Deus nos livre
Sempre dissemos que éramos uma nação que confiava, e depois se desiludia, demasiado com os sebastianismos. Mas a história recente mostra-nos que não são tanto os sebastianismos que moveram o nosso povo sufragante, e sim antes o que-nos-livraísmo. Soares livrava-nos dos comunistas, Cavaco livrava-nos de Soares, Guterres livrava-nos de Cavaco, Barroso livrava-nos de Guterres, Sócrates livrava-nos de Santana Lopes, Cavaco voltava para nos livrar de Sampaio, enfim…a democracia livrava-nos da grande noite, a CEE livrava-nos da indigência, o diálogo livrava-nos da surdez arrogante, a tanga livrava-nos do pântano, o reformismo livrava-nos do ramram, Os ingleses dos franceses, o Nuno Alvares Pereira dos Espanhóis, O D.Pedro dos absolutistas, o camarão de Espinho dos caracóis, o Rui Veloso dos fadistas, a Mª José Morgado do Pinto da Costa, o salmão fumado do bacalhau em posta, a liberalização livrava-nos do crime, bem, perdi-me.
Hardpio
Dou-me bem com a religiosidade miserável. Gosto de igrejas com gente sofrida, de pele enrugada, olhar escondido e pecados à flor da dita, apenas procurando carinho na madeira polida do genuflexório, e disponíveis para dar um bocado do seu braço por troca duma alma ainda na fase dos caboucos. Gente que dá uma na chaga e outra na cicatriz; não acredito em angústias limpas, dúvidas musicadas, teologias libertadoras, credos em cinemascope. Mas também gosto daquela pequena baba da hipocrisia, do esgar do escrúpulo, da gente que pensa conseguir lavar a alma com meia hora de cheiro a cabelos oleosos. No fundo o catolicismo adapta-se bem a gente, como eu, pouco esquisita. Gosto da parte estúpida da fé, da boca cheia de palavras de sentido e gosto duvidoso, do dogma desnecessário, da ameaça escatológica. O que seria da fé cristã se não pudéssemos pensar em Deus morto por nós na cruz enquanto desesperamos por uns bons pastéis de bacalhau. O que seria da fé sem a incompetência para perceber o mun...
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