( Da transgressão. Sei muito poucos poemas de cor. Um dos que sabia, era este do Camões: “Transforma-se o amador na cousa amada/Por virtude do muito imaginar/Não tenho logo mais que desejar/Pois em mim tenho a parte desejada”.Disse sabia, porque já não sei. Esqueci-o. Mantinha-o guardado para um momento especial, e quando o usei acho que estraguei tudo. A poesia deve ter um instinto matador nas minhas mãos. Desgraçamo-nos mutuamente, se calhar. Só que eu nem desconfiava disso. Estúpido. Nunca o li como um poema de amor. Sempre vi nele um formidável elogio poético à cumplicidade; reforço: à cumplicidade pura, cristalina, de fina, de filigranada prisão, forte, de siderúrgica fusão. Difícil de descobrir, difícil de sustentar, mas difícil de matar. É até das poucas coisas que sedenta e sacia ao mesmo tempo, e que tem o condão de colocar o desejo na redoma do encantamento. Onde nem a imaginação presta vassalagem ao pecado. Mas isto se calhar são só parvoíces minhas, mas são parvoíces das que doem. )
Mensagens populares deste blogue
power rangers
O poder é uma construção estritamente humana. Uma das grandes revoluções do cristianismo (leia-se: do património religio-cultural que decorre da vinda ao mundo de Deus feito homem ) é permitir que se olhe para um Deus omnipotente 'fora do poder', (o 'deus-poder' é propriedade intelectual do paganismo) ou seja, Deus como presença, caminho, salvação, e uma carrada de não despiciendos etceteras, (ou apenas 'verdade e vida' para utilizarmos uma fórmula mais poeticamente friendly) deixando para os césares a secção do economato. Num post do regressado dragonblog ele afirma que «o Poder vem sempre de alguma parte. Se não do «Alto e Sublime», então do baixo e desprezível. Se não conta a Palavra, passa a contar o número..» and so on, and so on. Ora na minha rudimentar forma de ver les choses: o poder nunca vem do «Alto e do Sublime», 'dasse!, 'o poder' é uma coisa do urbanismo da cidade dos homens, na cidade de deus só há aquilo que se pode sintetizar por ...
Hardpio
Dou-me bem com a religiosidade miserável. Gosto de igrejas com gente sofrida, de pele enrugada, olhar escondido e pecados à flor da dita, apenas procurando carinho na madeira polida do genuflexório, e disponíveis para dar um bocado do seu braço por troca duma alma ainda na fase dos caboucos. Gente que dá uma na chaga e outra na cicatriz; não acredito em angústias limpas, dúvidas musicadas, teologias libertadoras, credos em cinemascope. Mas também gosto daquela pequena baba da hipocrisia, do esgar do escrúpulo, da gente que pensa conseguir lavar a alma com meia hora de cheiro a cabelos oleosos. No fundo o catolicismo adapta-se bem a gente, como eu, pouco esquisita. Gosto da parte estúpida da fé, da boca cheia de palavras de sentido e gosto duvidoso, do dogma desnecessário, da ameaça escatológica. O que seria da fé cristã se não pudéssemos pensar em Deus morto por nós na cruz enquanto desesperamos por uns bons pastéis de bacalhau. O que seria da fé sem a incompetência para perceber o mun...
Comentários