Filinto Valente tornara-se o psicólogo da crise. Aproveitando as circunstâncias ímpares que
proporcionam os momentos de dificuldade dita colectiva, criara um modelo de ‘psique
em tempos turbulentos’ e, como não era parvo, tratou de emblogar o tema
dando-lhe um aspecto moderno assim entre a literatura e a consulta ao
domicílio, que satisfaz um largo espectro de clientela, desde os puros curiosos
até às puras menopausadas passando, claro está, pelos próprios neuróticos, que
não suportam saber que é a dificuldade que comanda a vida.
Filinto Valente estava ciente que na base do seu sistema
tinha de estar um enunciado cativante; era este: todas as nossas neuras individuais
participam de uma espécie de neura colectiva; meramente junguiano poderão
pensar já alguns, meramente pragmático diz-vos este vosso servidor.
Mas, tal como numa conversa entre porteiras e mulheres a
dias não é suficiente um enunciado, há que tirar conclusões e criar potezinhos onde ir
encaixando as várias flausinas da vizinhança. Daí que Filinto, à volta do seu
enunciado em forma de punchline, tudo levava a crer que definiria uma tipologia
e um estilo de abordagem.
Arrumemos a questão do estilo: hermético-estiloso; óbvio,
algo que o destacasse imediatamente dos palavrosos (como o machado vaz) ou dos
apenas inarráveis (como aquele Eduardo que nem sequer tem mãos de tesoura). A
cripticolírica é uma técnica de fácil acesso: citar autores apanhados em
googladas em modo shufle, e tirar conclusões como quem deixa a massa no forno.
Como nos blogues não se vê a cara, Filinto tinha igualmente de ir dando um ou
outro exemplo da sua vasta experiencia pessoal como zorro de inconscientes e ben-hur
de cefaleias.
Mas tal não era suficiente para o sucesso, um outro
condimento faltava e é tão importante para os psicoterapetas como é importante
a serra tico-tico para os bricolásticos: é preciso saber dar uma na compreensão
e logo de seguida outra na exigência; e muitas vezes sem tirar.
Falta-me falar da tipologia de Filinto. Esperaram em vão
pois Filinto, tinha avisado, não é parvo. Estava escrutinado pelas
blogostéricas, não podia correr o risco da contradição, e assim optou pela
chamada neura deslizante, ou seja, em
momentos de crise isto anda tudo ainda muito mais ligado do que o habitual e,
assim, a melhor opção era abordar a neura como um work in progress. Bom para a
psique, bom para a audiência, bom para o negócio.
Como achava que dominava a técnica do humor sem fazer rir
acabava as consultas em blogoscopia dizendo: olhe, antes isso que uma circuncisão
mal feita ou andar sempre a fungar do nariz.
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