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A mostrar mensagens de junho, 2008
As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 5º capitulo - Cauda-de-pavão Este pequeno estudo não podia deixar de elaborar sobre uma das situações mais trágicas do jogo amoroso. Ora a mulher, tendo também alguns traços humanos, esporádica, mas muito raramente, é acometida de momentos de fragilidade e fraqueza que a levam a iniciativas de pendor sincero e carinhoso para com o seu parceiro afectivo. A riqueza científica destes momentos está precisamente no tipo de reacção do homem e não tanto no tipo de carinho desenvolvido pela fêmea em estado de quebra psicológica passageira (não passam, contudo, daquelas absurdas festinhas no ombro, e um ou outro toque de raspão nas patilhas do homem – única razão para a sua existência, registe-se). Por não pretender ser exaustivo vou apenas tratar dos dois principais tipos de reacção: a ‘reacção de espanto e terror’ e a ‘reacção de inchaço de peito’. A ‘reacção de espanto e terror’ é a que oco...

Two Ambiguous Figures (1 Copper Plate, 1 Zinc Plate, 1 Rubber Cloth...)

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Max Ernst, ca. 1919/20
As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 4º capitulo - Candela romana Depois do último desvio epistemológico pelas veredas do ciúme e da posse, regresso para tratar dum problema estrutural da relação sentimental-amorosa: a maturidade afectiva do homem bom. Trata-se dum típico ‘conceito-atlântida’, ou seja, fala-se muito dela mas parece que não existe. Afectivamente o homem de boa índole é eternamente um aprendiz amoroso, mas é apenas a mulher que tem essa plena consciência desde o primeiro momento. O homem, bem flatulado na sua ignorância, cinco segundos depois de receber o primeiro beijo de volta sente-se mais poderoso do que um general de Alexandre; contudo, a mulher, detentora dos meios de exploração sentimental, se numa primeira fase o deixa alimentar essa ilusão, posteriormente aplica em doses rigorosas a receita da austeridade quando ele menos espera; fá-lo assim compreender, pela via abstémica, que o amor de uma mulhe...

The Equivocal Woman

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Max Ernst, 1923
As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 3º capitulo - Balona de calibre Devemos agora fazer uma pequena derivação pelos mecanismos de dissonância cognitiva que actuam na psique masculina em plena destilação no alambique amoroso. O homem bom e saudável está plenamente convicto que ser amado pela mulher que o destino lhe atribuiu é um direito que lhe assiste, mas, paralelamente, sabe que tem de lutar por essa propriedade, perdão, esse tesouro. É da turbulência desta ambivalência que resultam as primeiras reacções imprevistas e arriscadas por parte do homem. Assistem-se assim a momentos em que o trincar duma bochecha, uma mão deslizando pela parte interior dum cós, ou mesmo uma onomatopeia mais arrojada, assumem a forma que o homem bom escolhe para testar se já está numa fase de usufruto ou se ainda tem de continuar a porfiar na fase de conquista mas com a armadura já toda escavacadinha. A mulher parece então que foi treinada ...

The Hat Makes the Man

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Max Ernst, 1920
As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 2º capitulo - Fogo preso A etapa seguinte representa para o homem bom o desprendimento total das leis do amor próprio e da noção dos limites do chamado bom senso. Vendo a satisfação da sua carência afectiva presa por fios, começa a tentar entrelaçá-los, e assim fortalecê-los, à base da clássica ‘técnica dos miminhos’. A noção de miminho é das mais críticas para a compreensão total do ‘jogo amoroso’. O miminho é uma espécie de mijadela hominídea tentando marcar afectivamente o território da fêmea, baseando-se na suposição de que a mulher é um animal sensível. Ora está provado que a única zona sensível das mulheres são os pés, ou seja, a mulher só é sensível no que concerne à possibilidade de usar ou não sapatos de salto alto sem desenvolver joanetes. Assim, enquanto o homem se esforça com técnicas sofisticadas de festinhas no cabelo, pico-pico-saramicos nos dedinhos e, numa fase mais a...

Oedipus Rex

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Max Ernst, 1922
As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 1º capitulo - Primeiros fogachos A mulher gosta de ser amada sem que se dê por isso. O homem gosta de fazer figura de parvo a amar, sem dar por isso. São estas as premissas básicas do chamado ‘jogo amoroso’, um comportamento concreto da chamada espécie humana e que a atravessa desde a infância até à falência hormonal. A etapa inicial do envolvimento amoroso, a que normalmente se dá a designação de ‘primeiros fogachos’, é sumariamente caracterizada pela gestão da carência. O homem está carente (registe-se: o homem é eternamente carente por desígnio divino), e a mulher está fodida por não ter ninguém a quem foder o juízo (registe-se: a mulher precisa sempre de foder o juízo a alguém por desígnio dela). A combinação entre estes dois estados de alma geralmente resulta numa aproximação gradual (diz-se hesitante) por parte do homem, completamente refém da hipótese de rejeição, enquanto que ...

Célebès

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Max Ernst, 1921
Las Chicas de Darwin Apesar de Carla Bruni se ter apaixonado pelo cérebro duplo de Sarkozy, a inteligência já teve melhores dias no processo de selecção natural das espécies e inclusivamente no sub capítulo do apuramento de raças, se quisermos utilizar a famosa formulação Silva 2008. Hoje a mulher quando vai escolher, na hora de preparar uma potencial procriação e/ou posterior reforma, quer espécimes que lhe garantam máxima segurança & conforto, coisa que obviamente a inteligência não proporciona. Assim, o homem irá progressivamente normalizando para um ser fisicamente equilibrado, (reduzirão as taxas de corcundas e mancos) membros robustos, coração mole (reduzirão as taxas de ciumentos e possessivos) e pila telecomandada (reduzirão as taxas dos sexualmente sensíveis). Atributos conexos como a memória e a imaginação serão igualmente desvalorizados na sua forma mais exuberante – que assim se desvanecerão com o tempo - pois podem induzir o espécime masculino a tentar distrair-se, e c...

em dia de s. joão

(*) Wie soll ich meine Seele halten, daß sie nicht an deine rührt? Wie soll ich sie hinheben über dich zu andern Dingen? Ach gerne möchte ich sie bei irgendetwas Verlorenem im Dunkel unterbringen an einer fremden stillen Stelle, die nicht weiterschwingt, wenn diene Tiefen schwingen. Doch alles, was uns anrührt, dich und mich, nimmt uns zusammen wie ein Bogenstrich, die aus zwei Saiten eine Stimme zieht. Auf welches Instrument sind wir gespannt? Und welcher Geiger hat uns in der Hand? O süßes Lied. Liebes-Lied (März 1907, Capri), Rainer Maria Rilke, in Neue Gedichte (1907 - 1908) (*) Marilyn Horne - Orfeo ed Euridice (Gluck): "Che Faro Senza Euridice?"
Acho que abriu vaga em Hipona Não estando o diabo disponível acabei por vender o meu coração à estatística: não sofro por coisas improváveis. Deixei por isso de me apoquentar com as derrotas da selecção em momentos chave, deixei de roer as unhas por causa das carreiras europeias da lagartada, e não alimento ansiedades em torno de festinhas ternurentas que os meus filhos nunca me darão na volta geriátrica. Por isso, interesso-me emocionalmente apenas com despiques russias-espanhas, ou rangeles-vitalinos canas, ou mesmo rubens de carvalhos-graças mouras, ou seja, querelas inconsequentes para o meu débil coração, ou então invisto sentimentalmente em sucessos garantidos, género: chantagens a filhos pagas a peso d’oiro, aumentos de preços a clientes totalmente dependentes de mim, exploração de fornecedores com igual desespero, enfim, maldades sem pedigree, recheios de confissão que não me ruborizem na frágil posição de joelhos. Sou, assim, uma pessoa medianamente horrível, um autêntico aspi...
Com Gresso ou com Mimosa A minha santa mãe, como de costume, fez-me o resumo do congresso do psd com a sua previsível e treinada lapidaridade: um «meteu-me dó» aplicado a Santana Lopes, um «tenho pena de não o ter ouvido porque ele agora está parvo» aplicado a Pacheco Pereira, e um «disse que não tinha ido por causa dos problemas de circulação nas pernas e eu bem sei o que isso é» aplicado a Alberto João Jardim, fizeram as honras da síntese. A comiseração e a vertigem por parvos foram duas características que eu herdei sem quaisquer percas de património genético e, por isso, sou incapaz de não admirar um coitadinho, um pirrónico e um desbocado. Felizmente não serei um eleitor padrão, pois, ao sê-lo, seríamos sempre governados por demagogos repetitivos, o que, sem petróleo no Beato, poderia ser aborrecido. Mas em politica, (tal como em assinaturas de ligações adsl e em queijos camembert) eu retiro algum prazer em ser enganado e acho mesmo que a eficiência de governo é um subproduto das ...
Cinco anos a tentar desistir; algum dia conseguirei.
Civilização Quando foi do «porque no te callas’ de Juan Carlos a Chavez, ficou-me a dúvida se estava ali apenas mais uma excentricidade borbónica ou se havia algo mais. Hoje encontrei a chave num livro do Umbral - comuna que Deus tenha - onde, dissertando sobre o sangue azul num capítulo do seu ‘ Amado siglo XX’ , acaba por definir-me um dos lados bons da civilização: «Una liberdad de maneras que es una nueva respiración, un aire limpio de gente que es más osada porque es más educada. Eso es lo que sin saberlo veníamos buscando». A boa ousadia é filha da boa educação. É um bocadinho irritante mas é verdade.
Minha querida Nossa Senhora do Caravaggio Queria dizer-Te que estou um bocadinho à rasca que tu me castigues a mim e aos meus meninos por eu ir para o Chelsea ganhar tanto dinheiro, e, para cúmulo, o mais parecido que lá há com um santuário é aquela coisa de Stonehenge mas que nem tem sítio de jeito para um gajo se ajoelhar. Mas, prometo-te já, com a minha alma mais pungente que a franja do Nuno Gomes, que se amanhã ganharmos à Alemanha dou todos os meses 200 libras para o aquecimento central das capelas mortuárias da diocese de Birmingam e, se enfiarmos mais de três com um golo de penalty do Ricardo, fica já combinado que vai haver picanha tenrinha na mesa do Bispo durante toda a semana santa. Podes também ter a certezinha que vou acabar com a miséria, a violência e a macumba no Brasil, e que, no Carnaval, por cada filha de Eva que mostre as maminhas eu ofereço em expiação um terço de madrepérola às carmelitas de Ibiza. Que o demo me depile já o bigode a sangue frio se não foi por cau...
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Pobres mas asseados; e amaciados Youssoup d’ Hassan era um arménio vendedor de toalhas turcas. A sua fama ia da Anatólia à Transilvânia e vangloriava-se de possuir o melhor lote de turcos felpudos de toda a Eurásia, incluindo a Irlanda que pertence à zona dos betinhos que não se querem drunfar com tratados e preferem Bushmills. Os jogos de atoalhados turcos de Youssoup eram fabricados com um algodão seleccionado e de performances impares, tanto quando tocava a absorver ou a secar, como aquando do amaciamento de pêlo que todo o mamífero valoriza, independentemente de géneros, raças, feitios e demais micoses etnológicas. Ora vendo-se acossado pela força e agressividade comercial das grandes multinacionais dos toalhetes húmidos, d’Hassan criou uma linha de toalhas turcas leves, discretas, mas sedutoras, baseado na ideia - de pendor democrático - de que todos têm direito à sua reserva de turco fofinho, procurando assim que cada europeu se apercebesse da necessidade de trazer sempre consigo...
No entanto isto pelas redondezas não se apresenta fácil «Everybody knows this is nowhere » (1) , so «Everything is meant» (2) , but «Je est un autre» (3) , and, just in case : «We have no more beginnings» (4) Epígrafes ‘clássicas’, que se podem encontrar por aí (1) In ‘ french kissin’ , de Neil Young (2) In ‘ animais domésticos’ , de Ali Smith (3) In ‘ outro eu’ , de Rimbaud (4) In 'origem das espécies' , de George Steiner
120 anos e uns pózes Não sei se tinha chegado a dizer-vos (este ‘vos’ é um acto que demonstra a minha enorme esperança e não inferior optimismo) mas praticamente arranquei a ler o Pessoa ao mesmo tempo da sopa de legumes. Quando ainda estava de biberon houve uma tentativa de bordadura dumas frases soltas do Desassossego no meu babete, mas eu extasiava-me, parava-se-me a digestão, e por duas vezes bolcei de forma extemporânea (acho que é a primeira vez que escrevi esta palavra, daí algum nervosismo) pelo que a minha mãe optou por me iniciar apenas aquando da ingestão da sopa, utilizando o velho expediente de ter um verso avulso do ‘Guardador de rebanhos’ no fundo do prato, coisa que me inspirou de forma orgânica e definitiva, e além disso me tornou muito bom de boca, entre outras extremidades, se boca for considerada tecnicamente uma extremidade, claro. Como calcularão, no meu primeiro conjunto de pás, balde e ancinho estava gravada toda a ‘Ode marítima’ porque a minha avó gostava muito...
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Ocimum minimum
Aquecimento para os Manjericos #6 Deuses da ternura ,/ adoçai-me a saudade amarga e pura, /(...) porção do mais leal dos amadores, (..) o que nasceu dos dissabores (...) torcendo-lhes o caminho. / Levai-me este suspiro aos meus Amores, (...) eu sou tão infeliz que isso me basta. Prosaclite com corruptela de poema de Bocage em ‘ Rimas ’.
Aquecimento para os Manjericos #5 Cansei a vida / (...) à força de ambição e nostalgia, (...) /e fui-me (...) no grande rastro fulvo que me ardia. (...). Endureci de tédio, (...) nada me vive, (...) / fartam-me até as coisas que não tive. Prosaclite com corruptela de ‘ Além-Tédio ’’ de Mário de Sá Carneiro
Feira «Os jovens legalmente maiores têm tendência para a rebeldia e a libertinagem. Se os censuras num tom grave e sentencioso, mais não farás do que agravar as suas inclinações. De modo que, em geral, mais vale armar-se de paciência e esperar que se emendem sozinhos ou que se fartem dos seus erros» Mazarin, cardeal, sec XVII, 1ª barraca do lado esquerdo de quem sobe
O barril ultrapassou os dois libidos no mar do norte, mas há quem especule em édipos esterlinos. Sem complexos. Aloísio Frias era um psicanalista da velha escolha e sempre tinha resistido às tentações de refreshing metodológico. No entanto, um dia sentiu necessidade de experimentar a libertação desse espartilho e lançou o serviço telefónico 'SOS Pulsão'. Encarou o momento com uma mistura de ansiedade e curiosidade mas nunca esperou ter logo no primeiro dia uma chamada que lhe haveria de mudar a carreira. Aloísio Frias quis que este seu novo processo mantivesse a atitude clássica e tinha definido exigir aos tele-im-pulsionados que se deitassem num cama confortável e olhassem para algo que lhes transmitisse serenidade e confiança. Depois de ter recebido a chamada enganada duma senhora que tinha uma tendinite há coisa de 35 anos, foi a vez de atender uma outra chamada… Utente- O meu nome é José e acho que estou com uma pulsão. Aloísio Frias – Em primeiro lugar, sr José, está confo...
Os Pachecos Alegres A fase decadente da democracia sufragada e parlamentar, no climax do seu processo de degradação, produziu o que aparentava ser uma proteína salvadora mas que veio a verificar-se ser um mero sub-produto, gente que nem faz de hormona nem faz de enzima. Estes trovadores dum vento que nunca passa especializam-se em vidências do passado e dedicam-se a informar o povo onde acaba o crocodilo e onde começa a carteira de pele. Mas, sendo todos nós meninos da casa pia a quem os Pachecos Alegres guardam e protegem o rabinho dos predadores populistas que nos oferecem vaselinas falsificadas, só lhes devemos estar gratos, e ansiar que sejam eles os últimos a fechar a luz, porque, o mais certo, é não saberem encontrar o interruptor. Roliços, Bem postos, Burgueses à procura de pintor flamengo, Vida Repleta de Perseguições em Salas de Chá. Guardadores de Proletariado. Velhos sem Hemingway e sem Mar. Decoram povos que fazem do vestíbulo sala de estar, mas serão sempre Yves sem La...
Aquecimento para os Manjericos #4 Imagens que passais pela retina / dos meus olhos, porque não vos fixais? (...) Porque ides sem mim, não me levais? / Sem vós o que são os meus olhos abertos? / (...) Espelho inútil, (...) aridez de sucessivos desertos. Prosaclite com corruptela de ‘ Imagens que passais pela retina ’ de Camilo Pessanha
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Aquecimento para os Manjericos #3 O teu rosto inclinado pelo vento; / (...) a feroz brancura das mãos (...) irresponsáveis. / (...) O triunfo cruel das tuas pernas (...) em repouso;/ (...) a boca sossegada onde apetece / (...) simplesmente ser (...) o peso duma flor; / as palavras mordendo a solidão. / (...) A única razão. Um pouco mais de sol – eu era brasa, / um pouco mais de azul – eu era além. Prosaclite com corruptela & fusão de ‘ Litania ’ de Eugénio de Andrade e ‘ Quase ’ de Mário de Sá Carneiro
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Procura-se colcha rendada para divã com estrutura em pau santo e embutidos a cerejeira – parte III ( e fim) Mal ficaria contudo se eu não me referisse ao valioso contributo que Eric von Tooze prestou ao conhecimento dos mecanismos de construção dum inconsciente equilibrado. Teve bastante destaque académico a sua tese relativa às fases do recalcamento: «na 1ª fase puxa-se o inconsciente para fora, numa 2ª fase limpam-se as suas zonas adiposas por fatias, numa 3ª fase puxa-se o recalcamento com jeitinho até à beirinha, e finalmente, na 4ª e última fase empurra-se outra vez todo o conjunto para dentro até ficar bem rente». Este processo permite que o recalcamento fique alojado numa cavidade própria e assim, ao retornar, no processo da análise, não venha a entrar em contacto com as zonas mais irrigadas pela fonte líbida que lhe poderiam provocar algumas manchas de gordura. Esboço para ‘ Inconsciente fatiado com manchas de recalcário’ , Eric von Tooze, lápis viarco, colecção da Fundação Ski...
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Troco uma reivindicação pulsional por duas saladas de polvo – parte II Foi no entanto em torno do Complexo de Édipo que Eric von Tooze acabou por deixar a mais distintiva marca da sua originalidade. Um pouco ao arrepio da ortodoxia, von Tooze defendia que o desejo de matar o pai derivava em larga medida de problemas com a mesada, e que a figura paternal deveria consolidar-se sempre à base de benesses financeiras que lograssem comprar o amor dos filhos. Ficou famosa a sua frase «o pai faz com um cheque aquilo que uma mãe apenas consegue depois de espremer 50 litros de leite». Esboço para ‘ Inconsciente ediposo com pérolas’ de Eric von Tooze, esferográfica Staedtler, colecção da comissão instaladora da casa-museu Serenela Andrade
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Troco uma reivindicação pulsional por duas representações intoleráveis e uns chocos com tinta Eric von Tooze foi um psicanalista famoso que também se distinguiu por uma singular carreira de artista plástico. Filho de mãe belga e de pai austríaco tomou contacto com a actividade de Freud em Viena quando a sua mãe – um caso clássico de neurose obsessiva com tendência para salgados – trincou a língua num sonho que lhe tinha sido recomendado pelo mestre, a troco duns rissóis de mexilhão que fazia divinalmente. Von Tooze, que tinha assistido ao encontro de Freud com Breton, e se tinha escandalizado com alguma desilusão do Francês, desde cedo se quis afastar de qualquer ligação ao ideário surrealista, considerando que a psicanálise era muito mais um infindável chouriço do que um fiambre da perna. Uma viagem a França liga-o definitivamente ao movimento lacaniano e ficou conhecido pela expressão ‘o inconsciente está no traço’, numa alusão à famosa frase de Lacan ‘o inconsciente está nas palavra...