Dai-me um spread e eu levantarei o mundo

Xavier Miranda tinha uma pequena leiloeira em Alcácer do Sal especializada em serviços de chá em faiança, molduras em madeira forrada a folha d'oiro e aguarelas com motivos de pesca e caça. Conseguiu ao longo dos anos angariar com esforço uma clientela fiel e interessada, mas agora pressentia que precisava de lhes dar algo mais, algo que fizesse os seus clientes sentir que tinham ali uma espécie de Sothebys do Sado. Testou o mobiliário de quarto (mas as pessoas tinham aderido irreversivelmente ao formato soummier), tentou a iluminação art deco (mas as pessoas estavam cada vez mais a aderir à iluminação encastrada), tentou as imagens religiosas antigas (mas os padrecos estavam a recomendar cada vez mais uma 'religião viva') e quando falhou a venda dum lote de roupa interior usada nos estendais do 'Pátio das Cantigas' concluiu que tinha de ser mais imaginativo, quiçá quebrar com barreiras e preconceitos, quiçá despir um pouco mais as meninas que se passeavam com o produto pela plateia pois, como sabemos, a nudez é a melhor patine. Foi então um dia ao almoço com o Sr Teixeira, barbeiro em Grandola, que lhe surgiu a ideia luminosa: iria associar-se ao ministério das finanças e leiloar também divida publica juntamente com os lotes de pires de sacavém e aguarelas de peniche. Os seus clientes dariam finalmente o grande salto da baixa faiança para a alta finança, inclusive Xavier mudou o nome da sua empresa para Sadhobys, o que a incluiu imediatamente no circuito internacional dos magnates do petróleo, do chao min, da geropiga e do kebab. No entanto, o que de facto veio demonstrar que Xavier sabia o que fazia foi a sua ideia de identificar os lotes de divida publica com despesas reais do orçamento a que essa divida virtualmente corresponderia, e a atribuir um certificado em papel cavalinho (desenhado por uma pintora de Pinheiro da Cruz) que as pessoas podiam colocar na sala ao lado do serviço de chá ou mesmo da jarrinha de porcelana. E foi assim que a dona Elvira, dona de uma padeiria em Setubal, arrematou a verba para as 'despesas com a casa de banho do 2ª andar do museu dos coches' vencendo a licitação a um contabilista do Deutsch Bank que se distraiu com um pratinho de choquinhos fritos que Xavier distribuía pela sala. Mas, na sessão inaugural, quem fez furor foi Joaquim Carlos, um ladrilhador da Lagoa de Santo André que fez finca pé para arrematar a verba que financiaria os 'reposteiros do gabinete de uma subsecretária de estado adjunta', que fazia lote com a verba para a '3ª tranche de fardamentos para a guarda fiscal', e que estava a ser muito procurada por investidores duma sociedade de polidores de pipelines do Usbequistão, «think global but fuck local» chegou a desabafar Jens Magnus, o director dum fundo de pensões norueguês que andava à mais de três sessões para conseguir arrematar um lote que incluísse a divida para financiar uma 'padiolas novas para a lota de Sezimbra' onde ele tinha visto um casal de garoupas bem frescas numas férias do verão. O sucesso foi tanto que Xavier, empolgado, não só abriu sucursais em Benavente e em Nelas (para onde reservou lotes que incluiriam divida para despesas com o 'escalfetas para as repartições de finanças da Beira Interior'), como franchisou o conceito de leilão junto das bancas de peixe do Pingo Doce, em que por cada peixe espada o freguês levava um kit-dívida: uma lata de salsicha, um danoninho, e dois vales da secção de frescos para oferecer a um funcionário publico. Com Xavier cumpriu-se um destino: construiu-se um deficit de proximidade, e alargou-se o banco alimentar à dívida pública. Tem hoje o seu nome numa rua em Loures e uma fonte em Montemor-o-Velho contempla o seu busto em pedra-sabão.

2 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
aj disse...

Ai Ai Ai Ai Ai, mau maria!