O Depoimento [III]


(continuação)

 Inspector Álvaro Simões - Concentremo-nos agora em Raimundo Múrcia...

Viviane Lopes - Humm...em que parte dele?

A.S. - Naquela que pode estar ligada à morte de Custódia Passos..

V. L. - O Raimundo é um homem muito...físico, digamos assim, se fosse ele a matá-la teria deixado mais marcas visíveis.

A.S. - É um homem violento, portanto.

V.L. - Sim, também se pode colocar a coisa assim, mas eu seria mais rigorosa: é um homem para quem as palavras não bastam.

A.S. - Mas sendo escritor..deveriam bastar, ou não?

V.L. - Sabia que ele tinha sido ( e praticado) ortopedista antes de se dedicar à escrita?

A.S. - Bem...sabia que era médico de formação, mas daí a...

V.L. - Uma falha imperdoável sua, deveria saber que os ortopedistas são uns brutos insensíveis! Essa brutalidade está entranhada no Raimundo.

A.S. - Tem então um currículo de agressões é?...

V.L. - Não... não... que eu saiba não...julgo apenas que se ele quisesse matar alguém partiria qualquer coisa, ou ossito, ou assim...há vocações que nunca desaparecem (ahah)

A.S. - Você está a divertir-se à brava com isto...também não é normal, não acha?

V.L. - Nada mesmo...

A.S. - Mas voltemos, por enquanto, ao Raimundo Múrcia, ele já tinha sido amante da Custódia, porque acabaram?

V.L. - Simone is the woman, claro!

A.S. - Seria por essa via mais normal que fosse a Simone a morrer, certo?

V.L. - «Normal»!?...Olha, olha e a brincalhona sou eu...

A.S. - Ou então a Custódia estaria a fazer alguma chantagem com qualquer um dos dois...

V.L. - São todos demasiado orgulhosos para entrarem em chantagens... e para além disso, tem de perceber isto: estamos perante pessoas que conseguem ferir de forma muito mais eficaz do que tirando a vida uns aos outros.

A.S. - Como assim?

V.L. - Sabe uma coisa, acho que está demasiado centrado na coisa passional e nem sequer ainda abordou uma outra questão básica: sabia que a Custódia era riquíssima? e, melhor ainda, era uma rica em segredo, uma rica que poucos sabiam ser rica.

A.S. - Quem sabia?

V.L. - Bem...que eu tenha conhecimento: eu, o Dário, o Salvador Arinto e, julgo... o Flávio Cossaco. Mas todos sob pacto de sangue...

A.S. - Mas todos sem motivo para a matar, suponho.

V.L. - Sou escritora, Inspector, falhada, mas escritora, não leio corações, nem mãos, nem mentes, e, o melhor de tudo: não tenho nenhum fetiche com a verdade, prefiro bons peitorais (ahahah)

A.S. - O testamento ainda não foi aberto, essa pista vai demorar a ser percorrida...Tinha alguma coisa para me dizer sobre isto?

V.L. - Acho apenas que não é do género da Custódia morrer de amores...mas tudo é possível quando se trata de morrer, até há quem morra de tédio e o tédio é das melhores coisas do mundo!

A.S. - Qual é o seu palpite sobre a morte da Custódia?

V.L. - Empate.

A.S. - Como assim...

V.L. - Alguma coisa a andava a empatar.

Transcrição do depoimento de Viviane Lopes, recolhido pelo inspector Álvaro Simões, um mês depois da morte de Custódia Passos, e publicado no Boletim Mensal do Investigador

Sem comentários: