Almoços Grátis. série 4 [2]



Entrei confiante. Estava um dia frio e o calor do restaurante trouxe-me uma tranquilidade de que não estava à espera. Já sentado ainda me veio ao paladar da memória aqueles cabrões dos tomates cherry. Nada puxa mais pelos instintos de vingança que um mau sabor de boca. Mas hoje tinha uma missão que estava para além do almoço: precisava de a confrontar com o meu olhar. Eu sabia que se ela sentisse o meu olhar pousado nela jamais o seu corpo me conseguiria mentir. Um gesto, um olhar, uma ondulação de corpo, qualquer coisa a iria atraiçoar, e isso dava-me aquela margem que um homem, que se sabe & sente enganado, precisa para enfrentar o destino. Antes que o empregado pudesse esboçar qualquer estratégia pedi arroz de coelho e outra vez antes que ele tentasse uma manobra de diversão com sugestões de bebida, usei aquela palavra que tudo mata num restaurante: água, só água. Flanqueadas as primeiras hostilidades concentrei-me na tarefa de pôr os olhos em cima de L. Como não consegues copular vais coocular, sussurrava-me o filha da puta do grilo-falante-dos-trocadilhos, o gricadilho. Mas eu estou muito treinado em enviar consciências para o caralho e já estava a saborear o coelho quando L. entra pela primeira vez na sala. Via-se que tinha posto o escudo contra olhares e voltou para dentro rapidamente. Nem napoleão fazia reconhecimentos de terreno tão rápidos. Ela está incomodada com a minha presença, foi o que disse o criptógrafo que tenho sempre no bolso. Talvez esteja complexada por me ter tratado sempre tão mal, disse-me o ingenuoscópio q tenho no outro bolso. Tirei as mãos dos bolsos e pus-me na alheta antes que viessem condescendentemente dizer que eu não pagava, como de costume.

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