Algum, temporário, abrandamento de qualidade no futebol dos
lagartos fez-me virar a atenção para o relato da comissão parlamentar do bes. O
stock de tremoços leva mais tempo a baixar mas a cerveja corre com a mesma
velocidade. Nesta fase do campeonato o marcador mostra no topo da classificação
Sobrinho e Mortágua. Na luta para a despromoção, e responsáveis pelo uso
intercalar do pistacho, aparece a chamada ‘família’ , taco a taco com os ‘reguladores’,
eu diria até que o desempate se vai fazer pelo saldo combinado de liberalidades
& colaterais. A meio da tabela aparecem uns tipos de apelido banal mas com
uso criterioso de botões de punho pelo que vão acabar por fazer uma temporada
calma, inclusive já me babei duas vezes para cima da tigela de cajus tal a sonolência
provocada pelos ring fencing’s e o caralho. Espero que a época de contratações
de Janeiro traga algumas movimentações no mercado, mesmo que se tenha de ir
buscar alguns deputados às off shores, e obviamente a segunda volta de
audições, já com umas azeitonas que deixei encomendadas na mercearia, vai
garantir-me uns serões bem passados, correndo o risco de subir um número nas
calças e o aparecimento dumas putas dumas borbulhas na testa. Borbulhas apenas,
repito.
Cirque du sommeil
Adormeci a pensar que detesto comer. Detesto inclusivamente aquela
paneleirice do sabor, do empratamento, da novidade, da experimentação. Da
comida que nos fazia a nossa avozinha! Quero lá saber do que me fazia a minha
avozinha. Até sentir fome me traz desconforto, irritação. E depois de comer: nenhuma
memória, apenas enfartamento. Japoneses, Tailandeses, fusões, michelins, só resta
fastio: puta que os pariu. Acredito na comida apenas como fonte de negócio,
aproveitando as fraquezas humanas: a vaidade, a necessidade de afirmação
social, a necessidade de companhia. Viro-me na cama. São três da manhã e sou
apenas uma concha de espinafres com sésamo ao lado de um bocado de enzimas em
repouso que é a minha mulher. Valeram as
anedotas, apenas as boas anedotas salvam a comida que as acompanha. Detesto
contar anedotas, adoro ouvir. Absurdas, repetidas, básicas, exuberantemente
ordinárias como aquele vison que às mãos do casado de fresco lhe pareceu tudo
cona. Alguma ventresca de atum vale um vison apalpado que nem cona? Assim não
consigo dormir. Tinham posto à prova a minha lendária (auto-apregoada, leia-se) capacidade de aguentar o sarcasmo. Vacilei. O vinho também não me ajuda. É impossível porem-me a falar
muito com álcool. Fico parecido com o cabrão do kierkegaard e à sobremesa já
todos querem que eu lhes informe quando vai ser o fim do mundo. Mas eu digo-lhes
que o fim do mundo não interessa nem ao menino Jesus. Afinal é Natal. Cinco da
manhã e é quase Natal. O primeiro Natal sem a minha Mãe. Não me lembro de nenhum
prato feito pela minha Mãe. Abençoada por me fazer lutar pela sua memória todos
os dias; e noites.
O Divã Disto Tudo V
Back to basics: o país está suspenso do contabilista e do motorista.
Depois de termos concluído sofrermos da
famosa esclerose de elites, aprofundámos o tema e verificámos que afinal as
elites estavam penduradas na competência duma classe intermédia que, numa
revisão marxista, em vez de se revoltar vai agora lixar os patrões.
Hoje, o futuro do orgulho nacional está nas mãos da menina
das fotocópias, cada país tem o snowden que merece.
Em primeira mão, aqui, a acta da audiência secreta no
Parlamento, com a menina Dulce:
Senhor Deputado – diga-nos menina Dulce, era a responsável
pelas fotocópias?
Menina Dulce – ora, chamavam-lhe a máquina de fazer
offshores ….
Senhor Deputado – acha que abusavam das offshores?
Menina Dulce – não, os patrões eram muito respeitadores
Senhor Deputado – respeitadores da lei?
Menina Dulce – disso não sei, mas sei que gostavam de manter
as aparências e por isso nos in-shore era tudo como manda a etiqueta e os bons
costumes
Senhor Deputado – então quer dizer que era tudo apenas para
regulador ver?
Menina Dulce – bem, os meninos do banco de Portugal também
eram muito respeitadores…
Senhor Deputado – respeitadores como? A função deles era
supervisionar!?
Menina Dulce – sim, mas supervisionavam sempre com muito
respeito, nada de espreitar pelas fechaduras, nem andar a fazer brincadeiras
debaixo das mesas
Senhor Deputado – Então acha que andava alguma coisa
escondida debaixo da mesa
Menina Dulce – Ai sr deputado não me faça corar….
Senhor Deputado – não tem que ter vergonha de nada, aqui está
a prestar um serviço à Democracia e ao Parlamento!
Menina Dulce – credo, também não me pagam para essas menages
triplas! Quem faz disso é a minha colega do economato!
Senhor Deputado – Também virá cá depor, mas para já
precisamos de saber o que lhe passou pelas mãos, menina Dulce
Menina Dulce – julgo que isso está protegido pelo segredo
vaginal…
Senhor Deputado – alguma coisa nos poderá contar… uma mulher
não é só vagina
Menina Dulce – sim, claro, eu às quartas feiras tirava
fotocópias para a contabilidade
Senhor Deputado – para a contabilidade?
Menina Dulce – eles diziam que eu tinha jeito para fazer os
buracos render
Senhor Deputado – a senhora também já tinha ouvido falar dos
buracos nas contas?!
Menina Dulce – O sr Abílio da contabilidade dizia-me que só com
o meu balancete conseguia inspirar-se para os estornos que tinha de fazer de
madrugada
Senhor Deputado – então o contabilista fazia horas extra
pela noite dentro?
Menina Dulce – nem queira saber o que eu tive de inspirar
aquele homem
Senhor deputado – Então a senhora acha que também foi
responsável pelo estado artístico das contas ?
Menina Dulce – Claro meu querido, e se tu quiseres, como
devo ir para o desemprego, a ti faço-te uma revisão constitucional completa
pelo preço duma portaria
Era Rodrigo não querido por Sofia que não o queria
Podia ser desilusão, ou frustração, ou engano, despeito até,
ou desespero, ou raiva, mera irritação, mas nenhuma destas explicações cobria os
seus reais sentimentos. Rodrigo não sabia o que fazer com o que sentia depois
de tantos anos para descobrir que afinal Sofia não o queria. Era um botânico
afamado, tinha revelado ao mundo muitas novas espécies, aromas, cores, até
havia uma forma geométrica que se tinha apropriado do seu nome, o rodriguezio, duma
pétala de cinco lados rectos e quatro curvos que ele tinha encontrado numa planta
moçambicana, até aí desconhecida, e quase parecia uma pétala que se podia
vestir, nuns dias armadura, noutros dias corpete.
Fechou-se na sua estufa e procurou a resposta naqueles seres
que, mesmo fustigados pelas intempéries, sabiam adaptar-se às circunstâncias,
mais ou menos clorofila, mais ou menos polinização, mais ou menos enxerto.
Certamente as flores seriam capazes de lhe dar a resposta.
Pegou no exemplar de malmequer mais antigo que tinha e pediu-lhe para se
transformar em apenas não-me-quer. Regou-o, mudou de terra, testou vários
fertilizantes, diferentes tempos e ângulos de exposição ao sol, níveis de
humidade, e rezou ao tempo, o deus das flores.
Algumas semanas depois Rodrigo tinha a flor que lhe mostrava
o não-me-quer de Sofia. Umas pétalas brilhantes dum lado e baças de outro, numas
zonas enroladas para dentro, afastando-o, noutras com um recorte laminado,
ameaçando fatiá-lo em postas se lhe pusesse as mãos sem perguntar primeiro.
Olhou para elas com cuidado, procurando os segredos do não-querer e tentando
descobrir como lidar com eles. Pegou em cada uma das pétalas com um cuidado
dessexuado mas lúbrico, depositou-as em cima dum papel de branco lunar e
apontou-lhes uma luz arroxeada, pascal, plena de intensidade curiosa e fatal como
só a luz religiosa consegue ter.
E viu então o não-te-quero de Sofia. Ali explicado tim-tim
por tim-tim, numa eloquência vegetal, imóvel como uma metafisica medieval: faltava
a Rodrigo substância para atrair Sofia, todo ele era forma, estilo, simples desconteúdo,
todo ele era um apenas apenas, um insuficiente.
Já não precisava de se sentir nem desiludido, nem irritado,
nem frustrado, nem enganado, nem abandonado, nem sequer havia receio de ser mal
parecido, bastava sentir-se desaparecido.
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contos
Grasshopers & Honey
Antes de Salomé lhe ter tricotado o pescoço, João Baptista
(como relembra o evangelho de hoje) levava um cinto de cabedal à volta dos
rins. João Baptista é (talvez) o maior exemplo da literatura do amor ao (e da
concentração no) essencial. É um exemplo fodido para qualquer aprendiz de
imitação de Cristo (e mesmo para qualquer aprendiz do que quer que seja) mas,
diga-se, sem o acessório o que seria de nós? Até Jesus precisou duma cruz, e do
pão, e do vinho.
Nas relações humanas
é igual, se cingirmos muito os rins um dia qualquer alguém nos põe a cabeça - com
ou sem apêndices - numa travessa, ou os tomates de molho; que São João Baptista
me perdoe.
Juntos Fodemos
Atrelado ao espanhol Podemos parece estar a nascer cá na
paróquia um Juntos Podemos. Tive esperança que a similitude com o fodemos já
tivesse sido devidamente explorada e pesquisei tendo confirmado a inexistência
das devidas analogias.
(nota doméstica interna: se for descoberto no Google um
histórico de pesquisas em ‘juntos fodemos’ dever-se-á a esta curiosidade
sociológica e não a qualquer tentativa de encontrar parceira disponível para
descobrir os insondáveis e húmidos mistérios da esquerda moderna)
Retomando então aquilo a que optimisticamente se poderá
chamar de raciocínio. A ideia de juntos fodemos baseia-se na capacidade natural
do homem de fazer amizades. Parece-me mais fecundo e elevado fodermos em
conjunto do que podermos em conjunto. Reparemos que se para poder basta querer,
já para foder o querer não é suficiente o que indica, assim, algo mais elevado,
algo mais construído e, portanto, humano, por assim dizer.
A esquerda não se deve pois contentar em poder junto mas
antes foder em conjunto. Os ideais de esquerda fundamentam-se num acesso ao
ideal de igualdade que apenas conseguem enunciar e jamais praticar, daí que o
podemos soe imediatamente a falso, soe novamente a uma espécie de bastilha
elástica (é trocadilho sim) mascada à exaustão e sem ter já a mais pequena
amostra de açúcar. Ao invés, o foder conjunto mantém o mesmo viço primordial,
desde os tempos antropológicos do incesto olímpico ou dos maravilhosos tempos
do amor livre, que apenas uma vertigem civilizacional bolorenta se encarregou
de pôr para debaixo da alcatifas da conveniência ou dos tabus.
Passado este preâmbulo, que espero tenha sido elucidativo,
concentremo-nos agora no fodemos propriamente dito. Foder é algo que a blogaria
trata desde os seus primeiros tempos com maior ou menor fulgor, principalmente
por aqueles – antes apelidados – ‘blogues de gajas’ (que entretanto foram desaparecendo
ou sendo substituídos por blogues feitos para vender chinelas ou biquinis) que
viram neste meio a fantástica oportunidade para escrever ‘foder’ pela primeira
vez e assim formalmente se emanciparem pela via erudita. Sendo que foder já
teve o seu Ipiranga literário temos de reconhecer que ainda não teve realmente
direito a um lugar digno no grande altar da política.
Reparem que não falo de causas banais como a liberalização
da prostituição, nem da paneleirice-com-papel-passado, nem sequer do amor livre: falo de foder
mesmo, foder sem cláusulas de salvaguarda, sem coeficientes conjugais, um foder
sem austeridade, sem rating, nem sequer me refiro a um foder new wave para libertar
energias e entrar em novas dimensões, falo mesmo de foder como a grande causa
da esquerda, mais próxima de Noé do que de Lenine.
A esquerda está presa à agenda conservadora dos costumes, das
pequeninas liberalizações e apenas foder a pode libertar. Reparem em exemplos
práticos: substituir o iva da restauração pelo sexo na restauração, substituir
a reestruturação da dívida por foder mesmo as contas publicas todas, substituir
as parcerias publico-privadas por uma grande foda geral que não discrimine quem
ajoelha e quem abana o rabo.
Onde está a extremosa esquerda quando precisamos mesmo dela? A juntar
pilinhas?
E agora o amor
Os conceitos que entram timidamente na composição mas afinal
podem fazer toda a diferença no enredo, vistos pelo novo dicionário não
ilustrado
Pragmatismo – o que vale no amor é apenas o lugar de
intersecção entre o possível e o possível
Realismo – o que vale no amor é a parte em que nada se sente
mas tudo se vê
Calculismo – o que vale no amor é a parte do possível que
nunca será impossível
Disponibilidade – é a parte do amor que os pragmáticos evitam
Oportunismo – parte do amor que funciona como ‘afecto
curricular’
Securitismo – o que vale no amor é ele poder funcionar como
reserva de segurança emocional
Decorativismo – o que vale no amor é ele poder servir de embrulho
de fantasia a sentimentos mais banais
Ecologismo – o que vale no amor é apenas a capacidade de
limpar passados incómodos
Betumismo – o valor do amor é a sua competência para tapar
buracos ou falhas nas paredes mestras
Pladurismo – o que vale no amor é ele puder servir de parede
falsa entre vidas paralelas.
Suspensismo – componente do amor que permite deixar tudo em
suspenso
Monetarismo - o amor apenas vale a pena quando conveniência e necessidade são as duas faces da mesma moeda
Bromazepamialismo - valência do amor em criar relaxamento sem dependência.
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dicionário não ilustrado
140
anos faz hoje que Churchill nasceu. Tratou-se dum homem que
debaixo duma pele vitoriana conseguiu transcender essa sua condição e viver
dentro e (mas) suspenso do seu tempo, numa sucessão impressionante de factos (e
até contrafactos) históricos. Ainda hoje muito se poderá aprender no que foi
dizendo sobre a Rússia, o médio oriente, a democracia, e por aí adiante. Um
homem contraditório por excelência, resoluto por devoção e assertivo por vício,
avisou-nos para um ocidente: «decided only to be undecided, resolved to be
irresolute, adamant for drift».
Placebo nas canelas
Vamos conviver nos próximos meses com uma figura virtual que, mais pontual ou mais
persistentemente, irá condicionar (animar?) a nossa, digamos, relação com a
realidade.
Hoje o novo
dicionário não ilustrado irá descodificar os seres dos outros mundos, assinalando assim as várias possibilidades que
dispõe (e dispomos) aquele de quem se
fala e que se instalou seráfica e filosoficamente para as bandas do templo
de Diana.
Fantasma – espécie de zeus da paranóia, podemos escolher o
formato fumaça ( para evasões fiscais) ou o formato lençol ( para lavagens de
capital)
Sombra – entidade da família das assombrações, mas mais
acessível para países em rescaldo de regate, pois vivem apenas em 2D. Basta um
solzinho em cima para desaparecerem
Vulto – são semelhantes às eminências pardas mas sem a
parcela ( sempre mais cara) da eminência. Alimentam-se apenas da fugacidade e
podem ser transportados em qualquer porta-luvas
Avatar – algo ali entre o demónio, o parasita e o cookie, e
que dá muito boa serventia para lidarmos com quem se andou a avatoar anos a
fio.
Alma penada – tratam-se de fantasmas com aspirações
espirituais; devemos evitar mesas circulares e ter sempre um qualquer credo
junto à boca.
Zombie – o morto-vivo está muito valorizado, mas , bem
orientados, podem servir de bons espantalhos para as aves raras.
Gambozino – fusão do reino animal e vegetal que fugiu às
leis darwinistas e constitui-se no sobrevivente mais célebre às maçadoras
investidas dos viciados em realismo.
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dicionário não ilustrado
O Divã Disto Tudo IV
A imagem da revolução
No fim de semana, semi ofuscado pela nuvem da notícia, o
mestre de oratória Louçã, disse, qual trostski do quelhas: «não basta pedalar,
pedalar é passear, é preciso derrubar os muros», e depois, João Semedo, na
mesma linha, disse que «não havia atalhos para o confronto»
A vida é um manual de convivência entre a conservação e a
revolução. Vivendo e alimentando-se uma da outra, amam-se sem poder assumi-lo,
qual amantes reprimidos e até secretos.
Mas, por regra, a demagogia encaixa mais na mensagem
revolucionária, e esta não a enjeita, cavalgando mesmo nela com prazer. O que
seria o homem se não gostasse de enganar, enganar-se, e ser enganado.
O pior das forças revolucionárias está quando perdem a força
da demogogia, quando evitam o espírito de coup d’etat. Para que nos serve um
revolucionário sem táticas cínicas, sem contradições viscerais e sem
manipulação de almas?
Esperava mais das gémeas mortáguas.
O Divã Disto Tudo III
A imagem da palavra
Os tempos são de eufemismos irónicos; poderíamos usar antes hipérboles
exasperantes, mas temos as consciências mais treinadas para o sarcasmo do que
para a exaustão. Se geralmente o eufemismo expõe uma capacidade para a ambiguidade,
a hipérbole acaba por expor uma inabilidade para a ironia. Ambas são
sinaléticas dos tempos. A hipérbole vai ficar como reserva de valor para os carismáticos
enquanto o eufemismo fica como o recurso dos pobres de carisma.
Mas tem graça que hoje a acusação de eufemismo tem mais uso
do que a acusação de exagero. No fundo, o eufemismo é a hipérbole dos novos
tempos. Tempos de controlo de danos. Saudade dos tempos danosos.
O Divã Disto Tudo II
A imagem do Estado
Poderíamos abordar a realidade pelo lado do ‘isto só visto’
, ou então pelo desabafo do ‘quem te visa teu amigo é’, no entanto parece claro
que o Estado tem alguma dificuldade em vestir a sua pele e precisa sempre duma
mãozinha que começa por ser invisível até estar à vista de todos.
Como muitas vezes no mundo maravilhoso dos negócios a pedra
filosofal está na segmentação, e assim, no âmbito da vistocracia, deveriam ser
criados vários tipos de vistos para cidadãos fora da comunidade por forma a
acelerar a recuperação nacional no sentido da construção do 6º império face à
inoperância do 5º.
Assim, deverão estar previstos vários tipos de vistos que acompanhariam o casamento entre as diversas oportunidades e as necessidades
criadas pela vida contemporânea. A saber:
Visto Silver – destinado a mulheres estrangeiras que
emprenhem pelo menos três vezes com sémen nacional. O filho mais esperto terá
ainda direito a uma bolsa e será, depois de licenciado com os nossos impostos,
exportado para a Alemanha na condição de repatriar 20% do seu salário.
Visto Gold – destinado a estrangeiros que levem de Portugal
pelo menos 3 membros da família BES e que lhes dêem um banco para gerir lá na
terra deles- na condição das offshores serem cá
Visto Platina – destinada a descendentes dos judeus expulsos
de Portugal que comprem um apartamento na Graça. Posteriormente será definida a
Faixa de Graça que será colocada na imprensa internacional como exemplo da
capacidade de Portugal em resolver conflitos internacionais
Visto Rainbow – destinado a paneleiros que casem com
paneleiros portugueses e assim façam cumprir a lei do acasalamento que parece
não apresentar índices de adesão dignos dum país moderno. Por enquanto ainda
terão de ir adoptar os filhos que a Angelina Jolie já não conseguir; a coisa
pode vir a compor-se, mas sem compromisso.
Visto Yellow submarine – destinado a militares russos que
tragam para Portugal os seus equipamentos, como caças, bombardeiros, corvetas
ou submarinos, e os disponibilizem, entregando sem restrições às forças armadas
portuguesas. Só serão considerados equipamentos que venham com o depósito
cheio. No caso de ser um porta-aviões terá de vir também a dispensa abastecida
e duas mudas de cama.
Visto White & Green – destinado a estrangeiros que
comprem em Portugal um clube de Futebol com o compromisso de perder sempre com
o Sporting
Red Visa – Destinado a meninas e senhoras (não
exclusivamente tailandesas) que façam (e publicitem devidamente) o número do ovo-projectado-da crica usando apenas ovos provenientes de poedeiras
nacionais.
O Divã Disto Tudo
a imagem do poder
Hoje, Carlos Amaral Dias, numa entrevista ao Jornal de Negócios, aborda a queda da família Espirito Santo como uma queda de imagem, de poder, como um partir do espelho, como uma ferida narcísica que não tem betadine prometeico que lhe valha.
Hoje, Carlos Amaral Dias, numa entrevista ao Jornal de Negócios, aborda a queda da família Espirito Santo como uma queda de imagem, de poder, como um partir do espelho, como uma ferida narcísica que não tem betadine prometeico que lhe valha.
A teologia moral moderna
geralmente resolve estas questões dando a alguns pecados/vícios uma espécie de
poder aglutinador que acaba por dispensar discursos ( e razões) mais longos.
Abençoadas, assim, a ganância e a inveja que resultam óptimas para podermos
passar à frente.
O chamado cidadão interessado e atento – aquilo, no fundo,
que quase todos gostamos de ser reconhecidos como (apesar de Pires de Lima
preferir o ‘cidadão que faz’) - tem então para escolher, a via psicanalítica ou
a via moral, ou, os mais piquinhas,
ficar ali a meio caminho, entre os sonhos de Sigmund e as Parábolas do Filho de
Deus (o nosso utópico "werde was du bist" )
C.A.Dias (que aprecio e que, de longe, é o único pensador
português que consegue competir com Lobo Antunes no campeonato das entrevistas –
pena Amaral Dias ser demasiado inteligente senão era ele que ganhava o Nobel)
avisa-nos que se não fosse a Branca de Neve ainda hoje a Rainha se sentiria a
mais bonita do Reino. Ou seja, acaba por haver sempre um mito invisível que vem por cobro à indecência e levantar o véu da
ganância, partindo os espelhos e deixando o phallus murcho.
«O poder cura no imaginário» diz CAD depois de ter deixado a
entrevistadora (AMR) alarmada com o seu anterior «Não há nada que mais cure as
pessoas do que o poder». Só que basicamente o poder é uma merda, mas aí já a
psicanálise não se pode aventurar, pois procurando «banir as sombras arcaicas
do irracionalismo e da fé no sobrenatural» (como escreveu G. Steiner na ‘Nostalgia
do Absoluto) tem de fazer stop onde os irracionais e moralistas crentes entram,
de Biblia em riste a cantar: «quando o fizestes a um dos meus pequeninos
irmãos, a mim o fizestes»
A educação cristã do olhar faz-nos focar antes a vida dos
pequeninos. Infelizmente não conseguimos e estamos sempre a controlar o buraco da agulha para ver qual foi o
último rico camelo que passou por lá - e como terá feito ele.
Parvosterona
Sabe-se da literatura, da televisão, da história, e dos jornais, que o
poder corrompe, sabe-se também que o poder afasta da realidade (esta vai-se tornando cada vez mais difícil de suportar), sabe-se igualmente que isola, etc,
etc, bla-bla. Aparentemente todos esses desligamentos (versão mais fina das alienações) podem ser condimentados –
somos periodicamente relembrados disso – de alguma actividade glandular que
torna os detentores do (algum) poder, por assim dizer, excêntricos (a versão
fina de parvos). O que torna o capricho em personalidade, e a incompetência em
distração, também pode, com a ajuda do fantástico mundo da metonímia, fazer
com que a parvoíce se transforme em génio.
Ciclovia
Estando impedidos de criar – com cê grande – resta-nos definir ciclos, algo em que, diga-se, temos
(nós, a humanidade pensante) mostrado uma competência bastante decente.
Claro que o rolo da história trata de os ir amalgamando com
o decorrer do tempo; por exemplo, se hoje, e só depois do 25 de Abril, podemos
encontrar o (i) ciclo pós revolucionário, (ii) o ciclo cavaco, (iii) o ciclo guterres,
(iv) o ciclo sócrates e (v) o ciclo passos- troika (coitado, será que nem
sequer vai ficar com um ciclo só dele?) daqui a uns anitos tudo isto não será
mais do que um ciclo maiorzito (ao qual ainda se juntarão o (vi) período
salazar e (vii) a primeira república – dos detrás – e mais uns quantos que
ainda virão no futuros) que, se calhar, os nossos trinetos chamarão de grande ciclo
bosta ou então ciclo maravilha, consoante a parte do copo para que estejam a
olhar. Certo é que daqui a uns anos Salazar e Cunhal, Afonso Costa e o Cardeal
Cerejeira, Gungunhana e Vasco Santana farão parte do mesmo descritivo da
história, eventualmente até vizinhos no mesmo – e único - parágrafo.
Ora feito o devido e prévio desconto, vários condimentos da actualidade
recente permitem-nos estabelecer que um ciclo(zinho) iniciado em 200? estará
para terminar. Temos exemplos tipo geop’lítica: Obama a dar de frosques, os
russos a fazerem cruzeiros na Natolândia, um terrorismo islâmico com pretensões
de Estado; e temos exemplos tipo realit’show: o Gespatifado, os carapaus de
corrida da PT a passarem a PTinga, metade do país rendido aos encanto$ dos
herdeiros de agostinho neto e outra metade rendida aos encanto$ dos herdeiros de deng xiao
ping; enfim, melhor melhor, só despachar o Estádio da Luz embrulhado por Christo (com
Jesus lá dentro, obviamente) já que não conseguimos enfiar o Braz &
Braz na Alibaba.
Há no entanto coisas que nunca mudam – e assim nos asseguram
estarmos ainda no mesmo programa de computador : o Lobo Antunes continua a dar
entrevistas (a pretexto de livros especializados e destinados a decorar estantes), e os cabeleireiros
continuam a ser paneleiros. É o chamado denominador comum da História.
Então e qual é a melhor maneira de nos prepararmos para um
novo ciclo? Sabermos que em princípio iremos cometer os mesmos (alegados)
erros, só que desta vez serão chamados ‘medidas’. Saber que o preto voltará a
ser branco, mas ‘branco sujo’. Saber que tudo será (felizmente) igual, mas
desta feita (felizmente) ‘diferente’. Saber que de tudo sabemos sem nada saber;
melhor é impossível.
On a billboard
Pela recente biografia de Philip Roth (de Claudia Pierpont)
soube-se que ele flirtou ao de leve («briefly dated», é a expressão usada)
Jackie Kennedy em 1964. Alegadamente terá sido convidado a subir depois de um jantar num restaurante e «when he finally kissed
her, it was like kissing the face on a billboard» (pág. 45). Apesar de tal se
ter passado entre duas pessoas famosas,
e que não apresentarão deficit de variedade de beijos na vida, tenho para anunciar
que todos e quaisquer beijos a uma mulher são, para um homem, beijos em
‘quadros de avisos’. Nenhuma mulher beija sem a intenção - mais ou menos declarada - de mostrar ao homem
qual é o lugar dele, seja ele qual for. Felizes os que percebem os avisos - a tempo.
O Conde Corado
No reino tinha estalado o escândalo. O Conde deixara a noiva
à beira do altar e fugira com uma amante estrangeira de seu nome Eurora. Várias
razões, todas moralmente inválidas, saliente-se, eram invocadas nos mais
diversos foros de coscuvilhice do reino, desde os oficiais (o parlamento do
reino) até aqueles mais informais (o barbeiro de sua majestade, ou a dildograria
das princesas solteiras) passando pelos clandestinos (o bordel da tia
Conspurcácia, onde o Rei se abastecia regularmente de pecados, nos intervalos da
virtude).
A escandaleira passou as etapas definidas pela praxe
estabelecida no Grande Protocolo da Hipocrisia e, passado algum tempo, o Conde
já dava entrevistas, de mão dada com Eurora, dissertando sobre o futuro do
Reino e o seu enquadramento nas mais diversas galáxias, ao ritmo de suaves
acenos de queixo providenciado por uma corte de fiéis semi-defuntos que
aumentava de dia para dia, alimentada de subsídios e indulgências várias.
Mas Eurora era uma mulher ambiciosa e dada a excitações de
vária índole. Cobiçada por muitos, temida por outros tantos, fazia razias de
deboche por entre os mais diversos sultanatos, deixando por geografias várias um
rasto de destruição na reputação no Conde. Este, ocupado com as suas
propriedades e com o destino histórico do Reino, limitava-se a encolher os
ombros, a alargar as costas e a exercitar de quando em vez os quadris sempre
que a mulher o levava a despacho.
Entredentes corriam certezas sobre a sua impotência e
incertezas sobre a sua úlcera. Aparentemente o duodeno não estava a acompanhar
as exigências de um estadista em fase de corno. Ora Eurora também não lhe
queira mal e quando o deixasse haveria de fazê-lo em beleza, dando-lhe a chance
de mostrar a si mesmo o garanhão que galopava nas suas entranhas. Humilhante na
traição mas magnânima no abandono.
Pegou mão das suas melhores lingeris, adornou-se com as suas
melhores hormonas, colocou um avatar de Afrodite em cada curva do seu corpo e
atraiu-o para a grande armadilha do prazer. O conde nem queria acreditar em
tamanha revolução. Afinal tudo não passavam de mal entendidos e mexericos corroídos
pela inveja. Ali estava ela estendida, como uma Mata-Hari de Calcutá, num altar
de luxúria e reconciliação.
Mas eis que o mais temível movimento intravenoso aconteceu:
quando ela se apresentou louca e disponível, frágil e devoradora, o sangue do
Conde baralhou-se no tráfego e, em vez de se apresentar de rompante nos locais
mais desejados pelo desejo, não, espalhou-se, qual delta de Nilo à beira de
Mare Nostrum, pelas generosas bochechas do Conde, que terminaram a noite num
hino ao mais belo entrecôte.
Quando o Rei o viu largou todos os seus afazeres, refazeres e desfazeres, e deu-lhe a medalha do Rosto Ejaculado do Reino.
Quando o Rei o viu largou todos os seus afazeres, refazeres e desfazeres, e deu-lhe a medalha do Rosto Ejaculado do Reino.
[5] Deuteronómio
Haverá algo intermédio entre a bênção e a maldição? Este é o
primeiro dilema do homem depois de ter a suspeita de que existe um Deus que possui
algo que aproximamos a sentimentos, valores e justiça.
O homem foi-se construindo como um mamífero de compromissos.
Desde que descobriu que o mal absoluto é algo que não está ao seu alcance tenta
gerir a existência como um bem menor - andando de coligação em coligação.
Deverá Deus fazer um pacto com os Homens – era a questão que
estava na ordem do dia. Não bastava a Natureza e seria preciso a Lei? No Céu
desconhecia-se o significado da Lei
até o homem ter andado de êxodo em êxodo, de exilio em exilio, de escravidão em
escravidão, de rebelião em rebelião. Ou seja, o homem, antes que Deus pestanejasse,
já O tinha tentado esquecer.
Haverá então algo intermédio entre a bênção e a maldição?
Assim algo como ser viúvo sem nunca ter casado, ser órfão sem nunca ter sido
filho? Ser ladrão sem nunca ter roubado? Ser perdoado sem nunca ter ofendido.
Quando Deus se coligou com o homem terá equacionado
coligar-se antes com outro animal ou nós fomos a 1ª escolha? Felizmente Moisés
não tinha dúvidas quando atravessou o Mar Vermelho, seguiu instruções do seu
parceiro de coligação.
O homem, na sua evolução acompanhada (ou tutelada) descobriu
que não conseguia viver isolado. Tinha (teve, tem, terá) várias companhias à
sua disposição, foi-se organizando como pode, desde a Anarquia ao Estado
absoluto, desde o oportunismo à utopia.
Quando Deus equacionou fazer uma aliança entre Ele e o povo
que andava atrelado ao Moisés, estaria com receio que se perdesse o que já fora
alcançado até à altura? Será que os homens têm mesmo – mesmo - consciência do que já
alcançaram?
Tanta canseira para descobrir sempre que Deus é o nosso
único Aliado. E na religião dos compromissos não há intermédios.
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[4] Números
Mas quantos é que eles já são? perguntou Deus ao Anjo Lineu.
De facto Lineu nunca tinha pensado nisso. Será que teriam de
controlar o ritmo de reprodução ou aquela invenção do Anjo Mendel sobre um tal
de código genético paralelo à inseminação da alma transcendente seria
suficiente para manter a população controlada.
Numa primeira contagem ficou alarmado: já eram muitos
milhares. Será que a produção de almas acompanha isto, perguntou ele
timidamente ao Altíssimo, que pela primeira vez chamou estúpido a um Anjo em
plenas funções.
Mas organizam-se em tribos, acrescentou Lineu já a medo e
suspeitando que estaria mesmo tudo previsto nas entrelinhas do Plano de
Inseminação Transcendente de Almas… e criam relações estranhas entre eles: «amizade»,
«negócio», «sexo», e inclusive já ouvi uma ou outra referência a um tal de
«amor». Será que do habilis para o sapiens deixámos escapar algum pormenor? Não
tarda ainda inventam a civilização e nós nem damos por isso.
Cerca de 80% envolviam-se no processo de reprodução. Desses,
cerca de metade, envolviam-se de corpo e alma no processo, mas a outra metade
envolvia apenas o corpo. Ambos pariam com a mesma eficácia.
A rivalidade é um sentimento comum, cerca de 90% dos homens
consideram – intimamente - que têm um rival, mas no que toca às mulheres há
referências a um processo reprimido de emancipação. Haverá ajustes a fazer no
PITA?
Começam as distinções entre povos escolhidos e povos
deixados ao deus dará. Há referências explícitas a uns tais de «pagãos». Serão
os que no juízo final vão pagar a conta?
Deixamos isto ir andando ao sabor do vento suão ou avançamos
já com o Anjo Charles? Noutro dia lanchei com ele no Beagle e veio-me outra vez
com a ideia de introduzirmos a tal de «seleção natural» no Programa.
Estou indeciso entre isso e aquela coisa da «luta de classes»
de que fala o Anjo Karl. Mas para já deixamos isto ao Deus dará e pomos o Anjo Malthus
a fazer as contas.
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[3] Levítico
A vida de primata esclarecido não se apresentava fácil. O
grupo de prepúcio free evidenciava comportamentos que não seriam expectáveis
depois de tantas provas da presença de Deus. «Ah e que tal dar-lhes umas
quantas regras para cumprir», avançou o Anjo Taxonomista.
Não faltará muito para aparecer alguém a dizer com ar de
sábio que o homem é o lobo do homem, para já haveria que esgotar as
possibilidades de serem todos cordeiros.
Aparentemente a alma transcendente trouxera uma revolução ao
corpo mas estava a chegar com mais dificuldade aos apêndices. O diabo está nas
extremidades, avançava Lineu.
A espessura da fronteira entre a tolerância e a
promiscuidade é uma bênção para os contrabandistas de costumes e o Altíssimo
temia que a seguir à criação de qualquer moral aparecessem rapidamente as contrafacções
a ocupar uma franja importante de volátil mercado da moralidade.
Mas é impossível resistir ao impulso legislador e um
descendente de macacos com uma arca da aliança ao lombo tem mesmo é de se
dedicar à obediência. A profissão mais antiga do mundo é desobedecer ao
Criador.
A relação entre o homem e a mulher é do foro político. A
sexualidade é apenas uma componente dos acordos de incidência parlamentar: no
meio da luta há que estabelecer um mínimo de relaxamento.
A relação entre o prazer e a reprodução é pendular e da
mesma natureza que a relação entre o acessório e o essencial. Como estes
conceitos estão sempre em movimento estamos impossibilitados de os fixar de
forma permanente.
A amizade é um conceito indefinível, nem sequer é circunstancial.
Todavia pode abordar-se por defeito: Homem que não fornique com amiga é de homem
de desconfiar. Homem que fornique com amiga tem de pagar um preço. A confiança
é o bem de mais alto preço
O ciúme é um bem escasso e raramente se encontra em estado
puro. Cobiça, inveja, ressabiamento, despeito e desilusão estão sempre à
espreita para atacar. A pureza, tal como no diamante, está no sofrimento, na
dureza.
Quando a liberdade foi pensada por Deus os homens eram todos
lobos. Já com o Processo de Inseminação Transcendental de Almas em pleno
funcionamento começaram a aparecer os cordeiros. Não há seleção natural que
resista a isto. Apenas Deus pôde garantir que nos aguentássemos.
A mulher é o lobo do homem. Ataca na lua nova.
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