Troika de MOU's (3/3)
O pior serviço que a demagogia politica prestou ao desenvolvimento humano foi a introdução abusiva e banalizadora na agenda retórica corrente do maravilhoso mecanismo da vitimização. Criar vítimas foi desde que há registos uma actividade absolutamente fundamental no estabelecimento do equilíbrio entre o homem e o que o rodeia, e sempre foi a forma mais digna deste se relacionar com a adversidade, com a imprevisibilidade e a ininteligibilidade do mundo que são, registe-se, as suas características principais. Ao contrário das suas outras companheiras de troika, a vitimização não vive apenas de prerrogativas da mente e exige competências, digamos, técnicas ou mesmo artísticas. Vitimizar não é apenas um mecanismo para chamar a atenção, a vitimização é o acto mais perfeito da mitificação humana. A vitima é o mito mais completo. Uma generalização bem feita mesmo seguida da criação duma excepção cirúrgica, se não desencadear o processo de criação duma vítima, devidamente chorada, comiserada e sacrificada, será sempre um processo incompleto. Mas a verdadeira vítima nunca é o resultado dum expediente de chantagem emocional, isso é uma vítima-peluche, a vítima-mito é uma verdadeira categoria da mente que a deixa irredutivelmente condicionada, e lhe permite concentrar todas as suas forças, que geralmente correm o risco de se dispersar nos denominados 'os lados bons da vida', verdadeiros hinos ao perfil burlesco da criação. Quando puderam façam este exercício: peguem num falhanço banal, criem uma regra simples em torno dele, excluam-se por qualquer razão prosaica, guardem em ambiente húmido, e quando começarem a aparecer os primeiros pontos de bolor digam para convosco: «não fui eu o escolhido». Por cima dum subentendido há sempre um entendido.
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C.