Almoços Grátis. série 4 [1]



Mais de dois anos passaram desde a última vez que lá fui. O restaurante tinha feito ligeiras adaptações à decoração mas que me causaram um imediato efeito de dejà-vu. Sentei-me rapidamente para não alimentar os olhares. Peguei na ementa e fingi interesse em lê-la. Ninguém ousou aproximar-se. Estive assim mais de 5 minutos. Parecia um génesis sem criação. Sabia pouco da vida de L. durante estes anos e estava curioso. Fixei o olhar num ponto junto da entrada e fui interrompido por um empregado novo que vinha com espírito de missionário. As novidades estão aqui, lançou-se. Prefiro um clássico para começar. Faz bem, a Srª também me avisou que seria essa a sua escolha. Então L. agora era a Senhora - o que me deixou intrigado. Onde há Senhora há Senhor. Bem, lá para a sobremesa talvez já estivesse mais esclarecido. Comi um folhado de bacalhau que vinha acompanhado com uma espetada de tomate cherry com pérolas de mozarela de búfala. Via-se que esta variante de acompanhamento trazia qualquer código. Talvez fosse uma predilecção do Senhor. Eu detesto tomate cherry e L. sabe bem disso. Estava dada a mensagem: o tempo passara e eu passara com ele. Comi com o coração sintonizado em modo raiva. Saí rápido, sem sobremesa, sem café, como um Noé a sair da Arca com o rabo entre as pernas depois de não ter havido sequer um aguaceiro. Nem esbocei a intenção de pedir a conta, também já esqueci se o fiz para testar a reacção se foi apenas por pura desorientação. Dos distraídos é o Reino dos Céus, já se sabe.

Verdes anos



Carlos Miguel primeiro decidiu tornar-se vegetariano. Não foi por qualquer aversão à carne, nem sequer por qualquer paixão pelas plantas, ou até pelas flores, nada disso, quanto muito alguma estima pelos arbustos naquela parte que vem depois do ar. Tratou-se antes de negar ao corpo algo que lhe fosse familiar, fazê-lo passar pela mesma ausência por que passava a alma. Carlos Miguel, fosse por ser feio, fosse por ser tímido, fosse por ser burro, não conseguia, não tinha conseguido, ser o enche-almas de nenhuma mulher, não conseguia gemelar com nenhuma fêmea. E assim o seu espirito, naquilo que lhe era exigido de competências de sedução foi mirrando até não passar duma anémona-de-filósofos.
Ora se a alma não se satisfazia, Carlos Miguel não podia deixar o corpo andar por aí a provocar-lhe inveja entre bitoques e espetadas de novilho. No vegetal estaria a vingança.
Raivas Verdes Salteadas, Babeles de folhas em forma de Saladas, Sopas saídas de naturezas mortas, tartes para coletes à prova de bala, foram passadas a pente fino todas as capelinhas da via-sacra legumeira. Várias correntes teóricas foram testadas, e inclusive o metabolismo religioso teve de ser chamado nos momentos mais críticos.
Mas ao 7º dia o corpo sucumbiu. Foram feitas as exéquias com uns pimentos morrones, uma coisa digna mas rápida, e Carlos Miguel decidiu punir o seu corpo com flagelações mais dignas, e onde não corresse o risco de encontrar gafanhotos sem praga equivalente.
Com o corpo devidamente humilhado Carlos Miguel voltou a olhar para a sua alma com um ar mais confiante, desafiante mesmo: agora partiria tudo do zero.
No fundo, punir o corpo abriu os olhos à alma e Carlos Miguel começou a irradiar um poder de sedução que deixava boquiaberto o galã mais veterano. Mas a certa altura as mulheres começaram a cair-lhe nos braços que nem golfinhos de selfies, de tal forma que o corpo de Carlos Miguel começou a ter uma certa nostalgia dos tempos em que o brócolo era o Rei da sua vida.
E eis então que um sabre de luz lhe entrou pelo bolbo raquidiano adentro e Carlos Miguel conseguiu fazer a síntese que lhe faltava nesta dialéctica em que a sua vida se tinha transformado: seria vegetariano de corpo e carnívoro de alma.
Fulminava de dia com o olhar arrebatador do seu espírito ganadeiro, mas depois comia uma sopinha de espinafres antes de se deitar.

Da Tuita para o Convento



Luisa Maria, nome de código @luisimia80, era uma mulher-com-ideias tentando impor-se no já sobrepovoado mundo do cronismo meta-jornalístico e buscava um reconhecimento que lhe permitisse chegar ao olimpo do poder dizer-o-que-quisesse pois todos lhe reconheceriam sempre muita-graça-e-estilo. Ora a frescura embalada chegou primeiro ao jornalismo do que às saladas e ela tinha de treinar, no duro mas aparentando leveza, no confronto do seu sucesso com o da concorrência. Contava com uma coisa boa, neste meio onde agora habitava em time-sharing os concorrentes tinham o inusitado hábito de se coçarem uns aos outros, o que tornava muito curiosa a confrontação; tirando alguns bichos-do-mato no geral eram quase todos peluches vestidos de cabedal. A televisão também andava compradora de boquinhas de chumbo & lã e com apenas uma ideia fresca decoravam-se logo meia dúzia de saladeiras de porcelana de Opina.
Mas neste novo mundo havia agora um bónus onde todos os cronistas & afins podiam expor as pernocas para testar os passos do baile e tornarem-se caras mais conhecidas: o Cabaret da Tuita tinha todas as noites números especiais para comentadores em ascensão. Chegava-se lá e, em bar aberto durante umas horas, ia-se lançado um foguetório interactivo apalpando a audiência e aproveitando para observar o volume da braguilha cerebral dos clientes habituais. Como se diz no economês moderno, era um indicador avançado de popularidade.
Só que Luisa Maria, que no Cabaret da Tuita se transformava na @luisimia80 e vestia um avatar de franja-e-biblioteca, começou a escrever de arrastadeira. Quando morria gente que ela não conhecia e recebiam prémios artistas que lhe eram alheios, ela apenas podia aliviar-se numas palavras de circunstância, fazendo um semi cancan-de-graça e citando outros amigos que também por lá andavam a mostrar as partes baixas do pensamento, em fishing for retuiters, uma espécie de table dance muito em voga no Cabaret.
E enquanto lá ia ela soprando o seu menu de banalidinas, de mesa em mesa, servindo groselha como se fosse Bacardi e anunciando que vendia bibelots de palavreado noutras bancas de vaidades, a idade avançava e o metabolismo das hormonas ia pondo pastilhas novas nos travões.
Luisa Maria tinha deixado que a @luisimia80 lhe esvaziasse a alma e lhe secasse o corpo. Com as costas aplainadas de tanto amiguismo, depois de fazer tantos wordjobs à clientela, já estava incapaz de ouvir uma crítica, já só sabia despachar um rotineiro não-gostas-não-leias, e deixava o stock de esperteza esvair-se no belo efeito, vendendo textos coloridos como se fossem auroras boreais. Entrara pelo lado do círculo virtuoso, passara para o círculo vicioso e agora aterrava no círculo belicoso: fora do vazio da polémica só havia a polémica do vazio.
Foi então que conheceu frei Esteves. E Frei Esteves fez-lhe ver a luz. Mostrou-lhe a estrela das origens, deu-lhe um bloco de rascunhos, um papel e um novo testamento. Disse-lhe que só devia ler aquilo que lhe envergonhasse dizer que lia, disse-lhe que só podia comentar aquilo a que ninguém ligava, só podia elogiar aqueles que todos desconheciam, tinha de passar despercebida, tinha de se limpar das teias do reconhecimento. Escrever num jornal de paróquia, fazer letras para canções de missa, bordar orações em aventais para vender em quermesses de Natal.
Poderia continuar no Cabaret da Tuita, sim, mas agora mudaria o nome-de-guerra para @herd_broken , tinha de cortar as amarras com o rebanho, doravante iria tuitar apenas ao serviço do bem, virada para o seu interior, para as discretas forças do sublime, e nem o luto de Celine Dion a poderia desviar. Como prémio de consolação manteria a franja, pois mesmo no reino da simplicidade o estilo não deve morrer