anos faz hoje que Churchill nasceu. Tratou-se dum homem que
debaixo duma pele vitoriana conseguiu transcender essa sua condição e viver
dentro e (mas) suspenso do seu tempo, numa sucessão impressionante de factos (e
até contrafactos) históricos. Ainda hoje muito se poderá aprender no que foi
dizendo sobre a Rússia, o médio oriente, a democracia, e por aí adiante. Um
homem contraditório por excelência, resoluto por devoção e assertivo por vício,
avisou-nos para um ocidente: «decided only to be undecided, resolved to be
irresolute, adamant for drift».
Placebo nas canelas
Vamos conviver nos próximos meses com uma figura virtual que, mais pontual ou mais
persistentemente, irá condicionar (animar?) a nossa, digamos, relação com a
realidade.
Hoje o novo
dicionário não ilustrado irá descodificar os seres dos outros mundos, assinalando assim as várias possibilidades que
dispõe (e dispomos) aquele de quem se
fala e que se instalou seráfica e filosoficamente para as bandas do templo
de Diana.
Fantasma – espécie de zeus da paranóia, podemos escolher o
formato fumaça ( para evasões fiscais) ou o formato lençol ( para lavagens de
capital)
Sombra – entidade da família das assombrações, mas mais
acessível para países em rescaldo de regate, pois vivem apenas em 2D. Basta um
solzinho em cima para desaparecerem
Vulto – são semelhantes às eminências pardas mas sem a
parcela ( sempre mais cara) da eminência. Alimentam-se apenas da fugacidade e
podem ser transportados em qualquer porta-luvas
Avatar – algo ali entre o demónio, o parasita e o cookie, e
que dá muito boa serventia para lidarmos com quem se andou a avatoar anos a
fio.
Alma penada – tratam-se de fantasmas com aspirações
espirituais; devemos evitar mesas circulares e ter sempre um qualquer credo
junto à boca.
Zombie – o morto-vivo está muito valorizado, mas , bem
orientados, podem servir de bons espantalhos para as aves raras.
Gambozino – fusão do reino animal e vegetal que fugiu às
leis darwinistas e constitui-se no sobrevivente mais célebre às maçadoras
investidas dos viciados em realismo.
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dicionário não ilustrado
O Divã Disto Tudo IV
A imagem da revolução
No fim de semana, semi ofuscado pela nuvem da notícia, o
mestre de oratória Louçã, disse, qual trostski do quelhas: «não basta pedalar,
pedalar é passear, é preciso derrubar os muros», e depois, João Semedo, na
mesma linha, disse que «não havia atalhos para o confronto»
A vida é um manual de convivência entre a conservação e a
revolução. Vivendo e alimentando-se uma da outra, amam-se sem poder assumi-lo,
qual amantes reprimidos e até secretos.
Mas, por regra, a demagogia encaixa mais na mensagem
revolucionária, e esta não a enjeita, cavalgando mesmo nela com prazer. O que
seria o homem se não gostasse de enganar, enganar-se, e ser enganado.
O pior das forças revolucionárias está quando perdem a força
da demogogia, quando evitam o espírito de coup d’etat. Para que nos serve um
revolucionário sem táticas cínicas, sem contradições viscerais e sem
manipulação de almas?
Esperava mais das gémeas mortáguas.
O Divã Disto Tudo III
A imagem da palavra
Os tempos são de eufemismos irónicos; poderíamos usar antes hipérboles
exasperantes, mas temos as consciências mais treinadas para o sarcasmo do que
para a exaustão. Se geralmente o eufemismo expõe uma capacidade para a ambiguidade,
a hipérbole acaba por expor uma inabilidade para a ironia. Ambas são
sinaléticas dos tempos. A hipérbole vai ficar como reserva de valor para os carismáticos
enquanto o eufemismo fica como o recurso dos pobres de carisma.
Mas tem graça que hoje a acusação de eufemismo tem mais uso
do que a acusação de exagero. No fundo, o eufemismo é a hipérbole dos novos
tempos. Tempos de controlo de danos. Saudade dos tempos danosos.
O Divã Disto Tudo II
A imagem do Estado
Poderíamos abordar a realidade pelo lado do ‘isto só visto’
, ou então pelo desabafo do ‘quem te visa teu amigo é’, no entanto parece claro
que o Estado tem alguma dificuldade em vestir a sua pele e precisa sempre duma
mãozinha que começa por ser invisível até estar à vista de todos.
Como muitas vezes no mundo maravilhoso dos negócios a pedra
filosofal está na segmentação, e assim, no âmbito da vistocracia, deveriam ser
criados vários tipos de vistos para cidadãos fora da comunidade por forma a
acelerar a recuperação nacional no sentido da construção do 6º império face à
inoperância do 5º.
Assim, deverão estar previstos vários tipos de vistos que acompanhariam o casamento entre as diversas oportunidades e as necessidades
criadas pela vida contemporânea. A saber:
Visto Silver – destinado a mulheres estrangeiras que
emprenhem pelo menos três vezes com sémen nacional. O filho mais esperto terá
ainda direito a uma bolsa e será, depois de licenciado com os nossos impostos,
exportado para a Alemanha na condição de repatriar 20% do seu salário.
Visto Gold – destinado a estrangeiros que levem de Portugal
pelo menos 3 membros da família BES e que lhes dêem um banco para gerir lá na
terra deles- na condição das offshores serem cá
Visto Platina – destinada a descendentes dos judeus expulsos
de Portugal que comprem um apartamento na Graça. Posteriormente será definida a
Faixa de Graça que será colocada na imprensa internacional como exemplo da
capacidade de Portugal em resolver conflitos internacionais
Visto Rainbow – destinado a paneleiros que casem com
paneleiros portugueses e assim façam cumprir a lei do acasalamento que parece
não apresentar índices de adesão dignos dum país moderno. Por enquanto ainda
terão de ir adoptar os filhos que a Angelina Jolie já não conseguir; a coisa
pode vir a compor-se, mas sem compromisso.
Visto Yellow submarine – destinado a militares russos que
tragam para Portugal os seus equipamentos, como caças, bombardeiros, corvetas
ou submarinos, e os disponibilizem, entregando sem restrições às forças armadas
portuguesas. Só serão considerados equipamentos que venham com o depósito
cheio. No caso de ser um porta-aviões terá de vir também a dispensa abastecida
e duas mudas de cama.
Visto White & Green – destinado a estrangeiros que
comprem em Portugal um clube de Futebol com o compromisso de perder sempre com
o Sporting
Red Visa – Destinado a meninas e senhoras (não
exclusivamente tailandesas) que façam (e publicitem devidamente) o número do ovo-projectado-da crica usando apenas ovos provenientes de poedeiras
nacionais.
O Divã Disto Tudo
a imagem do poder
Hoje, Carlos Amaral Dias, numa entrevista ao Jornal de Negócios, aborda a queda da família Espirito Santo como uma queda de imagem, de poder, como um partir do espelho, como uma ferida narcísica que não tem betadine prometeico que lhe valha.
Hoje, Carlos Amaral Dias, numa entrevista ao Jornal de Negócios, aborda a queda da família Espirito Santo como uma queda de imagem, de poder, como um partir do espelho, como uma ferida narcísica que não tem betadine prometeico que lhe valha.
A teologia moral moderna
geralmente resolve estas questões dando a alguns pecados/vícios uma espécie de
poder aglutinador que acaba por dispensar discursos ( e razões) mais longos.
Abençoadas, assim, a ganância e a inveja que resultam óptimas para podermos
passar à frente.
O chamado cidadão interessado e atento – aquilo, no fundo,
que quase todos gostamos de ser reconhecidos como (apesar de Pires de Lima
preferir o ‘cidadão que faz’) - tem então para escolher, a via psicanalítica ou
a via moral, ou, os mais piquinhas,
ficar ali a meio caminho, entre os sonhos de Sigmund e as Parábolas do Filho de
Deus (o nosso utópico "werde was du bist" )
C.A.Dias (que aprecio e que, de longe, é o único pensador
português que consegue competir com Lobo Antunes no campeonato das entrevistas –
pena Amaral Dias ser demasiado inteligente senão era ele que ganhava o Nobel)
avisa-nos que se não fosse a Branca de Neve ainda hoje a Rainha se sentiria a
mais bonita do Reino. Ou seja, acaba por haver sempre um mito invisível que vem por cobro à indecência e levantar o véu da
ganância, partindo os espelhos e deixando o phallus murcho.
«O poder cura no imaginário» diz CAD depois de ter deixado a
entrevistadora (AMR) alarmada com o seu anterior «Não há nada que mais cure as
pessoas do que o poder». Só que basicamente o poder é uma merda, mas aí já a
psicanálise não se pode aventurar, pois procurando «banir as sombras arcaicas
do irracionalismo e da fé no sobrenatural» (como escreveu G. Steiner na ‘Nostalgia
do Absoluto) tem de fazer stop onde os irracionais e moralistas crentes entram,
de Biblia em riste a cantar: «quando o fizestes a um dos meus pequeninos
irmãos, a mim o fizestes»
A educação cristã do olhar faz-nos focar antes a vida dos
pequeninos. Infelizmente não conseguimos e estamos sempre a controlar o buraco da agulha para ver qual foi o
último rico camelo que passou por lá - e como terá feito ele.
Parvosterona
Sabe-se da literatura, da televisão, da história, e dos jornais, que o
poder corrompe, sabe-se também que o poder afasta da realidade (esta vai-se tornando cada vez mais difícil de suportar), sabe-se igualmente que isola, etc,
etc, bla-bla. Aparentemente todos esses desligamentos (versão mais fina das alienações) podem ser condimentados –
somos periodicamente relembrados disso – de alguma actividade glandular que
torna os detentores do (algum) poder, por assim dizer, excêntricos (a versão
fina de parvos). O que torna o capricho em personalidade, e a incompetência em
distração, também pode, com a ajuda do fantástico mundo da metonímia, fazer
com que a parvoíce se transforme em génio.
Ciclovia
Estando impedidos de criar – com cê grande – resta-nos definir ciclos, algo em que, diga-se, temos
(nós, a humanidade pensante) mostrado uma competência bastante decente.
Claro que o rolo da história trata de os ir amalgamando com
o decorrer do tempo; por exemplo, se hoje, e só depois do 25 de Abril, podemos
encontrar o (i) ciclo pós revolucionário, (ii) o ciclo cavaco, (iii) o ciclo guterres,
(iv) o ciclo sócrates e (v) o ciclo passos- troika (coitado, será que nem
sequer vai ficar com um ciclo só dele?) daqui a uns anitos tudo isto não será
mais do que um ciclo maiorzito (ao qual ainda se juntarão o (vi) período
salazar e (vii) a primeira república – dos detrás – e mais uns quantos que
ainda virão no futuros) que, se calhar, os nossos trinetos chamarão de grande ciclo
bosta ou então ciclo maravilha, consoante a parte do copo para que estejam a
olhar. Certo é que daqui a uns anos Salazar e Cunhal, Afonso Costa e o Cardeal
Cerejeira, Gungunhana e Vasco Santana farão parte do mesmo descritivo da
história, eventualmente até vizinhos no mesmo – e único - parágrafo.
Ora feito o devido e prévio desconto, vários condimentos da actualidade
recente permitem-nos estabelecer que um ciclo(zinho) iniciado em 200? estará
para terminar. Temos exemplos tipo geop’lítica: Obama a dar de frosques, os
russos a fazerem cruzeiros na Natolândia, um terrorismo islâmico com pretensões
de Estado; e temos exemplos tipo realit’show: o Gespatifado, os carapaus de
corrida da PT a passarem a PTinga, metade do país rendido aos encanto$ dos
herdeiros de agostinho neto e outra metade rendida aos encanto$ dos herdeiros de deng xiao
ping; enfim, melhor melhor, só despachar o Estádio da Luz embrulhado por Christo (com
Jesus lá dentro, obviamente) já que não conseguimos enfiar o Braz &
Braz na Alibaba.
Há no entanto coisas que nunca mudam – e assim nos asseguram
estarmos ainda no mesmo programa de computador : o Lobo Antunes continua a dar
entrevistas (a pretexto de livros especializados e destinados a decorar estantes), e os cabeleireiros
continuam a ser paneleiros. É o chamado denominador comum da História.
Então e qual é a melhor maneira de nos prepararmos para um
novo ciclo? Sabermos que em princípio iremos cometer os mesmos (alegados)
erros, só que desta vez serão chamados ‘medidas’. Saber que o preto voltará a
ser branco, mas ‘branco sujo’. Saber que tudo será (felizmente) igual, mas
desta feita (felizmente) ‘diferente’. Saber que de tudo sabemos sem nada saber;
melhor é impossível.
On a billboard
Pela recente biografia de Philip Roth (de Claudia Pierpont)
soube-se que ele flirtou ao de leve («briefly dated», é a expressão usada)
Jackie Kennedy em 1964. Alegadamente terá sido convidado a subir depois de um jantar num restaurante e «when he finally kissed
her, it was like kissing the face on a billboard» (pág. 45). Apesar de tal se
ter passado entre duas pessoas famosas,
e que não apresentarão deficit de variedade de beijos na vida, tenho para anunciar
que todos e quaisquer beijos a uma mulher são, para um homem, beijos em
‘quadros de avisos’. Nenhuma mulher beija sem a intenção - mais ou menos declarada - de mostrar ao homem
qual é o lugar dele, seja ele qual for. Felizes os que percebem os avisos - a tempo.
O Conde Corado
No reino tinha estalado o escândalo. O Conde deixara a noiva
à beira do altar e fugira com uma amante estrangeira de seu nome Eurora. Várias
razões, todas moralmente inválidas, saliente-se, eram invocadas nos mais
diversos foros de coscuvilhice do reino, desde os oficiais (o parlamento do
reino) até aqueles mais informais (o barbeiro de sua majestade, ou a dildograria
das princesas solteiras) passando pelos clandestinos (o bordel da tia
Conspurcácia, onde o Rei se abastecia regularmente de pecados, nos intervalos da
virtude).
A escandaleira passou as etapas definidas pela praxe
estabelecida no Grande Protocolo da Hipocrisia e, passado algum tempo, o Conde
já dava entrevistas, de mão dada com Eurora, dissertando sobre o futuro do
Reino e o seu enquadramento nas mais diversas galáxias, ao ritmo de suaves
acenos de queixo providenciado por uma corte de fiéis semi-defuntos que
aumentava de dia para dia, alimentada de subsídios e indulgências várias.
Mas Eurora era uma mulher ambiciosa e dada a excitações de
vária índole. Cobiçada por muitos, temida por outros tantos, fazia razias de
deboche por entre os mais diversos sultanatos, deixando por geografias várias um
rasto de destruição na reputação no Conde. Este, ocupado com as suas
propriedades e com o destino histórico do Reino, limitava-se a encolher os
ombros, a alargar as costas e a exercitar de quando em vez os quadris sempre
que a mulher o levava a despacho.
Entredentes corriam certezas sobre a sua impotência e
incertezas sobre a sua úlcera. Aparentemente o duodeno não estava a acompanhar
as exigências de um estadista em fase de corno. Ora Eurora também não lhe
queira mal e quando o deixasse haveria de fazê-lo em beleza, dando-lhe a chance
de mostrar a si mesmo o garanhão que galopava nas suas entranhas. Humilhante na
traição mas magnânima no abandono.
Pegou mão das suas melhores lingeris, adornou-se com as suas
melhores hormonas, colocou um avatar de Afrodite em cada curva do seu corpo e
atraiu-o para a grande armadilha do prazer. O conde nem queria acreditar em
tamanha revolução. Afinal tudo não passavam de mal entendidos e mexericos corroídos
pela inveja. Ali estava ela estendida, como uma Mata-Hari de Calcutá, num altar
de luxúria e reconciliação.
Mas eis que o mais temível movimento intravenoso aconteceu:
quando ela se apresentou louca e disponível, frágil e devoradora, o sangue do
Conde baralhou-se no tráfego e, em vez de se apresentar de rompante nos locais
mais desejados pelo desejo, não, espalhou-se, qual delta de Nilo à beira de
Mare Nostrum, pelas generosas bochechas do Conde, que terminaram a noite num
hino ao mais belo entrecôte.
Quando o Rei o viu largou todos os seus afazeres, refazeres e desfazeres, e deu-lhe a medalha do Rosto Ejaculado do Reino.
Quando o Rei o viu largou todos os seus afazeres, refazeres e desfazeres, e deu-lhe a medalha do Rosto Ejaculado do Reino.
[5] Deuteronómio
Haverá algo intermédio entre a bênção e a maldição? Este é o
primeiro dilema do homem depois de ter a suspeita de que existe um Deus que possui
algo que aproximamos a sentimentos, valores e justiça.
O homem foi-se construindo como um mamífero de compromissos.
Desde que descobriu que o mal absoluto é algo que não está ao seu alcance tenta
gerir a existência como um bem menor - andando de coligação em coligação.
Deverá Deus fazer um pacto com os Homens – era a questão que
estava na ordem do dia. Não bastava a Natureza e seria preciso a Lei? No Céu
desconhecia-se o significado da Lei
até o homem ter andado de êxodo em êxodo, de exilio em exilio, de escravidão em
escravidão, de rebelião em rebelião. Ou seja, o homem, antes que Deus pestanejasse,
já O tinha tentado esquecer.
Haverá então algo intermédio entre a bênção e a maldição?
Assim algo como ser viúvo sem nunca ter casado, ser órfão sem nunca ter sido
filho? Ser ladrão sem nunca ter roubado? Ser perdoado sem nunca ter ofendido.
Quando Deus se coligou com o homem terá equacionado
coligar-se antes com outro animal ou nós fomos a 1ª escolha? Felizmente Moisés
não tinha dúvidas quando atravessou o Mar Vermelho, seguiu instruções do seu
parceiro de coligação.
O homem, na sua evolução acompanhada (ou tutelada) descobriu
que não conseguia viver isolado. Tinha (teve, tem, terá) várias companhias à
sua disposição, foi-se organizando como pode, desde a Anarquia ao Estado
absoluto, desde o oportunismo à utopia.
Quando Deus equacionou fazer uma aliança entre Ele e o povo
que andava atrelado ao Moisés, estaria com receio que se perdesse o que já fora
alcançado até à altura? Será que os homens têm mesmo – mesmo - consciência do que já
alcançaram?
Tanta canseira para descobrir sempre que Deus é o nosso
único Aliado. E na religião dos compromissos não há intermédios.
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[4] Números
Mas quantos é que eles já são? perguntou Deus ao Anjo Lineu.
De facto Lineu nunca tinha pensado nisso. Será que teriam de
controlar o ritmo de reprodução ou aquela invenção do Anjo Mendel sobre um tal
de código genético paralelo à inseminação da alma transcendente seria
suficiente para manter a população controlada.
Numa primeira contagem ficou alarmado: já eram muitos
milhares. Será que a produção de almas acompanha isto, perguntou ele
timidamente ao Altíssimo, que pela primeira vez chamou estúpido a um Anjo em
plenas funções.
Mas organizam-se em tribos, acrescentou Lineu já a medo e
suspeitando que estaria mesmo tudo previsto nas entrelinhas do Plano de
Inseminação Transcendente de Almas… e criam relações estranhas entre eles: «amizade»,
«negócio», «sexo», e inclusive já ouvi uma ou outra referência a um tal de
«amor». Será que do habilis para o sapiens deixámos escapar algum pormenor? Não
tarda ainda inventam a civilização e nós nem damos por isso.
Cerca de 80% envolviam-se no processo de reprodução. Desses,
cerca de metade, envolviam-se de corpo e alma no processo, mas a outra metade
envolvia apenas o corpo. Ambos pariam com a mesma eficácia.
A rivalidade é um sentimento comum, cerca de 90% dos homens
consideram – intimamente - que têm um rival, mas no que toca às mulheres há
referências a um processo reprimido de emancipação. Haverá ajustes a fazer no
PITA?
Começam as distinções entre povos escolhidos e povos
deixados ao deus dará. Há referências explícitas a uns tais de «pagãos». Serão
os que no juízo final vão pagar a conta?
Deixamos isto ir andando ao sabor do vento suão ou avançamos
já com o Anjo Charles? Noutro dia lanchei com ele no Beagle e veio-me outra vez
com a ideia de introduzirmos a tal de «seleção natural» no Programa.
Estou indeciso entre isso e aquela coisa da «luta de classes»
de que fala o Anjo Karl. Mas para já deixamos isto ao Deus dará e pomos o Anjo Malthus
a fazer as contas.
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[3] Levítico
A vida de primata esclarecido não se apresentava fácil. O
grupo de prepúcio free evidenciava comportamentos que não seriam expectáveis
depois de tantas provas da presença de Deus. «Ah e que tal dar-lhes umas
quantas regras para cumprir», avançou o Anjo Taxonomista.
Não faltará muito para aparecer alguém a dizer com ar de
sábio que o homem é o lobo do homem, para já haveria que esgotar as
possibilidades de serem todos cordeiros.
Aparentemente a alma transcendente trouxera uma revolução ao
corpo mas estava a chegar com mais dificuldade aos apêndices. O diabo está nas
extremidades, avançava Lineu.
A espessura da fronteira entre a tolerância e a
promiscuidade é uma bênção para os contrabandistas de costumes e o Altíssimo
temia que a seguir à criação de qualquer moral aparecessem rapidamente as contrafacções
a ocupar uma franja importante de volátil mercado da moralidade.
Mas é impossível resistir ao impulso legislador e um
descendente de macacos com uma arca da aliança ao lombo tem mesmo é de se
dedicar à obediência. A profissão mais antiga do mundo é desobedecer ao
Criador.
A relação entre o homem e a mulher é do foro político. A
sexualidade é apenas uma componente dos acordos de incidência parlamentar: no
meio da luta há que estabelecer um mínimo de relaxamento.
A relação entre o prazer e a reprodução é pendular e da
mesma natureza que a relação entre o acessório e o essencial. Como estes
conceitos estão sempre em movimento estamos impossibilitados de os fixar de
forma permanente.
A amizade é um conceito indefinível, nem sequer é circunstancial.
Todavia pode abordar-se por defeito: Homem que não fornique com amiga é de homem
de desconfiar. Homem que fornique com amiga tem de pagar um preço. A confiança
é o bem de mais alto preço
O ciúme é um bem escasso e raramente se encontra em estado
puro. Cobiça, inveja, ressabiamento, despeito e desilusão estão sempre à
espreita para atacar. A pureza, tal como no diamante, está no sofrimento, na
dureza.
Quando a liberdade foi pensada por Deus os homens eram todos
lobos. Já com o Processo de Inseminação Transcendental de Almas em pleno
funcionamento começaram a aparecer os cordeiros. Não há seleção natural que
resista a isto. Apenas Deus pôde garantir que nos aguentássemos.
A mulher é o lobo do homem. Ataca na lua nova.
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[2] Êxodo
Já estávamos bem dentro do segundo milénio antes da vinda do
Redentor, (para fazer um stress test de campo ao funcionamento do Plano de
Inseminação Transcendente de Almas) quando, para as bandas das margens do Nilo,
um povo, que estava a servir de amostra numa análise de comportamento levada a
cabo por uma comissão de acompanhamento nomeada pelo Anjo Lineu, decidiu armar
barafunda.
Em princípio, estava previsto no PITA que, a dada altura, se
teria de perceber se o homem tinha capacidade ou não de pôr de lado as evidências
e entregar-se – de corpo e alma - àquilo que se chamava ‘Vontade de Deus’. Ou seja,
teria a inseminação da alma transcendente colocado o corpo em sentido, ou os resíduos
de homo habilis que residiam no sapiens ainda tinham muito peso? Era o homo
sapiens ainda um mamífero com uma alma em ovulação, ou estávamos já a falar de potenciais
filhos de Deus com algumas reservas de vida selvagem?
A capacidade (tendência) humana de unir esforços seria
superior à pulsão de isolamento. Confiar seria mais natural que desconfiar.
Resistir seria mais comum que atacar. Mas não havia dúvida que isto de meter ‘uma
alma de PITA’ num corpo nunca havia sido testado e eram imprevisíveis as
relações que se estabeleceriam nestes novos mamíferos transcendentados (com uma
dentada de transcendência) , seja entre eles, seja com os outros animais,
fossem estes gatos amestrados, melgas sedentas de plasma, ou serpentes de estômago
elástico e contrato assinado com o discovery channel.
Gostariam os homens do jugo protetor de outros homens, prefeririam
eles a incerteza da liberdade individual, ou tenderiam apenas para olhar sempre
para ver o que estava a fazer o vizinho do lado? Nem uma temporada a banhos no
Nilo deu para perceber. Talvez os ares do mediterrâneo fossem melhores que os
do mar vermelho.
O aparente Dilema de Deus não era de menor envergadura:
mostro-Me mais ou jogo às escondidas? Jogamos às tabuinhas da Lei ou enfio-lhes com meia dúzia de profecias arrasadoras no bucho?
O anjo Lineu ainda desabafou ao Altíssimo: só sei que cada praga
está a custar-nos para cima de um dinheirão, sinto que estamos a empurrar o Juízo
Final com a barriga. «Não te dei asas para teres sentimentos», foi a Divina resposta.
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[1] Genesis
Vai para coisa de 100 mil anos que o Criador, já sem
paciência para a evolução das espécies, entendeu reunir de urgência com o Anjo
Taxonomista (São Lineu de Toba) para decidirem semi-democraticamente se estava
ou não na altura de avançar para o já planeado Processo de Inseminação Transcendente
de Almas (PITA) com/em alguma das espécies existente.
Aparentemente os dinossauros tinham falhado redondamente nas
componentes emocionais, o chimpazé não se revelara especialmente motivado fora
do que o seu rabo pelado alcançasse, os australopitecos apresentaram-se incompetentes
para arte em geral e o desenho em perspetiva em particular, o neanderdal fora uma desilusão a trabalhar com
o polegar, mas o homo sapiens, mesmo não podendo ver um rabo de saias, parecia
cumprir os mínimos.
São Lineu insistia em esperarem mais um pouco para ver se a
seleção natural produzia algum milagre, mas Deus Nosso Senhor estava ansioso e
com mais que fazer; com o tempo haveria de se ir compondo o que agora resultasse
de alguma precipitação, tanto mais que a «cartada da Redenção ainda estava por
jogar» ruminava-lhe o Espirito Santo (Íntima Pessoa de infinita paciência mas
com combustão de curto pavio)
Foi escolhido rapidamente um exemplar que se dedicava a
descascar pistachios ali para o lado da Suméria e que rapidamente – potenciado por
uma alma de encomenda e ainda fresquinha - se começou a destacar dos primos face a uma sensibilidade nunca
vista para as manifestações mais parvas da natureza, desde o pôr-do-sol ao
orvalho matinal, passando pela maçã reineta e as gajas.
Já não havia hipótese de voltar atrás, Lucifer e a sua Corte
estavam à espreita de deslizes com olhar maroto, e agora era tentar ir
aperfeiçoando a coisa, mais dilúvio menos dilúvio, mais sodoma menos sodoma,
mais Lenine menos Lenine.
A maior parte das vicissitudes – nome técnico usado no Paraíso
para merdas - da nova espécie estavam
mais ou menos previstas no Manual da PITA, e São Lineu foi acompanhando a
operação com zelo e pragmatismo. Assim, quando Abraão aparece no cimo do monte
pronto a dar uma arrochada no puto o Altíssimo intervém célere e manda-o seguir
com a marinha, um dia no olival e outro na vinha (versão agrária de um dia com
a noiva outro com a vizinha - porque isto das tribos é bonito mas dá muito
trabalho)
Já se sabia que a Inseminação Transcendente de Almas era um
processo que apresentava uma vertente mimética bastante acentuada e assim o homem
haveria de evoluir para uma, digamos, condição
política (como se sabe hoje, no Céu, onde a ciência e a arte são
desnecessárias, tudo é politica).
Uma coisa era certa desde o início, Deus Nosso Senhor teria
de cá vir porque não se fazem coligações sem ovos. Mas primeiro há que dar
lugar aos profetas porque «se já se gastou o dinheiro com eles temos que lhes
dar alguma coisa para fazer» avisou Lineu, que era bom Anjo mas sofria de espandilose
e era alérgico a pistachio.
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Boletim Cínico
O novo dicionário não ilustrado volta após largos meses de
ausência para celebrar o nosso primeiro ponto no mundial que, de todo o modo,
me parece ferido de inconstitucionalidade; vejamos como, através do nosso onze ideal:
O Ligamento cruzado – Tipo de ligamento que se insere entre
a inconstitucionalidade e o mau feitio e que geralmente só descruza quando
rompe, mesmo sem acordão.
O Adutor – músculo bastante usado nas exportações e que
quando entra em deficit nos faz olhar mais para o lado interior da economia
coxa.
O Tendão de Aquiles – Parte mais exposta de qualquer regime politico
que sofre bastante com a famosa legitimidade mas que vive protegido por uma
espécie de caneleira chamada legalidade.
Os Gémeos – músculos especialmente dedicados à astrologia e
que só encontram sossego quando o Emprego estiver em Marte e o Crescimento em
Vénus.
O Menisco – Protecções fornecidas pelos mercados para que as
eventuais inconstitucionalidades possam ser torneadas sem ter de ajoelhar
perante o povo
O Estiramento da coxa – esforço na base, ou tecido, produtivo que, ao insistir
na produtividade, acaba agarrado à sobrevivência
A Pubalgia – tipo de inflamação informativa que transforma
uma campanha de imagem numa má manobra publicitária
A Contratura – tipo de pancada que faz uma exceção tornar-se
num contraciclo
A Rotura – tipo de movimento recessivo que faz uma anemia
virar espiral sem passar por bolha.
A Tendinite – tipo de repetição que transforma um
acontecimento isolado numa tendência
A Mialgia na região posterior direita – Falhanço na política de
regionalização e consequente viragem à esquerda
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dicionário não ilustrado
Iasnaia Poliana
Ela não precisa sequer que eu a ame, ela apenas precisa de
uma coisa: que as outras pessoas pensem que eu a amo.
Mar de azov #8
Calma, porque como dizia o bom do já citado WSC, os
americanos acabam sempre por escolher a solução correcta depois de ter esgotado
todas as outras.
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