Bailout, Disciplina, Dominação, Submissão e Monetarismo




Verificado o mecanismo de fecho das algemas, testada a elasticidade dos chicotes, foi como adultos que os gregos se apresentaram hoje na mesa das negociações. Já não houve queixas sobre as brincadeiras e tudo se passou em ambiente de submissão, num estilo Houllebeckiano, neste caso après la lettre. Sem temáticas religiosas a tirarem o brilho ao couro foi com posições clássicas que se abordaram as propostas. Dívida, compromisso, crescimento e fidelidade não foram conceitos que embaraçassem os parceiros: copulou quem pagou, swingou quem pode e auto-gratificou-se quem pôs os credores de mãos a abanar; quem só trouxe moedas para os parquímetros teve de escrever «Dijsselbloem» 20 vezes no quadro sem se poder enganar. Antes um bordel na mão que dois bailouts a voar, avisou Tsipras entre dois iogurtes sem pedaços.

Brincar, sim, mas agora como adultos



A nossa lagarde, cristine, com a qual metade dos burocratas, ludocratas e fornicratas europeus já tiveram sonhos húmidos, diz que só volta a brincar com os gregos se desta vez eles fizerem de adultos. Cansada de brincar às enfermeiras e às casinhas, lagarde agora quer chicote , algema e couro reluzente também na mesa das negociações, a table dance era opcional mas os gregos mostram-se incapazes de levar uma dançarina em condições para as cimeiras; na careca de varoufakis dá para se patinar mas desliza-se demasiado nos paso-dobles. Adultos, pede ela, gente capaz de gerir as vasodilatações, de agarrar as ancas sem magoar, e de manipular orgasmos até ao limite da tendinite. Entre uma Mutti e uma Mata-Hari vivem agora os gregos, querendo colinho mas indecisos entre ferrar o dente ou investir no labial. Quem nunca passou por não saber onde pôr as mãos que atire a primeira pedra; varoufuck yourself, gostavam eles de ter dito.

Varoufakis's theorem


the square of the tie is equal to the sum of the squares of the collars

Santos inocentes


Logo quando Louçã se apresentou orgulhosamente sem gravata e ninguém lhe deu uma maioria absoluta por esse arrojo que deveríamos ter desconfiado que os deuses (já) não estavam a olhar por portugal.

Entretanto a miséria foi-se naturalmente instalando, confirmando o ostracismo: os americanos já não querem os açores para nada, a galinha angolana deixou de chocar poços de ouro negro e passou apenas a debicar o fundo do mar sacando um liquido viscoso e negro que custa menos que o óleo fula, o Lobo Antunes acho que já nem para decorar prateleiras serve, os espanhóis já nem gastam vaselina a enrabar-nos (no tempo de Mário Conde ainda nos besuntaram com o roquette durante algum tempo), os chineses estão a trocar restaurantes por electricidade em pó, as finas flores da finança já nem rendem como naturezas mortas, e os brazucas, que já não nos ligam pevide há carradas de anos, agora até se dão ao luxo de nos impingir comediantes pois aparentemente já nem as próprias piadas sabemos fazer.

Guterres troca belém por um campo de refugiados e nós nem sequer pensamos que, se calhar, Herodes vai atacar de novo.

parthewanstein


Anatemizados os despotismos, desprezadas as anarquias, e negligenciada a moeda-ao-ar, valorizamos agora os compromissos (designação moralmente superior de negócio)

O Dicionário não ilustrado apresenta agora as técnicas de negociação indispensáveis em qualquer processo, estejamos nós do lado do parthenon ou do lado de neuschwanstein.

Tabu – tática que introduz uma forte componente de suspense nas negociações, deixando o antagonista sempre a meio caminho entre a irritação e a hesitação

Ultimato – tipo de mecanismo que consegue juntar o orgulho e a humildade a comerem do mesmo prato e a deixarem-se regar pelo mesmo vinagrete

Fita – tipo de palhaçada adaptada ao circo dos compromissos; o que geralmente lhe falta de colorido sobeja de malabarismo

Bluff – tática que consiste em insinuar que o purgatório é a melhor hipótese de fugir ao inferno sem correr o risco de meter os pé pelas mãos na conversa com o céu.

Chantagem – mecanismo que se autonomizou do ultimato e que visa essencialmente transformar o ligeiro cagaço em puro medo dando sempre uma porta de saída para este último voltar a ser cagaço outra vez

Promessa – tipo de técnica que visa criar uma sensação de bem-estar nas partes baixas do oponente sem precisar de lhes pôr a mão.

Fantasia – tipo de técnica que visa criar uma sensação de bem-estar nas partes baixas do oponente fazendo-o pensar que se tratam afinal de partes altas descaídas.

Batota – rainha das técnicas na qual, em regime de fita, se produz um ultimato na base de uma promessa remunerada em forma de tabu.

Je sui yes we podemos


Começam a escassear frases simples que não repitam fórmulas gastas. Vamos assim ficando com o ‘ide todos levar no cu’ como reserva civilizacional de densidade de discurso. Quando tiririca avançou com o ‘pior do que está não fica’, todos nos benzemos de incredulidade e sorrimos de malandrice, mas mal sabíamos que estávamos perante o ultimo suspiro de racionalidade que a política como sofrível espetáculo poderia oferecer. Hoje, seja o respeitável escândalo, seja a alarmada incredulidade, seja o pesar contrito, seja a extrema indignação oferecem-nos conjuntos de monossílabos que teriam envergonhado qualquer bovino tresmalhado ao serviço de qualquer tribo praticante de transumância. Julgo que, na antiga suméria, vaca que fosse ordenhada com incitações agora na moda, pouco tardaria em dar dois coices no focinho do ordenhador e estrumar-lhe-ia a tenda em conformidade, enviando-os assim para a sumérdia.
Nós, ovinos dos tempos modernos, fieis depositários desta nova transumância com estudos, adaptados a leite em pó e a peixe cru mais caro que assado, o mais que almejamos alcançar é que quando Deus Nosso Senhor pensar nisto outra vez, pela Sua rica saúde, comece pelo fim.

Boliqueísmo


Entramos novamente na época alta do achincalhamento de Cavaco Silva (presidente com apelido e doutoramento em York). Com enorme vocação para servir de boneco para os mais diversos artistas dos media, Cavaco Silva, ao longo da sua carreira, praticamente picou o ponto em todos os incidentes propiciadores de gags. E, curiosamente, se qualquer dos incidentes poderia ser objecto dum largo espectro de reações, apenas o seu lado negativo (caricato, vá) sobressaiu (ficou, vá) ; se quisermos resumir: numa idêntica situação, reacção, onde soares se sairia como excêntrico, cavaco sai como saloio.

Quando se quis apresentar o cavaquismo ao mundo ele apareceu como uma espécie de tecnocratismo cinzento e pacóvio (já na altura?), focado em resultados práticos e sem nenhuma riqueza ideológica. Mas aparentemente o conceito foi envelhecendo, acompanhando quem lhe deu o nome, e entrou em deficit hermenêutico. Tabus mal geridos, bolos rei mal ingeridos e bancos mal falidos foram fazendo desvanecer a imagem de competência, esmoreceu o lado pedagógico e avivou-se o seu lado …. etnológico, por assim dizer. E se , assim, o cavaquismo foi perdendo conteúdo, não deixou porém Cavaco Silva de continuar a agregar um conjunto de características que , julgo, continuam a merecer a glória duma categoria socio-politica

Surge-nos assim o Boliqueísmo como resposta. Trata-se duma especial forma de ir envelhecendo no poder. Tem, obviamente, algumas condicionantes externas (o que é que não tem?), como sejam a pressão das notícias, o excesso de realidade, a imbecilidade dos questionalistas (jornalistas de perguntas), mas julgo que já possui um corpo homogéneo e estável de características.

O boliqueismo, na sua forma benigna, forja-se na transmissão de algumas ideias base: (1) eu sei coisas que vocês nem sonham e se sonhassem não compreenderiam; (2) não estou com tempo para vos explicar; (3) a minha mulher agora quer que eu vá dormir a sesta; (4) gosto da Travessa do Possolo; (5) Cada vez gosto mais de andar com a mão invisível nos bolsos.

Agora desenvolvendo um pouco mais. O prof. Cavaco Silva sabe que o mundo é perigoso e agressivo e acredita que se formos todos unidos iremos passar por ele sem saborear o fel da crueldade humana, ou pelo menos não nos vai transtornar o fígado. O boliqueismo não se trata dum deslizamento de santa comba para sul, nem sequer numa promoção de dona marias, de governanta a professora, ou até de colecionadora de naperons a colecionadora de presépios; não, o boliqueismo é um regresso às origens do homem político como experiência desamparada. Daí ele dizer que nunca foi político, daí ele ter mantido a sua reforma de funcionário público, daí ele ter fervido quando temeu ser alvo de escutas telefónicas. Quem tiver jeito para isto é porque é aldrabão, está Cavaco Silva a dizer-nos constantemente.

Uma coisa é gerir um país como se gere uma bomba de gasolina em Loulé: tudo tem as suas regras, cada um avia-se na sua vez, não se mete a mangueira do gasóleo no buraco da gasolina; outra coisa é gerir um poço de petróleo: pode secar, só se explora quando o preço compensa, há trinta tipos a querer arrendá-lo e outros trinta a querer explodi-lo. O boliqueísmo é o sonho de gerir o poço de petróleo como quem gere a bomba de gasolina.

Se o cavaquismo foi não cometer erros e raramente ter dúvidas, o boliqueismo é poder fazer uma figura de morto digno mas no limite de parecer muito ser uma múmia alegre.

A Revolução dos Curtumes


A grande dificuldade em enfrentar a realidade fora do pentágono: feitio do putin, camisas do tsipras, contabilistas do bes, pildra do socras e sombras do gray, leva-me a desviar e concentrar o esforço de sincretismo na maquilhagem de Uma Thurman

Em primeiro lugar quero dizer que gostei. Gosto de mulheres-cera, elegias ambulantes ao betume, avatares de faraós. Uma mulher que não se besunte cirúrgica e generosamente de maquilhagem, pura e simplesmente não anda aqui a fazer nada, nem sequer é digna de ter rugas e deverá passar directamente da pele bébé para o curtume. A emancipação da mulher é, sim, uma guerra de curtumes e não de costumes.

A outra mulher que marca assim a realidade é: Cristine Lagarde. Nada a ver com a sua FMInilidade, mas tudo a ver, sim, com o look de couro fatal que apresentou naquela última reunião do conselho qualquer-coisa (se houver um mortal que consiga dizer o nome correcto dos conselhos todos que se têm reunido nos últimos tempos terá direito a um lanche ajantarado com a Moura Guedes no intervalo do quem quer ser milionário). Claro que passos coelho nem olhou para o grego, pois couro daquele não se encontra nem em massamá nem em são bento e iogurtes há em qualquer pingo doce.

Ou seja, a mulher tem ao seu alcance duas grandes medidas para se impor na grande revolução dos curtumes que ainda falta fazer: ou maquilhagem a arredondar a bochecha ou couro brilhante a aconchegar a nádega.

A mulher perfeita hoje é assim uma mistura entre gueixa & lara croft , alguém que se impõe com uma cara lisinha e esticada e uma silhueta apertada, alguém que olha para a realidade e diz: não aqueçam muito isto porque senão derrete-se-me a pintura e cola-se-me a napa ao cu. E perdõem-me as mamas pela injusta ausência de protagonismo, mas quem investe no silicone, já se sabe, cria muita distância nos aliados e torna-se uma Ucrânia, sendo vista e desejada como uma mera mulher-tampão.

De resto, de resto, parece-me que muito bem anda isto. Viva o capitalismo apócrifo e os evangelhos sinóticos.

Flor Agreste

Soares dos Reis, 1881
 
«o lirismo e a doçura da figura, a sua expressão suave, o sorriso, a sua juventude (…) , esta é seguramente, uma das obras com predisposição para se moldar às histórias que lhe quiserem inventar»
do texto que acompanha a foto desta escultura no catálogo do Museu Soares dos Reis

Fazer das tsipras coração


Angela M. – Ó Wolfgang, já viste esta coisa na Grécia?! E agora o que fazemos? Invadimos?

Wolfgang S. – Não, isso dá muita despesa, se calhar o melhor é matá-los à fome

Angela M. – Isso agora já não vai dar, acho que eles aumentaram às escondidas as reservas de iogurte e pistachio e aguentam-se uns 6 meses

Wolfgang S. – Então e se os deixarmos às escuras?

Angela M. – Isso também não vai dar muito efeito porque de dia continuam a ver

Wolfgang S. – Porra, e se oferecermos um Audi ao Tsipskas, ou Tresipas, ou Tskepsikas, ó lá como o gajo se chama, parece nome de comida estragada para gatos...

Angela M. – Bem, podias começar com um WV Polo e depois logo se via a reação

Wolfgang S. – Se calhar o gajo vai desconfiar que o estamos a tentar comprar… e ainda fica mais irritado

Angela M. – E se pedirmos aos turcos para os foderem por trás?...

Wolfgang S. – Credo, Angela, que bruta!, eles como estão já nem sentem nada… e isso era coisa para a Stasi,  já era! Nem os podemos enforcar nas gravatas

Angela M. – Estamos a ficar sem opções… e... envenenar-lhes a água?

Wolfgang S. – Esquece, eles agora fervem tudo e só comem arroz de syriza

Angela M. – É pá, assim não dá… se calhar temos de fazer um acordo secreto com os russos para repartir as ilhas

Wolfgang S. – Não sei…olha, e o que é aquilo ali à frente do Bundesbank?!

Angela M. – Parece um cavalo gigante…

Wolfgang S. – Aisssh…E parece que tem as tripas de fora…se calhar é do circo já para o carnaval

Angela M. – É pá, manda-os entrar para a arrecadação dos dracmas velhos que o cavalo já está a atrapalhar o trânsito na eurozona

Wolfgang S. – eu cá não arriscava… pode ter carne picada portuguesa

Angela M. – Não… os portugueses são bonzinhos: o Louçã dá sermões, a Drago faz ioga, a Amaral brinca aos podemos, a Catarina arregala os olhos, o Tavares junta-os aos molhos, a Mortágua entrevista banqueiros e, todos juntos: só casam paneleiros.

Terrorismo de expressão



Quando Saramago quis escandalizar com o anúncio de que a Biblia mostrava um Deus cruel, vingativo, no fundo, má pessoa, confesso que fiquei, vá, pensativo. Poderia alguma coisa me ter passado ao lado, ou até ter interpretado mal, ou até, levado por uma visão demasiado poética, ter andado bêbedo de tanta parábola. Felizmente apoquentado por outros afazeres não pude ficar a pensar muito e, seguindo uma regra básica de qualquer alma sã: caguei no assunto.

Noutro dia, tentando evitar que este blog anestesiasse demasiado, abri o blogger, escrevi e depois apaguei o seguinte post:

Desmaker Consulting Group
Procuram-se arruaceiros com boa apresentação e vacinas em dia para destruir redação de revista em quebra de tiragem. Fornecem-se fulminantes e bisnagas.


No fundo, sentia falta de Saramago, daquele ateísmo ingénuo e combativo que, sob uma capa ideológica e literária, insultava a crença aproximando os crentes de Deus. Podíamos gozar com ele, claro, mas seríamos incapazes de lhe dar sequer um par de estalos, e até o ajudaríamos a aturar a Pilar se ele nos pedisse ajuda.
No âmbito do direito canónico deveria então aprovar-se uma lei para a Blasfémia teologicamente assistida, algo assim que permitisse insultar Deus, insultar a fé e a moral, mas tudo dentro daquele ambiente ora lírico ora épico, ora belicoso ora pachorrento, ora torrencial ora secante, que a Antigo testamento tão bem explorou e que nem sequer deu origem a que Lutero tenha assaltado uma quermesse para amostra.
Todo o católico deveria ter o direito canonicamente estabelecido ao desabafo blasfemo, a desablasfemia, a bem dizer.

Declaração Universal dos Deleites Humanos


Considerando que o desconhecimento e o desprezo pelos deleites do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade, proclamamos:

Qualquer ser humano tem direito a uma mediocridade digna. Todos são iguais perante o desprezo do Bem Comum pelo bem particular e ninguém deve ser arbitrariamente amado.

Todos têm o direito de ser abandonados por aqueles que amam, e todos os que foram acusados de fiéis e bananas se presumem de marialvas até que fique provada a sua estúpida fidelidade.

Toda a pessoa tem o direito de se considerar única e toda a pessoa tem o direito de se sentir apenas mais um. Toda a pessoa tem o direito de nada acrescentar ao mundo e de nada lhe poder ser reclamado em caso de juízo final imprevisto.

Todos têm o direito de não sentir remorsos por recusar dar uma esmola, todos têm o direito de se deleitar com talentos recebidos sem nada ter feito para a sua posse.

Todos têm o direito de ser enganados sem saber, e todos têm o direito de apenas se arrepender quando já estiverem esgotados todos os pecados ao seu alcance.

Todos têm o direito a uma ignorância atrevida ou a uma sabedoria discreta e ninguém pode ser acusado de apenas ser um atrevido discreto.

Todos têm o direito de desfrutar do desconhecimento da lei inclusivamente aqueles que a fizeram.

Ninguém pode ser acusado de abusar da paciência de Deus e todos podem se deleitar com a Sua improvável dúvida sobre o destino do homem.

Todos têm o direito de se deleitar por serem os maiores das respectivas ruas mesmo que vivam num beco sem saída

Ninguém pode ser acusado de lavar as mãos onde outros as sujam

Todos têm o direito de dizer que não há bem nem mal e que todo o mundo é um imenso assim-assim

Todos têm o direito de considerar sua propriedade aqueles que amam. Todos podem ser arbitrariamente privados da sua propriedade.

Todos têm direito, sem discriminação alguma, a prazer igual por sentimento igual.

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a que as pessoas pensem que têm deveres para com os outros e muito menos para consigo próprios.