Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [11]

O desligamento de FMI em relação à realidade torna-se mais evidente a partir do último trimestre de 2030, apontando já para a sua fase mais sur-mística que se desencadeará definitivamente no ano seguinte com a entrada em vigor do sistema de 'governação vigilante', no qual, em vez de orçamento, aquilo que resta do Estado é gerido financeiramente pelo sistema FGC: um fuzileiro, uma granada e um cofre.


3 de Novembro de 2030

Quando em 2027 o Velasco Porfírio Vicente escreveu o seu livro em prosa semi-automática 'Quem mais orça mais mente', eu estava longe de prever que me seria tão inspirador para o decreto que hoje finalmente consegui aprovar naquela que ainda se denomina Assembleia da república - se bem que alguns já lhe chamem acémbleia dado que não se vê lá nada do lombo vai para mais de 30 anos: a partir de 2031 deixará de existir orçamento. Por outro lado tenho pena, pois nos últimos tempos o orçamento era a minha distracção preferida desde que acabaram as crónicas daquele moço, o balenciano, que fazia a critica dum disco de rock parecer uma descrição da digestão conjunta do compal de papaia com queijo de Serpa mal curado. O meu último orçamento foi mesmo dos mais inventivos pois, entre outras medidas, consegui que cada família tivesse de dar de jantar a um polícia por semana, ou então optar por dar uma banheira de água por mês para os bombeiros, e assim garanti praticamente o auto-financiamento da segurança da nação, modelo esse que vai sendo progressivamente adoptado por todos os países da Europa que ainda vivem harmonicamente o multiculturalismo, como a Suécia, onde, segundo li hoje, até voltaram a nascer bebés loiros. Inclusive, sinto-me orgulhoso, - mesmo que o orgulho não seja um sentimento - pois este ano dizem-me que estou bem colocado para ganhar o prémio goncourt para o melhor benefício fiscal, com a minha ideia de que por cada badana apresentada numa repartição de finanças o contribuinte passa a dispor de duas refeições quentes, um duche de água morna e uma salada de carnes frias por semana a uma taxa de iva reduzida de 72%.
Não quero parecer indelicado neste diário, mas depois de ter almoçado uns filetes de chispe está-me a dar a volta à barriga e preciso de perspectivar um momento de introspecção retrospectiva.

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