televisiva Lopes e Sócrates para um arrozinho de pacto; infelizmente não deu para a paelha porque a D. Maria José descobriu que tinha a caçarola rachada dos tempos em que nunca a tirava do lume. A mesa já estava posta e ele não perdeu tempo: Vivemos numa terra especial companheiros, sempre nos dedicámos a juntar o injuntável, reparem, somos paraíso e somos degredo, temos o Malhoa e temos a Paula Rego, e é com o exemplo desta diversidade umbilical que devemos construir o nosso eu colectivo; juntar o analgésico ao sedativo, onde não chegar o pincel da bucól...
...e um bom ano para todas e todos ( isto foi só para se irem habituando outra vez ao tratamento)