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Conto duma mulher a dois tempos Helena não era de Tróia mas sabia-se encurralada num coração palpitante e julgava-se com direito a ser resgatada por uma paixão ardente e descompensada. Podia ser das ditas platónicas, poderia ser daquelas de rotativo quarto de hotel, podia ser com alguém de apelido conhecido, podia ser com um Zé-ninguém. Pensava mesmo que uma mulher que não tivesse ainda deixado um homem a bater com a cabeça nas paredes, a andar com um olhar distante e a dizer parvoíces sem sentido era sinal de que tinha passado ao lado da sua condição hormonico-cromossómica. Tinha mails para responder, mensagens para dar vazão, chamadas para retribuir, tinha pendentes daquelas promessas de combinações feitas para despachar expediente, mas era tudo com homens que apenas lhe poderiam dar segurança, apenas lhe poderiam dar uma vida boa, apenas lhe poderiam dar filhos, apenas lhe poderiam dar um carinho contratado, e isso parecia-lhe ser mais ou menos como ela tinha aprendido na sua vida: ...
Manual de canonizagem rápida (não tenho pedalada para esta convidada e qualquer dia ela rifa-me e vai a remar para algum blog político) Primeiro: Nunca se fazer perceber à primeira. Segundo: Nunca rimar por afeição mas apenas por defecção. Terceiro: O espaço e tempo nunca tomarem conta do enredo e ao não haver enredo falar apenas do espaço e do tempo. Quarto: Fazer notar-se a existência duma memória rica e dum inconsciente remediado, mas é essencial valorizar o recalcamento dado-lhe o aspecto de livre associação. Quinto: Mostrar-se desinteressado, ausente, sempre entre o ‘para cá’ e o ‘para lá’ da realidade, mas jamais incorrer no discurso diurético pois o leitor ao ter de ir fazer uma mijinha - mesmo rápida - pode perder o fio à meada. Sexto : Fazer de Deus um instrumento de escrita e de estilo, tal como o ponto e vírgula, a frase curtinha, a frase que nunca mais acaba e a exaustividade gongórico dependente. Sétimo : Jamais tratar o eu por ‘você’ e muito menos tratar o tu por ‘ele’, ...
no frost guruism (ou colectânea expresso de insubstantivos advérbios de moda. ou pastéis de massa tenra com manteiga e banha) "Que dias há que n’alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como, e doi não sei porquê." Que a blogosfera é um imenso 'intertexto' (antigamente chamava-se plágio à praga mas 'mudam-se os tempos, mudam-se as vontades' como lá dizia o rapaz d'outras eras) todos quantos por aqui andam o sabem e o refraseamento, acuradamente contextualizado de acordo com as regras do pós-modernismo, dá lugar a um moderno cânone: mudam-se os nomes, mudam-se os autores (se bem que não seja próprio dar nas vistas). O canonizador moderno e autorizado, naturalmente apoiado numa das abundantes e multiparadigmáticas cátedras disponíveis no mercado selectivamente aberto da glorificação inter-pares, é a versão no frost da arca congeladora que era a censura à antiga: por redução lapidar decide quem, como, o quê e porquê dar a conhece...
Três contributos claros para o processo de reajustamento do cânone ocidental “ Pode o candidato «usar» a sua mulher as vezes que quiser” de Clara Ferreira Alves in expresso, 8 Outubro “ Os maridos, Babalu, são a espécie mais incompreendida pela nossa sociedade, e a que merece menos compaixão” de Clara Pinto Correia, in ‘No meio do caminho’, pag 238 ( não consegui ir mais longe) “Os homens são como os bebés” de um mail acabadinho de receber de uma leitora praticamente anónima.
o exercício do imprevisto, "o erro de Narciso" (*) e o tempo "Há uma emoção que é inseparável do encontro com qualquer homem que nos surge no caminho". Esta citação de Lavelle, uma das quatro escolhidas por Cesare Pavese para assinalar o dia 9 de Outubro de 1939 no seu "Ofício de Viver", evoca o erro que constitui o desejo de apropriação, de captura, daquilo (ou daqueles) a quem se dedica o que designarei por amor-paixão: o erro de Narciso. No contexto relacional o erro de Narciso pode ser entendido como o desejo (necessidade?) de alguma coisa que seja um complemento de nós mesmos, numa espécie de ilusão em que se acredita que o que se capturar alimentará, de alguma forma obscura, a nossa sede de absoluto. E no entanto será, isso sim e apenas, a raiz de todos os fracassos porque o aborrecimento e a insatisfação estão associados a todas as acções de captura como muito bem o sabem os caçadores na sua obsessão com a 'ausência do novo'. Contra esta in...
É tudo uma questão de método. E duma insónia das boas, claro. Depois de ver meio mundo rendido ao método George (que estará certamente para a crítica literária como o método Milton está para a esterilização de biberons) vejo-me compulsivamente levado a testá-lo face a um dos monumentos mais significantes do nosso património literário que é a lírica camoniana na sua versão sonetada, tanto mais que também o vejo arredado - tal como a até há pouco tempo injustiçada MRPinto – da corrente crítica literária ( senão vejamos há quanto tempo o mil folhas não faz a recensão dum soneto de Camões; meu Deus, nem o Abrupto) Quero antes de tudo dizer que abracei este projecto com o coração limpo de quaisquer preconceitos e, diria mesmo, prenhe do afã de me encontrar com a verdadeira literatura, com a verdadeira força do génio. E foi assim que ataquei a caderneta dos sonetos tomado duma força quasi obsessiva que me fez ferozmente sublinhar, riscar, dobrar cantinhos, desenhar simbolos fálicos, marcar ...
Yoga para ‘românticos de coração mole’: primeiro shake e depois espeare «Rainha – Hamlet, tu quebraste em dois o meu coração. Hamlet – Oh, atira fora a pior parte E vive mais pura com a outra metade» Estive indeciso entre isto e uma passagem do novo livro da Clara Pinto Correia que comecei a ler e que na pag 15 escreve isto: «Ai, foda-se. Estou lixada com este gajo» Mas eu prometo que voltarei ao Camões.