Naturalmente Recolho de Eduardo Lourenço o angustiante confronto da nossa condição entre a «tragédia cultural da domesticação da natureza», e a definição dessa mesma condição pela «vontade de descobrir o mundo, de o conhecer e transformar». O problema é que a nossa peregrinação é feita desta malandra mas luminosa arreliação. Felizmente a “Natureza nunca toma partido” (*) dos seus adoradores, pelo que “desdenho” a «imposição das leis de um naturalismo preguiçoso, limpo e espontaníssimo». E como desfruto ao descer um elevador panorâmico, que esventrou uma falésia a caminho duma praia burguesa enquanto oiço apenas o Billy Joel !... A “poesia” e a “natureza” são apenas grafismos sui generis e sobreavaliados duma criação que não precisa de pedigree. Nem de incompetentes como eu para as apreciar. E um ano novo que não vos “reveille” do bom sonho. (*) Frase retirada do livro de Gonçalo Tavares “Um homem : Klaus Klamp” . Óptima revelação – minha... – deste final de ano que, arriscando num “la...
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A “ascética” do “ano novo vida nova” realça o cocktail da ingenuidade humana misturada com a sua crueldade. O novo dicionário não ilustrado não podia perder esta ocasião para apelar ao sossego que é a bebida pura do “deixandar”. Numa singela homenagem ao “adia tudo” de Pessoa. ( entradas 399 a 409 ) Começar de novo – É o sonho da vida-em-playstation. Tudo ao alcance de um botão e duma password. Só que o software do Destino é de download ilegal, e quando pensamos que o sacámos, verificamos que afinal vem cheio de vírus. Agora é que vai ser – Se formos nós a dar o tiro, nunca faremos falsas partidas. Os mais espertos levam a linha da meta no bolso de trás. Mudar de vida – Os momentos de viragem são encantadores, principalmente se pudermos estar ao leme a beber uns refrescos, com o resto da tripulação dividida a esfregar o convés e a entreter-se com as velas. Pôr o passado para trás das costas – O peso acaba por nos curvar em demasia, e a dança “do que lá vai, lá vai” soará a samba fa...
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Born in us Hofmannsthal diz no Livro dos Amigos que “A cerimónia é a obra espiritual do corpo “. Nem é uma frase especialmente feliz, mas traz-me à pele a sensação de excessiva valorização do simbólico, que hoje é recorrente nos vários “discursos da modernidade”. O cristianismo vive duma fortíssima tensão entre o simbólico e o apego aos factos. Tudo se resolve – penso – naquilo que se pode chamar a “descoberta de Deus dentro de nós”. Todos somos um presépio. Onde Deus nasce sem cerimónias. Boas festas.
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O natal foi como Deus quis. O novo dicionário não ilustrado despoja-se das suas vestes de reles definidor, e entrega-se com o desprendimento possível ao banho da contemplação. Hoje não se me vai despedaçar o coração, mas também não o porei muito ao alto; estarei antes “ao jeito” do personagem de S. Beckett : o ventrículo na sabedoria do presépio, e o aurículo na futilidade dos factos. ( entradas 389 a 398 ) Sagrada Família – Desde que os anjos deixaram de aparecer nos sonhos, a família perfeita ficou entregue aos pesadelos da sorte. Reis magos – O poder já foi errante, inconformado e reconhecido. Agora erra em conformidade, e desdenha depois de ter comido. Recenseamento – Um acto de contagem administrativa esteve na origem das circunstâncias do natal fundador; Os novos filhos da estatística pelam-se para recuperar esse poder imperial. Ouro, incenso e mirra – Os bens mais preciosos não são cobiçados, mas apenas recebidos. Estrela guia – O novo firmamento deixou-nos entregues às luas de ...
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Hoje o novo dicionário não ilustrado ficou obcecado com alguns dos grandes sequestros da nossa condição e do nosso tempo. ( entradas 376 a 388) Billyes reféns de Mónicas – Quando uma nódoa dum vestido, traz um homem “espermido” até ao tutano. Corpo refém da alma – Quando uma vontade férrea é um joguete na mão dum etéreo oxidante. Alma refém do corpo – Se um espírito nobre se entrega à ditadura das boas maneiras, não passamos duma mosca fugindo eternamente da sopa, sem chupar sangue nem zumbir em condições. Durão refém de Portas – É a sina duma grande mijadela. Tal como na clássica teoria do valor, os últimos pingos são os que podem estragar tudo. Sexo refém do prazer – Quando o hermafroditismo é a ameaça que percorre as veias dum cacilheiro chamado desejo. Homem refém de Deus – Suave submissão camuflada de amarga fatalidade pelo entulho do orgulho. Schröder refém dos Verdes – Quando “um banana” fica entalado num molho de brócolos, a salada da crise sabe tanto a palha que só se fala do...
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O novo dicionário não ilustrado avia mais meia dúzia de dispersos do “flagrantário” real ( entradas 370 a 375 ) Europa em crise – Quando a cartografia política se excitou, ficámos entregues a desenhadores de mapas com falta de canetas de feltro às cores. Os sublinhados substituíram os coloridos e - everest dos lugares comuns – os números e as palavras assumiram a vertigem de arredondar as pessoas. Legalização do aborto – Nas prescrições para escolher as doses certas numa civilização saudável, esta página estava rasurada. A auto-medicação tomou conta das hostes, e agora não há farmacêutico que convença ninguém que a “barriga” duma mulher não é um jarrão de flores que se amanham a condizer com a cor das paredes. Julgamento de um ditador – Quando não se consegue definir a rês do réu, a barra do tribunal é mais um aparelho de ginástica em que as piruetas garantem sempre a pontuação máxima. Choque de culturas – Quando um véu cobre um rosto apregoando que salva uma alma, o melhor é benzermo...
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O Rei Lear do Sheik suspiro Tinha lido a "estupefacção" do TerrasdoNunca pela falta de opiniões profundas sobre o Iraque..... e preparava-me para reagir de forma esclarecida quando uns olhitos azuis muito abertos, daqueles que só reflectem as boas angústias raiadas da alma, me lançam o apelo para mais uma sessão de “Rei Leão”. Incapaz de reagir, fui arrastado para aquela selva com o enfado da paternidade resignada. Entreguei o olhar ao espírito amansado pelos bons predadores, sem despertar no ódio aos predadores maus. A lei daquela selva que nem se discute, que até pode provocar o choro das crianças, é uma lei também frágil, mas sustentada por uma força “enjubada” num poder que se exerce e pronto. Se for preciso ficar a ver as estrelas ao relento com um javali mal cheiroso, pelo menos que se vá mandando umas piadas. O folhetim seguirá inexorável. Torna-se-nos difícil hoje, olhar para o poder naquele estado bruto em que ele pura e simplesmente é exercido. Aparentemente esse ...
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Aquilo que se chama a “chicana política” é o que "ela" tem de mais interessante, porque é na nobreza da pequena intriga que se descobrem os verdadeiros cavaleiros andantes. A neblina do flirt ideológico turva os contornos, e muitas vezes desperdiça-nos a alma no trabalho da focagem. Hoje o novo dicionário não ilustrado está novamente de ânimo leve e aprecia o cair das últimas folhas do Outono do nosso contentamento.( entradas 363 a 369) Fundações – Animadas de um sonho filantrópico, almas sem borra concentram a boa vontade numa cafeteira, que ferve de interesses e transborda de arrufos de comadres. Cooperativas – Animados de um sonho, juntam-se umas quantas pessoas que ou pisam uva por interposto “presunto”, ou pagam imposto por interposto contribuinte. Institutos – Animados pela conciliação do sonho burocrata com a aurora liberal, uma mão cheia de nadas armados em “valores”, convidam um punhado de cifrões armados em “convicções” e enchem uma casa bem mobilada. Comissões parl...
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A Obsessão Santana No seu excesso de zelo a defender o PSD das tropelias de Portas e de Santana, J. Pacheco Pereira ( artigo do público)esquece que uma canditatura presidencial com sucesso é um projecto essencialmente pessoal. Ao alcance não dos mais capazes, não dos mais brilhantes, não dos mais serenos, não dos mais lógicos, não dos mais filantropos, nem dos mais sonsos. Não vale a pena tentar ser o grande desmistificador da trivialidade, porque é para esse lado que ela dorme melhor. Desarmar “o tal de populismo” apenas com artifícios de racionalismo esclarecido, mais não faz que entrar no número dos palhaços do circo, vestido de cão amestrado. O melhor que o país pode ter é mesmo ver os pretensos candidatos irem-se chegando à frente dando o corpinho ao manifesto. Um pião testa-se rodopiando, os peões é que se testam e sacrificam deixando-se comer pela rainha. J.Pacheco Pereira utiliza com mestria a técnica de argumentar ao som da música que sabe gostarem de ouvir os que o lêem, mas ...
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Sic transit gloria mundi Como a brigada de trânsito está muito habituada a lidar com os comportamentos altamente agressivos e atípicos dos condutores portugueses, o sr. Figueiredo lembrou-se de enviar a dita brigada substituir os GNR que estão no Iraque, e assim aproveitar para aliviar a tensão que se vive no seu seio.(e a Nélinha FLeite ficou finalmente com o pelouro das multas de trânsito...) A primeira “operação stop” nas estradas da nova Babilónia decorreu em beleza.( mas a SIC não estava lá ) Aproxima-se um carro com Bin Laden e Saddam, e é mandado parar pela nossa brigada.... Brigada (cabo 1º) – Podiam-me mostrar os documentos sff Bin Laden (que ia ao volante) – Ó Sr. Guarda este carro por acaso é da minha mulher, e ela é que tem os documentos na carteira ( Saddam não consegue disfarçar uns risinhos) Brigada (cabo 1º) – E tem possibilidade de contactar com a sua senhora? Bin Laden – O problema é que ela agora não pode atender porque ficou com a burka entalada num pesponto da baín...
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Estrelas carentes As relações humanas – dizem – são muito ricas - “Já confiei mais em ti do que confio agora” Formam um universo de geometria variável - “Antes ouvia alguém a dizer que tu tinhas feito alguma coisa, e bastava tu dizeres que não tinhas feito que eu acreditava em ti” com os eixos a dançar - “Já tiveste razão para desconfiar de mim, agora não” num constante big-bang - “Se casarmos vais estar sempre a perguntar a que horas saio, a que horas entro, e eu não tenho paciência para isso” E quem marca o norte são as estrelas cadentes - “Não dá para casar contigo se continuas assim” apanhadas pela lente da curiosidade -“ Olha, vamos ver no que isto dá” só é pena que espreitar seja feio. - "É que eu já não sei viver sem ti" Mas se não olharmos para as estrelas elas deixam de ter razão para brilhar
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O real despojado (...) Olá! Eu cá sou o “real”. Estou um bocado saturado. Estão sempre a maçar-me com descodificações. Andam todos com a mania de me apanhar os tiques, e eu sinceramente já não tenho paciência para aturar tantas opiniões e tantos olhares finos e penetrantes. Com os gregos eu safava-me bem, porque os tipos inventaram aquela coisa dos deuses, e como havia um para tudo eu passava despercebido assobiando para o lado entre escravos e guerras púnicas. E o Platão até deu uma ajudinha com o esquema da caverna, só que eu passei lá um Inverno desgraçado porque aquilo era muito húmido e tive de desistir. É que isto de “existir” já é um desassossego por causa das intrigas surdas entre o “ser” e a “essência”, e agora o pessoal ainda quer que eu tenha de servir de ama-seca à “substância”. Sinceramente, um “real” não é de ferro e qualquer dia vou-me amancebar com a “poesia” para ver se não me chagam mais o juízo. Bem é verdade, eu ainda tive alguma esperança há uns tempos com aquele ...
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Dissertar sobre o liberalismo é uma perca de tempo. O liberalismo é uma trivialidade ideológica que não acrescenta nada na “ciência” política. Enfoca de esguelha a análise do estado, e reduz-se a meia dúzia de frases feitas, que alguns filósofos bem falantes ajudaram a cicatrizar. Até um caniche pode ladrar liberalmente, mas mesmo com um belo berloque, nunca alcançará ser um ilustre, sensato e empolgante burocrata. O novo dicionário não ilustrado põe a enxugar um conceito que tem tido várias lavagens no programa errado.( entradas 353 a 362 ) Estado liberal – Espécie de "kitchenete" que algumas "casas" possuem. Algo que tem que existir porque senão até parecia mal; fica ali encafuada num canto da sala com umas mobílias de design italiano, mas o pessoal da casa o que grama mesmo é ir comer fora. Estado absolutista – Quando o déspota iluminado negoceia o “contrato social” de forma a nunca precisar de restituir o sinal em caso de incumprimento. Estado de sítio - Circun...
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Constou-me que o lema escolhido por Rui Rio para a sua governação foi “ Rigor e Consciência Social”. Eu confesso até gosto deste rapaz, e tenho pena de não me ter lembrado dele nas ultima entradas do novo dicionário ... Novo paradoxo do Rui Rio – Um homem pode estar na câmara do Porto sem estar na cama com o FCPorto. Não foi no entanto esta entrada apócrifa que me trouxe aqui. Foi a constatação de que os conceitos “rigor” e “consciência social” não combinam. Esta última expressão tem tantas valências que nunca poderá será rigorosa. Em tempos ( 6 de outubro) o Novo dicionário não ilustrado já se tinha debruçado sobre alguns estados de consciência, mas este tinha-lhe escapado. Hoje para tapar este buraco, vai uma rodada especial de argamassa :( entradas 343 a 352) Consciência Social ( versão S. Freud ) – Estado de libertação do recalcamento produzido em criança por termos assistido ao nosso pai dar um enxerto de porrada num pobrezinho que estava arrastando a asa à nossa mãe. Afinal era u...
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Culto da Personalidade Vinha a descer pela auto-estrada que foi iniciada por Salazar e terminada por Cavaco, quando sou alertado pela rádio criada por Rangel que a dita está cortada. Ainda a tempo, desvio pela auto-estrada “criada” por Guterres e passo ao largo das serranias onde Pedro se encontrava às escondidas com Inês, não muito longe do pinhal mandado plantar pelo D.Dinis. Faço tangentes às linhas onde os generais de Napoleão deram com os costados, e quando estou a chegar à Padre Cruz, oiço na rádio do CBarbosa, que o Sr. Figueiredo (ministro) vai anunciar o nome do novo comandante da Brigada de Trânsito. Chiça! Parem com essa merda dos nomes e digam mas é onde estão os radares.
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Este blogue é praticamente científico. Mas somítico. Arranja as premissas nos saldos, nunca vira as costas a uma boa promoção de sofismas e adora ser o primeiro a descobrir uma teoria pechinchada no meio dos trapos velhos. Por princípio o novo dicionário não ilustrado não tem princípios, mas também não se deixa levar pela ladainha da ambiguidade. ( entradas 334 a 342 ) Novo teorema de Pitágoras – Quando um político de esquerda absolutamente quadrado se encontra com outro político de direita absolutamente quadrado para traçarem uma política transversal, o resultado é um rotundo fracasso. Novo paradoxo de Giffen – Quando sobe o preço do pão é garantido que as forças do bloqueio vão passar o tempo nas padarias a comer papo-secos de empreitada. O consumo anacrónicamente vai subir porque não há graveto para o bife do lombo; os talhantes ficam “em brasa”, o FAssis arrisca-se a levar com outros “papo-secos” e o PS fica mais uns tempos sem ver o “padeiro” que entretanto foi gozar o pagode. N...
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Agora um pouco de política porque não podemos passar o tempo a tratar de assuntos sérios Corri alguns riscos confesso. Fui ler o artigo do FLouçã no Público despido do conforto dos preconceitos. Não sei...falava daquela coisa dos estudantes, com um carinho contra-corrente que apetecia; eu que até adiro com gosto pueril àquela ideia esquerdófila do ensino universal e gratuito, vejam lá...sublinhei passagens e tudo!( às escondidas claro...) “para além do discurso etéreo das televisões sobre o país imaginado (...) existe uma política confrontada com as escolhas sociais que nos vão mudando“ Ai que ele vai fazer a folha aos mitificadores da nação! A coisa prometia...mas afinal o FLouçã , desde que o nomearam para grande descodificador da realidade, virou anjinho em FM. ... meteu a cassete do “caça liberalismos” do costume, e deixou de enxergar que não existe política nenhuma de “transformar o país num imenso mercado sem direitos sociais”. Há uma mera gestão do negócio de ocasião. O país ge...
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O equilíbrio é uma das marcas da actividade política. Um consenso vem sempre seguido de um com-penso. O novo dicionário não ilustrado revela os segredos da conveniência, perdão convivência, democrática. ( 326 a 333 ) Pacto – Estado da natureza próximo do fungo micótico que permite a coçadela prazenteira da demagogia, mas que está sempre ansiando pela pomadita milagrosa do expediente. Convenção – Maravilha das relações humanas que transforma uma sala de irrequietos abafadores de ajudas de custo, num corredor de comensais inebriados pelo encanto duma boa refeição. Tratado – Situação decorrente duma crise de bulimia intelectual, que leva à elaboração de dietas ricas em hidratos de converseta com trivialidade insaturada. Aliança – Emparelhamento de valor simbólico que, ao permitir a sublimação das individualidades, realça o recalcamento dos complexos infantis de nacionalidade. Felizmente todos os países são filhos ilegítimos, e com os testes de ADN aos imaginários nacionais só descobrem qu...
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Sobreviver sacudindo Recebi este texto com um laço azul a abraçá-lo. “O que eu procuro na transfiguração cómica ou irónica ou grotesca ou burlesca é a saída da tacanhez e da univicidade de toda a representação e de todas as opiniões. Uma coisa pode-se dizê-la pelo menos de dois modos: um modo pelo qual quem a diz quer dizer uma coisa e mais nenhuma senão essa; e um modo pelo qual se quer dizer de facto essa coisa, mas ao mesmo tempo recordar que o mundo é muito mais vasto e complicado e contraditório” de Italo Calvino Eu por acaso até não gosto da expressão “ isto é muito complicado”. O seu uso tornou-a recurso gasto. Gosto mais de “enrolado” (como até a etimologia da palavra induz) porque mostra o mundo mais próximo da sua condição geométrica . No entanto, essa coisa de deixar como ferida exposta a ambiguidade de um facto, de uma palavra, dum conceito, de uma pessoa, é algo que seduz. Para o alcançar o recurso às técnicas de humor mais correntes acaba por ser o método mais fácil e co...
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Hoje, só por causa das coisas, o abrupto acabou por marcar a agenda deste sítio esconso (alguma vez tinha que ser...). Os grandes educadores mudaram. A classe operária também. Já não é de “ elite para elite” mas de “frivolite para frivolite”. O novo dicionário não ilustrado não se acanha perante a concorrência e apresenta alguns dos novos professores.( entradas 318 a 325 ) Canais generalistas. São canais porque ligam duas zonas húmidas: o pântano da realidade com a fluidez da notícia. São generalistas porque esta humidade seca com qualquer merda nova que apareça. (evitei as alusões sexuais óbvias, porque sou púdico-discursivo) Jornalistas económicos – Rabejadores de trivialidades. A economia da nação deixa de ser um lugar lúgubre e inacessível, para se tornar num episódio do sítio do picapau amarelo apresentado por bandarilheiros a sacudirem pandeiretas, pensando que estão a dar a volta à praça em ombros. Associações de estudantes (ou os manuais da reivindicação) – Vendedores de cint...
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"Judiarias" Garantir desde já que Santana Lopes será candidato a Belém é um favor que se faz ao país e à política portuguesa. Em primeiro lugar talvez os socialistas se vejam novamente tesos para levantar a garupa da luta política, e assim talvez isto aguente o PS mais um bocadito até morrer de vez. Cavaco continuará a escrever artigos dizendo que já tinha previsto tudo há carradas de anos, e nós ficamos mais sossegados por saber que ele continua a zelar por nós. MSoares saltará a correr da bicha da caixa de previdência e escreverá a sequela do bestseller “ Meu filho, meu tesouro”. Os flocos de esquerda continuarão as peregrinações na serra do Louçã, recalcando os seus “seminarismos libertário-socialistas” com teatros obscenos de rua. Marcelo entalado entre o “ódio óbvio e as aparências que já não iludem”, cansado de fazer tanta opinião que já não sabe qual é a dele, irá escrever a meias com Freitas um drama sobre a pedofilia na 1ª dinastia, para o APVasconcelos levar ao alta...
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Para mim é uma imperial se faz favor Estar dentro e querer ver como se estivéssemos fora; estar fora e querer ver como se estivéssemos dentro. É isto que faz dalguns, peregrinos numa suave neurose de ubiquidade. Claro que os jornalistas e os políticos ao celebrarem o estilo” Um olho no burro e outro no cigano” pensam que iludem esta “fatalidade”. Só que o mundo responde-lhes como o personagem-narrador do “Túnel” de E. Sabato : “ existiu uma pessoa que poderia compreender-me. Mas foi precisamente a pessoa que matei” Se calhar pensavam que só os outros é que podiam escolher títulos à toa
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Os “comentadores literários” parecem aqueles que estão sempre a bater à porta da casa de banho a oferecer papel higiénico quando nós só queremos é satisfazer os caprichos do corpo em paz ( isto era um título) Já estava a ficar preocupado a ver que só os outros blogues é que recebem correio qualificado. Foi então que...Fátinha Felgueiras – num hospital brasileiro, curando-se duma unha encravada ao desatar um nó do seu ultimo saco azul - não quis ficar atrás do VPulidoValente e mandou-me uma carta sobre a sua leitura pessoal do novo livro de ALobo Antunes “ O “boa tarde...qualquer coisa “ é um romance confuso. O senhor que o escreveu deve ter problemas de tabulação lá no computador dele. Ou então é uma “fobia da esquadria”... (Isto lá nas câmaras resolve-se com umas rotundas). Aquilo não é livro que se possa oferecer no Natal!!! Uma pessoa começa a lê-lo e só acaba lá prá Quaresma; o espírito da epifania mistura-se com o do sofrimento...bem.. afinal até tem tudo a ver... As palavras nem...
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O novo dicionário não ilustrado encanta-se com os “suaves engajamentos” ( na lista de links ). Tentando ajudar o resto do batalhão a marchar em condições, propõe a seguinte arregimentação para que não se troque o passo da marcha:( entradas 297 a 317) Romantismos Esquerda I– Tem os sentimentos à flor da pele. Saem geralmente flagelados pelo contacto com a realidade. Direita I– Tem os sentimentos no sangue. Em regra só acabam por encontrá-los quando vão retirar a seiva para as análises (políticas). Preocupações Esquerda II– O desemprego deixou de ser uma preocupação social para ser uma preocupação pessoal. Direita -II Na impossibilidade técnica de terem preocupações sociais, o desemprego passou a ser um mecanismo de regulação que deve ser acarinhado Orfandades Esquerda III– Tem apenas o "bush" e falta-lhe o "estica". As paródias começam a sair-lhes mais sensaboronas e com ligeiro sabor a resignação Direita III– Só com um Lula a sério para fazer a caldeirada, não cons...
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Eu, um itinerário Eu gosto da palavra transcendência. É um dos tais conceitos que permitem ao discurso não se deixar contaminar pelos acontecimentos. O Rubem Fonseca dizia que ela devia ser proibida porque já a tinha visto ser usada para descrever um bóbó de camarão. Só que ela está-se a borrifar para isso. Aquela ideia protestante de que as palavras nos livram do “folclore” simbólico-imagético acabou – infelizmente – por vingar nalguns subconscientes e diluiu-nos por vezes num território exegético-real. Com as suas obsessões etimológico-oníricas ( e viciantes... ) JLBorges também se esticou um bocado e não está isento de culpas: Deixou-nos ainda mais atados ao labirinto facto-discurso-facto-discurso. Ou seja : “Para lá de” é onde eu quero estar, longe das palavras, longe dos factos, longe dos significados, na mera circunstância, na mera “superstição topográfica”. Onde a facilidade simbólica é a “narrativa dominante”. Em blogspot.com. A minha sala de chuto assistido.
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Prémio de consolação Por mim pode ficar perfeitamente decretado que: Quem por pudor, ou vergonha, ou consciência da realidade, não se puder dar ao luxo de auto intitular “extremamente inteligente”, poderá em recurso utilizar o epíteto de “irónico”. É fino e não fere tanto os espíritos mais frágeis como eu. (estive para escrever frígidos, mas agora um gajo tem que se conter...). A ironia está a tornar-se o palhaço pobre do discurso.
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O drama da infinidade semântica : Inocência explícita Fui tomado por uma certa pulsão de thanatos. Não sei se conseguirei resistir. É mais forte que eu, que sou reles andróide endrominador... É que isto de dizer mal também me parece que está a precisar duma recauchutagem!... O quarto do pulha – em flagrante crise de identidade – até já se tem de encostar à bengala do pipi, o Mephis começa a rodopiar demasiado em torno de vítimas que o ignoram, e o anarca constipado já apenas atordoa recenseando anarquicamente notícias. Isto de viver apenas parasitando na tolice alheia está a ficar difícil. É como estar sempre a dizer que não se gosta de bacalhau com natas. A certa altura o bacalhau caga nisso, e a vaca é para esse lado que muge melhores natas. Organizem-se pá! Até o VPulido Valente já teve de vir dar uma mãozinha!!!! Bem eu não m’aguento mesmo... Julgo que todos já nos distraímos com a gabarolice marialva, já mandámos as nossas chalaças ao orgulho gay, já elaborámos os nossos imaginat...
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Os intitulados “estados de direito democrático” têm as suas cruzes, e em regra são muito eficientes a distinguir o bom ladrão do mau ladrão. Geralmente quem carrega a cruz democrática nunca é o carpinteiro nem o seu filho. A eficiência é o nome do carrinho de mão que a transporta. Aos solavancos. O novo dicionário não ilustrado é o guia turístico desta via-sacra. ( entradas 286 a 296 ) Falta de legitimidade – Vício que peregrina no instável equilíbrio entre a eficiência e a formalismo da lei . Promove romarias para afagar indignações dos que vêem na lei uma canja de virtudes. Favorecimento – Crueldade que mina o lírico equilíbrio entre a eficiência e a igualdade . Alimenta os enojamentos dos querubins do paraíso da hipocrisia, e os desabafos irritados das almas que purgam cobiça. Erro Judiciário – Ovelha negra do pastoreio jurídico que atrapalha o bucólico equilíbrio entre a eficiência e a liberdade . Como a inocência é uma presunção, quem se julga inocente não é mais que um presumido....
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Às vezes não são rosas senhor Se o que nós assistimos nos últimos dias pelos chamados “ meios de comunicação “ é o que parece, a situação iraquiana não se adequa à visita não turística dos 150 coitados-GNR-portugueses. Governar com “sentido de estado” e “noção do papel de Portugal no mundo” não pode ser: “agora só há é que os apoiar”, “não podemos fugir às nossas responsabilidades”, “ há que assumir os riscos das nossas alianças”. Podemos “andar à nora” mesmo sem ser burros. Quando elegemos o nosso prosaico-primeiro-ministro não elegemos um grande estadista internacional, mas apenas um tipo para nos diminuir a listas de espera e acautelar das vacas loucas. A guerra é um fenómeno com o qual podemos ter que viver, mas tem as suas leis. E não julgo que sejam as mesmas das finanças públicas. Para não ter vistas curtas não basta pôr a mão a fingir de pala de sol. Não estar encandeados não é suficiente para ver bem; há que saber viver na sombra. Se passarmos o tempo a piscar os olhos, ainda ...
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Pintores de escrita à pistola Uma das coisas que dá mais pena é ler as banalidades que grandes pintores escrevem sobre a pintura. O génio está-lhes quanto muito no pincel, bem longe do verbo. Acabam geralmente por apenas distribuir trocadilhos suavemente metafísicos sobre os conceitos que suspeitam dominar. É a velha obsessão de conseguir ver o todo, e de não nos contentarmos por andar distraídos e entretidos apenas com as partes. «Só o aspecto puro dos elementos numa relação equilibrada pode aplacar a tragédia da vida.» “Por detrás das formas naturais mutáveis jaz a realidade pura que é inalterável.” Lia-se de Mondrian no murmúrios do silêncio (que na sua boa fé nem tem culpa...). Esse rapaz foi de facto um dos que perdeu tempo com um ideotário estéril e quase pueril, não se contentando em apenas pintar brilhantemente e ir ouvindo um bocado de jazz. Na linha doutro rapaz - o Kandinsky – que também se desfez em palavreado de trivialidade conceptual, e tanto esgotou a sua verborreia (...
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O Cunhal afinal Porque gostamos de inventar pessoas especiais!? Cunhais de altar. Ladrilhadores de testa alta com diploma de arquitectos. Mistificações de ridícula-incontornável-importância-histórica. Cunhal..... Prefiro ser visto como um extenso bordel bragantino do que como um lar de comunas . Afinal chamou-se heróica coerência a um mero instinto de sobrevivência Afinal eram meramente tácticos os processos articulados de segredo-revelação Afinal nem toda a gente que desenha bem tem direito a ser herói nacional Afinal ser clandestino é a sina de qualquer bloguista anónimo Afinal ser escritor anónimo é a sina de qualquer pipi Afinal certa esquerda tem-lhe secreta raiva porque ele tem mais pedestal que ela Afinal certa direita põe-lhe o “manto da glória” porque arrelia a esquerda Afinal ele condicionou um período histórico em Portugal porque apenas estávamos confusos, mas continuamos e ele já não tem nada a ver com isso Afinal ele acreditou no destino da história, mas vai precisar da mã...
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Primus inter parvus Enrebanhando pelo tricot de links desta paroquiana blogaria,dei com um dos “escrevedores encolunados” da moda a dissertar sobre ter fundado “o primeiro” blog português. Eis outra das “vertigens obsessivas” da nossa condição: aparecer antes do outros, ser o primogene, ter dito primeiro, ter feito primeiro, ter pensado primeiro. Olhar para trás e ver sempre uma cauda a abanar. O novo dicionário não ilustrado apresenta-nos outras “camisolas amarelas” do pelotão. (entradas 276 a 285 ) Adão – Cortou a fita à entrada da espécie. Por causa da merda duma maçã passou o tempo todo com uma parra à frente e uma mão atrás. A costela mais atrevida deu azo a uma gaja, vá lá..., mas no afinal das contas foi um tipo que só serviu para nos infernizar e mediocrizar a existência. Abraão depois também não ajudou. Ovelha Dolly – Não era ranhosa mas finou-se rápido. Ser copiada afinal era uma originalidade de judas. Nem a porra duma camisolita de lã se conseguiu fazer com ela. D. Afonso ...
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Annus possibilis Procurando dar uma machadada definitiva no tacanho vício de não sabermos olhar para o futuro, de apenas navegarmos à vista e de agirmos só para o imediato, o nosso venturoso governo decidiu estabelecer um calendário para a realização do “pouca-terra-pouca-terra” do futuro até ao ano 2018. Isto sim é estratégia e planeamento da mais fina água. Agora não devemos ficar por aqui, pois temos finalmente o futuro nas nossas mãos. Sou forçado a debitar um programa construtivo para Portugal: 2019 – Ano da limpeza. Bandeira Azul para o rio Trancão. Gigi revela ao mundo o “safio au bechamel”. As festas sociais rendem-se ao encanto do suburbano. Represas fará duetos com Emanuel. Portugal será um país asséptico, pleno de equilíbrios e irmandades. Uma serena Etar à beira mar. 2020 – Ano da castidade. Bragança inaugura sem complexos a ponte aérea com a Tailândia. O pecado será erradicado definitivamente através do “kit fidelidade”. Esta maravilha da tecnologia inclui um "excitó...
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Palavras ao vento A palavra é um bluff. Sobrevalorização em excesso. Próprio dum mecanismo que se pensa essencial, os seus efeitos são limitados, tendencialmente repetitivos, e raramente satisfaz os clientes que a requisitam. O elogio bacoco aos poderes especiais da palavra, à sua causa expressionista, à sua amplitude, ambiguidade e divina subjectividade, é uma ideia feita e alimentada pela puerilidade dos seus escravos. Não faz a porra dum luto, não faz um amor, não faz um agradecimento de jeito, não alimenta uma pena, não consola um coitadinho. Fraco fracasso: não faz a diferença. É puro massajar sem tocar. Alimenta-se a si própria, como simples “reflexividade” “armando-se” à transcendência; como é que nos deixamos enganar? Usamo-la como mera fatalidade ou ao ritmo da poética ingenuidade. Ilusão e desilusão. Tudo bem, ...que seja um parque de diversões, um carrossel para miúdos. Nunca será a “capela sistina”, nem um “franzir do sobrolho”, nem uma “lágrima”, nem um “encolher de ombros...
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Hoje apenas para acompanhar a cervejita e o tremoço, o novo dicionário não ilustrado tenta decifrar os nomes que os “gajos” nos chamam. Um pires com as entradas 263 a 275. Na televisão... “Povo” – Palavra que exprime a resignação pelo facto de não conseguirem fazer omeletas sem nos limparem primeiro as salmonelas, e verificarem que temos casca boa para partir. “Cidadãos” – Palavra de registo cacofónico que acaba por dar muito boa serventia nas correntes de solidariedade. “Eleitorado” – Designação que revela o encanto quasi-fetichista que provocamos, quando temos um papelito dobrado na mão, uma cruz para distribuir, e umas ilusões para hipotecar. “Gentes do nosso país” – Expressão de cariz lírico-bucólico que, à falta de música a acompanhar, só Júlio Isidro poderá usar em condições higiénicas. “Amostra representativa” – Expressão elogiosa do foro estatístico, que faz de alguns privilegiados um misto de fita métrica calibrada com rato de laboratório. “Portuguesas e portugueses” – Exp...
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Definitive collection da malta Deus prova a sua absoluta existência quando, de forma magnânime, distribui subjectividade por todos os lados. A malta é mal agradecida O mal ao ser mastigado produz aquele sabor empapelado, que depois só dá vontade de beber muita água. Muitas vezes nem temos a fonte certa à mão. A malta enerva-se A condição humana nem é tão ranhosa assim, mas revela-nos que sem Deus podemos aparentar meros seres condicionáveis. A malta fica intrigada A morte é sempre súbita e transcendente porque parece que não fomos feitos para morrer. Também não percebemos para que fomos feitos. Temo que não tenhamos sido feitos para perceber tudo. A malta mal se conforma A ciência vai conseguir provar tudo se tiver um manequim de jeito. A malta entusiasma-se A vida eterna tem uma característica: é para sempre. Este conceito também não é inteligível. Felizmente. Mas há malta que fica ansiosa . A Salvação é uma poda. A imagem de Deus que mais gosto é a do Jardineiro, que trata das ...
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Para esquecer a romaria à senhora da cunha e aliviar da via-sacra na casa pia, estaremos agora dedicados à ladainha do orçamento. Demonstramos assim a grande dificuldade que temos em nos assumirmos como um estado laico; o novo dicionário não ilustrado o mais que pode ir fazendo, é lavar os dogmas com água de malvas em vez de usar água benta.( entradas 253 a 262 ) Ciclo económico – Designação comum para um momento em que tudo se passa sem que ninguém dê conta, e que depois, quando todos dão conta, já passou. Felizmente asseguram-nos que os “ciclos são cíclicos”, e que três ciclos seguidos não fazem um triciclo mas antes um período. Ocasionalmente estes não menstruam, e é sinal de que passado alguns meses vão aparecer problemas novos. Crescimento – Fenómeno curioso em que os números nunca encolhem com as lavagens estatísticas, e se debotarem existe um maravilhoso elixir chamado “critério”. Competitividade – Mitificação dum complexo mal resolvido de Adam Smith segundo o qual, para susten...
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Requiem a um deus de vão de escada Uma das tormentas que assola a minha existência é poder passar ao lado dum poema que mudasse a minha vida e que, por pequenez do meu espírito, não o reconhecesse. Consta-me que se discute agora que a poesia está em perigo e que pode morrer. Teme-se que um novo degelo das águas turvas da realidade acabe com os dinossauros da palavra: os que ainda a tratam como os primitivos. (ideia que o JLBorges me emprestou à borla) Se isso acontecer.... 1. Ficarão apenas os bichos de menor porte, ou seja, aqueles trapalhões como eu, que só brincam com as palavras, incapazes de serem verdadeiros predadores de garras afiadas e dentes de sabre. 2. Como dizem alguns estudiosos afamados, ficará Pessoa “por resolver” e não mais atormentará a plateia dos babados que tinham pago para sessões contínuas 3. Alguns críticos poderão ir para as obras concorrer com os ucranianos directores de orquestra. 4. Os milhões de poetas portugueses libertar-se-ão desse jugo de não poderem r...
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Engajamentos Há que acarinhar os peditórios da “esquerda” versus “direita”, porque esta dicotomia é acolhedora, dá segurança, e é um bom refúgio em momentos de esterilidade e intranquilidade criativa. Os esgares da “liberdade” e da “igualdade” fornecem-lhes ainda os adereços necessários para estar sempre na moda. Se um infeliz destes, mais desprevenido, disser uma asneira, certamente alguém já a terá justificado, ou com uma referência histórica bem desmontada, ou com uma frase enigmática, mesmo irónica, mas sempre brilhantemente fundamentada por um deus de serviço. Eu pessoalmente até gosto de ler textos de gente engajada. Lêem-se com serenidade, com aquele descanso de alma de quem já sabe o que vai acontecer, não vai haver muitas surpresas, os bons raramente se misturam com os maus e nós não nos baralhamos. E o Popeye nunca aparecerá a estragar a história da Bela adormecida. Este espartilho ideológico – espantosamente – ainda liberta o engajado do desagradável que é ter o desconforto ...
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Pleuresias incompletas Anátemas anatómicos Um poético seio Não faz um bom par de mamas Um cândido olhar Não faz um bom piscar de olhos Uma anca ululante Não faz um bom jogo de cintura Uma nádega arredondada Não faz uma boa base de partida Um umbigo rafaeliano Não garante uma ligação à terra Umas coxas roliças e firmes Não alicerçam um bom lar de família Uns lábios carnudos Não garantem um bom refogado Uma mão amiga Não aperta um car...... Mas é preciso um bom pulmão Para respirar um amor decente
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O cálice da vitória Mourinho reflecte cada vez mais um tique muito especial. O tique do sucesso mal assimilado, do sucesso mal resolvido, do sucesso mal relativizado. No FCPorto encontramos um fenómeno muito próprio do alcoolismo: quem sofre deste “vício” basta-lhe uma pinguita para ficar bêbedo; aos do FCPorto basta-lhes também uma pequena contrariedade para assumirem uma posição absoluta, extremada e patética de valorização do seu sucesso. Encapotada da nobre estratégia de “ fingir perseguido para melhor prosseguir “. Os “meus” lagartos, por exemplo, andaram uma carrada de anos à míngua, e acabaram por ganhar um campeonato sem estar à espera, lá fizeram a sua festarola e pronto: Partiram para outra - disparate claro, mas não ficaram a “remoer” na vitória. Depois ganharam outra vez, disseram-lhes que foi o Jardel que ganhou sozinho, mas olha ...gozaram a vitória, repetiram a festarola e partiram para outra – disparate claro, mas sem dramas, sem nostalgias folclóricas, sem bacocas psic...
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Deprimidos !? Só se formos parvos. A correr fora das premissas do post anterior aparece o extraordinário episódio do “psiquiatra de bibi”. Trata-se de algo que nem deve ser humorizado, porque só se ia estragar a sua virgínia beleza : O suposto médico psiquiatra foi arranjado pelo advogado de bibi, porque se conheciam das reuniões de condóminos. Solícito, prestou-se de forma graciosa e de «grande elevação moral», a ajudar desvendar os lugares mais recônditos da psique do arguido. Põe-se agora em causa a sua verdadeira especialização em psiquiatria. Pura falsa questão. Parece que o portentoso especialista teria diagnosticado “amnésia lacunar ”. Trata-se dum equívoco: a sua especialidade é ginecologia e o mal encontrado é a, também frequente, “ amnésia la-conar “. Eu gosto deste país. E muito. Os que estão deprimidos podem ir andando. Só atrapalham isto.
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Silogismos do real Primeiro grupo avulso de premissas: 1º Um presidente da república tem de vir dizer que não confunde velhas amizades com as suas responsabilidades. Não afirmou quais são as suas responsabilidades 2º A provedora da instituição do estado que é guardiã de crianças desprotegidas, tem de ser posta no lugar – e bem – por um advogado que defende um pedófilo assumido 3º O procurador-geral da república e o bastonário da ordem dos advogados jogam à bisca lambida com cartas abertas sobre o amor à verdade (porque a justiça não pode ser amada) 4º Os jornalistas queixam-se de que querem transformá-los nos bodes expiatórios das crises do regime (actualmente são apenas bodes marradores) 5º Certo juiz terá dito a um criminoso homicida que “você não devia existir”. Não se sabe a opinião do criminoso. 6º Um deputado em exercício é arguido de um processo de pedofilia. Mas não tem multas de trânsito por pagar. Segundo grupo de premissas a granel: Presidir, prover, procurar, bastonar, info...
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O nosso equilíbrio interior também está prenhe de equívocos. O novo dicionário não ilustrado continua a arriscar nestes meandros, mantendo-se inquietantemente afastado das empolgantes entrevistas políticas com que somos brindados.(entradas 246 a 252) Auto-estima – Estado de alma hiper valorizado. O recurso exagerado a esta excitação, emanada das revistas de psicologismos afrodisíacos vendidos ao quilo, produz efeitos enganadores. A Nandrolona parece açúcar mascavado comparado com este doping de almanaque. Espírito Crítico – Engrenagem automática das personalidades mais débeis, que não conseguem encontrar a genuína força na lúcida, serena e incondicional credulidade. Crer desmedidamente é o caminho que dá mais probabilidades de chegar a acreditar nas coisas certas. Desconfiar é uma vergonha da nossa condição. Paz de consciência – Estado de vigília que deixa o paciente com uma espécie de gnose epidural: ou seja, enquanto lhe vão à carteira ele pensa que lhe estão a limar os calos. Valori...
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O novo dicionário não ilustrado tem mesmo que fazer um parêntesis na futilidade dos factos e avançar para a angustiosa, mas heróica e virtuosa vida interior. O homem é que é um bordel de inevitabilidades morais. Mas ficam mal numa capa de revista. ( entradas 238 a 245 ) Preguiça in (acordar e levantar-se da cama)– Momento em que descobrimos que não é o sonho que comanda a vida, e em que desconfiamos que o valor da gravidade é muito superior àquele que nos andaram a vender. Sofrimento in (levar os filhos a fazer cocó numa casa de banho pública)– Momento empolgante da vida dos pais que os leva a reflectir na procriação e a chegar à conclusão que é uma realidade a exigir reformas profundas. O homem deveria alegar incompatibilidades. Responsabilidade in (tomar consciência que a filha anda a namorar)– Situação de peculiar nervosismo, que nos leva a oscilar entre as medidas de prisão preventiva ou a escuta telefónica; mas geralmente ficamo-nos pela acolhedora ignorância do segredo de j...