Summa Pathológica



O amor pela desigualdade é algo difícil de alcançar sem se cair na armadilha da excentricidade. Ninguém gosta de ser igual a toda a gente mas poucos gostam de ser tratados como diferentes, porque diferença é geralmente diminuição e alienação.
Por regra somos seres desinteressantes, demasiado centrados em nós próprios, incapazes de nos abstrairmos das condicionantes básicas da nossa singular existência, generalizantes compulsivos e exceptuantes bacocos.
Fazemos da previsibilidade a nossa maior virtude e suspiramos pelo reconhecimento alheio com a mesma candura que exigimos misericórdia pelos nossos erros, à qual chamamos justiça. A religião é uma secreta arma que sacamos em momentos de matemática mais complicada mas que descartamos logo na primeira oportunidade em que nos aparece um ás na mão, vindo eventualmente da manga.
Todas as revoluções foram até agora um desperdício e espremidas deram um suco meloso a que chamamos liberdade aprisionada pelas pírricas instituições. Ninguém consegue hoje mandar foder nada em condições, muito menos Deus.
A nossa maior derrota está numa unidade de defeitos. A nossa maior vitória é a diversidade de camuflagens.

Maiakosvski meu amor



À beira dum governo provisório revolucionário quero dizer-vos que me irrita o que vos vou dizer mas se fosse Costa faria igualzinho ao que ele anda a fazer. Ainda retenho uma réstia daquele fascínio da tomada do poder pela revolução e só agora reparei nisso. Vai em frente costa, fica na história, só isso interessa, o resto é a decadência da burguesia, a barriguinha, o chapéu de coco, o charuto, as microfrantasias. Manda o assis foder, manda o serginho prócaralho, agarra o poder com toda a força que tenhas, só isso interessa, nada mais vale a pena fora do poder, a ideologia é palha, a tradição é folículo, a democracia é peste, os tratados são fungos, o voto é merda. Abre os olhos, deixa as sobrancelhas tranquilas, não te espantes com nada, não derrapes na hesitação, concentra-te na certeza de que tudo é fortuito e estéril, apenas o instante vale a pena. Não te desvies, o sim e o não são meros degraus, a verdade é apenas um patamar, ri-te, chora, sua, sangra, mas no fim limpa o trono para que não se perca a limpeza da causa. Sim porque afinal de contas há uma causa. E essa causa é a nossa salvação, o que nos salva é apenas o poder, esse vírus cretino mas saboroso, esse orgasmo tenso e fluido, doce, lento, pétala a pétala, como um espasmo em flor. Não te engasgues.

Fundos de resolução



O chamado Novo Banco (espécie de subproduto do BES, com o qual, adicionando alguma proteína, se pretendeu fazer novamente ração de combate) é uma curiosa ( e inspiradora) criação mista: por um lado é uma mera construção artificial de secretaria (como alguns campeonatos passados ganhos pelo Porto e pelo Benfica) e por outro tornou-se como que um banco de todos nós (muito mais que a CGD), com lesados, fodidos, enganados, resignados, estupefactos, entalados e, claro, mais uns quantos a rirem-se (há sempre hienas nalgum local da selva).

Esta combinação de estruturalismo com populismo é um manancial para todos os campos de análise. Pensemos agora nas simples relações humanas. Entre duas pessoas há sempre algo estrutural: o tipo de relação, como se dirigem um ao outro, como se conheceram, sobre que temas falam, o que sabem um do outro, o que acham um do outro, o que acham que o outro acha, e mais uma carrada de etceteras de todo o tipo e feitio. Por outro lado existem os momentos, o que vai acontecendo, as situações que se vão gerando, os equívocos, as paixões, as danações, os entusiasmos, as frustrações, as dúvidas, os interesses e os desinteresses, enfim, um sem número de possibilidades que acabam por se sobrepor ao estrutural e que na maior parte das vezes se tornam a sua estrutura, como se fossem as portas a definir as paredes.
É sabido que os Flamengos, antes ainda de conhecerem tecnicamente as noções da perspectiva, apenas com o domínio técnico da pintura a óleo e com o seu cuidado pelos detalhes, conseguiam construir uma estrutura pictórica em perspectiva, dando noções reais de espaço, profundidade e dimensão.
Infelizmente, nas relações humanas, a junção de perfeitos detalhes, combinados com mestria e talento dá, quase sempre, uma estrutura de merda, sem perspectiva nenhuma e com os planos todos sobrepostos, como se fosse um cubismo de mercearia.
Confesso que, mesmo com tanto erro de regulação à vista, gostava que existisse uma entidade reguladora para as emoções. E, algures, uma reserva de bom senso, onde se fossem buscar alguns fundos de resolução.