A perna aberta e os seus inimigos



Toda a negociação é uma sequência litúrgica de poses. Junker mostra-se cansado, o Bissolvon dos caracóis revela-se impaciente, Mutti compreensiva, Schaubel mostra-se irritado, Christine amuada, enfim, quase se percorrem todos os perfis dos 7 anões, restando, até pela proeminência do nariz, o fungoso para o nosso Varoufakes. Apesar de tudo ninguém quer ter o fuso envenenado na mão e todos quererão fazer de príncipes encantados beijando Tsipras no sunset da acrópole. No final suspirar-se-á por uma caminha, sem especiais dores nas partes íntimas, e ninguém quererá aparecer na foto de família com a perninha demasiado aberta. Malvada pose que tanto exiges de nós e nunca sabemos onde acaba a perna e começa a anca.

Varoufakis, meu amor



Querido Varou, não vás nas conversas deles, diz-lhes que não precisas, que eu já prometi ajudar-te e trato de tudo. Nós cá no FMI nem gostamos de euro, o euro tira-nos negócio, e eu arranjo-te nos saldos uma moeda nova, toda janota, vais ver; e até te deixo outra vez brincar às escolas e às enfermeiras comigo. Diz ai ao Tsipras que se ele quiser também faço uns relatórios a dizer bem da revolução, da luta de classes, contra a propriedade privada, e o Blanchard escreve os estudos que eu lhe pedir. Não te vais arrepender, vais ver, eu arranjo maneira de ires pagando tudo depois devagarinho, às prestações, sem aleijar os joelhos de ninguém, nem teres de vender os anéis como fizeram os tugas. E com uma moeda nova, vais ver, nem deixamos que o euro sirva nos carrinhos dos supermercados e depois já ninguém os quer. Diz-lhes que não, não, e não!, manda à fava aquele Dijsselbloem, ou dijesselblom, ou djiselbom, ou bissolvon, ou lá o que é, e ele que vá esticar os caracolinhos do cabelo na cabeleireira da merckel. Fugimos os dois, deixamos um bilhete ao Junker a desejar-lhe um bom Natal e depois quando tudo estiver mais calmo vamos ao BCE dizer-lhes que afinal era tudo brincadeira e que o schauble tem uma cave com notas e que no passado era tesoureiro em auschwitz. Olha, já ando fartinha de ditadores descendentes dos Incas e de chefes de tribo do deserto. Não me falhes agora no teu amor descendente das epopeias, carequinha. Sempre tua, Christine L.

Capricho, miminho e amuo



O poder erótico da dívida é superior ao do resgate. Lagarde sabe disso e não gosta que lhe paguem. Gosta de perdoar, gosta da súplica do devedor, gosta do jogo do gato e do rato entre o deve e o haver. Resgatar é uma espécie de perdão sem orgasmo, um coito interruptus sem qualquer força hormonal relevante. Hoje Lagarde sonha com Varoufakis a fazer os trabalhos de casa e pouco mais. Está amuada, não vai mais às conferências de imprensa dos gregos, pensa que afinal não há nada como um terceiro mundo a sério para fazer eriçar o pelo, para derramar caprichos de femme fatale; os berços de civilizações acabam sempre por desiludir e querer fingir que vão pagar: bebezada cheia de mimo.