Mensagens

Hora Livre

Tirei uma hora para escrever. Graças a Deus doem-me as costas e assim vão parecer três horas. Nada estica melhor o tempo do que uma moinha. Ou isso ou ver uma mulher feia. Uma mulher feia também é um bom esticador de tempo porque ficamos a pensar com que Deus estaria distraído quando aquela aventesma foi parida, ter-se-ia o criador esquecido daquele adn de molho? A beleza não é fundamental descobrimos depois de passar meia hora que afinal eram só 3 minutos. Tenho a unha do polegar direito estupidamente mal curvada, produz um efeito abobadado mas torto, incapaz de inspirar o mais desinspirado arquiteto de catedrais. Quantas catedrais se terão inspirado em dedos de polegares? Foram mais 5 minutos disto que afinal renderam 25 em tempo de ilusionista. Todos somos capazes de tirar minutos da cartola. Noutro dia vi um filme que me roubou 5 anos de vida mas que apenas durou 1 hora e picos sem contar com o hambúrguer que comi depois. Ir ao cinema é uma coisa estúpida, própria de quem prec...

Gordas pra casa

Aparentemente acossadas pela pressão de tanta mulher magra e bonita, algumas forças vivas da moda feminina dedicam-se agora a explorar criativamente o terreno das mulheres gordas e estriadas. Tentando aproximar-se duma tal de mulher média , apresentam-nos espécimes-para-desfilar robustas mas, como se não bastasse, também disformes, de pele irregular, desproporcionadas, como que assinalando, num cristianismo-de-passerelle, que a mulher média é badocha mas também é filha de Deus. E mais, julgando que a mulher badocha ao ver outras badochas a fazer de modelos, sentir-se-á mais consolada e correrá que nem louca a comprar orgulhosamente merdas que lhe deixem o corpo disforme em exibição. Uma coisa será diversificar os cânones de beleza, ir habituando o olhar do consumidor a outros padrões de beleza, outra coisa bem diferente é expor mulheres disformes e feias como que banalizando a beleza do corpo, num miserabilismo a cheirar a misericórdia requentada. Fazer da desproporção arte é...

Outonoscopias

‘Folhas mortas, finados & marmelos’ Contra ‘Cheiro a relva, velas acesas & chás’ Aquilo a que geralmente chamamos natureza humana caracteriza-se (bastante) pela insatisfação e contentamentos selectivos (tolstoi diz doutra forma, já se sabe). Nas zonas de transição ficamos um pouco perdidos, e em geral tendemos a tomar partido por estados de alma de ocasião, mais ou menos justificados pelas deusas da patologia. O Outono é um dos momentos de transição em que tendemos também a aproveitar para fazer um statement estético, algo apenas ao alcance de almas sensíveis, mas em todo o caso julgo que qualquer animal provido de epiderme tem direito pelo menos a exprimir-se, desde que não o faça, claro, revelando outonos privados de terceiros, pois quem não quer ser saraiva não lhe veste a pele. Ora dois seres tuitamente sensíveis e delicados sintetizaram (se bem que reprimindo certamente a exibição de emoções sensoriais mais fortes por mero pudor ou humildade) o seu olhar ...