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Maiakosvski meu amor

À beira dum governo provisório revolucionário quero dizer-vos que me irrita o que vos vou dizer mas se fosse Costa faria igualzinho ao que ele anda a fazer. Ainda retenho uma réstia daquele fascínio da tomada do poder pela revolução e só agora reparei nisso. Vai em frente costa, fica na história, só isso interessa, o resto é a decadência da burguesia, a barriguinha, o chapéu de coco, o charuto, as microfrantasias. Manda o assis foder, manda o serginho prócaralho, agarra o poder com toda a força que tenhas, só isso interessa, nada mais vale a pena fora do poder, a ideologia é palha, a tradição é folículo, a democracia é peste, os tratados são fungos, o voto é merda. Abre os olhos, deixa as sobrancelhas tranquilas, não te espantes com nada, não derrapes na hesitação, concentra-te na certeza de que tudo é fortuito e estéril, apenas o instante vale a pena. Não te desvies, o sim e o não são meros degraus, a verdade é apenas um patamar, ri-te, chora, sua, sangra, mas no fim limpa o tron...

Fundos de resolução

O chamado Novo Banco (espécie de subproduto do BES, com o qual, adicionando alguma proteína, se pretendeu fazer novamente ração de combate) é uma curiosa ( e inspiradora) criação mista: por um lado é uma mera construção artificial de secretaria (como alguns campeonatos passados ganhos pelo Porto e pelo Benfica) e por outro tornou-se como que um banco de todos nós (muito mais que a CGD), com lesados, fodidos, enganados, resignados, estupefactos, entalados e, claro, mais uns quantos a rirem-se (há sempre hienas nalgum local da selva). Esta combinação de estruturalismo com populismo é um manancial para todos os campos de análise. Pensemos agora nas simples relações humanas. Entre duas pessoas há sempre algo estrutural: o tipo de relação, como se dirigem um ao outro, como se conheceram, sobre que temas falam, o que sabem um do outro, o que acham um do outro, o que acham que o outro acha, e mais uma carrada de etceteras de todo o tipo e feitio. Por outro lado existem os momentos, ...

O todo e as partes

Será sempre um dilema nunca resolvido pelo homem. A lógica aparentemente teria rebentado com as dúvidas, mas a vida e os seus apêndices mais ou menos científicos vieram corromper essa segurança de primeira instância na relação entre o todo e as partes. A realidade é fértil de exemplos prosaicos: uma pessoa pode sentir-se satisfeita consigo própria de forma global mas depois não encontrar nenhuma parte que se aproveite, mas esta ocorrência, repare-se, não impede também a simétrica, ou seja, alguém sentir-se razoavelmente contente/descontente em várias parcelas do seu ser mas, no conjunto, achar-se o mais pequeno grão de areia/ última coca-cola do deserto. Olhemos agora para um contexto argumentativo. Alguém pode estar placidamente concordante com um conjunto de argumentos enquanto colocados isoladamente, mas depois o conjunto ser-lhe um absurdo gritante (as falácias funcionam muito nesta base). No entanto, achar arrepiante cada um dos argumentos isolados e depois apaixonar-se p...