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Eu hei-de amar uma Fedra

A sorte grande de um homem dá-se quando lhe sai uma mulher-de-tragédia. Ou melhor, de trajédia, sim, uma mulher que se saiba vestir de sofrimento & vingança mas toda ela seja estremeções de ironia por dentro, uma mulher que se ria – a bom rir - da nossa inferioridade e que pareça sofrer com isso como se o mundo lhe estivesse a ser cruel e nós – por isso - merecêssemos uma dor sem alívio. Não há orações nem santos específicos para que nos saiam na rifa esses tipos de mulheres - nem seriam rezas fáceis - mas devemos fazer um esforço. Há mulheres que parecem banais máquinas de frivolidade mas que a conseguem transformar em veneno de ratos apenas com dois suspiros e muitas vezes nem sequer apanhamos a brisa do pestanejo porque já fomos colhidos e atirados para a berma. Aquilo a que se pode chamar paixão masculina geralmente dispersa-se muito. Mantemos a fama de caçadores mas não passamos de varejadores. Poucos merecemos uma mulher que nos faça sofrer em condições e que se vingue e...

Riga de Aluguer

Carlinhos sonhava com o Báltico. Poderia ter optado por uma nostalgia mais estónica mas não há nada como aquela letal-luz-letã. Uma luz que mata sem pulsão, mata apenas como desejo mal reprimido. Não tendo nenhum útero conhecido por aquelas bandas acabou por arrendar um apartamento pelo airbnb onde iria passar uma semana até que as águas do Daugava lhe rebentassem nos cornos. Ia só mas esperava que alguma companhia pudesse desabrochar naquele final de Primavera, numa espécie de namoro floralmente assistido, isentando-o daquelas liturgias de engate que obrigam a percorrer bancas de orquídeas vendidas ao preço de resgates a países de mau rating. Pediu à pombinha do espírito santo que lhe fizesse bater à porta uma fêmea com língua de fogo e que, assim, ficasse bem escaldado com o primeiro beijo. Fecharia os olhos e amaria que nem uma Cância desprendida, sem se preocupar de qual ventrículo viria a paixão envolvida. E foi assim numa Riga alugada que Carlinhos encontrou uma senhoria...

Porcentimento

A intuição já teve os seus melhores dias, Freud e mais recentemente Kahneman fizeram bastante por ela mas não o suficiente para matarem essa persistente mania do homem em pensar elaboradamente sobre o que o rodeia por fora e por dentro. Mas por outro lado, se virmos bem, o pensamento também já teve os seus momentos de glória, esse lado piolhoso da nossa natureza que se dedica a confabular sobre si própria tem-nos provocado inúmeros percalços e quantas vezes o método foi mais discurso e menos recurso. Por isso o homem, sempre na busca das terceiras vias, sejam elas bermas, sejam elas separadores centrais, tende a escolher locais para se despistar cada vez com mais estilo. Recorrentemente, a par da lírica e do absurdo, o homem-número puxa dos seus galões e põe as suas estatísticas no coldre. Que se lixe o romantismo, que se lixe o realismo, que se lixe o sentimento, que se lixe a paisagem: viva a percentagem. Cansados de tanto pressentimento os homens tendem a pensar que o fim do mu...