Almoços Grátis. série 4 [2]



Entrei confiante. Estava um dia frio e o calor do restaurante trouxe-me uma tranquilidade de que não estava à espera. Já sentado ainda me veio ao paladar da memória aqueles cabrões dos tomates cherry. Nada puxa mais pelos instintos de vingança que um mau sabor de boca. Mas hoje tinha uma missão que estava para além do almoço: precisava de a confrontar com o meu olhar. Eu sabia que se ela sentisse o meu olhar pousado nela jamais o seu corpo me conseguiria mentir. Um gesto, um olhar, uma ondulação de corpo, qualquer coisa a iria atraiçoar, e isso dava-me aquela margem que um homem, que se sabe & sente enganado, precisa para enfrentar o destino. Antes que o empregado pudesse esboçar qualquer estratégia pedi arroz de coelho e outra vez antes que ele tentasse uma manobra de diversão com sugestões de bebida, usei aquela palavra que tudo mata num restaurante: água, só água. Flanqueadas as primeiras hostilidades concentrei-me na tarefa de pôr os olhos em cima de L. Como não consegues copular vais coocular, sussurrava-me o filha da puta do grilo-falante-dos-trocadilhos, o gricadilho. Mas eu estou muito treinado em enviar consciências para o caralho e já estava a saborear o coelho quando L. entra pela primeira vez na sala. Via-se que tinha posto o escudo contra olhares e voltou para dentro rapidamente. Nem napoleão fazia reconhecimentos de terreno tão rápidos. Ela está incomodada com a minha presença, foi o que disse o criptógrafo que tenho sempre no bolso. Talvez esteja complexada por me ter tratado sempre tão mal, disse-me o ingenuoscópio q tenho no outro bolso. Tirei as mãos dos bolsos e pus-me na alheta antes que viessem condescendentemente dizer que eu não pagava, como de costume.

Almoços Grátis. série 4 [1]



Mais de dois anos passaram desde a última vez que lá fui. O restaurante tinha feito ligeiras adaptações à decoração mas que me causaram um imediato efeito de dejà-vu. Sentei-me rapidamente para não alimentar os olhares. Peguei na ementa e fingi interesse em lê-la. Ninguém ousou aproximar-se. Estive assim mais de 5 minutos. Parecia um génesis sem criação. Sabia pouco da vida de L. durante estes anos e estava curioso. Fixei o olhar num ponto junto da entrada e fui interrompido por um empregado novo que vinha com espírito de missionário. As novidades estão aqui, lançou-se. Prefiro um clássico para começar. Faz bem, a Srª também me avisou que seria essa a sua escolha. Então L. agora era a Senhora - o que me deixou intrigado. Onde há Senhora há Senhor. Bem, lá para a sobremesa talvez já estivesse mais esclarecido. Comi um folhado de bacalhau que vinha acompanhado com uma espetada de tomate cherry com pérolas de mozarela de búfala. Via-se que esta variante de acompanhamento trazia qualquer código. Talvez fosse uma predilecção do Senhor. Eu detesto tomate cherry e L. sabe bem disso. Estava dada a mensagem: o tempo passara e eu passara com ele. Comi com o coração sintonizado em modo raiva. Saí rápido, sem sobremesa, sem café, como um Noé a sair da Arca com o rabo entre as pernas depois de não ter havido sequer um aguaceiro. Nem esbocei a intenção de pedir a conta, também já esqueci se o fiz para testar a reacção se foi apenas por pura desorientação. Dos distraídos é o Reino dos Céus, já se sabe.

Verdes anos



Carlos Miguel primeiro decidiu tornar-se vegetariano. Não foi por qualquer aversão à carne, nem sequer por qualquer paixão pelas plantas, ou até pelas flores, nada disso, quanto muito alguma estima pelos arbustos naquela parte que vem depois do ar. Tratou-se antes de negar ao corpo algo que lhe fosse familiar, fazê-lo passar pela mesma ausência por que passava a alma. Carlos Miguel, fosse por ser feio, fosse por ser tímido, fosse por ser burro, não conseguia, não tinha conseguido, ser o enche-almas de nenhuma mulher, não conseguia gemelar com nenhuma fêmea. E assim o seu espirito, naquilo que lhe era exigido de competências de sedução foi mirrando até não passar duma anémona-de-filósofos.
Ora se a alma não se satisfazia, Carlos Miguel não podia deixar o corpo andar por aí a provocar-lhe inveja entre bitoques e espetadas de novilho. No vegetal estaria a vingança.
Raivas Verdes Salteadas, Babeles de folhas em forma de Saladas, Sopas saídas de naturezas mortas, tartes para coletes à prova de bala, foram passadas a pente fino todas as capelinhas da via-sacra legumeira. Várias correntes teóricas foram testadas, e inclusive o metabolismo religioso teve de ser chamado nos momentos mais críticos.
Mas ao 7º dia o corpo sucumbiu. Foram feitas as exéquias com uns pimentos morrones, uma coisa digna mas rápida, e Carlos Miguel decidiu punir o seu corpo com flagelações mais dignas, e onde não corresse o risco de encontrar gafanhotos sem praga equivalente.
Com o corpo devidamente humilhado Carlos Miguel voltou a olhar para a sua alma com um ar mais confiante, desafiante mesmo: agora partiria tudo do zero.
No fundo, punir o corpo abriu os olhos à alma e Carlos Miguel começou a irradiar um poder de sedução que deixava boquiaberto o galã mais veterano. Mas a certa altura as mulheres começaram a cair-lhe nos braços que nem golfinhos de selfies, de tal forma que o corpo de Carlos Miguel começou a ter uma certa nostalgia dos tempos em que o brócolo era o Rei da sua vida.
E eis então que um sabre de luz lhe entrou pelo bolbo raquidiano adentro e Carlos Miguel conseguiu fazer a síntese que lhe faltava nesta dialéctica em que a sua vida se tinha transformado: seria vegetariano de corpo e carnívoro de alma.
Fulminava de dia com o olhar arrebatador do seu espírito ganadeiro, mas depois comia uma sopinha de espinafres antes de se deitar.