Porcentimento



A intuição já teve os seus melhores dias, Freud e mais recentemente Kahneman fizeram bastante por ela mas não o suficiente para matarem essa persistente mania do homem em pensar elaboradamente sobre o que o rodeia por fora e por dentro. Mas por outro lado, se virmos bem, o pensamento também já teve os seus momentos de glória, esse lado piolhoso da nossa natureza que se dedica a confabular sobre si própria tem-nos provocado inúmeros percalços e quantas vezes o método foi mais discurso e menos recurso. Por isso o homem, sempre na busca das terceiras vias, sejam elas bermas, sejam elas separadores centrais, tende a escolher locais para se despistar cada vez com mais estilo. Recorrentemente, a par da lírica e do absurdo, o homem-número puxa dos seus galões e põe as suas estatísticas no coldre. Que se lixe o romantismo, que se lixe o realismo, que se lixe o sentimento, que se lixe a paisagem: viva a percentagem. Cansados de tanto pressentimento os homens tendem a pensar que o fim do mundo é apenas o resultado de uma cadeia de sinais. Começa-se numa volatilidade, passa-se a uma tendência e finalmente temos uma probabilidade. O mundo torna-se mais evidente e rotundo que o rabo duma kardashian; deixamos de antever, deixamos de apenas relacionar, deixamos de precisar sequer de perscrutar a realidade, basta-nos porcenti-la. Para quê um romance, para quê um ensaio, para quê um estudo, quando temos um porcentimento tão profundo que nos diz que se quem tem cu tem medo, não é por muito morrer que se morre mais cedo.

Almoços Grátis. série 4 [5]



No dia anterior o almoço tinha terminado numa duna. Só deserto aplainado pelo vento, sem trilhos. Assim hoje entrei no restaurante em total concentração. Como só um homem se sabe concentrar: meio caçador meio presa. Era um rally nas dunas; ora se há altura em que não devemos andar de cabeça erguida é quando existe a possibilidade de capotarmos, mas o orgulho, entre várias outras performances, torna-nos estúpidos. Sentei-me de tal modo que me podiam confundir com um catavento no cimo duma igreja. Como se não bastasse pedi ovas grelhadas, um clássico do restaurante mas que sempre me fez imaginar na cozinha a inseminarem pescadas in vitro. A proveta do peixe assado é o pirex. L. estava toda entretida com um grupo de comensais, olhou para sim e fez aquele olhar que equivale a um até-já-sem-pressa. Por mais irritante que tenha de confessar é um olhar francamente atraente, seja ele feito numa fila de supermercado seja feito em cima dum colchão. Já estava a dominar uns profiteroles quando L. veio ter comigo. Ontem quase não me disseste nada, disse ela, não percebi se a provocar-me se apenas a treinar os glúteos da conversa de circunstância. Tudo o que eu te diga não vale nada por isso tanto dá, foi a minha resposta quase obrigatória. Olha, e que tal tens comido por aqui, disse ela inesperadamente colada à realidade. Mas eu quero lá saber da realidade, porra! E ela sabe isso! Ela sabe que não me interessa nada a realidade. A realidade é apenas aquilo que impede a ilusão de se dissipar no ar. Ela sabe que a realidade é apenas uma embalagem. Ela sabe. Por que raio insistiu ela nesta merda. O restaurante é uma fachada do nosso amor. Para quê esta merda. Uns lavam dinheiro à escondida, nós lavamos corações. O café estava inesperadamente doce mas sem aquele toque meloso que estraga tudo. Já estava no táxi e ainda me sabia bem lamber o céu da boca, assim até dá gosto engolir em seco.

Almoços Grátis. série 4 [4]



Talvez tenha sido a vez que entrei mais hesitante no restaurante. Sentia que iria apenas demonstrar inferioridade, dependência, submissão. Todas aquelas marcas que receamos e que geralmente fazem o diabo tomar conta dos acontecimentos. Para além disso qualquer homem sabe, de cultura e técnica sólida, que não conquista nenhuma mulher com manobras de aproximação. Sem dar bem conta de nada já estava sentado a comer creme de cenoura. Saboroso como se fosse um veneno dócil na mão duma feiticeira. A cenoura acalma-me, põe-me nos braços da minha mãe, transporta-me para aquele reino de felicidade estúpida que não sabemos explicar. Era o momento certo para a L. aparecer porque eu seria irremediavelmente sincero. E assim me apareceu ela à mesa. Mais gordito, hem? Como aproximação não foi má: não mata, aleija sem sangrar, rasteira sem fazer cair, abre espaço para uma resposta não comprometedora, permite um sorriso estúpido mas que parece apenas surpresa, não exige nenhum coração aos saltos, o corpo pode ficar inerte, e não surge aquela vertigem de fugir que geralmente todos tememos. Bem, só agora à posteriori é que consigo fazer estas considerações, na altura, ora na altura, eu tenho sempre uma saída, qualquer coisa com piada. O maior mito moderno é que as mulheres gostam de tipos com piada. Só se for para os levarem para as sapatarias. A minha memória esmagou o que se passou a seguir como quem desfaz beatas ao passeio.