Cientropia


O meu sonho não realizado: ser (ter sido) cientista, ou melhor, homem de ciência. Poder dominar uma espécie de saber intercalar, nem definitivo nem primário, nem teológico nem popular. Assim tipo eremita (um clássico), para dar uma ideia. Como já é um dado adquirido, o saber científico é provisório, por isso no seu formato genuíno é orgulhosamente defensivo, é semi-apologético, sem ser ofensivamente proselitista, pode ser categórico sem ser arrogante (aqui também depende muito do brilho retórico ou da flexibilidade dos músculos faciais), enfim podia estar aqui horas a descrever os méritos (mascarando as minhas frustrações) mas julgo que a ideia está transmitida.

O saber-de-ciência mesmo que não ocupe lugar é terrivelmente territorial. Explico: um raciocínio de base científica marca sempre terreno, tal qual um felino a mijar. Explico ainda melhor: exprimir um qualquer argumento de base científica imediatamente monta em torno dele uma cerca que só ultrapassamos se nos quisermos deixar comer. E ser comido por um cientista só é pior que ser encornado ou apanhado numa piada dum stand up de principiantes. 

Por que razão é péssimo cair na rede dum homem com saber-de-ciência? Porque só de lá saímos pela via do desdém ou da humilhação. Claro que se esse cientista estiver isolado poderemos encurralá-lo facilmente, mas será sempre um prazer ainda mais transitório que o seu próprio saber.

Este breve texto é assim sobre a inveja. Em todo o caso, uma inveja estúpida porque daqui a segundos estarei claramente por cima à conta daquele mecanismo milagroso apenas ao alcance dos ignorantes: o self-self. Explico também: o cientista não se consegue construir a si próprio, precisa dum conhecimento alheio, que lhe vem de fora. O bárbaro, como eu, produz o seu próprio conhecimento, constrói a sua justificação. No fundo, percebe que o destino é o destino. Aqui já não consigo explicar melhor.

A melhor forma de lidar com este drama é usar a bomba atómica de qualquer intelecto saudável e empenhado: a perspetiva. Nenhum saber-de-ciência consegue resistir ao argumento da perspetiva. Horizontal, vertical, cronológica, simbólica, qualquer coisa é boa para fornecer perspetiva e está ao dispor de todos. Qualquer ser primário, de rudes conhecimentos, consegue criar uma perspectiva bem decente. E perante uma boa perspectiva um homem de ciência transforma-se imediatamente num católico de catequese em dia: tem de dar a outra face se quiser manter a principal ainda minimamente digna. 

Está assim finalmente finalizada a finalidade: só a fé nos salva, o caos apenas dá uma ajudinha.

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