The uses of optimism

Roger Scruton, um dos pensadores conservadores da moda, e um pensador ainda com algum rating acima da banca portuguesa, tem como título do seu último livro, 'The uses of pessimism', (que vai traduzir-se em português como 'as vantagens do pessimismo' - que é o que se pode chamar uma tradução optimista) e tenta transferir o pessimismo do cestinho das grandes poses estéticas para a elite das grandes correntes autónomas do pensamento. Estamos, de facto, em tempos nos quais, não direi mais que nunca mas ficava bem dizer, um olhar pessimista sobre o mundo, a criação e outras miudezas é o único que garante uma audiência intelectualmente apinocada. O optimismo hoje está arredado para as plateias das igrejas de pendor mais ou menos psicadélico.

Ou seja, o optimismo precisa duma reabilitação teórica, precisa não apenas de um novo enquadramento ou aggiornamento, precisa mesmo de ser levado a sério novamente. E para isso temos de recuperar os mais famosos contributos do optimismo clássico e barrá-lo com umas fatiazinhas de queijo filadelfia.

[.] podemos sempre piorar - esta é uma das bases epistemológicas do optimismo. Ou seja, não há propriamente uma tendência optimista nem pessimista, há apenas uma hipótese ditada pela criação tanto quanto a conhecemos: o fundo é apenas onde está a tocar a ponta da broca.

[.] a seguir à tempestade vem a bonança - se repararmos não há noticia de ninguém ter aparecido a informar peremptoriamente que a seguir à bonança vem a tempestade. Moral da história: apenas a bonança pode aspirar a um estatuto de permanência, a tempestade será sempre um preliminar, ou então algo para dar alguma importância a um copo de água.

[.] não há mal que sempre dure - A eternidade está claramente ligada às coisas boas. Apesar de se falar no fogo eterno dos infernos, todos acreditam realmente que, a certa altura, quando estiver algum portuga de turno ao forno, vai faltar a lenha na coisa.

[.] o optimista é apenas um tipo pouco informado - esta máxima da pessimofilía com pretensões de belo efeito, apenas nos revela que o mundo (agora e sempre) se divide entre os pouco informados (optimistas), os desinformados (todos), os muito informados (pessimistas) e os reformados (estes agora têm de estar em todo o lado). Mas a parte que o cobertor curto do conhecimento deixa a descoberto é que os optimistas são afinal os que retêm apenas a informação suficiente para conseguirem chegar a reformados.

[.] A ideia de progresso - Ao contrário do que pode parecer, a ideia do progresso radica numa virose pessimista que por vezes penetra no ideário optimista, e que nos apresenta isto: não podemos estar completamente felizes como estamos, logo temos de piorar para demonstrar que estávamos melhor antes! Ora o verdadeiro optimista pensa que estamos bem como estamos, e não exige demonstrações: não mexam, pois, ok, nada se perde, nada se cria, mas tudo se pode baralhar. O revolucionário é afinal o maior dos pessimistas encapotado.

[.] O eterno retorno - Basicamente nós estamos sempre na mesma. O optimista é aquele que sabe que a casa da partida está sempre colada à casa da chegada. É aquele que sabe que tudo é possível, até a própria possibilidade de ser possível a possibilidade. Quando algo parece estar a desabar é apenas uma situação de caldo retornado.

[.] As evidências que realmente contam - Por cada dia que passa, todos e cada um envelhecem proporcionalmente menos e, ao contrário do que o rebadalado Keynes apontou, a longo prazo, tudo aponta, estaremos todos vivos, pois não há experiência de mortes entre os actual e a dado momento vivos. Para morrer não basta estar vivo.

[.] O optimismo como hospedaria - Todo o pessimismo é uma forma de parasitagem (hoje culta) num optimismo adormecido ou eventualmente negligente. Mas o optimista é tão hospitaleiro que inclusive acha que o pessimismo é algo que merece ficar protegido do frio e da chuva e alimentado com comidinha quente no seu regaço. O único amigo do pessimista é o optimista; sem o qual morreria de inanição.

[.] O optimismo como paciência - Existem duas correntes no optimismo: o optimismo de intervenção, que se baseia na experiência de que em principio a probabilidade de melhorar é grande se mexermos na realidade, e existe o optimismo de sustentação, que parte do principio que não mexendo se fica melhorzinho. De facto tudo radica na percepção da variável que condiciona o evoluir do mundo: a paciência. O pessimista é um impaciente frustrado e o optimista é um paciente realizado.

O optimismo é hoje o último reduto teórico da espécie e o pessimismo não passa dum expediente retórico para nos tentar fazer esquecer que a merda é apenas estrume. O pessimista apenas gere as expectativas que o optimista soube criar.

1 comentário:

Anónimo disse...

um texto delicioso

gostei especialmente dos info-reformados