Há duas soluções para uma malha solta: ou nó ou nada.
made in woven #8
Compreender o esgaçado é meio caminho para condescender com o roto e três quartos do caminho para andar de mão dada com o nu.
Etiquetas:
made in woven
made in woven #7
Quando foi alfaiate e se especializou em casacas de virar, o seu maior problema eram os bolsos: tinham de ser grandes em qualquer dos lados.
Etiquetas:
made in woven
made in woven #6
Há duas hipóteses para quem se sente feito num trapo: ou torce e entrelaça com outro trapo podendo chegar a fazer de tapete, ou esfarrapa-se, mascara-se de fibra, e sonha em vir a encher almofadas. Se Jesus fosse filho de tecelão teria antes sentenciado: Panniculus eris et in panniculus reverteris.
Etiquetas:
made in woven
made in woven #5
Toda a bainha pode ser folga, mas nem toda a folga pode ser bainha.
Etiquetas:
made in woven
made in woven #4
Existem dois tipos de gajos chatos: os 'ferros de engomar' , que passam por cima dos outros como quem pensa que os estão a alisar, e os 'etiquetadores' , que estão sempre a indicar aos outros a que temperatura é que podem encolher.
Etiquetas:
made in woven
made in woven #3
Era o seu último dia no tear. Destinara o derradeiro padrão já uns anos antes, e fora guardando os fios coloridos dos restos das colecções, alguns já bem esbatidos pela curtição do tempo; mas fizera-o com pouca convicção, mesmo que sem medo das nostalgias a vir, e apenas sabendo que um dia os usaria para tentar enganar o desespero com uma falsa bomba de saudade, e com uma mais falsa ainda bainha de compreensão. Quem depois de mim urdir, bom urdidor de mim fará, consolou-se sem razão de consolo.
Etiquetas:
made in woven
o berçoulos da civilizanikas
evangelos venizelos não foi escolhido e lucas papademos colocou condições, vai daí karoulos papoulias também disse que não estava para aí virado, e muito menos samaras, pelo que se aguarda por filippos petsalnikos para suceder a papandreos; penélope mantém-se fiel a ulisses mas aquiles promete mundos e fundos com um calcanhar novo.
verso à terça (*)
No fundo da minh'alma há um terno segredo,
solitário, perdido e que jaz repousado;
mas às vezes meu peito ao teu vai respondendo,
todo a tremer de amor, vibrando desesp'rado
G. G. Byron , The Corsair (tradução de David Mourão-Ferreira)
(*) mas já quarta a fundo
Etiquetas:
verso à terça
gêum
Finalmente estou só. A grande questão para quem está só é descobrir se abandonou ou foi abandonado. Não há tema mais rico para uma consciência do que este de elaborar e fabular sobre a sua solidão. Melhor que a culpa, melhor que o arrependimento, melhor que o remorso, melhor que a inveja ou a vaidade, o abandono é o príncipe de todos os conscienciosos. Nada alimenta de forma tão proteica uma solidão do que deambular sobre o caminho que nos levou a ela, balancear entre vitima e carrasco, sorver em simultâneo das benesses que nos permite o determinismo e das virtudes do voluntarismo. O nosso destino e o nosso livre arbítrio juntam-se harmoniosamente na alma de quem está só. Hoje distraio-me assistindo ao grande espectáculo da minha consciência, deixando-me encadear por aquele foco milagroso que mostra o bem a vencer o mal nem que seja à tangente.
Etiquetas:
gêéne
gêdéz
[Até] Deus precisou de nos apresentar os seus mandamentos. Está na nossa natureza pôr o amor acima de todos os outros sentimentos mas depois não sabemos nem como nem com quem, ou quem sabe como, não sabe com quem, e quem sabe com quem, não sabe como. É esta a visão literática da coisa, a visão prática diz-nos que tudo é possível até porque na prática podemos dizer que o amor não existe. A necessidade de nos aliarmos, essa sim, convive com a necessidade de nos isolarmos, sendo que cada uma tem o seu preço, praticamente desconhecido até ao momento em que chega a factura. Salve-se quem quiser é - uma parte da - mensagem decalógica, salve-se quem puder é a mensagem segura da sociedade das nações. Para esta procuram-se há séculos e séculos mandamentos que forneçam também uma serventia decente. Até agora parece não haver tábuas que cheguem. Deus disse para amarmos o próximo sem que isso implicasse aliarmo-nos com ele. No mundo a moral está toda por fazer.
Etiquetas:
gêéne
gêssinco
Quando me voltares a amar fá-lo com mais jeitinho. Sei que não foi por mal mas da última vez deste-me demasiado crédito, eu abusei, depois perdemos o controlo à situação e agora tenho de ser resgatado por paixonetas de compromisso junto dos corações emergentes. Sabes que o coração dum homem pode ser um poço sem fundo, está destinado a desperdiçar recursos e a agarrar-se à primeira hormona que lhe cheire a especiaria, arrastando-se em cabos das tormentas como caravelas sem norte. Ama-me mas põe-me condições, faz-me uma grelha, define-me um padrão, diz-me até onde posso ir, que riscos posso pisar, em que buracos me posso enfiar. Até que letra podem ir os nomes das minhas amantes. Quando te perder outra vez quero ter a certeza que a culpa foi toda minha.
Etiquetas:
gêéne
gêdois
Amo-te Dilma. Aqueles tempos com a Ângela foram um engano. Estou aqui, vês, voltei para ti. Prefiro de longe uma tropicobunda amazónica a uma eurobonda do reno. Fui atrás duma quimera empapelada e esqueci o oiro que tu já me tinhas peneirado. O trópico não faz exigências, nem põe austeridades na conta-corrente, não trocarei jamais uma boa inflação por qualquer promessa de eficiência. Estou reconvertido ao ónibus, reneguei o bus, podes vir confirmar, e ficamos só nós dois, tu e eu, no banco de trás, dizendo mal das traseiras duras dos volkswagens. Tu sabes o quanto eu sempre te achei charmosa, com ela foi apenas uma ilusão de óptica, dioptrifiquei num momento de fraqueza. Não lhes emprestes a eles, não, guarda-o todo só para mim, não te arrependerás se deixares que eu afague os teus reais, vais ver, e ela acabará por sucumbir de ciúmes quando nos vir juntos e a elogiar os teus dentinhos sexy com que um dia trincarás toda a bordinha da velha e gasta europa. Amo-te Dilma, e hoje eu sei que nunca deixei de te amar.
Etiquetas:
gêéne
gêsséte
Quando o nosso amor era poderoso não precisávamos de alianças. Autosuficientes: Irreferendáveis, irrestruturáveis, irresgatáveis. Irra, éramos tudo. Criámos um nós à imagem e semelhança dos deuses. Mas vivíamos o desconforto da esmola grande. Quando a patine estalou no andor olhámos para a reserva de óleo de cedro mas ninguém quis pegar no pano. Deixa riscar. Hoje temos a clássica coisa em forma de assim, um assim à la carte, nalguns dias cozido, noutros assado, completamente à prova de emoções fortes, condimentado apenas com palavras de ocasião, mas verdadeiras alíneas de tratado; hoje amamos ao ritmo das cláusulas da conveniência, confirmando a tese de que afinal o amor é o sentimento que melhor serve todos os interesses.
Etiquetas:
gêéne
gêtrês
Metralha e dor, foi o saldo. Tudo espalhado pelo chão. Agora ninguém quer limpar. Passeamos em slalom por entre os destroços. Olhamos de relance de quando em vez, mas sem lhes tocar. Brincamos ao jogo do querer e do poder. Perde sempre o poder. No homem a vontade é sempre mais forte, tão forte que muitas vezes se disfarça de possibilidade. Só tínhamos um cartucho para queimar e andámos a queimá-lo aos poucos, mas pondo um bocadinho de pólvora de lado não se fosse dar o caso de ainda termos de sacar de uma explosão. Ainda sobejou um bocadinho desta reserva. Cheiramo-la agora como que se fosse uma recordação. Pólvora seca. A nossa recordação é uma mão cheia de pólvora isenta de humidade, guardando a explosão reprimida como quem guarda um quisto de estimação.
Etiquetas:
gêéne
gêvintium
Fechei bem os olhos para te ver. Tornei-me incógnito e entrei no teu sonho. Fingiste confundir-me com uma paixão de juventude. Hesitei em entrar no jogo, hesitar sempre foi o meu forte, sou o grande hesitador, faço da hesitação uma arte. O teu sorriso funciona como prova, o desenho dos teus lábios como demonstração e o teu andar faz de confirmação, afastando os contraditórios duma cabeça cheia deles. Desafino. Faço parte daquela minoria de desafinados que deixou o coração no intervalo das cordas atrapalhando-lhes a vibração. Quando me largaste para o teu amor de sempre já nem tinha força para morder os lábios; os meus. Saí do sonho de mãos a abanar. Com tudo a abanar.
Etiquetas:
gêéne
gêvinte
Subiste pela minha alma adentro e puseste um ponto final no princípio das minhas frases; centraste-me a periferia; depois cansaste-me a fadiga, aceleraste-me a travagem e sussurraste-me aos berros: quem não estiver farto de si próprio levante a perna e dê uma braçada em frente. Foi então que gaguejei um assobio e assoei duas lágrimas. Palavra de mentiroso que estou desejoso de te ver pelas fuças, abraçar-te os joelhos e ajoelhar-te os ombros. Quero agradecer-te por tudo o que não me fizeste, desculpar-te todas as inocências. Não guardei nenhum dos teus segredos, não confiei em nenhuma das tuas inconfidências. Dir-te-ei sempre a verdade principalmente quando não me for possível.
Etiquetas:
gêéne
verso à terça
Oh, bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência tão doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!
Camões, Luisvazde
Etiquetas:
verso à terça
Subscrever:
Mensagens (Atom)