Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [5]
8 de Janeiro de 2029
Hoje fiz um ano como ministro das finanças e ofereceram-me um centro de mesa em flores secas para pôr no gabinete. O presente até terá a ver com o meu apelido, mas as flores secas combinam bem comigo e com os tempos. Felizmente eu tinha levado uma caixa de palitos de la reine que sobejaram dos reis e ainda pude dar uma arzinho da minha graça, retribuindo a surpresa. A L. sempre foi contra esta minha ida para o governo e passou o dia meio amuada, rabujando por tudo e por nada, sendo que a sua única palavra de encorajamento foi quando disse que eu tinha conseguido que dentro dum campo de concentração nos sentíssemos como numa reserva natural. Afinal de contas, e ao contrário do que chegou a pensar no início do século, o que interessa numa mulher é combinar a força enigmática do conteúdo com o efeito decorativo no contexto.
Desde que se aboliram os impostos na grande reforma de 2024, a receita baseia-se na filantropia coerciva, na venda de património e no aluguer da costa para a pesca, por isso subcontratei o grosso do trabalho do ministério à Remax, o que me deixa algum tempo livre que hoje aproveitei para ir beber uma meia de leite com o Porfírio Vicente, com quem já não falava desde a passagem do ano. Mostrou-me um esboço da sua nova peça: 'O chupista e o louva-a-deus'; trata-se duma alegoria em que um oportunista especulador se apaixona por uma vendedora de flores que fala com os insectos, e que procura revelar-nos que o lado parasitário da nossa natureza é o mais nobre e o mais dado à correcta organização da sensibilidade.
Constato que há muito que deixei que ter sentimentos, mas ainda me lembro muito bem do último, quando comi uma fatia de fiambre.
Comentários
Bom Dia! Brrrrrrrrrrrrrr que frio!