Brincar, sim, mas agora como adultos



A nossa lagarde, cristine, com a qual metade dos burocratas, ludocratas e fornicratas europeus já tiveram sonhos húmidos, diz que só volta a brincar com os gregos se desta vez eles fizerem de adultos. Cansada de brincar às enfermeiras e às casinhas, lagarde agora quer chicote , algema e couro reluzente também na mesa das negociações, a table dance era opcional mas os gregos mostram-se incapazes de levar uma dançarina em condições para as cimeiras; na careca de varoufakis dá para se patinar mas desliza-se demasiado nos paso-dobles. Adultos, pede ela, gente capaz de gerir as vasodilatações, de agarrar as ancas sem magoar, e de manipular orgasmos até ao limite da tendinite. Entre uma Mutti e uma Mata-Hari vivem agora os gregos, querendo colinho mas indecisos entre ferrar o dente ou investir no labial. Quem nunca passou por não saber onde pôr as mãos que atire a primeira pedra; varoufuck yourself, gostavam eles de ter dito.

Varoufakis's theorem


the square of the tie is equal to the sum of the squares of the collars

Santos inocentes


Logo quando Louçã se apresentou orgulhosamente sem gravata e ninguém lhe deu uma maioria absoluta por esse arrojo que deveríamos ter desconfiado que os deuses (já) não estavam a olhar por portugal.

Entretanto a miséria foi-se naturalmente instalando, confirmando o ostracismo: os americanos já não querem os açores para nada, a galinha angolana deixou de chocar poços de ouro negro e passou apenas a debicar o fundo do mar sacando um liquido viscoso e negro que custa menos que o óleo fula, o Lobo Antunes acho que já nem para decorar prateleiras serve, os espanhóis já nem gastam vaselina a enrabar-nos (no tempo de Mário Conde ainda nos besuntaram com o roquette durante algum tempo), os chineses estão a trocar restaurantes por electricidade em pó, as finas flores da finança já nem rendem como naturezas mortas, e os brazucas, que já não nos ligam pevide há carradas de anos, agora até se dão ao luxo de nos impingir comediantes pois aparentemente já nem as próprias piadas sabemos fazer.

Guterres troca belém por um campo de refugiados e nós nem sequer pensamos que, se calhar, Herodes vai atacar de novo.

parthewanstein


Anatemizados os despotismos, desprezadas as anarquias, e negligenciada a moeda-ao-ar, valorizamos agora os compromissos (designação moralmente superior de negócio)

O Dicionário não ilustrado apresenta agora as técnicas de negociação indispensáveis em qualquer processo, estejamos nós do lado do parthenon ou do lado de neuschwanstein.

Tabu – tática que introduz uma forte componente de suspense nas negociações, deixando o antagonista sempre a meio caminho entre a irritação e a hesitação

Ultimato – tipo de mecanismo que consegue juntar o orgulho e a humildade a comerem do mesmo prato e a deixarem-se regar pelo mesmo vinagrete

Fita – tipo de palhaçada adaptada ao circo dos compromissos; o que geralmente lhe falta de colorido sobeja de malabarismo

Bluff – tática que consiste em insinuar que o purgatório é a melhor hipótese de fugir ao inferno sem correr o risco de meter os pé pelas mãos na conversa com o céu.

Chantagem – mecanismo que se autonomizou do ultimato e que visa essencialmente transformar o ligeiro cagaço em puro medo dando sempre uma porta de saída para este último voltar a ser cagaço outra vez

Promessa – tipo de técnica que visa criar uma sensação de bem-estar nas partes baixas do oponente sem precisar de lhes pôr a mão.

Fantasia – tipo de técnica que visa criar uma sensação de bem-estar nas partes baixas do oponente fazendo-o pensar que se tratam afinal de partes altas descaídas.

Batota – rainha das técnicas na qual, em regime de fita, se produz um ultimato na base de uma promessa remunerada em forma de tabu.

Je sui yes we podemos


Começam a escassear frases simples que não repitam fórmulas gastas. Vamos assim ficando com o ‘ide todos levar no cu’ como reserva civilizacional de densidade de discurso. Quando tiririca avançou com o ‘pior do que está não fica’, todos nos benzemos de incredulidade e sorrimos de malandrice, mas mal sabíamos que estávamos perante o ultimo suspiro de racionalidade que a política como sofrível espetáculo poderia oferecer. Hoje, seja o respeitável escândalo, seja a alarmada incredulidade, seja o pesar contrito, seja a extrema indignação oferecem-nos conjuntos de monossílabos que teriam envergonhado qualquer bovino tresmalhado ao serviço de qualquer tribo praticante de transumância. Julgo que, na antiga suméria, vaca que fosse ordenhada com incitações agora na moda, pouco tardaria em dar dois coices no focinho do ordenhador e estrumar-lhe-ia a tenda em conformidade, enviando-os assim para a sumérdia.
Nós, ovinos dos tempos modernos, fieis depositários desta nova transumância com estudos, adaptados a leite em pó e a peixe cru mais caro que assado, o mais que almejamos alcançar é que quando Deus Nosso Senhor pensar nisto outra vez, pela Sua rica saúde, comece pelo fim.

Boliqueísmo


Entramos novamente na época alta do achincalhamento de Cavaco Silva (presidente com apelido e doutoramento em York). Com enorme vocação para servir de boneco para os mais diversos artistas dos media, Cavaco Silva, ao longo da sua carreira, praticamente picou o ponto em todos os incidentes propiciadores de gags. E, curiosamente, se qualquer dos incidentes poderia ser objecto dum largo espectro de reações, apenas o seu lado negativo (caricato, vá) sobressaiu (ficou, vá) ; se quisermos resumir: numa idêntica situação, reacção, onde soares se sairia como excêntrico, cavaco sai como saloio.

Quando se quis apresentar o cavaquismo ao mundo ele apareceu como uma espécie de tecnocratismo cinzento e pacóvio (já na altura?), focado em resultados práticos e sem nenhuma riqueza ideológica. Mas aparentemente o conceito foi envelhecendo, acompanhando quem lhe deu o nome, e entrou em deficit hermenêutico. Tabus mal geridos, bolos rei mal ingeridos e bancos mal falidos foram fazendo desvanecer a imagem de competência, esmoreceu o lado pedagógico e avivou-se o seu lado …. etnológico, por assim dizer. E se , assim, o cavaquismo foi perdendo conteúdo, não deixou porém Cavaco Silva de continuar a agregar um conjunto de características que , julgo, continuam a merecer a glória duma categoria socio-politica

Surge-nos assim o Boliqueísmo como resposta. Trata-se duma especial forma de ir envelhecendo no poder. Tem, obviamente, algumas condicionantes externas (o que é que não tem?), como sejam a pressão das notícias, o excesso de realidade, a imbecilidade dos questionalistas (jornalistas de perguntas), mas julgo que já possui um corpo homogéneo e estável de características.

O boliqueismo, na sua forma benigna, forja-se na transmissão de algumas ideias base: (1) eu sei coisas que vocês nem sonham e se sonhassem não compreenderiam; (2) não estou com tempo para vos explicar; (3) a minha mulher agora quer que eu vá dormir a sesta; (4) gosto da Travessa do Possolo; (5) Cada vez gosto mais de andar com a mão invisível nos bolsos.

Agora desenvolvendo um pouco mais. O prof. Cavaco Silva sabe que o mundo é perigoso e agressivo e acredita que se formos todos unidos iremos passar por ele sem saborear o fel da crueldade humana, ou pelo menos não nos vai transtornar o fígado. O boliqueismo não se trata dum deslizamento de santa comba para sul, nem sequer numa promoção de dona marias, de governanta a professora, ou até de colecionadora de naperons a colecionadora de presépios; não, o boliqueismo é um regresso às origens do homem político como experiência desamparada. Daí ele dizer que nunca foi político, daí ele ter mantido a sua reforma de funcionário público, daí ele ter fervido quando temeu ser alvo de escutas telefónicas. Quem tiver jeito para isto é porque é aldrabão, está Cavaco Silva a dizer-nos constantemente.

Uma coisa é gerir um país como se gere uma bomba de gasolina em Loulé: tudo tem as suas regras, cada um avia-se na sua vez, não se mete a mangueira do gasóleo no buraco da gasolina; outra coisa é gerir um poço de petróleo: pode secar, só se explora quando o preço compensa, há trinta tipos a querer arrendá-lo e outros trinta a querer explodi-lo. O boliqueísmo é o sonho de gerir o poço de petróleo como quem gere a bomba de gasolina.

Se o cavaquismo foi não cometer erros e raramente ter dúvidas, o boliqueismo é poder fazer uma figura de morto digno mas no limite de parecer muito ser uma múmia alegre.

A Revolução dos Curtumes


A grande dificuldade em enfrentar a realidade fora do pentágono: feitio do putin, camisas do tsipras, contabilistas do bes, pildra do socras e sombras do gray, leva-me a desviar e concentrar o esforço de sincretismo na maquilhagem de Uma Thurman

Em primeiro lugar quero dizer que gostei. Gosto de mulheres-cera, elegias ambulantes ao betume, avatares de faraós. Uma mulher que não se besunte cirúrgica e generosamente de maquilhagem, pura e simplesmente não anda aqui a fazer nada, nem sequer é digna de ter rugas e deverá passar directamente da pele bébé para o curtume. A emancipação da mulher é, sim, uma guerra de curtumes e não de costumes.

A outra mulher que marca assim a realidade é: Cristine Lagarde. Nada a ver com a sua FMInilidade, mas tudo a ver, sim, com o look de couro fatal que apresentou naquela última reunião do conselho qualquer-coisa (se houver um mortal que consiga dizer o nome correcto dos conselhos todos que se têm reunido nos últimos tempos terá direito a um lanche ajantarado com a Moura Guedes no intervalo do quem quer ser milionário). Claro que passos coelho nem olhou para o grego, pois couro daquele não se encontra nem em massamá nem em são bento e iogurtes há em qualquer pingo doce.

Ou seja, a mulher tem ao seu alcance duas grandes medidas para se impor na grande revolução dos curtumes que ainda falta fazer: ou maquilhagem a arredondar a bochecha ou couro brilhante a aconchegar a nádega.

A mulher perfeita hoje é assim uma mistura entre gueixa & lara croft , alguém que se impõe com uma cara lisinha e esticada e uma silhueta apertada, alguém que olha para a realidade e diz: não aqueçam muito isto porque senão derrete-se-me a pintura e cola-se-me a napa ao cu. E perdõem-me as mamas pela injusta ausência de protagonismo, mas quem investe no silicone, já se sabe, cria muita distância nos aliados e torna-se uma Ucrânia, sendo vista e desejada como uma mera mulher-tampão.

De resto, de resto, parece-me que muito bem anda isto. Viva o capitalismo apócrifo e os evangelhos sinóticos.

Flor Agreste

Soares dos Reis, 1881
 
«o lirismo e a doçura da figura, a sua expressão suave, o sorriso, a sua juventude (…) , esta é seguramente, uma das obras com predisposição para se moldar às histórias que lhe quiserem inventar»
do texto que acompanha a foto desta escultura no catálogo do Museu Soares dos Reis

Fazer das tsipras coração


Angela M. – Ó Wolfgang, já viste esta coisa na Grécia?! E agora o que fazemos? Invadimos?

Wolfgang S. – Não, isso dá muita despesa, se calhar o melhor é matá-los à fome

Angela M. – Isso agora já não vai dar, acho que eles aumentaram às escondidas as reservas de iogurte e pistachio e aguentam-se uns 6 meses

Wolfgang S. – Então e se os deixarmos às escuras?

Angela M. – Isso também não vai dar muito efeito porque de dia continuam a ver

Wolfgang S. – Porra, e se oferecermos um Audi ao Tsipskas, ou Tresipas, ou Tskepsikas, ó lá como o gajo se chama, parece nome de comida estragada para gatos...

Angela M. – Bem, podias começar com um WV Polo e depois logo se via a reação

Wolfgang S. – Se calhar o gajo vai desconfiar que o estamos a tentar comprar… e ainda fica mais irritado

Angela M. – E se pedirmos aos turcos para os foderem por trás?...

Wolfgang S. – Credo, Angela, que bruta!, eles como estão já nem sentem nada… e isso era coisa para a Stasi,  já era! Nem os podemos enforcar nas gravatas

Angela M. – Estamos a ficar sem opções… e... envenenar-lhes a água?

Wolfgang S. – Esquece, eles agora fervem tudo e só comem arroz de syriza

Angela M. – É pá, assim não dá… se calhar temos de fazer um acordo secreto com os russos para repartir as ilhas

Wolfgang S. – Não sei…olha, e o que é aquilo ali à frente do Bundesbank?!

Angela M. – Parece um cavalo gigante…

Wolfgang S. – Aisssh…E parece que tem as tripas de fora…se calhar é do circo já para o carnaval

Angela M. – É pá, manda-os entrar para a arrecadação dos dracmas velhos que o cavalo já está a atrapalhar o trânsito na eurozona

Wolfgang S. – eu cá não arriscava… pode ter carne picada portuguesa

Angela M. – Não… os portugueses são bonzinhos: o Louçã dá sermões, a Drago faz ioga, a Amaral brinca aos podemos, a Catarina arregala os olhos, o Tavares junta-os aos molhos, a Mortágua entrevista banqueiros e, todos juntos: só casam paneleiros.

Terrorismo de expressão



Quando Saramago quis escandalizar com o anúncio de que a Biblia mostrava um Deus cruel, vingativo, no fundo, má pessoa, confesso que fiquei, vá, pensativo. Poderia alguma coisa me ter passado ao lado, ou até ter interpretado mal, ou até, levado por uma visão demasiado poética, ter andado bêbedo de tanta parábola. Felizmente apoquentado por outros afazeres não pude ficar a pensar muito e, seguindo uma regra básica de qualquer alma sã: caguei no assunto.

Noutro dia, tentando evitar que este blog anestesiasse demasiado, abri o blogger, escrevi e depois apaguei o seguinte post:

Desmaker Consulting Group
Procuram-se arruaceiros com boa apresentação e vacinas em dia para destruir redação de revista em quebra de tiragem. Fornecem-se fulminantes e bisnagas.


No fundo, sentia falta de Saramago, daquele ateísmo ingénuo e combativo que, sob uma capa ideológica e literária, insultava a crença aproximando os crentes de Deus. Podíamos gozar com ele, claro, mas seríamos incapazes de lhe dar sequer um par de estalos, e até o ajudaríamos a aturar a Pilar se ele nos pedisse ajuda.
No âmbito do direito canónico deveria então aprovar-se uma lei para a Blasfémia teologicamente assistida, algo assim que permitisse insultar Deus, insultar a fé e a moral, mas tudo dentro daquele ambiente ora lírico ora épico, ora belicoso ora pachorrento, ora torrencial ora secante, que a Antigo testamento tão bem explorou e que nem sequer deu origem a que Lutero tenha assaltado uma quermesse para amostra.
Todo o católico deveria ter o direito canonicamente estabelecido ao desabafo blasfemo, a desablasfemia, a bem dizer.

Declaração Universal dos Deleites Humanos


Considerando que o desconhecimento e o desprezo pelos deleites do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade, proclamamos:

Qualquer ser humano tem direito a uma mediocridade digna. Todos são iguais perante o desprezo do Bem Comum pelo bem particular e ninguém deve ser arbitrariamente amado.

Todos têm o direito de ser abandonados por aqueles que amam, e todos os que foram acusados de fiéis e bananas se presumem de marialvas até que fique provada a sua estúpida fidelidade.

Toda a pessoa tem o direito de se considerar única e toda a pessoa tem o direito de se sentir apenas mais um. Toda a pessoa tem o direito de nada acrescentar ao mundo e de nada lhe poder ser reclamado em caso de juízo final imprevisto.

Todos têm o direito de não sentir remorsos por recusar dar uma esmola, todos têm o direito de se deleitar com talentos recebidos sem nada ter feito para a sua posse.

Todos têm o direito de ser enganados sem saber, e todos têm o direito de apenas se arrepender quando já estiverem esgotados todos os pecados ao seu alcance.

Todos têm o direito a uma ignorância atrevida ou a uma sabedoria discreta e ninguém pode ser acusado de apenas ser um atrevido discreto.

Todos têm o direito de desfrutar do desconhecimento da lei inclusivamente aqueles que a fizeram.

Ninguém pode ser acusado de abusar da paciência de Deus e todos podem se deleitar com a Sua improvável dúvida sobre o destino do homem.

Todos têm o direito de se deleitar por serem os maiores das respectivas ruas mesmo que vivam num beco sem saída

Ninguém pode ser acusado de lavar as mãos onde outros as sujam

Todos têm o direito de dizer que não há bem nem mal e que todo o mundo é um imenso assim-assim

Todos têm o direito de considerar sua propriedade aqueles que amam. Todos podem ser arbitrariamente privados da sua propriedade.

Todos têm direito, sem discriminação alguma, a prazer igual por sentimento igual.

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a que as pessoas pensem que têm deveres para com os outros e muito menos para consigo próprios.

Dai-me uma liberalidade e levantarei o mundo


Algum, temporário, abrandamento de qualidade no futebol dos lagartos fez-me virar a atenção para o relato da comissão parlamentar do bes. O stock de tremoços leva mais tempo a baixar mas a cerveja corre com a mesma velocidade. Nesta fase do campeonato o marcador mostra no topo da classificação Sobrinho e Mortágua. Na luta para a despromoção, e responsáveis pelo uso intercalar do pistacho, aparece a chamada ‘família’ , taco a taco com os ‘reguladores’, eu diria até que o desempate se vai fazer pelo saldo combinado de liberalidades & colaterais. A meio da tabela aparecem uns tipos de apelido banal mas com uso criterioso de botões de punho pelo que vão acabar por fazer uma temporada calma, inclusive já me babei duas vezes para cima da tigela de cajus tal a sonolência provocada pelos ring fencing’s e o caralho. Espero que a época de contratações de Janeiro traga algumas movimentações no mercado, mesmo que se tenha de ir buscar alguns deputados às off shores, e obviamente a segunda volta de audições, já com umas azeitonas que deixei encomendadas na mercearia, vai garantir-me uns serões bem passados, correndo o risco de subir um número nas calças e o aparecimento dumas putas dumas borbulhas na testa. Borbulhas apenas, repito.

Cirque du sommeil


Adormeci a pensar que detesto comer. Detesto inclusivamente aquela paneleirice do sabor, do empratamento, da novidade, da experimentação. Da comida que nos fazia a nossa avozinha! Quero lá saber do que me fazia a minha avozinha. Até sentir fome me traz desconforto, irritação. E depois de comer: nenhuma memória, apenas enfartamento. Japoneses, Tailandeses, fusões, michelins, só resta fastio: puta que os pariu. Acredito na comida apenas como fonte de negócio, aproveitando as fraquezas humanas: a vaidade, a necessidade de afirmação social, a necessidade de companhia. Viro-me na cama. São três da manhã e sou apenas uma concha de espinafres com sésamo ao lado de um bocado de enzimas em repouso que é a minha mulher.  Valeram as anedotas, apenas as boas anedotas salvam a comida que as acompanha. Detesto contar anedotas, adoro ouvir. Absurdas, repetidas, básicas, exuberantemente ordinárias como aquele vison que às mãos do casado de fresco lhe pareceu tudo cona. Alguma ventresca de atum vale um vison apalpado que nem cona? Assim não consigo dormir. Tinham posto à prova a minha lendária (auto-apregoada, leia-se) capacidade de aguentar o sarcasmo. Vacilei.  O vinho também não me ajuda. É impossível porem-me a falar muito com álcool. Fico parecido com o cabrão do kierkegaard e à sobremesa já todos querem que eu lhes informe quando vai ser o fim do mundo. Mas eu digo-lhes que o fim do mundo não interessa nem ao menino Jesus. Afinal é Natal. Cinco da manhã e é quase Natal. O primeiro Natal sem a minha Mãe. Não me lembro de nenhum prato feito pela minha Mãe. Abençoada por me fazer lutar pela sua memória todos os dias; e noites.

O Divã Disto Tudo V


Back to basics: o país está suspenso do contabilista e do motorista.  Depois de termos concluído sofrermos da famosa esclerose de elites, aprofundámos o tema e verificámos que afinal as elites estavam penduradas na competência duma classe intermédia que, numa revisão marxista, em vez de se revoltar vai agora lixar os patrões.

Hoje, o futuro do orgulho nacional está nas mãos da menina das fotocópias, cada país tem o snowden que merece.

Em primeira mão, aqui, a acta da audiência secreta no Parlamento, com a menina Dulce:

Senhor Deputado – diga-nos menina Dulce, era a responsável pelas fotocópias?

Menina Dulce – ora, chamavam-lhe a máquina de fazer offshores ….

Senhor Deputado – acha que abusavam das offshores?

Menina Dulce – não, os patrões eram muito respeitadores

Senhor Deputado – respeitadores da lei?

Menina Dulce – disso não sei, mas sei que gostavam de manter as aparências e por isso nos in-shore era tudo como manda a etiqueta e os bons costumes

Senhor Deputado – então quer dizer que era tudo apenas para regulador ver?

Menina Dulce – bem, os meninos do banco de Portugal também eram muito respeitadores…

Senhor Deputado – respeitadores como? A função deles era supervisionar!?

Menina Dulce – sim, mas supervisionavam sempre com muito respeito, nada de espreitar pelas fechaduras, nem andar a fazer brincadeiras debaixo das mesas

Senhor Deputado – Então acha que andava alguma coisa escondida debaixo da mesa

Menina Dulce – Ai sr deputado não me faça corar….

Senhor Deputado – não tem que ter vergonha de nada, aqui está a prestar um serviço à Democracia e ao Parlamento!

Menina Dulce – credo, também não me pagam para essas menages triplas! Quem faz disso é a minha colega do economato!

Senhor Deputado – Também virá cá depor, mas para já precisamos de saber o que lhe passou pelas mãos, menina Dulce

Menina Dulce – julgo que isso está protegido pelo segredo vaginal…

Senhor Deputado – alguma coisa nos poderá contar… uma mulher não é só vagina

Menina Dulce – sim, claro, eu às quartas feiras tirava fotocópias para a contabilidade

Senhor Deputado – para a contabilidade?

Menina Dulce – eles diziam que eu tinha jeito para fazer os buracos render

Senhor Deputado – a senhora também já tinha ouvido falar dos buracos nas contas?!

Menina Dulce – O sr Abílio da contabilidade dizia-me que só com o meu balancete conseguia inspirar-se para os estornos que tinha de fazer de madrugada

Senhor Deputado – então o contabilista fazia horas extra pela noite dentro?

Menina Dulce – nem queira saber o que eu tive de inspirar aquele homem

Senhor deputado – Então a senhora acha que também foi responsável pelo estado artístico das contas ?

Menina Dulce – Claro meu querido, e se tu quiseres, como devo ir para o desemprego, a ti faço-te uma revisão constitucional completa pelo preço duma portaria

Era Rodrigo não querido por Sofia que não o queria


Podia ser desilusão, ou frustração, ou engano, despeito até, ou desespero, ou raiva, mera irritação, mas nenhuma destas explicações cobria os seus reais sentimentos. Rodrigo não sabia o que fazer com o que sentia depois de tantos anos para descobrir que afinal Sofia não o queria. Era um botânico afamado, tinha revelado ao mundo muitas novas espécies, aromas, cores, até havia uma forma geométrica que se tinha apropriado do seu nome, o rodriguezio, duma pétala de cinco lados rectos e quatro curvos que ele tinha encontrado numa planta moçambicana, até aí desconhecida, e quase parecia uma pétala que se podia vestir, nuns dias armadura, noutros dias corpete.

Fechou-se na sua estufa e procurou a resposta naqueles seres que, mesmo fustigados pelas intempéries, sabiam adaptar-se às circunstâncias, mais ou menos clorofila, mais ou menos polinização, mais ou menos enxerto.

Certamente as flores seriam capazes de lhe dar a resposta. Pegou no exemplar de malmequer mais antigo que tinha e pediu-lhe para se transformar em apenas não-me-quer. Regou-o, mudou de terra, testou vários fertilizantes, diferentes tempos e ângulos de exposição ao sol, níveis de humidade, e rezou ao tempo, o deus das flores.

Algumas semanas depois Rodrigo tinha a flor que lhe mostrava o não-me-quer de Sofia. Umas pétalas brilhantes dum lado e baças de outro, numas zonas enroladas para dentro, afastando-o, noutras com um recorte laminado, ameaçando fatiá-lo em postas se lhe pusesse as mãos sem perguntar primeiro. Olhou para elas com cuidado, procurando os segredos do não-querer e tentando descobrir como lidar com eles. Pegou em cada uma das pétalas com um cuidado dessexuado mas lúbrico, depositou-as em cima dum papel de branco lunar e apontou-lhes uma luz arroxeada, pascal, plena de intensidade curiosa e fatal como só a luz religiosa consegue ter.

E viu então o não-te-quero de Sofia. Ali explicado tim-tim por tim-tim, numa eloquência vegetal, imóvel como uma metafisica medieval: faltava a Rodrigo substância para atrair Sofia, todo ele era forma, estilo, simples desconteúdo, todo ele era um apenas apenas, um insuficiente.

Já não precisava de se sentir nem desiludido, nem irritado, nem frustrado, nem enganado, nem abandonado, nem sequer havia receio de ser mal parecido, bastava sentir-se desaparecido.

Grasshopers & Honey


Antes de Salomé lhe ter tricotado o pescoço, João Baptista (como relembra o evangelho de hoje) levava um cinto de cabedal à volta dos rins. João Baptista é (talvez) o maior exemplo da literatura do amor ao (e da concentração no) essencial. É um exemplo fodido para qualquer aprendiz de imitação de Cristo (e mesmo para qualquer aprendiz do que quer que seja) mas, diga-se, sem o acessório o que seria de nós? Até Jesus precisou duma cruz, e do pão, e do vinho.

Nas relações humanas é igual, se cingirmos muito os rins um dia qualquer alguém nos põe a cabeça - com ou sem apêndices - numa travessa, ou os tomates de molho; que São João Baptista me perdoe.

Juntos Fodemos


Atrelado ao espanhol Podemos parece estar a nascer cá na paróquia um Juntos Podemos. Tive esperança que a similitude com o fodemos já tivesse sido devidamente explorada e pesquisei tendo confirmado a inexistência das devidas analogias.

(nota doméstica interna: se for descoberto no Google um histórico de pesquisas em ‘juntos fodemos’ dever-se-á a esta curiosidade sociológica e não a qualquer tentativa de encontrar parceira disponível para descobrir os insondáveis e húmidos mistérios da esquerda moderna)

Retomando então aquilo a que optimisticamente se poderá chamar de raciocínio. A ideia de juntos fodemos baseia-se na capacidade natural do homem de fazer amizades. Parece-me mais fecundo e elevado fodermos em conjunto do que podermos em conjunto. Reparemos que se para poder basta querer, já para foder o querer não é suficiente o que indica, assim, algo mais elevado, algo mais construído e, portanto, humano, por assim dizer.

A esquerda não se deve pois contentar em poder junto mas antes foder em conjunto. Os ideais de esquerda fundamentam-se num acesso ao ideal de igualdade que apenas conseguem enunciar e jamais praticar, daí que o podemos soe imediatamente a falso, soe novamente a uma espécie de bastilha elástica (é trocadilho sim) mascada à exaustão e sem ter já a mais pequena amostra de açúcar. Ao invés, o foder conjunto mantém o mesmo viço primordial, desde os tempos antropológicos do incesto olímpico ou dos maravilhosos tempos do amor livre, que apenas uma vertigem civilizacional bolorenta se encarregou de pôr para debaixo da alcatifas da conveniência ou dos tabus.

Passado este preâmbulo, que espero tenha sido elucidativo, concentremo-nos agora no fodemos propriamente dito. Foder é algo que a blogaria trata desde os seus primeiros tempos com maior ou menor fulgor, principalmente por aqueles – antes apelidados – ‘blogues de gajas’ (que entretanto foram desaparecendo ou sendo substituídos por blogues feitos para vender chinelas ou biquinis) que viram neste meio a fantástica oportunidade para escrever ‘foder’ pela primeira vez e assim formalmente se emanciparem pela via erudita. Sendo que foder já teve o seu Ipiranga literário temos de reconhecer que ainda não teve realmente direito a um lugar digno no grande altar da política.

Reparem que não falo de causas banais como a liberalização da prostituição, nem da paneleirice-com-papel-passado, nem sequer do amor livre: falo de foder mesmo, foder sem cláusulas de salvaguarda, sem coeficientes conjugais, um foder sem austeridade, sem rating, nem sequer me refiro a um foder new wave para libertar energias e entrar em novas dimensões, falo mesmo de foder como a grande causa da esquerda, mais próxima de Noé do que de Lenine.

A esquerda está presa à agenda conservadora dos costumes, das pequeninas liberalizações e apenas foder a pode libertar. Reparem em exemplos práticos: substituir o iva da restauração pelo sexo na restauração, substituir a reestruturação da dívida por foder mesmo as contas publicas todas, substituir as parcerias publico-privadas por uma grande foda geral que não discrimine quem ajoelha e quem abana o rabo.

Onde está a  extremosa esquerda quando precisamos mesmo dela? A juntar pilinhas?

E agora o amor

Os conceitos que entram timidamente na composição mas afinal podem fazer toda a diferença no enredo, vistos pelo novo dicionário não ilustrado

Pragmatismo – o que vale no amor é apenas o lugar de intersecção entre o possível e o possível

Realismo – o que vale no amor é a parte em que nada se sente mas tudo se vê

Calculismo – o que vale no amor é a parte do possível que nunca será impossível

Disponibilidade – é a parte do amor que os pragmáticos evitam

Oportunismo – parte do amor que funciona como ‘afecto curricular’

Securitismo – o que vale no amor é ele poder funcionar como reserva de segurança emocional

Decorativismo – o que vale no amor é ele poder servir de embrulho de fantasia a sentimentos mais banais

Ecologismo – o que vale no amor é apenas a capacidade de limpar passados incómodos

Betumismo – o valor do amor é a sua competência para tapar buracos ou falhas nas paredes mestras

Pladurismo – o que vale no amor é ele puder servir de parede falsa entre vidas paralelas.

Suspensismo – componente do amor que permite deixar tudo em suspenso

Monetarismo - o amor apenas vale a pena quando conveniência e necessidade são as duas faces da mesma moeda

Bromazepamialismo - valência do amor em criar relaxamento sem dependência.