A sorte grande de um homem dá-se quando lhe sai uma
mulher-de-tragédia. Ou melhor, de trajédia, sim, uma mulher que se saiba vestir
de sofrimento & vingança mas toda ela seja estremeções de ironia por
dentro, uma mulher que se ria – a bom rir - da nossa inferioridade e que pareça
sofrer com isso como se o mundo lhe estivesse a ser cruel e nós – por isso - merecêssemos
uma dor sem alívio. Não há orações nem santos específicos para que nos saiam na
rifa esses tipos de mulheres - nem seriam rezas fáceis - mas devemos fazer um
esforço. Há mulheres que parecem banais máquinas de frivolidade mas que a
conseguem transformar em veneno de ratos apenas com dois suspiros e muitas
vezes nem sequer apanhamos a brisa do pestanejo porque já fomos colhidos e
atirados para a berma. Aquilo a que se pode chamar paixão masculina geralmente
dispersa-se muito. Mantemos a fama de caçadores mas não passamos de
varejadores. Poucos merecemos uma mulher que nos faça sofrer em condições e que
se vingue em nós de todas as afrontas que a humanidade lhes fez quando se acasalou
com a civilização sem dar cavaco à natureza.
Riga de Aluguer
Carlinhos sonhava com o Báltico. Poderia ter optado por uma nostalgia
mais estónica mas não há nada como aquela letal-luz-letã. Uma luz que mata sem
pulsão, mata apenas como desejo mal reprimido. Não tendo nenhum útero conhecido
por aquelas bandas acabou por arrendar um apartamento pelo airbnb onde iria
passar uma semana até que as águas do Daugava lhe rebentassem nos cornos. Ia só
mas esperava que alguma companhia pudesse desabrochar naquele final de
Primavera, numa espécie de namoro floralmente assistido, isentando-o daquelas
liturgias de engate que obrigam a percorrer bancas de orquídeas vendidas ao
preço de resgates a países de mau rating.
Pediu à pombinha do espírito santo que lhe fizesse bater à
porta uma fêmea com língua de fogo e que, assim, ficasse bem escaldado com o
primeiro beijo. Fecharia os olhos e amaria que nem uma Cância desprendida, sem
se preocupar de qual ventrículo viria a paixão envolvida.
E foi assim numa Riga alugada que Carlinhos encontrou uma
senhoria generosa que o adoptou como amante em regime de contrato de associação,
ou seja, onde um letão não chegasse com a pila ele desenrascaria com a mão.
Dispensado de renda paga em contado, passeava pela cidade
sem olhar a meios, cobiçando tudo o que apresentasse a baínha acima do joelho
mas exercitando uma abstinência de modelo sublimado o que lhe permitia dedicar
os serões a escrever poesia de pendor kantiano, distribuindo rimas categóricas,
pensadas à priori e absolutamente independentes da sua experiência que,
diga-se, estava indelevelmente marcada por uma austeridade sentimental forçada
por desgostos resolvidos à base de relaxantes musculares.
Alheada das inseminações da politica e do futebol doméstico,
a sua uterina Riga todos os dias lhe preparava um espectáculo diferente, ora
nuvens em forma de animais mitológicos, ora chuvas mais miudinhas que o
pintelho de um memorando de Catroga, ora sóis a porem-se que nem bochechas de
bébé em pleno alívio de entranhas, pelo que Carlinhos andava em Riga de papo
cheio. Tão papudo que a senhoria o despachou ao fim de uma semana. Para homens
felizes já bastavam os ejaculadores profissionais, até para uma mulher à beira
do báltico lhe faz falta um homem que apenas saiba fingir uma tristeza
inofensiva, aquele tipo de triste que toda a gente sabe que é um pateta alegre.
Carlinhos regressou. Se um homem anda folgado o melhor é que
venha uma mulher e cancio.
Porcentimento
A intuição já teve os seus melhores dias, Freud e mais
recentemente Kahneman fizeram bastante por ela mas não o suficiente para
matarem essa persistente mania do homem em pensar elaboradamente sobre o que o
rodeia por fora e por dentro. Mas por outro lado, se virmos bem, o pensamento
também já teve os seus momentos de glória, esse lado piolhoso da nossa natureza
que se dedica a confabular sobre si própria tem-nos provocado inúmeros percalços
e quantas vezes o método foi mais discurso e menos recurso. Por isso o homem,
sempre na busca das terceiras vias, sejam elas bermas, sejam elas separadores
centrais, tende a escolher locais para se despistar cada vez com mais estilo. Recorrentemente,
a par da lírica e do absurdo, o homem-número puxa dos seus galões e põe as suas
estatísticas no coldre. Que se lixe o romantismo, que se lixe o realismo, que
se lixe o sentimento, que se lixe a paisagem: viva a percentagem. Cansados de
tanto pressentimento os homens tendem a pensar que o fim do mundo é apenas o
resultado de uma cadeia de sinais. Começa-se numa volatilidade, passa-se a uma tendência
e finalmente temos uma probabilidade. O mundo torna-se mais evidente e rotundo que o rabo
duma kardashian; deixamos de antever, deixamos de apenas relacionar, deixamos
de precisar sequer de perscrutar a realidade, basta-nos porcenti-la. Para quê
um romance, para quê um ensaio, para quê um estudo, quando temos um
porcentimento tão profundo que nos diz que se quem tem cu tem medo, não é por
muito morrer que se morre mais cedo.
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