The dark side of the wool #10

Por mais que a lã seja tingida nunca impedirá que a pele acabe curtida.
The dark side of the wool #9

Um tingimento deficiente só se corrige com um tingimento ainda mais escuro e profundo.
The dark side of the wool #8

Uma boa depressão também pode ser alternativa a uma vida demasiado engarrafada.
De rerum fartura

Há pouco ouvi na televisão : «sou sportinguista de gema e belenenses do coração». A chamada paixão da bola revela-nos assim inesperadamente os meandros mais recondidos do Real, que filósofos ao longo de séculos se esmifraram por catalogar, decifrar, montar e desmontar numa infindável bricolage. É pois nesta distinção entre ‘Gema’ e ‘Coração’ que radicam as grandes fracturas do Espírito e seus pontos de ligação com a Matéria.

A Matéria é una e indivisível, despolarizada ( tirando aquela invenção chamada electricidade, que, como sabemos, é apenas uma das brincadeiras da divindade) e precisa visceralmente da tensão existente entre estes dois pólos do Espírito para se libertar da grande masmorra da inércia, da atracção universal e dos pirilampos mágicos da física quântica.

A ‘Gema’ constituirá a parte do espírito responsável pelas pulsões mecânicas e de tendência repetitiva enquanto o ‘Coração’ está ligado às pulsões de registo errático e imprevisível. A Matéria, colocada desde o momento genesial no meio destas duas fontes de movimento e tremideira, oscila entre o esgazeamento e o espasmo e vai alcançando os seus melhores compromissos nos dias em que o espírito tira umas horas para ir à bola e comer uns coiratos.

Geralmente, numa primeira fase, a ‘Gema’ afeiçoa-se às partes da Matéria mais ternurentas e calmas – género pôr’s do sol e bébes a bolsar - enquanto o Coração fica com as partes do real mais turbulentas e instáveis – género lampiões em crise de identidade e digestão de leguminosas. Segue-se o momento em que a ‘Gema’ enfarinha um pouco e fica atraída por movimentos do Matéria mais entediantes – género preliminares e lord byron – e o ‘Coração’ se aproxima dela via a ligação a realidades sensorialmente amorfas – género brincos de argolas e abstraccionismo kandinskyco

Este mero vislumbre da possibilidade duma proximidade entre a ‘Gema’ e o ‘Coração’ (dá-se ali algures entre Alcântara e a Penha de França) serve de propulsor do novo movimento efervescente dos dois constituintes primários do Espírito. É a vez da ‘Gema’ se colocar novamente junto das partes mais extasiáveis da Matéria, enquanto o ‘Coração’ se encaixa em entardeceres e festinhas no cabelo. Note-se, e nem é despiciendo, foi também à conta deste mecanismo de ir e vir que se descobriram as possibilidades dos motores de explosão e o percurso migratório das andorinhas e dos espermatozoides, e será alguma irreverência da Matéria face às instruções destas madrinhas da espiritualidade o que explicará neuroses dispersas, desgostos de amor e das restantes vias urinárias .

‘Gema’ e ‘Coração’ convivem assim desde o início dos tempos neste babysitting da realidade material, fundando de forma subtil toda a representação na mente e mobilizando a evolução Metafísica desde a Essência aos Passarinhos Fritos; não fora pois a tão maltratada paixão da Bola e permaneceríamos reféns dos espartilhos de aristóteles & kant, e jamais poderíamos descobrir que umas Farturas comidas na beira dum carrocel são tanto filhas duma Gema e dum Coração como duma margarina e duma fritura.
Post patrocinado pela Hoyo de Monterrey

Um dos discursos mais enternecedores é aquele que nos informa que toda a análise Ética teria de ser feita isolada do mecanismo religioso, leia-se: como se Deus não exista – ou, género, ‘exista Ele, ou não’.

Ora hoje é um dia litúrgico marcado pelo mais precioso dos absurdos, celebra-se o Espírito Santo, uma das pessoas daquele parnaso teológico chamado Trindade de Deus. Essa espécie de António Damásio da divindade, fórmula mágica que Deus arranjou para salvar da heresia todos os imanentistas com bom feitio, e dar uma réstia de esperança aos cépticos encartados é, sem margem para dúvidas, um dos elos poéticos desta caldeirada que se dá pelo nome da Criação.

Sabendo que o homem se haveria de enredar nesse novelo moral chamado ‘O bem, o mal e o assim assim’, Deus tinha de encontrar uma terceira via que continuamente fosse pondo água na fervura que são as relações entre Pai e Filho, e que todo o santo dia se emaranha pelas paredes da alma de qualquer crente- fora aqueles momentos em que fuma um charuto em condições como é o caso.

O Espírito Santo é uma espécie do Deus Moral-free, existe para nos iluminar, esclarecer, ir dando umas abébias, e permitir que vivamos num karma oficioso, que nem budistas mas sem medo de ter piolhos no cabelo.

O silogismo definitivo e resumido é este: o pecado é um instrumento do perdão, o perdão é um instrumento de Deus, logo só há pecado se existir Deus, logo só há bem e mal se existir Deus; sem Deus isto é um interminável assim assim, filho de rasuras em Contratos Sociais e birras de Leviatans. Sem Deus, não há um único raciocínio ético que não possa ser desmontado com outro equivalente, toda a Ética será uma mera gestão de culpas e não agressões, com mais ou menos castigo, estará entre o capote a sacudir-se e a máxima rentabilização dos direitos de autor.

O cristianismo – querendo aqui significar apenas a ‘revelação religiosa’ feita por Cristo – funda , de facto, uma nova relação do homem com Deus, e deixa-o mais livre para se relacionar com Ele e com o mundo. Se nos afastarmos da condicionante histórica ( o médio oriente, os judeus, o paganismo, o império romano, etc), constataremos facilmente que a sua grande novidade é esta: Deus está dentro de cada um de nós e entranha-nos por essa fórmula mitigadamente cartesiana: penso, logo sou filho de Deus. O Espirito Santo, deliciosamente colocado num olimpo poético-exegético, demonstra que a moral é filha do casamento entre a fé e o pensamento. E também me dá boas indicações de que o novo disco dos The National é, de facto e imanentemente, bastante bom.
Socialismo nos tempos sem cólera


Quando veio a tal revolução dos cravos, alguns mais avisados – na altura também chamados de fascistas - sabiam que se haveria de pagar um preço. Nesse cabaz da democracia estariam os novos armandos varas, as felgueiradas, as quarteiras, as argoladas pinho & lino, sa, os condes Andeiro da 3ª geração, os financiamentos obscuros dos partidos, o eduquês, a parlamentarite, a demagogia em vez do desaforo, a desvergonha em vez da sobranceria, o elitismo bacoco em vez do bolorento, os dedos em riste e os institutos para a prevenção rodoviária. Teríamos uma adaptação lenta, dolorosa - mas sempre atenuada com a boa desculpa «ainda somos uma democracia recente» - alimentaríamos incompetentes com o nosso voto, vasculharíamos dicionários à procura de significados alternativos para ‘representatividade’, e os neo-jacobinismos teriam direito a andar de mão dada com os manás em forma de igreja. Ora o que acho é que não estariam à espera de, nesse mesmo país, e alguns anos depois dum desenhador de piadas ter alegremente posto o Papa com um preservativo no nariz, um gajo qualquer tivesse um processo disciplinar por causa duma piada privada em torno dum soberanete socialista - que, de facto, terminou um curso universitário às três pancadas e adornou currículos - a quem o povo pôs a render numa esquina da história.
showoff
The dark side of the wool #7

E um dia a ovelha, cansada da tosquia, reparou que afinal a sua lã era toda tingimento.
chalassoterapia


Esta coisa de ainda nem termos conseguido chegar a 12 candidatos para uma câmara falida e dos professores andarem a contar anedotas sobre o Nosso Querido e Virtuoso Primeiro tem-nos desviado do verdadeiro tema que importaria no momento: Isabel Figueira foi trocada por Cláudia Vieira nas campanhas da Triumph. E tal merece uma análise tão detalhada quanto aprofundada.

Aparentemente tudo poderia ser apenas resultado do enlace matrimonial (e sequencial multiplicação celular) que Isabel estabeleceu com o ex-jogador do FCP César Peixoto. Convenhamos que coabitar e partilhar canalizações, estores e ácaros com alguém que tem tanto de ‘César’ como de ‘Peixoto’ poderá efectivamente criar nervoso miudinho e crises de posicionamento civilizacional em qualquer mulher que seja hormonalmente activa e selectiva, e assim lhe prejudicar irremediavelmente as formas e a tonalidade da pele; mas, por outro lado, Figueira ficaria sempre a perder para com outra moça que apresentasse um nome de Rainha, mesmo que seja apenas do Reino das Ameixas e que, para além disso, tenha ainda um rabo visto por uma quantidade inferior de mirones. Quanto ao apelido biválvico de Cláudia, ele faz, como sabemos, uma parte importante do imaginário nacional: um povo que sempre quis ultrapassar a fase de mexilhão, mas apenas o alcança metaforicamente.

Poderia parecer que eu estava a perder tempo com uma frivolidade e ainda para mais a aproveitar-me do efeito fácil de graçolas que envolvam o estatuto curvilíneo e erótico da anatomia feminina, que, isso sim está por esclarecer, não se sabe se deverá mais à selecção natural se ao intelligent design. Mas não. As campanhas da Triumph são um indicador sintético e conclusivo sobre o estado da sociedade portuguesa.

Ora em plena fase da tanga e da reduzida vida para além deficit, o país precisava duma Isabel Figueira; de alguém que transportava uma árvore amaldiçoada no nome, mas que conseguia, à base de pose, e da rentabilização da falta de chicha, recuperar o ânimo e mesmo convencer-nos que esse estado underwearico porque passávamos era uma bênção. O basbaque anestesiante fazia parte integrante do quadro sociológico.

Hoje não. Hoje somos um povo esclarecido, moderno, tecnológico, ciente das suas capacidades, e que, perante as adversidades da globalização, do aquecimento global, e dos certificados rasurados, não claudica. Cláudia é pois a nossa imagem. Escultural, robusta, com uma sinuosidade alicerçada em medidas estruturadas e reformistas. Não será uma Cardinale, mas Isabel também não era uma Pantoja. Hoje, tal como a mulher portuguesa já venceu o estigma do gordinho e baixinho, já pode interromper a gravidez como uma menina culta, crescida e asseada, já pode ser uma heroína do triatlo, contar anedotas porcas e ler a anais nin sem que lhe chamem cicciolina, Cláudia representa esta nova libertação: desistimos de ser bonitos, basta-nos estar convencidos.
Com tempo vamos ao tremoço

É evidente que Deus não existe. Primeiro, porque o conceito de existência é algo estafadíssimo e extraordinariamente aborrecido, segundo, porque não é tributável ao ser incompatível com a condição de sujeito passivo, e, terceiros, existir é coisa para pobres de espírito. Dizer-se que é ‘puro ser’, ‘puro acto’, serão meros expedientes metafísicos que, desde filósofos mais desempoeirados a floristas brejeiras, já desmontaram até à exaustão às respectivas freguesias. Por outro lado, Deus, como mera construção da nossa mente, é um conceito bastante atraente e mesmo empolgante se estivermos com a adrenalina no ponto certo, e a bexiga sem atrapalhar. Naquele processo de passagem do homo faber para o homo sapiens acho que nos faltou um bocadinho de calma, dá ideia que saltámos do ferro fundido para os banhos turcos sem ter pelado o rabo todo. Ou, se quisermos, podíamos ter passado de Aristóteles para Kant sem ter passado por S. Tomás de Aquino. Justificar a presença de Deus na nossa vida e no mundo, muitas vezes, é querer explicar o valor duma meloa começando pela inexplicável presença das pevides. Mas Deus, para se levar bem, precisa, de facto, dumas cervejitas. Nunca nos esqueçamos que o primeiro milagre canónico está intimamente ligado a uma fermentação.
The dark side of the wool #6

Ser incompreendido produz alguma frustração, mas compreenderem-nos também pode ser uma canseira.
Conto do gajo que escrevia contos mas contos mesmo dos bons

Ele estava indeciso se tinha sido a frase «foda-se, que escreves bem como o caralho» que o tinha feito nascer para a escrita, ou se tinha sido mesmo aquela aposta com o gajo da bomba de gasolina em como foderia a miúda da papelaria muito antes dele conseguir escrever um conto que fosse, mesmo daqueles em que a palavra cona aparece três vezes antes da palavra conspiscuamente, ou mesmo excentricidade ou promiscuo. Mas aparentemente a vocação da escrita tinha-lhe sido mesmo revelada durante aquilo que posteriormente ele haveria de apelidar como acto de tendências sexuais, mas de consequências sociológicas. A paternidade incógnita conferira-lhe um conhecimento da natureza humana que apenas tinha experimentado de forma superficial aquando da relação passageira com uma enfermeira geriátrica que o chamava de «minha jugular assanhada» e lhe pedia mordidelas em locais que eram desconhecidos até aos mais experientes e dedicados crentes e contorcionistas de religiões orientais praticadas em zonas de rarefacção de oxigénio. Poderá mesmo dizer-se que era um escritor que tinha brotado daquela mistura explosiva de luxúria, convicções, escrúpulos e uma circuncisão praticada de forma efusiva. O seu primeiro enredo veio inspirado obviamente do seu primeiro coito reprimido. Qualquer ficcionista que se preze é filho duma vulva que se lhe fechou sem especais cumprimentos nem remorsos. O sucesso sexual por si só apenas produz estivadores e gestores de empresas, a escrita fluente e teledirigida precisa como do pão para a boca duma foda mal dada, ou duma cona completamente desencontrada, não chega um «para isso tinha ficado em casa», não, um «para isso tinha ficado em casa» apenas produz paneleiros e outros amantes da bricolage. A amizade que estabelecera com gente das ciências experimentais afastara-o felizmente das grandes questões da humanidade, e permitira-lhe o feliz encontro com uma bioquímica que tinha feito fortuna a gamar átomos de carbono às moléculas de glicerol e a traficá-los com uma nutricionista em Ayamonte. Fizeram uma sociedade para trazer confiança sexual a portadores de rabos flácidos, tendo ele obtido experiências de estrangulamento pelas vias posteriores, que acabaram por lhe render dois best sellers e três enxertos de porrada. Era uma vida saciada a conduzir uma escrita periorgásmica, género realismo mágico mas com mais corrimento. Descreveu mentruações que pareciam excursões pelo Nilo, ganhou um prémio em Nova Deli pela melhor desfloração em plena selva tropical, e a Ski news entrevistava-o de cada vez que metaforizava com a boca do inferno ou as paisagens da Anatólia. Chegou a descrever sentimentos no dia em que lhe morreu um cão, mas rapidamente lhe começaram a aparecer triângulos invertidos nas entrelinhas. Foi avô aos quarenta sem ter conhecido o discreto sabor da mão ginecológica, mas só conseguiu escrever o seu primeiro livro infantil à quarta tentativa, e, mesmo assim, o capuchinho vermelho acabou a fugir à pressa pela porta das traseiras.
All & But (*)


Apresento-me aqui na obrigação de escrever algo sobre os lagartos, mas acabo de ler que vinte e três lotes de Halibut foram retirados do mercado. Hesito. Ou falo de Miguel Veloso, ou falo da maravilha da Grunenthal. O meu coração e a minha virilha entram em súbita competição para ver qual fala mais alto. Vai ficando inclusivamente mais distante o grande texto canónico que hei-de escrever sobre Helena Roseta, e que será certamente um momento everéstico deste blog. Deus me dê saúde, como diria o nosso Santana Lopes, ou rigorosamente a não perder como diz o nosso Mário Crespo, ou Deus me dê rigorosamente uma saúde que eu nunca perca, diriam os dois a atrapalhar-se um a outro se tal se proporcionasse, o nem me parece difícil, dado que a mizé nogueira pinto já não pode ir à sic notícias porque os novos óculos que usa desmaiam muito no acrílico do estúdio cor de pintelho embebido em viochene. Voltemos à pomada: eu gostava de declarar que um halibut, mesmo em ligeiro estado de decomposição, é um bálsamo para qualquer tecido carente. Está para a pele como o Sebastião da Gama está para os desgostos de amor, ou como o ‘foda-se’ em formato interjeição está para um gajo a quem a suposta mulher que ama lhe tenha posto um belo par de cornos com enfeite, acordeão a acompanhar e tudo. Ou seja, a Grunenthal é uma espécie de academia de Alcochete para a assadura intersticial: é de lá que saem as maravilhas que rejuvenescem os tecidos e que podem pôr plateias inteiras (coxias incluídas) embasbacadas com a sedozidade das nossas zonas circumpélvicas. E é por estas e por outras que daqui a uns tempos o Beckenbauer será conhecido como o Miguel Veloso da Baviera. Um tipo que foi banhado com esta graça de ser lagarto, no fundo, se não se especializa em pomadas acaba a esfoliar a paciência a tudo e todos. Mas.
(*) possibilidade de slogan de campanha para uma nova imagem de Portugal como aquele país em que tudo é possivel, mas desde cada um traga a respectiva pomadinha consigo.
Correntezinhas – take 2

Secção de meme’s

Supostamente colocado numa ligação perversa pela Zazie ( e o Timshel ainda aproveitou para dar um encostozinho), mas devidamente enquadrado num diáfano ambiente de badalhocofilia, sou levado a deixar aqui o tal de ‘gene cultural’, nome artístico de calinada, certamente.

Gostava de salientar que:

1. a apropriação de frases oriundas de civilizações clássicas de pendor amaneirado, e que, ainda para mais, sobreviviam graças à escravatura, à estatuária desnudada e que prescindiam de cós nas calças, nunca permitirá a pureza de espírito que deve impregnar a profusão de todo e qualquer gâmeta sapiencial.

2. quanto à difusão de ideias inspiradas na grande noite escolástica - mesmo que esforçadamente decoradas pelo photoshop do cocanha, que lhes retira o verdete, o musgo e o mofo, sem ter sequer de lavar escadas nem esfregar com palha d’aço – julgo que jamais permitiriam ao bípede homo-ciber-bronco libertar-se verdadeiramente do soft-aristotelismo que ainda hoje o atrofia.

3. Reforma, Iluminismo e Romantismo são, como Freud e Wittgenstein descobriram, meros aproveitamentos estéticos de lapsus linguae’s, e por isso seria deselegante e enganoso para a clientela encomendar-lhes quaisquer normas de conduta ou de digestão fácil. (mesmo que o La Bruière tenha dito que 'o escravo só tem um senhor enquanto o ambicioso tem tantos senhores quantos aqueles que lhe são úteis' - mas acho que este gajo o único tema que lhe passou ao lado foi o efeito do creme barral nas estrias pós parto)

4. o modernismo e os seus pós (desde o existencialismo à coca, passando pelo tom waits) foram sodomizados pelo tempo e triturados pela CNN, pelo que só se lhes aproveitam a pintura abstracta, os antibióticos e o microondas.


Ora assim sendo, e tomando ainda em consideração que a Deus a discricionaridade e ao homem o compromisso, recomendo a tese desnaftalinista: mais vale transportarmos um ou outro buraquito de traça, que tresandarmos a imunidade.
O que é que tchekov tem e shakespeare não tem

A certa altura a actriz diz:«... eu imaginava que as pessoas de cabelo claro me eram hostis, enquanto que as de cabelo escuro me eram friamente indiferentes.», mas o texto (traduzido) diz que hostis seriam as de cabelo escuro e indiferentes as de cabelo claro. É um ‘engano’ curioso - ou foi uma correcção da tradução, ou foi uma traição do inconsciente da actriz - mas que nada tem a ver com a mensagem final de Nina Zarechnaia, a grande mensagem da alma russa: «o que é importante é conseguir aguentar».
Desmaker corner

A mulher e a ciência


Quando Deus no seu Insondável Ser pensou a mulher, tal como se pode comprovar desde o Gilgamesh até às crónicas da Inês Pedrosa, passando pelas flores-que-não-eram-de-cheiro do Pentateuco, quis criar um ser de intuição e sistemas urinários bastante sensíveis e sofisticados.

Esta enorme capacidade da mulher, que escapa a toda a epistemologia, em se servir do pensamento como outrora se serviu da costela, da serpente, e da maçã, e hoje da saia de racha, são uma marca do género. Ficaram talhadas para chegarem à verdade sem a maçada e o desconforto da comprovação concomitante, da dedução iterativa, da confrontação de teses contrárias, e o conceito de probabilidade afigura-se-lhes mesmo como algo de meramente romântico. Vem daqui o verdadeiro fascínio que as mulheres possuem pelos cientistas da experimentação, da elocubração, da inferência, principalmente daqueles que com um paleio enleante, mas certo e criteriosamente pejado duma tal de fundamentação, conseguem validar aquelas verdades que elas alcançam por pura e fulminante intuição, nessa espécie de misticismo de kitchnete . São exemplos blogosféricos desta paixão, os 'recentes' da f. Câncio pelo rapaz da biologia inventada, ou os da Bomba pelo Freud, ou mesmo da Rititi pelo António Banderas.

Ora, como todos sabemos, a mulher é, em paralelo, a grande mestre da generalização, possui a inigualável mestria em pressentir equinócios floridos à mera presença duma andorinha a gaguejar chilreios, em vislumbrar Junos entre cirros desenhados a algodão doce. Parecia assim um ser talhado (já é a segunda vez, o que indica a minha visão de Deus como Supremo marceneiro) para gerir a economia do conhecimento científico, mas a sua congénita dificuldade abstraccionista impele-a para o reino desse refogado que é a intuição feminina, o verdadeiro ‘je ne sais quoi’ das ciências do conhecimento.

Este verdadeiro fascínio das mulheres por cientistas, por homens que conseguem agarrar-se a um método sistemático que nem um colete de forças para confirmar aquilo que a elas se lhe corre das entranhas para a epiderme que nem uma espécie de linfa sagrado, será um fenómeno historicamente intermitente. Nos dias que correm a mulher sente-se dona de verdades muito delas, coisas que o falocentrismo terá obscurecido ao longo de séculos e que agora elas trarão ao de cima com a naturalidade e a exuberância dum abade de priscos que durante anos foi pudim flan. Ora o que é que este homem das ciências, este neoneantherdal estruturalista, tem que a seduza desta forma peri-orgásmica?

Eu penso que é a parte decorativa do homem das ciências; esses tipos que transformam toda a verdade num preliminar deixando antever climaxes cósmicos, esses verdadeiros laliques do pensamento, quando encaixam na vitrine que a mulher vem construindo à base daquele sentido que vem a seguir ao quinto, põem-na num estado de excitação que só se compara com o do arroz de grelos quando chega perto dos pasteis de bacalhau. A mulher precisa que as suas verdadezinhas sejam apascentadas por homens que se concentrem a descobrir porque têm pêlos a saírem-lhes das orelhas. Steiner escreveu que há uma ‘intimidade determinante entre a morte e a poesia’ e que esta ‘espia sempre a morte com o ciúme de amante’, pois eu acho que as mulheres espiam a verdade com o ciúme das amantes, ou seja, só a podem ver nas mãos daqueles homens que verdadeiramente nunca lhe podem tocar, os cientistas.
inocência e perversidade (ou vice-versa)


Franz von Stuck (1910). Dissonanz. Óleo s/ madeira, 76,7 x 70 cm. München: Villa Stuck

Luna Park

«A metáfora satisfaz-nos precisamente porque nela averiguamos uma coincidência entre duas coisas mais funda e decisiva que quaisquer semelhanças.» Ortega Y Gasset, in Prólogo ao livro El pasajero de J. Moreno Villa
conto dos amores que nunca darão pulitzers

Suplício e Felicidade tinham-se conhecido entre dois croissants recheados. Ela escolhera de morango, mostrando frescura e juventude, e ele optara por caramelo, dando a entender luxúria e insaciedade. Mas como nunca sequer tinham pronunciado tamanhas palavras mantiveram o chamado engate de olhar, aquele que está a meio caminho entre o platonismo da caverna e o atrevimento da caserna. A primeira tarde juntos passaram ali em Linda-a-Pastora, numa pastelaria especializada em mil folhas que não deixavam a marca do enfarinhado nos beiços. Falaram dos primeiros tempos de Fátima Lopes, do Rodrigues Guedes de Carvalho, de uma música de Eugénia Melo e Castro que tinham por coincidência ouvido no corredor das toalhitas húmidas do Feira Nova, e riram-se a bom rir do Alberto João Jardim, «aquilo é que é um homem», chegou ela a dizer, «é ele e o Pinto da Costa», concluíram já quase de mão dada quando descobriram que os avós eram do pé de Freamunde. Ele andava a montar roupeiros e rodapés num empreendimento novo na Abuxarda e foi aí que marcaram o segundo encontro. Ela era manicura e pedicura ao domicílio com clientes que iam da Quinta da Bicuda até Almoçageme. «Coitadinha, já nem deves poder das costas» disse ele com uma ternura genuína dos homens que vivem das artes da madeira. «Tu deve ser bem pior por causa de teres de andar agachado» desabafou ela, como troca sincera de preocupações. [Só quem sua a trabalhar pode ser verdadeiramente sincero. Corpo que não saiba a sal no fim do dia é um corpo hipócrita]. O café da Abuxarda era moderno e ainda cheirava ao estuque – se bem que ao princípio parecia baunilha – não tinha propriamente especialidades mas a coca cola tinha bom aspecto, até porque serviam com gelo; «como em Espanha» disse ele, que tinha montado um aparthotel em Huelva. Já os uniam bastantes coisas, mas quando descobriram que ambos gostavam de leitão e fanecas fritas pareceu-lhes a prova definitiva de que estavam feitos um para o outro. Agora só lhes faltava um beijo na praia. Tinham ouvido dizer que um verdadeiro amor só se selava à beira mar, e num sítio onde as águas se revoltavam junto às rochas só com o calcário desenhado por testemunha.
Gangliosaxões

Isto é que se diz na campanha eleitoral duma das mais antigas e maduras democracias do mundo, com daqueles parlamentos que fiscalizam mesmo, círculos uninominais, justiça descomplicada e eficiente, separação de poderes, tradição de pluralismo, respeito pela autoridade e pela liberdade individual, boa formação cívica...:


Eu vou ajudar-vos a encontrar a Madeleine”, Gordon Brown