Fazer das tsipras coração


Angela M. – Ó Wolfgang, já viste esta coisa na Grécia?! E agora o que fazemos? Invadimos?

Wolfgang S. – Não, isso dá muita despesa, se calhar o melhor é matá-los à fome

Angela M. – Isso agora já não vai dar, acho que eles aumentaram às escondidas as reservas de iogurte e pistachio e aguentam-se uns 6 meses

Wolfgang S. – Então e se os deixarmos às escuras?

Angela M. – Isso também não vai dar muito efeito porque de dia continuam a ver

Wolfgang S. – Porra, e se oferecermos um Audi ao Tsipskas, ou Tresipas, ou Tskepsikas, ó lá como o gajo se chama, parece nome de comida estragada para gatos...

Angela M. – Bem, podias começar com um WV Polo e depois logo se via a reação

Wolfgang S. – Se calhar o gajo vai desconfiar que o estamos a tentar comprar… e ainda fica mais irritado

Angela M. – E se pedirmos aos turcos para os foderem por trás?...

Wolfgang S. – Credo, Angela, que bruta!, eles como estão já nem sentem nada… e isso era coisa para a Stasi,  já era! Nem os podemos enforcar nas gravatas

Angela M. – Estamos a ficar sem opções… e... envenenar-lhes a água?

Wolfgang S. – Esquece, eles agora fervem tudo e só comem arroz de syriza

Angela M. – É pá, assim não dá… se calhar temos de fazer um acordo secreto com os russos para repartir as ilhas

Wolfgang S. – Não sei…olha, e o que é aquilo ali à frente do Bundesbank?!

Angela M. – Parece um cavalo gigante…

Wolfgang S. – Aisssh…E parece que tem as tripas de fora…se calhar é do circo já para o carnaval

Angela M. – É pá, manda-os entrar para a arrecadação dos dracmas velhos que o cavalo já está a atrapalhar o trânsito na eurozona

Wolfgang S. – eu cá não arriscava… pode ter carne picada portuguesa

Angela M. – Não… os portugueses são bonzinhos: o Louçã dá sermões, a Drago faz ioga, a Amaral brinca aos podemos, a Catarina arregala os olhos, o Tavares junta-os aos molhos, a Mortágua entrevista banqueiros e, todos juntos: só casam paneleiros.

Terrorismo de expressão



Quando Saramago quis escandalizar com o anúncio de que a Biblia mostrava um Deus cruel, vingativo, no fundo, má pessoa, confesso que fiquei, vá, pensativo. Poderia alguma coisa me ter passado ao lado, ou até ter interpretado mal, ou até, levado por uma visão demasiado poética, ter andado bêbedo de tanta parábola. Felizmente apoquentado por outros afazeres não pude ficar a pensar muito e, seguindo uma regra básica de qualquer alma sã: caguei no assunto.

Noutro dia, tentando evitar que este blog anestesiasse demasiado, abri o blogger, escrevi e depois apaguei o seguinte post:

Desmaker Consulting Group
Procuram-se arruaceiros com boa apresentação e vacinas em dia para destruir redação de revista em quebra de tiragem. Fornecem-se fulminantes e bisnagas.


No fundo, sentia falta de Saramago, daquele ateísmo ingénuo e combativo que, sob uma capa ideológica e literária, insultava a crença aproximando os crentes de Deus. Podíamos gozar com ele, claro, mas seríamos incapazes de lhe dar sequer um par de estalos, e até o ajudaríamos a aturar a Pilar se ele nos pedisse ajuda.
No âmbito do direito canónico deveria então aprovar-se uma lei para a Blasfémia teologicamente assistida, algo assim que permitisse insultar Deus, insultar a fé e a moral, mas tudo dentro daquele ambiente ora lírico ora épico, ora belicoso ora pachorrento, ora torrencial ora secante, que a Antigo testamento tão bem explorou e que nem sequer deu origem a que Lutero tenha assaltado uma quermesse para amostra.
Todo o católico deveria ter o direito canonicamente estabelecido ao desabafo blasfemo, a desablasfemia, a bem dizer.

Declaração Universal dos Deleites Humanos


Considerando que o desconhecimento e o desprezo pelos deleites do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade, proclamamos:

Qualquer ser humano tem direito a uma mediocridade digna. Todos são iguais perante o desprezo do Bem Comum pelo bem particular e ninguém deve ser arbitrariamente amado.

Todos têm o direito de ser abandonados por aqueles que amam, e todos os que foram acusados de fiéis e bananas se presumem de marialvas até que fique provada a sua estúpida fidelidade.

Toda a pessoa tem o direito de se considerar única e toda a pessoa tem o direito de se sentir apenas mais um. Toda a pessoa tem o direito de nada acrescentar ao mundo e de nada lhe poder ser reclamado em caso de juízo final imprevisto.

Todos têm o direito de não sentir remorsos por recusar dar uma esmola, todos têm o direito de se deleitar com talentos recebidos sem nada ter feito para a sua posse.

Todos têm o direito de ser enganados sem saber, e todos têm o direito de apenas se arrepender quando já estiverem esgotados todos os pecados ao seu alcance.

Todos têm o direito a uma ignorância atrevida ou a uma sabedoria discreta e ninguém pode ser acusado de apenas ser um atrevido discreto.

Todos têm o direito de desfrutar do desconhecimento da lei inclusivamente aqueles que a fizeram.

Ninguém pode ser acusado de abusar da paciência de Deus e todos podem se deleitar com a Sua improvável dúvida sobre o destino do homem.

Todos têm o direito de se deleitar por serem os maiores das respectivas ruas mesmo que vivam num beco sem saída

Ninguém pode ser acusado de lavar as mãos onde outros as sujam

Todos têm o direito de dizer que não há bem nem mal e que todo o mundo é um imenso assim-assim

Todos têm o direito de considerar sua propriedade aqueles que amam. Todos podem ser arbitrariamente privados da sua propriedade.

Todos têm direito, sem discriminação alguma, a prazer igual por sentimento igual.

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a que as pessoas pensem que têm deveres para com os outros e muito menos para consigo próprios.

Dai-me uma liberalidade e levantarei o mundo


Algum, temporário, abrandamento de qualidade no futebol dos lagartos fez-me virar a atenção para o relato da comissão parlamentar do bes. O stock de tremoços leva mais tempo a baixar mas a cerveja corre com a mesma velocidade. Nesta fase do campeonato o marcador mostra no topo da classificação Sobrinho e Mortágua. Na luta para a despromoção, e responsáveis pelo uso intercalar do pistacho, aparece a chamada ‘família’ , taco a taco com os ‘reguladores’, eu diria até que o desempate se vai fazer pelo saldo combinado de liberalidades & colaterais. A meio da tabela aparecem uns tipos de apelido banal mas com uso criterioso de botões de punho pelo que vão acabar por fazer uma temporada calma, inclusive já me babei duas vezes para cima da tigela de cajus tal a sonolência provocada pelos ring fencing’s e o caralho. Espero que a época de contratações de Janeiro traga algumas movimentações no mercado, mesmo que se tenha de ir buscar alguns deputados às off shores, e obviamente a segunda volta de audições, já com umas azeitonas que deixei encomendadas na mercearia, vai garantir-me uns serões bem passados, correndo o risco de subir um número nas calças e o aparecimento dumas putas dumas borbulhas na testa. Borbulhas apenas, repito.

Cirque du sommeil


Adormeci a pensar que detesto comer. Detesto inclusivamente aquela paneleirice do sabor, do empratamento, da novidade, da experimentação. Da comida que nos fazia a nossa avozinha! Quero lá saber do que me fazia a minha avozinha. Até sentir fome me traz desconforto, irritação. E depois de comer: nenhuma memória, apenas enfartamento. Japoneses, Tailandeses, fusões, michelins, só resta fastio: puta que os pariu. Acredito na comida apenas como fonte de negócio, aproveitando as fraquezas humanas: a vaidade, a necessidade de afirmação social, a necessidade de companhia. Viro-me na cama. São três da manhã e sou apenas uma concha de espinafres com sésamo ao lado de um bocado de enzimas em repouso que é a minha mulher.  Valeram as anedotas, apenas as boas anedotas salvam a comida que as acompanha. Detesto contar anedotas, adoro ouvir. Absurdas, repetidas, básicas, exuberantemente ordinárias como aquele vison que às mãos do casado de fresco lhe pareceu tudo cona. Alguma ventresca de atum vale um vison apalpado que nem cona? Assim não consigo dormir. Tinham posto à prova a minha lendária (auto-apregoada, leia-se) capacidade de aguentar o sarcasmo. Vacilei.  O vinho também não me ajuda. É impossível porem-me a falar muito com álcool. Fico parecido com o cabrão do kierkegaard e à sobremesa já todos querem que eu lhes informe quando vai ser o fim do mundo. Mas eu digo-lhes que o fim do mundo não interessa nem ao menino Jesus. Afinal é Natal. Cinco da manhã e é quase Natal. O primeiro Natal sem a minha Mãe. Não me lembro de nenhum prato feito pela minha Mãe. Abençoada por me fazer lutar pela sua memória todos os dias; e noites.

O Divã Disto Tudo V


Back to basics: o país está suspenso do contabilista e do motorista.  Depois de termos concluído sofrermos da famosa esclerose de elites, aprofundámos o tema e verificámos que afinal as elites estavam penduradas na competência duma classe intermédia que, numa revisão marxista, em vez de se revoltar vai agora lixar os patrões.

Hoje, o futuro do orgulho nacional está nas mãos da menina das fotocópias, cada país tem o snowden que merece.

Em primeira mão, aqui, a acta da audiência secreta no Parlamento, com a menina Dulce:

Senhor Deputado – diga-nos menina Dulce, era a responsável pelas fotocópias?

Menina Dulce – ora, chamavam-lhe a máquina de fazer offshores ….

Senhor Deputado – acha que abusavam das offshores?

Menina Dulce – não, os patrões eram muito respeitadores

Senhor Deputado – respeitadores da lei?

Menina Dulce – disso não sei, mas sei que gostavam de manter as aparências e por isso nos in-shore era tudo como manda a etiqueta e os bons costumes

Senhor Deputado – então quer dizer que era tudo apenas para regulador ver?

Menina Dulce – bem, os meninos do banco de Portugal também eram muito respeitadores…

Senhor Deputado – respeitadores como? A função deles era supervisionar!?

Menina Dulce – sim, mas supervisionavam sempre com muito respeito, nada de espreitar pelas fechaduras, nem andar a fazer brincadeiras debaixo das mesas

Senhor Deputado – Então acha que andava alguma coisa escondida debaixo da mesa

Menina Dulce – Ai sr deputado não me faça corar….

Senhor Deputado – não tem que ter vergonha de nada, aqui está a prestar um serviço à Democracia e ao Parlamento!

Menina Dulce – credo, também não me pagam para essas menages triplas! Quem faz disso é a minha colega do economato!

Senhor Deputado – Também virá cá depor, mas para já precisamos de saber o que lhe passou pelas mãos, menina Dulce

Menina Dulce – julgo que isso está protegido pelo segredo vaginal…

Senhor Deputado – alguma coisa nos poderá contar… uma mulher não é só vagina

Menina Dulce – sim, claro, eu às quartas feiras tirava fotocópias para a contabilidade

Senhor Deputado – para a contabilidade?

Menina Dulce – eles diziam que eu tinha jeito para fazer os buracos render

Senhor Deputado – a senhora também já tinha ouvido falar dos buracos nas contas?!

Menina Dulce – O sr Abílio da contabilidade dizia-me que só com o meu balancete conseguia inspirar-se para os estornos que tinha de fazer de madrugada

Senhor Deputado – então o contabilista fazia horas extra pela noite dentro?

Menina Dulce – nem queira saber o que eu tive de inspirar aquele homem

Senhor deputado – Então a senhora acha que também foi responsável pelo estado artístico das contas ?

Menina Dulce – Claro meu querido, e se tu quiseres, como devo ir para o desemprego, a ti faço-te uma revisão constitucional completa pelo preço duma portaria

Era Rodrigo não querido por Sofia que não o queria


Podia ser desilusão, ou frustração, ou engano, despeito até, ou desespero, ou raiva, mera irritação, mas nenhuma destas explicações cobria os seus reais sentimentos. Rodrigo não sabia o que fazer com o que sentia depois de tantos anos para descobrir que afinal Sofia não o queria. Era um botânico afamado, tinha revelado ao mundo muitas novas espécies, aromas, cores, até havia uma forma geométrica que se tinha apropriado do seu nome, o rodriguezio, duma pétala de cinco lados rectos e quatro curvos que ele tinha encontrado numa planta moçambicana, até aí desconhecida, e quase parecia uma pétala que se podia vestir, nuns dias armadura, noutros dias corpete.

Fechou-se na sua estufa e procurou a resposta naqueles seres que, mesmo fustigados pelas intempéries, sabiam adaptar-se às circunstâncias, mais ou menos clorofila, mais ou menos polinização, mais ou menos enxerto.

Certamente as flores seriam capazes de lhe dar a resposta. Pegou no exemplar de malmequer mais antigo que tinha e pediu-lhe para se transformar em apenas não-me-quer. Regou-o, mudou de terra, testou vários fertilizantes, diferentes tempos e ângulos de exposição ao sol, níveis de humidade, e rezou ao tempo, o deus das flores.

Algumas semanas depois Rodrigo tinha a flor que lhe mostrava o não-me-quer de Sofia. Umas pétalas brilhantes dum lado e baças de outro, numas zonas enroladas para dentro, afastando-o, noutras com um recorte laminado, ameaçando fatiá-lo em postas se lhe pusesse as mãos sem perguntar primeiro. Olhou para elas com cuidado, procurando os segredos do não-querer e tentando descobrir como lidar com eles. Pegou em cada uma das pétalas com um cuidado dessexuado mas lúbrico, depositou-as em cima dum papel de branco lunar e apontou-lhes uma luz arroxeada, pascal, plena de intensidade curiosa e fatal como só a luz religiosa consegue ter.

E viu então o não-te-quero de Sofia. Ali explicado tim-tim por tim-tim, numa eloquência vegetal, imóvel como uma metafisica medieval: faltava a Rodrigo substância para atrair Sofia, todo ele era forma, estilo, simples desconteúdo, todo ele era um apenas apenas, um insuficiente.

Já não precisava de se sentir nem desiludido, nem irritado, nem frustrado, nem enganado, nem abandonado, nem sequer havia receio de ser mal parecido, bastava sentir-se desaparecido.

Grasshopers & Honey


Antes de Salomé lhe ter tricotado o pescoço, João Baptista (como relembra o evangelho de hoje) levava um cinto de cabedal à volta dos rins. João Baptista é (talvez) o maior exemplo da literatura do amor ao (e da concentração no) essencial. É um exemplo fodido para qualquer aprendiz de imitação de Cristo (e mesmo para qualquer aprendiz do que quer que seja) mas, diga-se, sem o acessório o que seria de nós? Até Jesus precisou duma cruz, e do pão, e do vinho.

Nas relações humanas é igual, se cingirmos muito os rins um dia qualquer alguém nos põe a cabeça - com ou sem apêndices - numa travessa, ou os tomates de molho; que São João Baptista me perdoe.

Juntos Fodemos


Atrelado ao espanhol Podemos parece estar a nascer cá na paróquia um Juntos Podemos. Tive esperança que a similitude com o fodemos já tivesse sido devidamente explorada e pesquisei tendo confirmado a inexistência das devidas analogias.

(nota doméstica interna: se for descoberto no Google um histórico de pesquisas em ‘juntos fodemos’ dever-se-á a esta curiosidade sociológica e não a qualquer tentativa de encontrar parceira disponível para descobrir os insondáveis e húmidos mistérios da esquerda moderna)

Retomando então aquilo a que optimisticamente se poderá chamar de raciocínio. A ideia de juntos fodemos baseia-se na capacidade natural do homem de fazer amizades. Parece-me mais fecundo e elevado fodermos em conjunto do que podermos em conjunto. Reparemos que se para poder basta querer, já para foder o querer não é suficiente o que indica, assim, algo mais elevado, algo mais construído e, portanto, humano, por assim dizer.

A esquerda não se deve pois contentar em poder junto mas antes foder em conjunto. Os ideais de esquerda fundamentam-se num acesso ao ideal de igualdade que apenas conseguem enunciar e jamais praticar, daí que o podemos soe imediatamente a falso, soe novamente a uma espécie de bastilha elástica (é trocadilho sim) mascada à exaustão e sem ter já a mais pequena amostra de açúcar. Ao invés, o foder conjunto mantém o mesmo viço primordial, desde os tempos antropológicos do incesto olímpico ou dos maravilhosos tempos do amor livre, que apenas uma vertigem civilizacional bolorenta se encarregou de pôr para debaixo da alcatifas da conveniência ou dos tabus.

Passado este preâmbulo, que espero tenha sido elucidativo, concentremo-nos agora no fodemos propriamente dito. Foder é algo que a blogaria trata desde os seus primeiros tempos com maior ou menor fulgor, principalmente por aqueles – antes apelidados – ‘blogues de gajas’ (que entretanto foram desaparecendo ou sendo substituídos por blogues feitos para vender chinelas ou biquinis) que viram neste meio a fantástica oportunidade para escrever ‘foder’ pela primeira vez e assim formalmente se emanciparem pela via erudita. Sendo que foder já teve o seu Ipiranga literário temos de reconhecer que ainda não teve realmente direito a um lugar digno no grande altar da política.

Reparem que não falo de causas banais como a liberalização da prostituição, nem da paneleirice-com-papel-passado, nem sequer do amor livre: falo de foder mesmo, foder sem cláusulas de salvaguarda, sem coeficientes conjugais, um foder sem austeridade, sem rating, nem sequer me refiro a um foder new wave para libertar energias e entrar em novas dimensões, falo mesmo de foder como a grande causa da esquerda, mais próxima de Noé do que de Lenine.

A esquerda está presa à agenda conservadora dos costumes, das pequeninas liberalizações e apenas foder a pode libertar. Reparem em exemplos práticos: substituir o iva da restauração pelo sexo na restauração, substituir a reestruturação da dívida por foder mesmo as contas publicas todas, substituir as parcerias publico-privadas por uma grande foda geral que não discrimine quem ajoelha e quem abana o rabo.

Onde está a  extremosa esquerda quando precisamos mesmo dela? A juntar pilinhas?

E agora o amor

Os conceitos que entram timidamente na composição mas afinal podem fazer toda a diferença no enredo, vistos pelo novo dicionário não ilustrado

Pragmatismo – o que vale no amor é apenas o lugar de intersecção entre o possível e o possível

Realismo – o que vale no amor é a parte em que nada se sente mas tudo se vê

Calculismo – o que vale no amor é a parte do possível que nunca será impossível

Disponibilidade – é a parte do amor que os pragmáticos evitam

Oportunismo – parte do amor que funciona como ‘afecto curricular’

Securitismo – o que vale no amor é ele poder funcionar como reserva de segurança emocional

Decorativismo – o que vale no amor é ele poder servir de embrulho de fantasia a sentimentos mais banais

Ecologismo – o que vale no amor é apenas a capacidade de limpar passados incómodos

Betumismo – o valor do amor é a sua competência para tapar buracos ou falhas nas paredes mestras

Pladurismo – o que vale no amor é ele puder servir de parede falsa entre vidas paralelas.

Suspensismo – componente do amor que permite deixar tudo em suspenso

Monetarismo - o amor apenas vale a pena quando conveniência e necessidade são as duas faces da mesma moeda

Bromazepamialismo - valência do amor em criar relaxamento sem dependência.

140

anos faz hoje que Churchill nasceu. Tratou-se dum homem que debaixo duma pele vitoriana conseguiu transcender essa sua condição e viver dentro e (mas) suspenso do seu tempo, numa sucessão impressionante de factos (e até contrafactos) históricos. Ainda hoje muito se poderá aprender no que foi dizendo sobre a Rússia, o médio oriente, a democracia, e por aí adiante. Um homem contraditório por excelência, resoluto por devoção e assertivo por vício, avisou-nos para um ocidente: «decided only to be undecided, resolved to be irresolute, adamant for drift». 

Placebo nas canelas

Vamos conviver nos próximos meses com uma figura virtual que, mais pontual ou mais persistentemente, irá condicionar (animar?) a nossa, digamos, relação com a realidade.

Hoje o novo dicionário não ilustrado irá descodificar os seres dos outros mundos, assinalando assim as várias possibilidades que dispõe (e dispomos) aquele de quem se fala e que se instalou seráfica e filosoficamente para as bandas do templo de Diana.

Fantasma – espécie de zeus da paranóia, podemos escolher o formato fumaça ( para evasões fiscais) ou o formato lençol ( para lavagens de capital)

Sombra – entidade da família das assombrações, mas mais acessível para países em rescaldo de regate, pois vivem apenas em 2D. Basta um solzinho em cima para desaparecerem

Vulto – são semelhantes às eminências pardas mas sem a parcela ( sempre mais cara) da eminência. Alimentam-se apenas da fugacidade e podem ser transportados em qualquer porta-luvas

Avatar – algo ali entre o demónio, o parasita e o cookie, e que dá muito boa serventia para lidarmos com quem se andou a avatoar anos a fio.

Alma penada – tratam-se de fantasmas com aspirações espirituais; devemos evitar mesas circulares e ter sempre um qualquer credo junto à boca.

Zombie – o morto-vivo está muito valorizado, mas , bem orientados, podem servir de bons espantalhos para as aves raras.

Gambozino – fusão do reino animal e vegetal que fugiu às leis darwinistas e constitui-se no sobrevivente mais célebre às maçadoras investidas dos viciados em realismo.


O grande objectivo da cidadania moderna será, a partir de hoje, conseguir transformar estes seres do aquém e do além em meros placebos políticos, ou, para os mais românticos, em amantes platónicos. 

O Divã Disto Tudo IV

A imagem da revolução

No fim de semana, semi ofuscado pela nuvem da notícia, o mestre de oratória Louçã, disse, qual trostski do quelhas: «não basta pedalar, pedalar é passear, é preciso derrubar os muros», e depois, João Semedo, na mesma linha, disse que «não havia atalhos para o confronto»

A vida é um manual de convivência entre a conservação e a revolução. Vivendo e alimentando-se uma da outra, amam-se sem poder assumi-lo, qual amantes reprimidos e até secretos.

Mas, por regra, a demagogia encaixa mais na mensagem revolucionária, e esta não a enjeita, cavalgando mesmo nela com prazer. O que seria o homem se não gostasse de enganar, enganar-se, e ser enganado.

O pior das forças revolucionárias está quando perdem a força da demogogia, quando evitam o espírito de coup d’etat. Para que nos serve um revolucionário sem táticas cínicas, sem contradições viscerais e sem manipulação de almas?


Esperava mais das gémeas mortáguas. 

O Divã Disto Tudo III

A imagem da palavra

Os tempos são de eufemismos irónicos; poderíamos usar antes hipérboles exasperantes, mas temos as consciências mais treinadas para o sarcasmo do que para a exaustão. Se geralmente o eufemismo expõe uma capacidade para a ambiguidade, a hipérbole acaba por expor uma inabilidade para a ironia. Ambas são sinaléticas dos tempos. A hipérbole vai ficar como reserva de valor para os carismáticos enquanto o eufemismo fica como o recurso dos pobres de carisma.


Mas tem graça que hoje a acusação de eufemismo tem mais uso do que a acusação de exagero. No fundo, o eufemismo é a hipérbole dos novos tempos. Tempos de controlo de danos. Saudade dos tempos danosos.

O Divã Disto Tudo II

A imagem do Estado

Poderíamos abordar a realidade pelo lado do ‘isto só visto’ , ou então pelo desabafo do ‘quem te visa teu amigo é’, no entanto parece claro que o Estado tem alguma dificuldade em vestir a sua pele e precisa sempre duma mãozinha que começa por ser invisível até estar à vista de todos.

Como muitas vezes no mundo maravilhoso dos negócios a pedra filosofal está na segmentação, e assim, no âmbito da vistocracia, deveriam ser criados vários tipos de vistos para cidadãos fora da comunidade por forma a acelerar a recuperação nacional no sentido da construção do 6º império face à inoperância do 5º.
Assim, deverão estar previstos vários tipos de vistos que acompanhariam o casamento entre as diversas oportunidades e as necessidades criadas pela vida contemporânea. A saber:

Visto Silver – destinado a mulheres estrangeiras que emprenhem pelo menos três vezes com sémen nacional. O filho mais esperto terá ainda direito a uma bolsa e será, depois de licenciado com os nossos impostos, exportado para a Alemanha na condição de repatriar 20% do seu salário.

Visto Gold – destinado a estrangeiros que levem de Portugal pelo menos 3 membros da família BES e que lhes dêem um banco para gerir lá na terra deles- na condição das offshores serem cá

Visto Platina – destinada a descendentes dos judeus expulsos de Portugal que comprem um apartamento na Graça. Posteriormente será definida a Faixa de Graça que será colocada na imprensa internacional como exemplo da capacidade de Portugal em resolver conflitos internacionais

Visto Rainbow – destinado a paneleiros que casem com paneleiros portugueses e assim façam cumprir a lei do acasalamento que parece não apresentar índices de adesão dignos dum país moderno. Por enquanto ainda terão de ir adoptar os filhos que a Angelina Jolie já não conseguir; a coisa pode vir a compor-se, mas sem compromisso.

Visto Yellow submarine – destinado a militares russos que tragam para Portugal os seus equipamentos, como caças, bombardeiros, corvetas ou submarinos, e os disponibilizem, entregando sem restrições às forças armadas portuguesas. Só serão considerados equipamentos que venham com o depósito cheio. No caso de ser um porta-aviões terá de vir também a dispensa abastecida e duas mudas de cama.

Visto White & Green – destinado a estrangeiros que comprem em Portugal um clube de Futebol com o compromisso de perder sempre com o Sporting

Red Visa – Destinado a meninas e senhoras (não exclusivamente tailandesas) que façam (e publicitem devidamente) o número do ovo-projectado-da crica usando apenas ovos provenientes de poedeiras nacionais.

O Divã Disto Tudo

a imagem do poder

Hoje, Carlos Amaral Dias, numa entrevista ao Jornal de Negócios, aborda a queda da família Espirito Santo como uma queda de imagem, de poder, como um partir do espelho, como uma ferida narcísica que não tem betadine prometeico que lhe valha.

A teologia moral moderna geralmente resolve estas questões dando a alguns pecados/vícios uma espécie de poder aglutinador que acaba por dispensar discursos ( e razões) mais longos. Abençoadas, assim, a ganância e a inveja que resultam óptimas para podermos passar à frente.

O chamado cidadão interessado e atento – aquilo, no fundo, que quase todos gostamos de ser reconhecidos como (apesar de Pires de Lima preferir o ‘cidadão que faz’) - tem então para escolher, a via psicanalítica ou a via moral, ou, os mais piquinhas, ficar ali a meio caminho, entre os sonhos de Sigmund e as Parábolas do Filho de Deus (o nosso utópico "werde was du bist" )

C.A.Dias (que aprecio e que, de longe, é o único pensador português que consegue competir com Lobo Antunes no campeonato das entrevistas – pena Amaral Dias ser demasiado inteligente senão era ele que ganhava o Nobel) avisa-nos que se não fosse a Branca de Neve ainda hoje a Rainha se sentiria a mais bonita do Reino. Ou seja, acaba por haver sempre um mito invisível que vem por cobro à indecência e levantar o véu da ganância, partindo os espelhos e deixando o phallus murcho.

«O poder cura no imaginário» diz CAD depois de ter deixado a entrevistadora (AMR) alarmada com o seu anterior «Não há nada que mais cure as pessoas do que o poder». Só que basicamente o poder é uma merda, mas aí já a psicanálise não se pode aventurar, pois procurando «banir as sombras arcaicas do irracionalismo e da fé no sobrenatural» (como escreveu G. Steiner na ‘Nostalgia do Absoluto) tem de fazer stop onde os irracionais e moralistas crentes entram, de Biblia em riste a cantar: «quando o fizestes a um dos meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes»


A educação cristã do olhar faz-nos focar antes a vida dos pequeninos. Infelizmente não conseguimos e estamos sempre a controlar o buraco da agulha para ver qual foi o último rico camelo que passou por lá - e como terá feito ele.

Parvosterona


Sabe-se da literatura, da televisão, da história, e dos jornais, que o poder corrompe, sabe-se também que o poder afasta da realidade (esta vai-se tornando cada vez mais difícil de suportar), sabe-se igualmente que isola, etc, etc, bla-bla. Aparentemente todos esses desligamentos (versão mais fina das alienações) podem ser condimentados – somos periodicamente relembrados disso – de alguma actividade glandular que torna os detentores do (algum) poder, por assim dizer, excêntricos (a versão fina de parvos). O que torna o capricho em personalidade, e a incompetência em distração, também pode, com a ajuda do fantástico mundo da metonímia, fazer com que a parvoíce se transforme em génio.

Ciclovia


Estando impedidos de criar – com cê grande – resta-nos definir ciclos, algo em que, diga-se, temos (nós, a humanidade pensante) mostrado uma competência bastante decente.

Claro que o rolo da história trata de os ir amalgamando com o decorrer do tempo; por exemplo, se hoje, e só depois do 25 de Abril, podemos encontrar o (i) ciclo pós revolucionário, (ii) o ciclo cavaco, (iii) o ciclo guterres, (iv) o ciclo sócrates e (v) o ciclo passos- troika (coitado, será que nem sequer vai ficar com um ciclo só dele?) daqui a uns anitos tudo isto não será mais do que um ciclo maiorzito (ao qual ainda se juntarão o (vi) período salazar e (vii) a primeira república – dos detrás – e mais uns quantos que ainda virão no futuros) que, se calhar, os nossos trinetos chamarão de grande ciclo bosta ou então ciclo maravilha, consoante a parte do copo para que estejam a olhar. Certo é que daqui a uns anos Salazar e Cunhal, Afonso Costa e o Cardeal Cerejeira, Gungunhana e Vasco Santana farão parte do mesmo descritivo da história, eventualmente até vizinhos no mesmo – e único - parágrafo.

Ora feito o devido e prévio desconto, vários condimentos da actualidade recente permitem-nos estabelecer que um ciclo(zinho) iniciado em 200? estará para terminar. Temos exemplos tipo geop’lítica: Obama a dar de frosques, os russos a fazerem cruzeiros na Natolândia, um terrorismo islâmico com pretensões de Estado; e temos exemplos tipo realit’show: o Gespatifado, os carapaus de corrida da PT a passarem a PTinga, metade do país rendido aos encanto$ dos herdeiros de agostinho neto e outra metade rendida aos encanto$ dos herdeiros de deng xiao ping; enfim, melhor melhor, só despachar o Estádio da Luz embrulhado por Christo (com Jesus lá dentro, obviamente) já que não conseguimos enfiar o Braz & Braz na Alibaba.

Há no entanto coisas que nunca mudam – e assim nos asseguram estarmos ainda no mesmo programa de computador : o Lobo Antunes continua a dar entrevistas (a pretexto de livros especializados e destinados a decorar estantes), e os cabeleireiros continuam a ser paneleiros. É o chamado denominador comum da História.

Então e qual é a melhor maneira de nos prepararmos para um novo ciclo? Sabermos que em princípio iremos cometer os mesmos (alegados) erros, só que desta vez serão chamados ‘medidas’. Saber que o preto voltará a ser branco, mas ‘branco sujo’. Saber que tudo será (felizmente) igual, mas desta feita (felizmente) ‘diferente’. Saber que de tudo sabemos sem nada saber; melhor é impossível.

On a billboard


Pela recente biografia de Philip Roth (de Claudia Pierpont) soube-se que ele flirtou ao de leve («briefly dated», é a expressão usada) Jackie Kennedy em 1964. Alegadamente terá sido convidado a subir depois de um jantar num restaurante e «when he finally kissed her, it was like kissing the face on a billboard» (pág. 45). Apesar de tal se ter passado entre duas pessoas famosas, e que não apresentarão deficit de variedade de beijos na vida, tenho para anunciar que todos e quaisquer beijos a uma mulher são, para um homem, beijos em ‘quadros de avisos’. Nenhuma mulher beija sem a intenção - mais ou menos declarada - de mostrar ao homem qual é o lugar dele, seja ele qual for. Felizes os que percebem os avisos - a tempo.