Intermezzo Técnico

Um dos ateus da corrente hemorroidal (*), D. Dennett, numa entrevista que deu ao Der Spiegel há uns anos, entre outras iluminações haloageneirou estas (**):

«É preciso que se entenda que o papel de Deus foi diminuindo no decorrer dos anos. Primeiramente tínhamos Deus, como você disse, fazendo Adão e todas as criaturas com as próprias mãos, arrancando a costela de Adão e fazendo Eva a partir dessa costela. A seguir trocamos esse Deus pelo Deus que coloca a evolução em movimento. E depois dizemos que nem sequer precisamos deste Deus -o decretador da lei -, já que se levarmos as ideias da cosmologia a sério, concluímos que existem outros locais, e outras leis, e que a vida surge onde pode surgir. Então, agora não temos mais o Deus criador descobridor de leis, nem o Deus decretador de leis, mas apenas o Deus mestre-de-cerimónias. E quando Deus é o mestre-de-cerimónias e, na verdade, não desempenha mais papel algum no universo, ele ficou diminuído, e não interfere mais de forma alguma»

Esta alteração do papel de Deus que nos é revelada por Dennet, numa espécie de história das religiões em formado de chewing gum, acaba por ser, inadvertidamente, bem esgalhada. O circuito turístico criador-evolucionador-decretador teria esgotado face à concorrência dos paradisíacos cruzeiros caos-plasma-bactéria-carninha e agora as igrejas, supostas companhias de saltimbancos treinadas em efeitos especiais e alegorias, teriam recauchutado o seu Patrocinador principal por forma a incluí-lo no espectáculo como ‘mestre-de-cerimónias’.

Mas, no entanto, ainda constato duas coisas: a primeira, é que o novo de ‘mestre-de-cerimónias’ se mostra muito competente porque tem estado bastante bem a escolher para bobos intergalácticos estes novos ateus da fistula ardente; a segunda, é que espiritualmente o conceito de ‘mestre-de-cerimónias’ é igualmente bastante mais rico, aliciante e fecundo do que o de Criador e Legislador-Mor. Inclusivamente vejo com deleite Deus a delegar numa dupla de Anjos-Protões essa maçada da criação, e numa tríade de Anjos-Betinhos essa coisa da lei natural e outras doira-pívias afins, por forma a dedicar-se em exclusividade a orientar e embelezar as almas dos seus dilectos filhos, por forma a que estejam devidamente ataviadas para o juízo final, onde os afaga fistulas poderão fazer de tocadores de pandeireta.


(*) os que dizem as coisas com aquele ar de satisfação de quem tem no rabinho um saco de água morninha para amansar a fistula.

(**) vou mais ou menos transcrever o texto que apanhei num site brasileiro há uns tempos mas que já não sei qual é

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