Na falta podem ser sugus
Dostoievski é um daqueles escritores que todos temos direito a ter um próprio: ‘o nosso dostoievski’; mesmo que nem o tivéssemos lido (hoje existe uma forma consagrada de conhecimento que é o ‘ter ouvido falar de’) demos-lhe direito a entrar nos nossos melhores pesadelos. E os nossos piores pesadelos são os que aparecem num sono de tarde, de siesta: um homem levanta-se, motivado exclusivamente pelos desígnios dum inconsciente em formato bomba injectora, por sorte não dá de frente com nenhum ser humano com relações de sangue ou de registo civil e que tenha adquirido o direito de lhe pedir explicações sobre o seu estado psicomotor, e vai directo à prateleira sacar dos Irmãos Karamanzov, como se procurasse queijo manchego. É fodido ser movido em causa próxima pelos sonhos, pois nesses casos nem se distingue bem o papel impresso do leite fermentado. Felizmente o livro já estava muito sublinhado pela raiva adolescente, e Ivan dizia a Aliocha no início do ‘grande inquisidor’ que ‘estás tão mimado pelo realismo moderno que já não aturas nada que seja fantástico’. Suspiro – beliscão – copo d’água – mijadela – olhar para o espelho – sussurro de fodasse – chupar uma bola de neve, sempre por esta ordem, e volta-se ao normal; ou seja, volta-se ao estado em que já não se suporta o realismo; mesmo o clássico. Mas nunca esquecer o docinho da bola de neve.
Comentários
C.
C.
por minha cúpia, minha grande semicúpia, contritamente, jamais falharei uma onirica elevação que seja.