'Souverainirs'

A soberania é um tema relaxante. Seguindo a velha máxima de que só damos verdadeiro valor àquilo que perdemos, acho que devemos perdê-la um pouco. Essencialmente para: darmos uma boa causa aos nossos netos. Diz-se que só lhes vamos deixar dívidas, montes de velhos para mudar as fraldas, ideologias esclerosadas, auto-estradas para manter, lares e hospitais sem verbas para mudar fronhas, então para compensar temos de lhes deixar uma causa decente para eles voltarem a lutar por algo digno. Estou pois de acordo em perdermos um pedacito dessa coisa que se convencionou chamar soberania, uma espécie de domínio político sobre nós próprios, aquilo que no nosso corpo biológico chamamos de controlo da incontinência; sim, estou de acordo, por uns anos, só mijaremos quando, onde e como uma troika qualquer nos condescender, e a dita soberania passará a ser apenas un bom recuerdo, algo entre o cheiro da castanha assada e os brincos pendentes de filigrana. Renascerão assim os espíritos verdadeiramente exaltados, as almas livres virão à praça verter a sua energia, insultaremos com vigor os que nos acorrentam a vontade e então passaremos dignamente esse fervor aos nossos filhos. É, neste momento, a nossa melhor possibilidade para um legado decente: gerações de novos restauracionistas. Gente já instruída, gente que saberá insultar os nossos novos conquistadores usando várias línguas, citando inclusivamente os wagners que os pariram. Claro que é uma estratégia arriscada mas também o pior que nos poderá acontecer é tratarem-nos um poucachinho mal nos livros de história, o que diga-se, no quentinho do céu, mais ou menos purgado, será para o lado que dormiremos melhor, olhando cá para baixo, para as nossas proles a estrangularem bravamente um desses neuróticos middleuropeus esparramando-se à beira mar à espera que lhe sirvam um sacana dum besugo grelhado, ou então a fazerem-lhe uma colonoscopia com um galo de barcelos.

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