Marlene Dietrich moments

Hoje, na melhor página do Público, a antepenúltima, e que fala sempre das fofocas e bizarrias – no fundo o que verdadeiramente interessa nos jornais desde que apareceram os blogues e desapareceu a ‘cara da gente’ do Diário Popular – refere-se que foi encontrado um brinco de Marlene Dietrich, que ela tinha perdido junto a um lago em Inglaterra há mais de 70 anos. (Note-se que apenas mulheres muito especiais perdem os seus brincos, sejam quais forem as circunstâncias).

O artigo refere ainda que, para além do brinco, no lago, entretanto esvaziado, foram encontradas mais «três dentaduras, um olho de vidro e um soutien». Não indica se eram também da nossa Marlene. Vamos sonhar que não, claro, pois nunca mais nos seduziríamos com uma mulher a piscar-nos o olho e a sorrir. Mas não vos deixo sem que antes cite o nosso P. Mexia (http://estadocivil.blogspot.com), que está cada vez melhor: «A natureza fez com que ele não a satisfizesse. A civilização fez com que ela não o desejasse». O que este gajo não descobriria se se dedicasse a secar barragens.
'Ser liberal como opção quando já palpita um' Estado-nação?

Manifesto pelo ‘sim’ à burocracia

Custa-me ver o país a querer simplificar-se. O Estado deve ser barroco nos procedimentos, maneirista no contacto com os cidadãos, e suprematista na sua autocrítica. O cidadão é um elemento frágil do sistema social e não tem capacidade para se organizar sem um devido enquadramento de formulários, despachos intercalares e deferimentos.

O acompanhamento do cidadão deve ser efectuado em várias sedes, somos todos uma fusão de corpo, direitos, alma e vícios, pelo que nenhum documento deverá ser de única via, só o quadruplicado protege o cidadão atormentado.

O cidadão só deverá ser confrontado com o sufrágio directo em casos de extrema delicadeza, como seja o uso da epidural, da terebintina, ou o teor de calcário na água benta, e de preferência deverão ser aproveitados experientes administrativos já bem rodados e oleados, como a declaração do irs, o selo do carro, ou, no limite, os cartões de boas festas da unicef.

O poder é pela sua essência transitivo e deve ser exercido em puro estado de representatividade. A liberdade do indivíduo deve ser algo adquirido; todos devemos nascer reclusos, doentes e réus, e ter de conquistar o livre arbítrio da cidadania progressivamente, cumprindo os procedimentos predefinidos.

Todo o cidadão tem o direito a ser um número, um dado, e, em sociedades mais desenvolvidas, um ficheiro; todos devemos ter o nosso lugar no google earth e para isso deveria ser fornecido um boné individualizado com o nosso código de barras pessoal no cocuruto. Cidadão que não é controlado, não é eficiente, cidadão que decide sozinho e sem um caminho previamente documentado é oficialmente um perigo para os outros e para si próprio.

O interesse individual não deve ser mais que um registo informático, uma estatística. A sociedade deve ser vista como um presépio e o Estado deve cumprir todas as funções: de n. senhora, s. José, vaquinha e jumento; até a Redenção está intimamente ligada a um recenseamento. Medir deve ser uma obsessão do Estado, ser medidos uma devoção do cidadão.

Só existe uma moral: a do Estado. O indivíduo tem apenas o direito a adquirir excepções; todas devem ser pagas, e preferencialmente com o corpinho para evitar descriminações abusivas e injustas. É o princípio do exceptador-pagador. A gestão da excepção é uma das funções mais elevadas do Estado. Preencher o formulário das excepções deverá ser considerada a obrigação mais nobre e prioritária do cidadão.

As leis deverão ser tendencialmente abolidas. O Estado deve evoluir para poder avaliar de forma automática todos os casos individualmente, agir em conformidade e inapelavelmente. O limite é a discriminação perfeita: o cidadão é sempre um freguês ao balcão.

O cidadão deve sentir o Estado como o próprio coração, mas não deve abusar dos actos de contrição para não aleijar o Magno Músculo. O Estado não se justifica por um desígnio de soberania mas de sim de motorização e estabilidade. O conceito de ´poder’ deve ser apenas usado metaforicamente. Sem o Estado o cidadão é uma mera extremidade mal irrigada. A burocracia é o nosso sistema linfático. Devemos protegê-la e acarinhá-la. Um expediente é uma salvação, um despacho um descanso, uma conformidade uma bênção.

O bem comum não existe. O que existe é uma fórmula mágica para vivermos juntinhos. O Estado é a primitiva dessa equação. Saibamos ser variáveis solícitas, e corresponder sempre aos insondáveis desígnios do cálculo burocrático : Todos pelo Estado, todos pela burocracia, chupem todos os dias um rebuçado juntos e nunca mais terão azia. Nem mais um euro para os hospitais do individualismo, quando já palpita um estado que toma conta de nós. Simplificar é tornar-nos insignificantes.

Se quisermos desaguar umas águas pluviais teremos de conceder direitos de excesso de velocidade, se queremos um aborto às 10 semanas e meia teremos de ceder os direitos de abater dois sobreiros, se quisermos construir sobre estacas em cima do mar da palha teremos de deixar enterrar a avozinha no aterro do Piódão, se quisermos comer uns jaquinzinhos fritos, teremos de disponibilizar os direitos de tocar acordeão no poliban a partir da meia noite. E por aí adiante. A equidade e a justiça são algo para se viver nestas pequenas coisas. Um formulário, uma repartição, um despacho, uma concessão. O indivíduo serve para atrapalhar, é a sua razão de existir.
Henry Miller moments

Um grupo de trabalho, presidido por um senhor aparentando estado catatónico permanente e irreversível, recomenda ao governo português que seja disponibilizada ao contingente de cidadãos a frequentar os manic… er… as escolas nacionais o mínimo de uma sessão mensal (haja quem ensine estatística), obrigatória e devidamente avaliada, de sexualidade, perdão, sobre.
Luna Park

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?”, in «Pecado original», Poemas de Álvaro de Campos (p. 175), INCM
Luna Park

«António.

Que raio de nome, António. Eu devia era chamar-me Wladimir!»

Antº Lobo Antunes em ‘Cartas de Guerra- d’este viver aqui neste papel descripto’, 3 julho de 71 (aludindo a uma das personagens de Beckett em ‘à Espera de Godot’)
Clara de Sousa moments

E você, está bastante chocado?
um homem perfeito: a constatação
Peggy Guggenheim moments

O meu ideal estético cumprir-se-ia com a fusão dum óbvio Vasareli com um romântico Yves Klein. Mas só se tivesse garantias que nunca se transformaria num Frank Stella. E muito menos num Keith Haring.
Florence Nightingale moments

O referendo das metáforas e das analogias começa a trazer uma novidade: dentro das mesmas barricadas já começam a abundar os atropelos; todos querem ser a menina da cruz vermelha para escolher quem são os feridos mais graves.
Luna Park

“Conhecer as coisas não é sê-las [à minha responsabilidade acrescento «ou tê-las»]; nem sê-las [vg. «tê-las»], conhecê-las. Para ver uma coisa é necessário que nos afastemos dela, e a distância converte-a de realidade vivida em objecto de conhecimento.”

Ortega&Gasset, in “Para uma psicologia do homem interessante” (Estudos sobre o amor, pg. 145)
ups’ndowns
Querem fazer o favor de assobiar (*)

À semelhança de pintores, patés, blogs, after shaves e marcas de lingerie existem muitos escritores sobreavaliados. Raymond Carver é um dos casos mais paradigmáticos. Diz-se que inventa ambientes como se estivéssemos a falar dum hemofílico a lamber uma ferida; pois eu cá vou mas é finalmente entregar todos os livros que tenho dele à obra do padre Américo, algo que já venho a adiar desde que o lobo antunes começou a escrever livros que nem um neurónio art deco enfiado numa massa encefalica manuelina.

Desconfiem sempre de gajos que só estão bem com os mundos criados pela cabeça deles, pois nenhuma cabeça está à altura duma salada de búzios, ou duns profiteroles. Aliás, o verdadeiro teste dum escritor é vê-lo a descrever uma receita de cozinha; não é uma foda, nem um pôr do sol, nem uma pilha de nervos, nem uma ida à pesca, nem uma senhora a passear com um cão, não, isso qualquer tcheckov fazia no intervalo de duas radiografias aos pulmões, vão por mim: testem-no a descrever a nhanha margarínica a espraiar-se no fundo da frigideira, e depois os míscaros, aos risinhos nervosos, a tomarem o contacto com quentinho, e só aí saberemos se estamos perante um escritor ou se será apenas um proust com o hemorroidal mais sensivel. Raymoooond Caaaarver, foda-se é que só de nome, já enerva. Podia-se ter ficado por fazer finais enigmáticos de romances policiais, ou por crónicas a coktails de apresentação de cabriolets com estofos coçados, mas não: tinha logo de se arvorar em saber dizer com poucas dúzias de linhas, e com gajos que em beckett nem serviriam para levar chás de tília às mesas, o que outras almas se têm de esmifrar que nem rodrigues dos santos a descrever mamadas. Num dos seus contos uma personagem diz algo como «essa história não é preciso nenhum tolstoi para contá-la», como se dissesse que não é preciso ir ao gambrinus para comer um prego, como, no fundo, justificando todo o mundo, toda a escrita, do Raimundo. É por essas e por outras que há tipos que escrevem livros banais e depois quem inesperadamente os leia como se fossem fois gras do fauchon; até o Borges dizia que os livros dele só andavam a servir para ser oferecidos como presente e não para ser lidos.

Morreu em 88; claro um gajo destes só podia ter morrido em 88. Nesse dia eu até ia para a praia.

(*) pode ser o ‘let me kiss you’ do morrissey, se conseguirem. Nota técnica: não abusem dos trinados que fica foleiro
We are our own parables

Com o mar português a balançar os seus sentimentos entre uma despenalização próxima e uma pena capital longínqua parecemos a tripulação duma traineira que não sabe se haverá de congelar se de amanhar logo o peixinho. Conhecendo apenas o que é a vida por apalpação e o que é a morte por exclusão de partes vivemos reféns duma cultura de informação e de menorização de danos. Ou seja : de sobrevivência, apesar de sermos uma espécie de aparência tendencialmente autodestruidora (inconsciente e pulsionarmente?); haja algum cabrão que explique isto sem ser à base de lapsus. Já fui tentado várias vezes a pensar que Deus não existia, mas o meu corpo expeliu mais rapidamente a ideia do que a própria mente; formigueiro nas extremidades, algum atordoamento, nem deu tempo para me mijar pelas pernas abaixo, nem para aprofundar a ideia em condições mínimas, estou por isso também refém daquele cagaço mitológico da falta de sentido; se isto tudo não tem um sentido até poderia ser filho bastardo do capitão hook e enrabador de peter pans. Foi um desabafo. Pouco convincente. O que eu penso realmente é que temos de ir levando isto com calma mas sem poupar nos lubrificantes. Saber passar ao lado da merda deixando claro que não fomos nós, se for o caso de a pisarmos deixar claro que estávamos distraídos a pensar no bem da humanidade, e saber ser dos primeiros a levantar o queixo quando o aroma começar a aflorar. Acabei de me sentir mal com o que escrevi. É uma sensação boa saber que nos custa qualquercoizinha ser execrável. Mas quantas vezes não nos sentimos reconfortados com claras manifestações de ódio, quantas vezes não nos sentimos consolados com um raciocínio não importa a que resultado chegámos, quantas vezes não nos satisfazemos por chegar onde queríamos esquecendo-nos do como, quantas vezes não percebemos nada de nada mas precisamos de ter as tais extremidades com toda a sua capacidade sensorial, de demonstrar que somos pessoas de bem, e de que sabemos separar o trigo do joio que nem sofisticados centrifugadores éticos. Teremos todos direito a uma banca de monopólio privada de fins e meios, para gerir parcimoniosamente? Teremos todos direito a uma parábola só para nós? Tenho aquela impressão que Deus muitas vezes pensou desanimado: eu dei o meu melhor… mas depois algum anjo mais atrevido com cara de jack nickolson lhe terá sussurrado: é pá, olha lá, isto não é nenhuma retrosaria, hem. Mas a minha parábola particular é a da costureira: o tamanho certo da bainha depende mais do aperto da cintura do que da altura das pernas.
Luna Park

Porque sou Cavaleiro Andante / que mora no teu livro de aventuras / podes vir chorar no meu peito / as mágoas e as desventuras / (…) / Sempre que a rádio diga / que a América roubou a Lua / ou que um louco te persiga / e te chame nomes na rua / (…) / Podes vir chorar no meu peito / longe de tudo o que é mau / que eu vou estar sempre ao teu lado / no meu cavalo de pau. De Rui Veloso e Carlos Tê, em «Cavaleiro andante»
‘portugal é o país em que um gajo vai ao restaurante e pede um bife mal passado e recebe um duro como cornos’ (*)

Sócrates, o grande chefe faz-o-que-tem-que-ser-feito, sabe que pode ser uma daquelas figuras da história que passará ao lado duma grande biografia. Tal como aconteceu ao cavalo de gengis khan, ou ao cabeleireiro do marquês de Pombal, à virilha de Napoleão, ou mesmo o tipo que segurava no saco de enjoo do Cristovão Colombo, há personagens na história que cumprem o seu dever mas que correm o risco de não servirem nem para nota de rodapé, nem mesmo para decorar o teleponto da Barbara Guimarães. Sócrates informou-se junto do drink tank ( ou seja, o think tank depois duma almoçarada bem regada, como já tive aqui ocasião de explicar) e indicaram-lhe que tudo tinha a ver com a combinação de duas coisas chamadas: carisma e sorte. De sorte ele já tinha ouvido falar – era uma sandes mista de sampaio, barrosada com santana – mas agora a tal coisa do ‘carisma’ deixou-o intrigado. Tentou falar com o tipo mais inteligente que conhecia, que era o Constâncio, mas veio desesperado porque ele não tinha a mais pequena ideia da coisa, chegou até a suspeitar que fosse alguma paneleirice estatística do desvio padrão que punha umas ropinhas mais vistosas e transvestia-se de variância à noite; inconformado, chamou o Jorge Coelho, que de certeza já teria ouvido o pacheco pereira falar sobre esse tema, mas ficou desconsolado porque JC lhe disse que Cavaco já tinha esgotado o formato em género magro, e que Soares já tinha esgotado o género em gordo, ele só ainda tinha algumas hipóteses no género corcunda; assim não dava, pensou Sócrates, se deixasse de andar emproado não convencia nem a edite estrela, e antes uma lexicóloga na mão do que dois carismas a voar, e virou-se para o Alegre pensando que dos inimigos poderia sair uma sinceridade inesperada, tendo ouvido um conselho artístico: tens de ter pose de clint eastwood, voz um bocadinho arrastada, dás uma na evasão fiscal e duas nos genéricos, enfim podes ficar parecido com AP Vasconcelos, mas tens boas hipóteses de vir a ter um busto na cinemateca e o Bénard ainda escrever um artigo sobre ti e a gina lolofrígida, perdão lolobrigida; Sócrates começou a baralhar-se todo, pensou inclusive em manter Manuel Pinho até ao final do mandato e assim ficar para a história como o 1º ministro que nos voltou a devolver aos valores sãos e genuínos da terra e da agricultura, um povo de viriatos e amantes de couratos, lembrou-se depois de criar uma arma nova no exército: a Fancaria, e assim Portugal enviaria novamente batalhões de gente pelo mundo, ele seria o novo infante de sagres – que tinha entretanto ganho ao lobi da super bock – e eu já estou perdido neste paleio, mas realmente um tipo esforça-se para ter um 1º ministro com carisma do lombo, assim género ronald reagan com molho berlusconi, e leva sempre com um cabrão dum bitoque embebido em pickes avinagrados tipo genro do motorista do ministro do ambiente do montenegro. Eu cá rebobinava esta merda desde o D. Dinis, e íamos todos fazer picnics para o pinhal de Leiria. E nem falei da mizé nogueria pinto, nem do severiano teixeira. Estou a ficar mole. Salvo seja.

(*) frase acabada de ouvir neste momento por um gajo na sic, mas a expressão ‘como cornos’ é minha; faça-se justiça.
Luna Park

«A ‘verdade’ do batoteiro, se é que isso existe, é muito bíblica: alguns fins justificam alguns meios.» - nem Don Juan nem Ortega
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Luna Park

“Charles Darwin tinha razão quanto ao poder de escolha da fêmea: ela tem capacidade para moldar os machos e para criar novas espécies.”

Therese Ann Markow, bióloga, Universidade de Arizona, Julho 2003

*

“Os adornos do macho não são necessariamente uma componente física, mas sim bens adquiridos.”

Gerald Borgia, biólogo, Universidade de Maryland, Julho 2003
Da moral do indivíduo à conservação da espécie passando por reduzidos afloramentos sexuais

Hoje todos nos arrepiamos com quem dá ares de professor de moral. «Quem é este gajo para estar a dizer o que se deve fazer» é o gargarejo mental com que imediatamente bochechamos a nossa dita consciência livre, e que queremos tão tranquila que nem um bebé depois de bolçar.

E é assim que, progressivamente, se vão instalando os discursos de tolerâncias bacocas e ‘enquadramentos relativizantes’, deixando campo aberto tanto para a ignorância ético-patológica, como para aquele tipo de arrogância zoológica de quem olha para a banana chamando-lhe abacaxi e esperando que os outros salivem em carreirinha. Ou seja, as modernas alergias ao correcto e incorrecto e os clássicos pruridos morais e amorais, convivem agora alegremente com aquela força que move os novos iluminados, aqueles tais que ‘sabem o que deve ser feito’, ou aqueles que, ao mesmo tempo que vão dizendo: «eu não quero dar lições de moral a ninguém», rematam sempre com um previsível «mas acho que isto devia ser feito assim»

É certo que todos procuramos um mínimo de base para o pêndulo. Uns precisam do achatamento arredondado típico dum sempre-em-pé, outros da quilha dum salva vidas inafundável, outros a rede que está por baixo da corda de trapezista, e há ainda os que eriçam o pêlo em sky surfings, à espera de que as emoções fortes dos ares ascendentes lhes dêem o que não conseguiram com o cerelac de pimenta verde ou com a ameaça do óleo de fígado de bacalhau, mas certinha certinha é a necessidade dum padrão mínimo de comportamento que pode ser decorado desde a bajulação precoce até ao espasmo livre e prolongado.

‘Todos temos cabeça para pensar e saber o que é melhor para cada um de nós’ é uma ideia que chega a assolar a zona esponjosa intracraneana de muito boa gente. Mas é algo que não está provado. Sabe-se que juntamos conceitos, sabe-se que juntamos recordações, sabe-se que há produtos químicos a tratarem da lubrificação dos neurónios, sabe-se até que há zonas mais dadas à brincadeira e outras mais dadas aos assuntos da lida da casa, enfim, sabe-se quase tudo menos o que interessa, ou seja: não se sabe que filha da puta de mecanismo nos levará ao caminho do certo e do errado e nos faria dispensar os bons conselhos de outros gajos que produzindo produtos químicos do mesmo género do nosso, até dá ideia de que são de melhor marca. Aquela mítica zona ética do cérebro é tanga, não existe, e a noção do bem e do mal mantém-se filha mais ou menos bastarda da cultura e do gene. Cada vez somos menos autónomos na distinção do que é feitio e do que é defeito, do que é virtude e do que deve pôr o sol a entrar-nos apenas pelas frestas.

Mais ou menos todos os ocidentais sabem que somos enteados da porra duma moral parida entre desertos e mares barrentos, mal enjoricada (não sei como se escreve isto) por profetas, viúvas, reis vaidosos, fornicadores olímpicos e arrependidos profissionais, amancebada com metáforas, refém de decifragens e escorada no cabrão dum betão com fissuras por todo o lado onde a humidade trabalha que nem corrimento numa profissional da satisfação masculina.

Mas o que antes nos sossegava hoje apoquenta-nos. Preferimos uma certeza de ocasião na mão a várias perenes a voar, e gostamos de conselhos que nos façam sentir confiantes, e crentes e auto-insuflados na nossa natureza mamífera. Transformámo-nos todos em empresas em reestruturação, que ora downsizam, ora spinoffam, ora diversificam, ora concentram, ora reciclam, ora fazem merda, mas precisam sempre de mercado e de concorrência.

A nossa natureza pede companhia. Somos uma mistura bichos de estimação com fama de grandes felinos, e liliputeanos com fama de gulliveres, fornicadores resignados com fama de masturbadores esclarecidos. Abençoados serão os que nos disserem o que fazer com voz meiguinha.

Toda a moral é adquirida, e nós pelamo-nos por saldos; e a mudança de estação é a raiz da nossa sobrevivência. A espécie aguenta-se porque tem conseguido ir combinando uma moral airosa num manequim abonecado, e na montra Deus pôs vidros fumados.
ups’ndowns