( Da transgressão. Sei muito poucos poemas de cor. Um dos que sabia, era este do Camões: “Transforma-se o amador na cousa amada/Por virtude do muito imaginar/Não tenho logo mais que desejar/Pois em mim tenho a parte desejada”.Disse sabia, porque já não sei. Esqueci-o. Mantinha-o guardado para um momento especial, e quando o usei acho que estraguei tudo. A poesia deve ter um instinto matador nas minhas mãos. Desgraçamo-nos mutuamente, se calhar. Só que eu nem desconfiava disso. Estúpido. Nunca o li como um poema de amor. Sempre vi nele um formidável elogio poético à cumplicidade; reforço: à cumplicidade pura, cristalina, de fina, de filigranada prisão, forte, de siderúrgica fusão. Difícil de descobrir, difícil de sustentar, mas difícil de matar. É até das poucas coisas que sedenta e sacia ao mesmo tempo, e que tem o condão de colocar o desejo na redoma do encantamento. Onde nem a imaginação presta vassalagem ao pecado. Mas isto se calhar são só parvoíces minhas, mas são parvoíces das que doem. )
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Nullum est vitium sine patrocinio
Então como é para o Dragão , vou mostrar o meu lado mais delicodoce, aquele lado que, ao ser olhado de esguelha poderá atingir o leitor com raios vindos do Poderíssimo Altíssimo, mas, ao ser observado de frente, poderá transformá-lo em pedrinhas da calçada pois todos temos o direito a sonhar com os poderes da medusa antes de nos cortarem os tom..., vá, a cabeça. Então o desafio, ai credo um desafio, é: como olhar para a fragilidade, para a fraqueza, a baixeza, o desprezível, a mediocridade humana aos olhos daquilo que o cristianismo iluminou, ou seja, do homem destapado, descoberto, pelo fenómeno historico-literário, mas real, da Redenção, e confrontá-lo com o Deus que Jesus também revelou em simultâneo. Escolherei a rota pelo termo 'fragilidade' porque é mais abrangente, eloquente, e suave, como o português; e tentando não repetir miudezas rudimentares. 1. a fragilidade como condição - O homem tem uma tendência irreprimível para se definir e para ajustar a sua definição à s...
Hardpio
Dou-me bem com a religiosidade miserável. Gosto de igrejas com gente sofrida, de pele enrugada, olhar escondido e pecados à flor da dita, apenas procurando carinho na madeira polida do genuflexório, e disponíveis para dar um bocado do seu braço por troca duma alma ainda na fase dos caboucos. Gente que dá uma na chaga e outra na cicatriz; não acredito em angústias limpas, dúvidas musicadas, teologias libertadoras, credos em cinemascope. Mas também gosto daquela pequena baba da hipocrisia, do esgar do escrúpulo, da gente que pensa conseguir lavar a alma com meia hora de cheiro a cabelos oleosos. No fundo o catolicismo adapta-se bem a gente, como eu, pouco esquisita. Gosto da parte estúpida da fé, da boca cheia de palavras de sentido e gosto duvidoso, do dogma desnecessário, da ameaça escatológica. O que seria da fé cristã se não pudéssemos pensar em Deus morto por nós na cruz enquanto desesperamos por uns bons pastéis de bacalhau. O que seria da fé sem a incompetência para perceber o mun...
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