Mais de dois anos passaram desde a última vez que lá fui. O
restaurante tinha feito ligeiras adaptações à decoração mas que me causaram um imediato
efeito de dejà-vu. Sentei-me rapidamente para não alimentar os olhares. Peguei
na ementa e fingi interesse em lê-la. Ninguém ousou aproximar-se. Estive assim
mais de 5 minutos. Parecia um génesis sem criação. Sabia pouco da vida de L.
durante estes anos e estava curioso. Fixei o olhar num ponto junto da entrada e
fui interrompido por um empregado novo que vinha com espírito de missionário. As
novidades estão aqui, lançou-se. Prefiro um clássico para começar. Faz bem, a
Srª também me avisou que seria essa a sua escolha. Então L. agora era a Senhora - o que me deixou intrigado.
Onde há Senhora há Senhor. Bem, lá para a sobremesa talvez já estivesse mais
esclarecido. Comi um folhado de bacalhau que vinha acompanhado com uma espetada
de tomate cherry com pérolas de mozarela de búfala. Via-se que esta variante de
acompanhamento trazia qualquer código. Talvez fosse uma predilecção do Senhor.
Eu detesto tomate cherry e L. sabe bem disso. Estava dada a mensagem: o tempo
passara e eu passara com ele. Comi com o coração sintonizado em modo raiva. Saí rápido, sem
sobremesa, sem café, como um Noé a sair da Arca com o rabo entre as pernas
depois de não ter havido sequer um aguaceiro. Nem esbocei a intenção de pedir a
conta, também já esqueci se o fiz para testar a reacção se foi apenas por
pura desorientação. Dos distraídos é o Reino dos Céus, já se sabe.
Verdes anos
Carlos Miguel primeiro decidiu tornar-se vegetariano. Não
foi por qualquer aversão à carne, nem sequer por qualquer paixão pelas plantas,
ou até pelas flores, nada disso, quanto muito alguma estima pelos arbustos
naquela parte que vem depois do ar. Tratou-se antes de negar ao corpo algo que
lhe fosse familiar, fazê-lo passar pela mesma ausência por que passava a alma.
Carlos Miguel, fosse por ser feio, fosse por ser tímido, fosse por ser burro,
não conseguia, não tinha conseguido, ser o enche-almas de nenhuma mulher, não
conseguia gemelar com nenhuma fêmea. E assim o seu espirito, naquilo que lhe
era exigido de competências de sedução foi mirrando até não passar duma
anémona-de-filósofos.
Ora se a alma não se satisfazia, Carlos Miguel não podia deixar
o corpo andar por aí a provocar-lhe inveja entre bitoques e espetadas de
novilho. No vegetal estaria a vingança.
Raivas Verdes Salteadas, Babeles de folhas em forma de
Saladas, Sopas saídas de naturezas mortas, tartes para coletes à prova de bala,
foram passadas a pente fino todas as capelinhas da via-sacra legumeira. Várias
correntes teóricas foram testadas, e inclusive o metabolismo religioso teve de
ser chamado nos momentos mais críticos.
Mas ao 7º dia o corpo sucumbiu. Foram feitas as exéquias com
uns pimentos morrones, uma coisa digna mas rápida, e Carlos Miguel decidiu
punir o seu corpo com flagelações mais dignas, e onde não corresse o risco de
encontrar gafanhotos sem praga equivalente.
Com o corpo devidamente humilhado Carlos Miguel voltou a
olhar para a sua alma com um ar mais confiante, desafiante mesmo: agora
partiria tudo do zero.
No fundo, punir o corpo abriu os olhos à alma e Carlos
Miguel começou a irradiar um poder de sedução que deixava boquiaberto o galã
mais veterano. Mas a certa altura as mulheres começaram a cair-lhe nos braços que
nem golfinhos de selfies, de tal forma que o corpo de Carlos Miguel começou a
ter uma certa nostalgia dos tempos em que o brócolo era o Rei da sua vida.
E eis então que um sabre de luz lhe entrou pelo bolbo
raquidiano adentro e Carlos Miguel conseguiu fazer a síntese que lhe faltava nesta
dialéctica em que a sua vida se tinha transformado: seria vegetariano de corpo
e carnívoro de alma.
Fulminava de dia com o olhar arrebatador do seu espírito ganadeiro,
mas depois comia uma sopinha de espinafres antes de se deitar.
Da Tuita para o Convento
Luisa Maria, nome de código @luisimia80,
era uma mulher-com-ideias tentando impor-se no já sobrepovoado mundo do
cronismo meta-jornalístico e buscava um reconhecimento que lhe permitisse
chegar ao olimpo do poder dizer-o-que-quisesse pois todos lhe reconheceriam
sempre muita-graça-e-estilo. Ora a frescura embalada chegou primeiro ao
jornalismo do que às saladas e ela tinha de treinar, no duro mas aparentando
leveza, no confronto do seu sucesso com o da concorrência. Contava com uma
coisa boa, neste meio onde agora habitava em time-sharing os concorrentes
tinham o inusitado hábito de se coçarem uns aos outros, o que tornava muito
curiosa a confrontação; tirando alguns bichos-do-mato no geral eram quase todos
peluches vestidos de cabedal. A televisão também andava compradora de boquinhas
de chumbo & lã e com apenas uma ideia fresca decoravam-se logo meia dúzia
de saladeiras de porcelana de Opina.
Mas neste novo mundo havia agora um
bónus onde todos os cronistas & afins podiam expor as pernocas para testar
os passos do baile e tornarem-se caras mais conhecidas: o Cabaret da Tuita
tinha todas as noites números especiais para comentadores em ascensão.
Chegava-se lá e, em bar aberto durante umas horas, ia-se lançado um foguetório interactivo
apalpando a audiência e aproveitando para observar o volume da braguilha cerebral
dos clientes habituais. Como se diz no economês moderno, era um indicador
avançado de popularidade.
Só que Luisa Maria, que no
Cabaret da Tuita se transformava na @luisimia80 e vestia um avatar de
franja-e-biblioteca, começou a escrever de arrastadeira. Quando morria gente
que ela não conhecia e recebiam prémios artistas que lhe eram alheios, ela
apenas podia aliviar-se numas palavras de circunstância, fazendo um semi
cancan-de-graça e citando outros amigos que também por lá andavam a mostrar as
partes baixas do pensamento, em fishing for retuiters, uma espécie de table
dance muito em voga no Cabaret.
E enquanto lá ia ela soprando
o seu menu de banalidinas, de mesa em mesa, servindo groselha como se fosse
Bacardi e anunciando que vendia bibelots de palavreado noutras bancas de
vaidades, a idade avançava e o metabolismo das hormonas ia pondo pastilhas
novas nos travões.
Luisa Maria tinha deixado que a @luisimia80
lhe esvaziasse a alma e lhe secasse o corpo. Com as costas aplainadas de tanto
amiguismo, depois de fazer tantos wordjobs à clientela, já estava incapaz de
ouvir uma crítica, já só sabia despachar um rotineiro não-gostas-não-leias, e
deixava o stock de esperteza esvair-se no belo efeito, vendendo textos
coloridos como se fossem auroras boreais. Entrara pelo lado do círculo virtuoso, passara
para o círculo vicioso e agora aterrava no círculo belicoso: fora do vazio da polémica
só havia a polémica do vazio.
Foi então que conheceu frei
Esteves. E Frei Esteves fez-lhe ver a luz. Mostrou-lhe a estrela das origens,
deu-lhe um bloco de rascunhos, um papel e um novo testamento. Disse-lhe que só devia
ler aquilo que lhe envergonhasse dizer que lia, disse-lhe que só podia comentar
aquilo a que ninguém ligava, só podia elogiar aqueles que todos desconheciam,
tinha de passar despercebida, tinha de se limpar das teias do reconhecimento.
Escrever num jornal de paróquia, fazer letras para canções de missa, bordar
orações em aventais para vender em quermesses de Natal.
Poderia continuar no Cabaret da
Tuita, sim, mas agora mudaria o nome-de-guerra para @herd_broken , tinha de
cortar as amarras com o rebanho, doravante iria tuitar apenas ao serviço do bem,
virada para o seu interior, para as discretas forças do sublime, e nem
o luto de Celine Dion a poderia desviar. Como prémio de consolação manteria a
franja, pois mesmo no reino da simplicidade o estilo não deve morrer
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