Uma mulher bonita: a definição

Não, não vou dizer o que é uma mulher ‘bonita para mim’, isso seria dum ridículo atroz, duma irrelevância quase ingénua; eu vou dizer o que é uma mulher bonita, mesmo, definitely.

1. Nenhuma mulher pode ser considerada bonita antes de ter desenhado o seu primeiro fecho-éclair de rugas. A ruga bem colocada, a acolitar o sorriso ou a estranheza, o cansaço ou a tristeza, é absolutamente essencial para definir a beleza. Se a pele ainda não vincou a sério estamos apenas na sala de espera a gerir suspiros com anúncios de cremalhada. A juventude pode trazer consigo a pelinha esticada, fresca e luzidia, mas, se for para isso, o melhor é ir ver os golfinhos pró Sado.

2. O olhar duma mulher bonita tem de ser distante e indiferente. Uma mulher que concentre o seu magnetismo no olhar está para a beleza como o busca-pólos para o electricista: serve apenas para detectar a existência da corrente mas nunca garante a qualidade da ligação à terra. O segredo está no não-olhar, e no saber fechar os olhos, naquele fazer notar que a corrente está lá e é de quem tiver disjuntor para a apanhar.

3. A beleza feminina tem de possuir um nariz que se possa descrever. Tem de ter um nariz animal; um nariz que não consiga libertar uma metáfora zoológica jamais poderá decorar uma mulher bonita. Uma mulher com um nariz irrelevante, o melhor que tem a fazer é ir para dentro dum ringue de boxe procurando quem a salve.

4. A beleza feminina tem de passar com distinção o teste da confrontação com a transcendência. Uma mulher a rezar, expondo a sua alma ao criador, revela sempre se é um diafragma dorido ou um ventre carente. Mulher que não saiba rezar com dignidade, mesmo que seja a uma peça de carne de fumeiro, é como um tipo que só chuta bem de biqueiro.

5. Um item clássico da beleza feminina é a franja. O cabelo como um todo não interessa realmente; o relevante é a franja, e, mais especificamente: a franja soprada, nunca me cansarei de repeti-lo; se for preciso transformo-me até no único cabeleireiro não panasca do sec.XXI para cá dos Urais; (porque acho que as mulheres dos cossacos não deixam que qualquer um lhes toque no cabelo) neste momento até está uma gajita na esplanada a olhar para mim, e , só podia, tem uma franja que mais parece um repolho a escorrer antes de entrar para um cozido. Franja que, depois de soprada, não dispute a glória com um quadro do Hartung não tem qualquer hipótese.

6. Entramos agora em zonas mais sensíveis e que nem sempre nos são dadas a observar [estive para escrever contemplar, mas soou-me a balofo] A primeira é a curvatura das costas. A invenção da tábua de engomar foi das maiores perversões para as mulheres, mas não por causa do acto de passar a ferro, como seriam levadas a supor, antes sim pelas comparações geométrico-estéticas que se lhe possam fazer com a zona lombar. Mulher que não apresente um curvo perfil traseiro, digno dum fórmula matemática com dois integrais de mínimo, merece ficar a fazer contas de cabeça até inverter o malvado estereótipo.

7. A forma como os membros engrossam (leia-se pernas e braços) é determinante para a fixação do conceito de beleza feminina. O trajecto desde o cotovelo até ao ombro, e o do joelho até à anca, são circuitos decisivos para a mulher. Coxa e braço que não se mostrem ligeiramente musculados, irregulares, tensos, ansiando uma descarga de arqueiro, e se portem que nem tubos de ensaio, fazem com que a mulher possa ser bonita mas é no reino das cornucópias e dos damascos. A mulher bonita tem de possuir braço de operária, de camponesa. Roliços, arredondadinhos, querem-se os rolos de carne.

8. Finalmente tenho de terminar falando dos lábios (a voz e o pescoço levar-me-iam para terrenos pantanosos e instigadores de represálias). É talvez a zona constituinte da beleza feminina que tem dado azo a mais equívocos, certamente movidos pela carnalidade do desejo masculino. Basicamente a mulher tem de ter lábio, lábios, boca, tecnicamente falando. Não pode ter ali apenas um fiozinho que mais pareça uma linguiça sem graça, mas também não pode ter ali quase uma vulva fora do lugar. Cada coisa no seu sítio. O lábio duma mulher tem de ser algo sobre o qual o homem possa dizer: eu quando for transportado até ao céu quero ir deitado ali em cima e, quando lá chegar, algum anjinho que me diga: salta daí de cima rápido ó meu cabrãozito.

Mas não posso no entanto terminar sem deixar uma palavra de ânimo para aquelas (pouquíssimas, estou certo) que leiam isto e não se revejam no estereótipo aqui delineado. Não, não direi que a beleza não essencial, ela é de facto essencial, deixaria antes uma sugestão prática: arregalem os olhinhos, casem-se, pensem depois que o vosso marido é um Deus grego, apregoem-no mesmo, imaginem que as ninfas vos protegem, constatem que até a Calipso ficou a arder, e que haverá sempre algures um Dionísio que vos cante, mesmo que não haja Cupido que vos obedeça, Aquiles que vos embale, ou Hermes que vos aguente, ou excalibur afiada que vos ajude a desapertar o corpetezinho.
,Luna Park

“Existem dois tipos de pessoas: aquelas que dizem a Deus: ‘ Muito bem, assim será feito’, e aquelas a quem Deus diz: ‘ Está bem, então faz isso à tua maneira’.”

C.S. Lewis, ‘The Screwtape letters’, 1943
mundos de sonho (*)

Torii Kotondo (1900-1976), O cabelo pela manhã (pormenor). Japão, 1932 [gravura sobre madeira; tinta e pigmentos sobre papel, 43 x 27,2 cm], Smithsonian Institution, Washington D.C.

(*) Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Artroses mentais e outros problemas estereotipo-antropológicos

Um estudo publicado na revista Science terá concluído que ‘o desempenho feminino na matemática depende daquilo em que cada mulher acredita sobre predisposições e determinações genéticas ou sociais relativas a esta matéria’ (frase retirada do Público (6ªfª) – eu, desde que inventaram os raios laser, deixei de ler revistas científicas).

Afastando-me das piadinhas que se podiam construir à volta da matemática no feminino (vai-se ganhando um lugar no céu à conta destas pequeninas coisas) vou-me reter apenas neste conceito que é o ‘condicionamento baseado na crença em predisposições e determinações genéticas e sociais’. Dizer que a mulher está especialmente determinada por ‘aquilo que é’ + ‘aquilo que pensa que é’ + ‘o que pensa que os outros pensam que ela é’ dá obviamente uma fórmula de sucesso, apesar de ser duma banalidade confrangedora, e algo recorrente. Se eu me puser a pensar que sou piloto de fórmula 1 e pedir à minha mãezinha que mo repita três vezes seguidas olhando para a fotografia do primeiro banhinho, e além disso for multado a 237 km/hora e me descobrirem uma ligação especial entre a tíbia, o cólon diverticular, o ligamento que tricota a rótula, a espinal medula e o neurónio 5.3, nunca mais ninguém me tirará da cabeça que sou uma vocação perdida das pistas.

Mas, de facto, a mulher parece mais filiada numa corrente de condicionamentos cruzados do que o homem. É nitidamente mais sofisticada a condicionar-se, consegue mesmo transformar uma sequência de limitações numa perpetuação de psicologismos antropológicos. Aplica-se-lhe sem margem para dúvidas o que P. Johnson diz no final do texto sobre Brecht: «veiled her mind cunningly» (a).

O mecanismo da ‘percepção do estereótipo’ é uma espécie de pescadinha de rabo na boca em qualquer análise pois nada melhor que um bom sistema de crenças para tornar a antropologia num sudoku de paradigmas; tanto estudo sobre o feminino só nos servirá para crucificar ainda mais aquela costela rebelde. Eu penso que antes de se fazer mais estudos sobre homens e mulheres deveriam sempre experimentar primeiro com ratos, pois tanto a fêmea como o macho apresentam o bigode sem complexos (ou não?…).

O homem, aquele ser básico e previsível, espécie de bico de Bunsen que se movimenta sobre um tripé simples de esquemas mentais, poder-sexo-cerveja, aparentemente não tem hipóteses de se refugiar nas cordas desse violino do estigma e enrodilha-se na álgebra dos grandes números: quanto menos incompetente melhor, mas, no limite, a partir de certa altura, apenas estar por tudo para que não se perca nada; fixou-se no modelo recolector e daí não saiu. O homem quando é usado para testar a ‘consistência dos estereótipos’ revela-se pois quase sempre mais enfadonho que os ditos. Deixou por isso de ser objecto de estudo ao apresentar um espectro ainda mais reduzido que os menus de bitoque: ou são ‘à casa’ ou são ‘do lombo’.

A mulher, essa sim, é a tal viciada em se deixar condicionar, a sublimação pavloviana, desde o modelo mais Victória Beckamizado quando diz «I love all that benefits my body shape» até à Shakespeariana MacBeth em «when Duncan is asleep (…) is two chamberlains will I with wine and wassail so convince that memory, the warder of the brain, shall be a fume, and the receipt of reason a limberick only»(b) [género, embebedamo-los e limpamo-lhes o sebo como quem pinta as unhas]. Sempre umas queridas a condicionarem-se, essa é que é essa, e sem precisarem de fazer muitas contas. Se calhar lá vou ter de começar a ler outra vez revistas científicas por causa da depilação; a laser, claro.

(a) ‘The Intellectuals – Bertold Brecht: heart of ice’; (b) ‘MacBeth’ acto I, cena 7

E agora, Mme, é só escolher uma fotografiazinha a condizer, ifitsnotamaçade.
quiz
Param, scutam e otam, mas o comboio já passou há que tempos.

João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, remata um post com a frase-trocadilho sobre a esquerda portuguesa, caracterizando-a como ‘persiste sinistra’. Literariamente feliz, mas julgo que acaba por valorizá-la em excesso. A esquerda (primeiro em regime de clandestinidade e depois de pós revolução) produziu, de facto, em Portugal, o único político de eleição depois de Salazar, que foi Soares, (Cunhal daqui a uns anos ficará apenas como um sofrível desenhador a carvão) mas de resto apenas alimenta, na regra, o que foi mantendo colado com cuspo ao longo dos anos: o intelectualismo bafiento (em média sempre mais fraco que a vida intelectual da direita - que evoluiu para mais aberta, mais culta e mais actualizada – e alinhavado numa cozedura arrastada), o tecnocratismo anedótico (sempre a meio caminho entre a incompetência, o almanaque e a flacidez - e nunca focado como o da direita- apenas babando reformas como quem palita os dentes), e o burocratismo verborreico (comprado em promoções nas escolas internacionais que vão rodando ciclicamente a moda socialoide)

Sócrates tenta encher o peito de ar , mecanizar o discurso, (analisou o inenarrável Guterres, o insuportável Vitorino, o amorfo Constâncio, o vazio Coelho, entre outros que pouco contam, e tenta fugir-lhes) mostrar que não é desse campeonato, e que poderá levar o rebanho rosa pelo menos a pastar num atmosfera mais arejada. Julgo que não vai lá. Vestem melhor, lêem autores mais cosmopolitas, sufocam sofrivelmente as asneiras mediáticas, clintonizam e blairizam, mas não dá para alegrarem. Ter como comparação as recentes ‘buchas’ da direita Barroso&Santana apenas chega para enganar a fome. Na média, a esquerda em Portugal não atrai os melhores. Sociologicamente é mais pobre. Mas como o país é Portugal, dá para governar. Persiste sem vista.

(e continuo sem perceber como se põem links nesta coisa…)
naif de ponta e mola

Eu sou daqueles que ainda achou que o bush não podia ser tão tolo assim (mesmo quando me escarrapachavam as gaffes na cara), eu sou daqueles que pensou que Blair tinha algo por detrás do sorriso ( mesmo que agora até se tenha convertido aos preceitos da santa madre igreja, deixando os ingleses a hesitar entre um sucessor mais cockney ou uma mais posh - pois acho que não há fox terriers, nem after eights disponíveis) , eu sou daqueles que acho que a Segolene vai ganhar porque o Laurent fabius dá muitas parecenças ao mega ferreira, eu sou daqueles que não se importa que a maria joão pires tenha levado os bemois para o brasil, mas não sabia que a contrapartida era o sustenido buarque não nos largar a peúga, eu sou daqueles que ainda hoje dou graças todos os dias pelo dia em que o peseiro bazou dos lagartos, eu sou daqueles que ainda gosta de saramago, apesar d’ele não conseguir descrever sopinhas de leite condensado tão bem como o rodrigues dos santos, eu sou daqueles que ainda achou que o prado coelho não tinha nenhuma doença venérea ( leia-se veneração desmedida a ideias parvas), eu sou daqueles que nem percebi porque é que se trocou o santana das revistas do coração pelo filósofo da co-incineração, eu sou daqueles que acha que mais vale uma Ana Karenina na mão do que duas Medeias a voar, eu sou daqueles que grama o deleuze e o paul johnson ao mesmo tempo e sem precisar de barrar com canesteen, eu sou daqueles que tanto se me dá uma taxa moderadora como uma boa trancada nos benefícios fiscais, eu sou daqueles que encontro deus mais próximo dum trocadilho herético do Samuel, do que de duas dúzias de pensamentos do Pascal, eu basicamente sou daqueles; não sei se estão a ver.
Don Cavacon

José Pacheco Pereira, master franchise da ‘lei de gresham’ para o segmento da blogaria, explica hoje no público como o bom blog deve expulsar o mau blog.
quiz
‘Um’ homenage aos poetes que muite me proporcionaram’

Sim, o nosso Ramalho Eanes também foi proporcionado pelas bênçãos da ‘brisa fresca’ das palavras em degrauzinhos e vai ter a sua recolha de poemas publicada na série do Público. Ora constar que alguém foi proporcionado é algo que me deixa roído de inveja, é verdadeiramente o meu sonho. Trata-se dum verbo riquíssimo de conteúdo e até de uma morfologia léxica bastante envolvente (assemelha-se mesmo a um motor a dois tempos sem estar afogado em óleo). No fundo, aquilo que todos procuramos na vida, qual asterixes, é a verdadeira proporção mágica: sabermos o peso, conta e medida da parte do mundo que nos cabe e a parte onde devemos caber, (mesmo sabendo, claro, que temos um coraçãozinho do tamanho do mundo, e unhas dos pés enormes se não as cortarmos, e pêlos nas orelhas - os homens por cauda dos tais genes holândricos – e mais uma enorme gama de etceteras de todos os tamanhos e feitios, incluindo fogagens na testa por causa da merda das azeitonas; acho). Em geral – tirando as fases mais sôfregas (abençoadas) - estamos conscientes que ‘os bois se comem às postas’ ou seja, por porções, e que daí deriva uma das características da nossa condição (zinha, também, nos dias de lua nova): irmo-nos fazendo. Muitas vezes ‘vão-nos fazendo’ também, mas isso é uma expressão que tem ganho um cariz duvidoso e por isso afastá-la-ei da análise deste maravilhoso mundo do proporcionalismo científico. Quando algo nos é assim proporcionado deveríamos por inerência passar a ser pessoas proporcionadas, expressão também ela algo ambígua pois remete-nos para imaginários de músculos bem desenhados e/ou formas bem esculpidas (digo imaginários, porque neste preciso momento nada se me passa, neste capítulo, fora do maravilhoso mundo da imaginação); mas isso nem sempre acontece, pois receber uma boa porção por vezes não é acompanhado do devido processo da sua incorporação eficaz neste todozinho querido com que nos pavoneamos mais ou menos alegremente, e muitas vezes não passamos de dentaduras postiças com pernas a querer partir nozes (que também dá para plural de ‘nós’ neste enquadramento antroplogico-semantico-trocadílhico, note-se). Vocês já não estão a acompanhar isto, eu sei, não sabeis aproveitar estes momentos únicos que eu vos podia proporcionar, mesmo não fazendo parte da antologia escolhida do nosso Eanes. Sim, nosso, se há algo que eu considero verdadeiramente nosso património, é o nosso Eanes, (ali entre a barragem da Aguieira e a cozinha do mosteiro de Alcobaça) alguém que a revolução nos proporcionou, lá está, algo que as forças armadas nos deram sem exigir continência, (um bocadinho de abstinência, vá lá, mas também nada que não se remediasse com umas cervejitas e umas anedotas porcas) uma gracinha no fundo. Hoje, em modus absurdus, penso: que bons tempos nos proporcionastes, ó Ramalho, e que a poesia te continue a proporcionar também. Como diz o Timshel (*), o que é preciso é equilíbrio e fio condutor (mas esqueceu-se que, se a corda estiver muito bamba, ainda podemos saltar com ela). A proporcionalidade à dignidade dos altares, é o meu desejo, Manelinha volta estás perdoada.

(*) http://timoteoshel.blogspot.com (não sei por links nesta coisa).
my pleasure
We have no more forgiving’s

Teremos desculpa para não sermos felizes? Teremos tudo para ser felizes? Seremos mais desperdiçadores que acumuladores? Teremos mais olhos que barriga? Andaremos na berma sem ver a estrada? Quando Montaigne nos ‘Ensaios’ cita Propércio em «a hera cresce melhor se espontânea, o medronheiro nasce mais belo nos antros solitários e o canto dos pássaros é mais doce sem artifício» (a) estará a instigar-nos a forçar o olhar para a vida e para o mundo sem arte e sem ciência? E sem Revelação? Apenas Sol e lambidelas de cão? E sem amores bem construídos, desenhados para durarem, sejam ele mais erotizados, ou mais agapezados, ora mais água-pesados & acastanhados já agora!?

Não acredito na ‘simplicidade’ do mundo, não acredito em labirintos fora da literatura e das galerias de arte, não acredito na mulher sem beleza, não acredito na mãe natureza, não acredito numa filial sem sede, não acredito num Deus totalmente não intervencionista, não acredito numa taxa sem spread, não acredito numa gaiola sem alpista, desconfio do dedo do gastroentrologista, estou a forçar alguns descredos, concedo, mas, mesmo até quando um dos máximos e longínquos poetas chineses, Du Fu (séc VIII), nos avisa que ‘onde vejas poucas pessoas tem cuidado ao aproximar-te, mas ali onde vejas muitos tigres poderás passar’, eu prefiro antes um homem tecnológico, ambicioso, ofegante nos seus sentimentos, preso à pele, preso à culpa e à redenção, ao deslumbramento e à desilusão, ao esquecimento e à memória, à ruína e à glória, alimentado através da grade ou refém da saudade, do que um homem apenas preso à liana, à areia fina, enternecido em boas vistas, e tão temente aos Deuses como aos parasitas; e, pior, como diz Petrónio no Satiricon, mesmo que embebido em hedonismo, ‘não há nada mais estúpido do que a fingida austeridade’. Não, não temos desculpa para não sermos felizes, só temos desculpa para chegar atrasados, mas todos os dias são dias bons para que possamos dizer ‘não sabia que a vida podia ser assim’(b) e para não nos esquecermos que fomos avisados na parábolas dos talentos que ‘ao que tem dar-se-á e terá em abundância; mas ao que não tem, ser-lhe-á tirado até mesmo o que tem’ (c).

(a) em I, 31 ‘dos canibais’

(b) de J. Sapinho, citado no ‘Y’

(c) Mt 25, 29
“multiflash indian club”
Summa Taralhógica

Antes da criação do mundo tudo se resumia a uma arrobazinha palpitante. Deus, cansado de tanto acto e de tão pouca potência, disse à arrobazinha: ‘ó tu, faz-te à vida, não sejas taralhoca e espreme-te bem!’ Ela hesitou e de que maneira: «farei um hula hula ou uma habanera…mas antes que Ele se zangue, vai antes um big bang». Dito e feito, ao sétimo dia já era um fartote, e se não fosse o céu um dilúvio mijar, e a torre de Babel a empinar-se no ar, hoje Sodoma seria a nossa feira popular. Vai daí, todo o ser que se pudesse genuflectir sem ganhar muitos calos, nem bolhas nos pés, foi incorporado num pelotão de robinsons crusoes, sem ilhas nem sextas-feiras, com a alma em ferida, e à cata duma terra prometida. Mais Salomão, menos David (que até rimava com pevide, mas não estou para aí virado) chegou-se ao momento em que a metafísica meteu os pés pelas mãos e o Criador achou por bem vir ver pessoalmente em que estado se tinha transformado a arrobazinha palpitante. Apanhou-a entalada entre umas falácias e uns deboches, já tinha sido enfernizada e não tardava a fazer de salada. Havia que intervir: já eram deuses a mais para um Olimpo entretanto encafuado num subúrbio, vendilhões com a banca a meter água, muito Pilatos a querer lavar as mãos, muito fariseu a coçar a pança e muita Salomé com fome de dança. Tudo espremido: entre o bom ladrão e o mau ladrão, a ocasião fez a redenção. Veio depois a fase da dúvida entre o mortal e o venial, entre a graça e a vontade, do infiel e do leal, a virtude deixou de estar no meio, acabaram-se os milagres, e veio o domínio do paleio. A arrobazinha estava cansada, olhava para trás e pensava: ‘tenho que pôr mão nisto, pois se nem mesmo tendo sido o próprio Deus visto e revisto, como é ainda possível tanta genuflexão e tão pouca contrição?’ Estava demonstrado o exagero da explosão, não tinha sido a melhor opção, «olha Criador, rebobina, desfaz as regras da causalidade, põe tudo ao molho e faz como eu te disse: cozido à portuguesa, águas quentes e frias, chantilly com framboesa, e período fértil só de três dias».
Luna Park

“Os detalhes da sua incompetência não me interessam.”

Miranda Priestly, in “O Diabo veste Prada”, 2006
in fabula
No país dos flippers encantados

Foi numa manhã chuvosa, daquelas em que Lisboa faz por imitar outras cidades europeias, que MSTavares® , CPCorreia® e MRPinto® se reuniram como sócios fundadores da Liga dos Amigos dos Plagiadores Não Anónimos. Estavam bem dispostos, contavam anedotas do Sala uns aos outros, pois estava-lhes vedada a piadola original de improviso, e a discussão previa-se desde logo acesa em torno do primeiro artigo dos estatutos: «Será considerado plágio acima das três palavras iguais, ou serão precisas quatro?» MST, que tinha vindo do tratamento dum processo de negação, estava bastante liberal «acho que desde que se mude o título e os agradecimentos finais já deve ser aceite», MRP parecia algo confusa e afirmava que só deveria ser admitido um plágio que fosse descoberto antes das 11 semanas, e CPC, ainda a braços com um processo que tinha instaurado à Microsoft por se lhe ter encravada tecla e o rato no copy paste, afirmava que para o plagiador tinha de haver explicação científica e ela achava que era tudo por causa dum gene que também aparecia numa osga escarlate da Nova Guiné.

Havia no entanto assuntos de expediente a tratar e tiveram de se deixar de divagações programáticas. Tinham à frente a ficha de inscrição de MFMónica® , que apresentava como justificação o facto de nas suas memórias ter copiado um acontecimento da biografia da gina lolobrigida em que esta beijava a nuca dum nadador salvador e pintor simbolista que a tinha safo (mitologias à parte) duma patuscada de piranhas num riacho da Sardenha. Parecia-lhes um plágio consistente e até decidiram convidá-la para tesoureira porque tinha ar de boas famílias e um espírito muito aberto. O boletim de EPCoelho® já lhes parecia menos convincente porque se acusava de ter usado uma estrofe inteirinha de Paul Valery, com vírgulas e tudo, para fazer uma tese sobre o papel da rebentação das ondas na poesia não masturbatória de florbela espanca, mas MST defendeu-o porque tinha sido esse Valery que lhe tinha aberto os olhos no tratamento, quando escreveu ‘Le meilleur ouvrage est celui qui garde son secret le plus longtemps’. MRP já não estava a acompanhar a conversa e saca do boletim de inscrição de Sócrates que vinha assinado por Cavaco e dizia: «porra, mas este tipo nem um sorrizinho, nem um safa, nem uma fatiazinha de bolo rei, nem nada» mas os outros responderam que os políticos não podiam entrar na Liga porque: uma coisa era plágio, e havia que preservar a sua dignidade própria, outra coisa era o ‘lêem todos a mesma cartilha’ e para isso até já tinham de pedir autorização ao João de Deus e ao Armando Vara.

Já se estava a fazer tardinha, e a MRP mostrava-se inquieta porque tinha de ir para o cabeleireiro escrever o seu próximo romance, (a pedicure acho que fodia às quintas com um tipo que era contabilista) quando aparece inesperadamente o boletim de VPValente® reconhecendo que já tinha escrito vários artigos depois de ouvir um tipo no Speacker’s Corner que era viciado em Bourbon com capilé. Nesta altura tiveram forçosamente de definir bem a fronteira entre cópia e inspiração, e MST disse peremptoriamente que tudo se jogava na alma do plagiador: a inspiração é uma fragilidade do inconsciente, um plagiador sério não finge interpretar, não conjectura, não circunstancializa (MRP nesta altura já não acompanhava outra vez e pensava em fazer umas madeixas como as da joni mitchell) isso é para o crítico literário, para os decoradores de interiores e para os tipos que escrevem editoriais nos jornais; CPC ia-se desvanecendo com o derramamento dum intelecto tão viril e questionou se podia usar aquela frase dele num artigo sobre as semelhanças da fotossíntese e do trajecto da seiva elaborada na bolota e no musgo da pantagónia, mas ele até se indignou porque num plágio em condições nunca se deve pedir licença, isso é o plágio apanascado. Mas estava mesmo a ficar tarde, o lusco fusco já lhes toldava as ideias, e nem sequer a ficha de inscrição de VGMoura® a confessar que tinha posto uma frase do Racine na tradução dos sonetos de Shakespeare e que ninguém tinha notado, os fez prolongar a sessão inaugural da Liga, e lá foram todos jantar para um daqueles restaurantes onde não vai ninguém, ali para a bica do sapato.
‘Lacedemónios dissolutos e Tebanos entretidos’

Demóstenes falando aos atenienses e chamando-lhes à atenção de como tinham deixado espaço à prepotência de Filipe da Macedónia (pai de Alexandre), a certa altura dizia que o povo ‘já se ia dando por muito satisfeito se fosse repartindo entre si os fundos dos espectáculos ou organizasse alguma procissão’ (*)

Ontem, como hoje, e aparentemente como em muitos amanhãs, a sobrevivência do ‘poder’ vai de mãos dadas com a decadência da ‘cidadania’: fundamentam-se ambos numa cirúrgica distribuição de mordomias e numa criteriosa prática de liturgias.

E com cada vez menos Bastilhas para tomar, as mais nobres e desinquietas almas vão soçobrando nas revoluções dos plágios, nos arredondamentos das taxas de juro, na legislação do ciclo menstrual, nos financiamentos de pérolas do atlântico, na regulamentação das boas práticas gramaticais e nas dores dos procuradores.

(*) da 3ª Olintíaca (ed. Espasa Calpe)
Liguem o exaustor

O mundo, desde que descobriu que a «acrilamida se forma durante a fritura, a cozedura no forno e os assados em condições de alta temperatura e baixa humidade», nunca mais foi o mesmo. A busca de culinárias alternativas tem levado a espécie aos maiores horrores, e tem inclusivamente afastado a mulher da cozinha, deixando esta ao abrigo de infestações de homens que agora chegam a dizer «eu relaxo muito a cozinhar». Ora homem que relaxe a cozinhar merece bem que a acrilamida se lhe enfie pelos interstícios da masculinidade que nem um peróxido de carbono amestrado. E isto tudo para vos contar que se está a perder o encanto pela fritura. Repare-se que qualquer dia, estejamos à beira do apocalipse final, ou da reeleição do sócrates, ou de mais uma quadratura do círculo, ou de outro livro do MST, queremos aliviar da desolação da pátria e da diarreia de convicções apregoadas em que vivemos, e apetece-nos dizer que estamos todos fritos, e, já nem sabendo o que isso é, acabamos a desabafar: ‘estamos todos ao vapor!’ Por favor! Esta chapsoisização dos costumes, em que tudo deve vir servido entre rebentos de soja e molhinhos de ranho de gato leva o género humano a esquecer-se que é no óleo da fritura que se devem tratar os grande assuntos da humanidade, ali a borbulhar que nem mártires cristãos, e jamais ao vapor ou no carvão, e muito menos na pedra (até por causa das costas, mas agora divaguei, reconheço). Tenho agora até de vos confessar que me perdi completamente no tema disto, mas realmente o que me trouxe aqui até foi ter visto ontem um quadro que está no Louvre dum tal Lorenzo Lotto (séc. XVI) em que Jesus aparece com a mulher adúltera mas apresenta um arzinho todo penteadinho e anafado, pá, ou põem Jesus com um ar esquálido, distante e sofredor ou eu começo a dar borlas a budistas em três tempos, ou a ler o Tao da Física, e isto para já nem falar que a Agustina tem um livro novo, e parece que nem é plágio nem nada, assim nem tem piada (o ‘mil folhas’ diz que’ para ela tudo é pretexto’- a última vez que me disseram isso até amuei). Bem passado, please, com o Pulido valente a cavalo, e a ferreira alves num pratinho à parte, até porque o ramalho Eanes também tem um livro de poemas de cabeceira, já só falta o Macário Correia. Mas limpem bem a porra do filtro, foram as últimas palavras de Dante antes de sair do purgatório.
b&w