O todo e as partes



Será sempre um dilema nunca resolvido pelo homem. A lógica aparentemente teria rebentado com as dúvidas, mas a vida e os seus apêndices mais ou menos científicos vieram corromper essa segurança de primeira instância na relação entre o todo e as partes.
A realidade é fértil de exemplos prosaicos: uma pessoa pode sentir-se satisfeita consigo própria de forma global mas depois não encontrar nenhuma parte que se aproveite, mas esta ocorrência, repare-se, não impede também a simétrica, ou seja, alguém sentir-se razoavelmente contente/descontente em várias parcelas do seu ser mas, no conjunto, achar-se o mais pequeno grão de areia/ última coca-cola do deserto.
Olhemos agora para um contexto argumentativo. Alguém pode estar placidamente concordante com um conjunto de argumentos enquanto colocados isoladamente, mas depois o conjunto ser-lhe um absurdo gritante (as falácias funcionam muito nesta base). No entanto, achar arrepiante cada um dos argumentos isolados e depois apaixonar-se pelo conjunto também é bastante vulgar. Este exemplo é um clássico da retórica e … da beleza.
Aliás, convenhamos, beleza e discurso são realidades muito semelhantes. É impossível ficar indiferente a uma beleza argumentativa e, arrisco, ela provoca geralmente, tal como a beleza física, reacções nos dois extremos: ou nos apaixonamos ou nos irritamos de morte com tanta argumentação ou com tanta beleza.
Em geral, e vamos ao que interessa, a pessoa normal não sabe argumentar. Foge com frequência para o conforto dos seus preconceitos, aninha-se nas miudezas curriculares de belo efeito e, não raro, escarafuncha nas partes perdendo completamente a noção do conjunto, ou ataca o conjunto esquecendo-se autisticamente das partes que o definem. Argumentar é para a psique humana quase sempre sinónimo de mero auto-consolo, uma espécie de wonderbra da consciência tranquila.
Cada vez acredito mais na marretada na cabeça como fonte de conhecimento.

Roma Revisitada


Voltemos ao princípio. Ponhamos que existia um continente de nações com grandes desigualdades, mas com muito em comum. E um ‘muito’ composto por muitos. Ponhamos que, por razões encontradas no sangue, no suor e nas lágrimas passadas, havia vontade de unir esforços e criar algo único, com uma homogeneidade, digamos, para simplificar, cultural e económica. Algumas dessas nações estavam financeiramente degradadas (como se de uma guerra perdida se tratasse), outras pujantes (como se de uma guerra ganha se tratasse), fosse por causa do clima ou por causa do estômago, ou até por causa da distribuição irregular de hormonas. Ponhamos que essas nações se queriam ajudar umas às outras, solidariedade, diz o dicionário, e logo através de uma nova unidade política – qualquer que ela fosse, para dar vazão a todos: aos manuais, aos maquiaveles, às madres teresas, a todos- que significasse um entendimento de valores e de estilos de representação politica.
Como começar esse movimento de solidariedade e combinação de esforços?...
Pela criação de uma moeda única.

Os primeiros anos



Renata só tinha recordações felizes. Parecia coisa de vírus, mas só se lembrava do bem que lhe tinham feito, dos momentos bens passados, o seu arquivo mental era composto apenas de dossiers coloridos, cenas bem agrafadas, nenhumas pontas soltas, só paixões concluídas ora com amizades à prova de sexo, ora com acoplagens fecundas, ora esquecimentos olímpicos, tudo selado a sangue doce.
Houve sempre alguém que lhe puxasse pelas arrelias da vida, homens de flirt fluido ou de cérebro difícil, mas ela sabia encontrar o encanto de cada um, tinha um radar de virtudes, um detector de metais preciosos mesmo para as personalidades mais subterrâneas ou até cruéis.
Não conseguiu evitar alguns dilemas vertiginosos de deixo-não-deixo, não evitou alguns precipícios, mas conseguiu sempre encontrar uma corrente quente que a fez ascender aquele lugar plano, sereno e bucólico onde as mulheres gostam de pousar o coração por mais amazonas ou felinas que se sintam ou sejam.
Renata sabia-se uma privilegiada na lotaria dos sentimentos, jamais guardara rancores, jamais se revoltara com os caminhos por onde tinha deslizado, vivia a combinar a experiência de viver com a inocência de nascer, como um caldo de legumes frescos sempre a apurar e sempre a exalar o perfume dum prado sem maçãs nem serpentes.
Uma vez, lá num tempo semi-longe, esteve quase a deixar-se ir, agarrada por um peito incapaz de esconder funções irregulares, onde o coração já filtrava o ar e o pulmão bombava o sangue. E Renata, presa a uma rede de inexplicáveis, deixou-se arrastar, embalada por uma vaga longa, por vezes brusca, ou acelerada ou suave, ou redentora , fatal.
Era um homem inesperado, verdadeiro no olhar, safado, mas que amava também deixando-se amar, com uma intrigante ferrugem a luzir dourado, que não deixava perceber como é que o tempo passava por ele. Veio do nada. Mas ela para o nada o soube reencaminhar.