O perigo do método

Se há coisa em que sou medianamente especialista é em escolher métodos perigosos. Aplicar a freudojunguice às situações que menos lhe fariam apelo é uma das minhas predilecções. Gosto adicional e designadamente de inventar expressões e de dizer que foram de freud (ou de churchill ou até mesmo de dostoievski, e uma ou outra de picasso, - não podem ser personagens inventados, nem sequer pouco conhecidos ou obscuros pois movo-me em ambientes onde a credibilidade é um valor essencial ) , e como é impossível desmentirem-me costumo ser absolutamente contundente & convincente, desde que seja também bom e barato o que leve no cabaz, obviamente. Claro que lido intermitentemente com a indiferença, a desconfiança, o leve desprezo, (nunca dei azo a desprezos de nível olímpico), a surdez táctica e , obviamente, a insinuação educada de pura charlatanice. De todas estas situações a que mais me gratifica é a de charlatanice, pois acaba por reconhecer um talento genuíno e, mais, existe uma charlatanice benigna que transmite uma certa empatia, a do: ah se é isto o piorzinho que me podes fazer então compro. Uma das principais lições da freudojunguice é a de que cada caso é uma teoria, ou seja, o processo de generalização faz-se do particular para o particular, sendo a própria teoria um elogio à excepção. Ora, se temos de convencer alguém e nesse processo temos de o conhecer primeiro, a melhor abordagem de entrada é a abordagem charlatã: mostrarmos como somos vulneravelmente óbvios mas deixando a portinhola aberta para o poderosíssimo «mas e se...». O perigo deste método é o maior de todos os perigos que podemos encontrar na vida: acreditarem em nós. Acabar um processo de convencimento com o estatuto de credível é como terminar uma foda com cara de preservativo. A nossa personalidade precisa como do pão para a boca que desconfiem um poucochinho que seja de nós, e mesmo que, ainda assim, venhamos a desiludir, podemos sempre quase-citar o bom do churchill pedindo que nos perdoem pois somos apenas o esperto suficiente para não parecer ignorantes.

4 comentários:

maria disse...

:)

transportando para a política nacional e os seus representantes, irrita-me solenemente o Presidente da República a mandar-nos falar baixinho dos desaires que nos atormentam e a fazer figura de palhaço, pronto, lá fora a sugerir que por aqui vai tudo bem. Ou pelo menos que a Terra Prometida está à vista.

beijinho

aj disse...

Vai-se a ver e é Almada! :)

beijinho

blanche disse...

Uma das últimas frases de Jung, no filme de Cronenberg dita no belíssimo cenário do lago, é: «Às vezes é necessário fazer o irreparável, para se poder seguir em frente». Subscreves ou rejeitas, meu querido amigo?

aj disse...

minha querida amiga,

há duas dimensões para essa resposta...

uma que apela para o seu lado mais absoluto: depois da redenção (um deus que oferece o seu filho por amor) a irreparabilidade desaparece do léxico dum crente

a do lado relativo ( a frase já de si é 'relativa' pq começa com «às vezes») que me leva a dizer q é do senso comum e da lógica básica que possa existir a mutua exclusão entre dois factos levando um deles a ficar com o estatuto de 'irreparável'

...bem e mas ainda vejo uma terceira: nada se cria, nada se perde, tudo se repara


ps. no final das memórias do Jung ele cita uns versos do Holderlin:

«...todos os deuses exigem oferendas ,/ e quando nos esquecemos de algum,/ nada de bom acontecerá..»

em sintese: a vida comporta riscos.