[3] Levítico


A vida de primata esclarecido não se apresentava fácil. O grupo de prepúcio free evidenciava comportamentos que não seriam expectáveis depois de tantas provas da presença de Deus. «Ah e que tal dar-lhes umas quantas regras para cumprir», avançou o Anjo Taxonomista.

Não faltará muito para aparecer alguém a dizer com ar de sábio que o homem é o lobo do homem, para já haveria que esgotar as possibilidades de serem todos cordeiros.

Aparentemente a alma transcendente trouxera uma revolução ao corpo mas estava a chegar com mais dificuldade aos apêndices. O diabo está nas extremidades, avançava Lineu.

A espessura da fronteira entre a tolerância e a promiscuidade é uma bênção para os contrabandistas de costumes e o Altíssimo temia que a seguir à criação de qualquer moral aparecessem rapidamente as contrafacções a ocupar uma franja importante de volátil mercado da moralidade.  

Mas é impossível resistir ao impulso legislador e um descendente de macacos com uma arca da aliança ao lombo tem mesmo é de se dedicar à obediência. A profissão mais antiga do mundo é desobedecer ao Criador.

A relação entre o homem e a mulher é do foro político. A sexualidade é apenas uma componente dos acordos de incidência parlamentar: no meio da luta há que estabelecer um mínimo de relaxamento.

A relação entre o prazer e a reprodução é pendular e da mesma natureza que a relação entre o acessório e o essencial. Como estes conceitos estão sempre em movimento estamos impossibilitados de os fixar de forma permanente.

A amizade é um conceito indefinível, nem sequer é circunstancial. Todavia pode abordar-se por defeito: Homem que não fornique com amiga é de homem de desconfiar. Homem que fornique com amiga tem de pagar um preço. A confiança é o bem de mais alto preço

O ciúme é um bem escasso e raramente se encontra em estado puro. Cobiça, inveja, ressabiamento, despeito e desilusão estão sempre à espreita para atacar. A pureza, tal como no diamante, está no sofrimento, na dureza.

Quando a liberdade foi pensada por Deus os homens eram todos lobos. Já com o Processo de Inseminação Transcendental de Almas em pleno funcionamento começaram a aparecer os cordeiros. Não há seleção natural que resista a isto. Apenas Deus pôde garantir que nos aguentássemos.

A mulher é o lobo do homem. Ataca na lua nova.

[2] Êxodo

Já estávamos bem dentro do segundo milénio antes da vinda do Redentor, (para fazer um stress test de campo ao funcionamento do Plano de Inseminação Transcendente de Almas) quando, para as bandas das margens do Nilo, um povo, que estava a servir de amostra numa análise de comportamento levada a cabo por uma comissão de acompanhamento nomeada pelo Anjo Lineu, decidiu armar barafunda.

Em princípio, estava previsto no PITA que, a dada altura, se teria de perceber se o homem tinha capacidade ou não de pôr de lado as evidências e entregar-se – de corpo e alma - àquilo que se chamava ‘Vontade de Deus’. Ou seja, teria a inseminação da alma transcendente colocado o corpo em sentido, ou os resíduos de homo habilis que residiam no sapiens ainda tinham muito peso? Era o homo sapiens ainda um mamífero com uma alma em ovulação, ou estávamos já a falar de potenciais filhos de Deus com algumas reservas de vida selvagem?

A capacidade (tendência) humana de unir esforços seria superior à pulsão de isolamento. Confiar seria mais natural que desconfiar. Resistir seria mais comum que atacar. Mas não havia dúvida que isto de meter ‘uma alma de PITA’ num corpo nunca havia sido testado e eram imprevisíveis as relações que se estabeleceriam nestes novos mamíferos transcendentados (com uma dentada de transcendência) , seja entre eles, seja com os outros animais, fossem estes gatos amestrados, melgas sedentas de plasma, ou serpentes de estômago elástico e contrato assinado com o discovery channel.

Gostariam os homens do jugo protetor de outros homens, prefeririam eles a incerteza da liberdade individual, ou tenderiam apenas para olhar sempre para ver o que estava a fazer o vizinho do lado? Nem uma temporada a banhos no Nilo deu para perceber. Talvez os ares do mediterrâneo fossem melhores que os do mar vermelho.

O aparente Dilema de Deus não era de menor envergadura: mostro-Me mais ou jogo às escondidas? Jogamos às tabuinhas da Lei ou enfio-lhes com meia dúzia de profecias arrasadoras no bucho?

O anjo Lineu ainda desabafou ao Altíssimo: só sei que cada praga está a custar-nos para cima de um dinheirão, sinto que estamos a empurrar o Juízo Final com a barriga. «Não te dei asas para teres sentimentos», foi a Divina resposta.

[1] Genesis

Vai para coisa de 100 mil anos que o Criador, já sem paciência para a evolução das espécies, entendeu reunir de urgência com o Anjo Taxonomista (São Lineu de Toba) para decidirem semi-democraticamente se estava ou não na altura de avançar para o já planeado Processo de Inseminação Transcendente de Almas (PITA) com/em alguma das espécies existente.

Aparentemente os dinossauros tinham falhado redondamente nas componentes emocionais, o chimpazé não se revelara especialmente motivado fora do que o seu rabo pelado alcançasse, os australopitecos apresentaram-se incompetentes para arte em geral e o desenho em perspetiva em particular, o neanderdal fora uma desilusão a trabalhar com o polegar, mas o homo sapiens, mesmo não podendo ver um rabo de saias, parecia cumprir os mínimos.

São Lineu insistia em esperarem mais um pouco para ver se a seleção natural produzia algum milagre, mas Deus Nosso Senhor estava ansioso e com mais que fazer; com o tempo haveria de se ir compondo o que agora resultasse de alguma precipitação, tanto mais que a «cartada da Redenção ainda estava por jogar» ruminava-lhe o Espirito Santo (Íntima Pessoa de infinita paciência mas com combustão de curto pavio)

Foi escolhido rapidamente um exemplar que se dedicava a descascar pistachios ali para o lado da Suméria e que rapidamente – potenciado por uma alma de encomenda e ainda fresquinha - se começou a destacar dos primos face a uma sensibilidade nunca vista para as manifestações mais parvas da natureza, desde o pôr-do-sol ao orvalho matinal, passando pela maçã reineta e as gajas.

Já não havia hipótese de voltar atrás, Lucifer e a sua Corte estavam à espreita de deslizes com olhar maroto, e agora era tentar ir aperfeiçoando a coisa, mais dilúvio menos dilúvio, mais sodoma menos sodoma, mais Lenine menos Lenine.

A maior parte das vicissitudes – nome técnico usado no Paraíso para merdas - da nova espécie estavam mais ou menos previstas no Manual da PITA, e São Lineu foi acompanhando a operação com zelo e pragmatismo. Assim, quando Abraão aparece no cimo do monte pronto a dar uma arrochada no puto o Altíssimo intervém célere e manda-o seguir com a marinha, um dia no olival e outro na vinha (versão agrária de um dia com a noiva outro com a vizinha - porque isto das tribos é bonito mas dá muito trabalho)

Já se sabia que a Inseminação Transcendente de Almas era um processo que apresentava uma vertente mimética bastante acentuada e assim o homem haveria de evoluir para uma, digamos, condição política (como se sabe hoje, no Céu, onde a ciência e a arte são desnecessárias, tudo é politica).

Uma coisa era certa desde o início, Deus Nosso Senhor teria de cá vir porque não se fazem coligações sem ovos. Mas primeiro há que dar lugar aos profetas porque «se já se gastou o dinheiro com eles temos que lhes dar alguma coisa para fazer» avisou Lineu, que era bom Anjo mas sofria de espandilose e era alérgico a pistachio.

Boletim Cínico


O novo dicionário não ilustrado volta após largos meses de ausência para celebrar o nosso primeiro ponto no mundial que, de todo o modo, me parece ferido de inconstitucionalidade; vejamos como, através do nosso onze ideal:

O Ligamento cruzado – Tipo de ligamento que se insere entre a inconstitucionalidade e o mau feitio e que geralmente só descruza quando rompe, mesmo sem acordão.

O Adutor – músculo bastante usado nas exportações e que quando entra em deficit nos faz olhar mais para o lado interior da economia coxa.

O Tendão de Aquiles – Parte mais exposta de qualquer regime politico que sofre bastante com a famosa legitimidade mas que vive protegido por uma espécie de caneleira chamada legalidade.

Os Gémeos – músculos especialmente dedicados à astrologia e que só encontram sossego quando o Emprego estiver em Marte e o Crescimento em Vénus.

O Menisco – Protecções fornecidas pelos mercados para que as eventuais inconstitucionalidades possam ser torneadas sem ter de ajoelhar perante o povo

O Estiramento da coxa – esforço na base, ou tecido, produtivo que, ao insistir na produtividade, acaba agarrado à sobrevivência

A Pubalgia – tipo de inflamação informativa que transforma uma campanha de imagem numa má manobra publicitária
A Contratura – tipo de pancada que faz uma exceção tornar-se num contraciclo

A Rotura – tipo de movimento recessivo que faz uma anemia virar espiral sem passar por bolha.

A Tendinite – tipo de repetição que transforma um acontecimento isolado numa tendência

A Mialgia na região posterior direita  – Falhanço na política de regionalização e consequente viragem à esquerda

Iasnaia Poliana


Ela não precisa sequer que eu a ame, ela apenas precisa de uma coisa: que as outras pessoas pensem que eu a amo.

Mar de azov #10

Vladimir I agora só tem que se preocupar em não apanhar nenhuma pneumonia, como este

Nicolau I

Mar de azov #8


Calma, porque como dizia o bom do já citado WSC, os americanos acabam sempre por escolher a solução correcta depois de ter esgotado todas as outras.

Mar de azov #7


Em Viena, por volta de 1915, corria uma anedota que dizia: apareceu Franz Ferdinand vivo, afinal a guerra foi um erro.

Mar de Azov #6

Para cada sanção haverá uma dalila.

Mar de Azov #5


Quando Catarina a Grande limpou (ou Orlov limpou por ela) o sebo ao marido, fez informar à Europa que ele tinha morrido de hemorroidas. Vinte anos depois, o seu querido Potemkine, de rabinho são, entregava-lhe a Crimeia embrulhada em papel de fantasia.

Mar de Azov #4

"... is a riddle wrapped in a mystery inside an enigma" WSC

Mar de Azov #3

O lado mais sexy da Crimea crisis é ouvir a Amanpour a pronunciar fait accompli.
'What kind of a guy is he" quando se referia a Sergei Lavrov fica logo a seguir.

Mar de Azov #2 - Classificados


Procura-se russo sóbrio e de boa aparência para fazer de franz ferdinand. Bigodes opcionais. Assunto sério.

Mar de Azov #1


Todas as gerações têm direito à sua crise dos mísseis. Poderemos até dizer que a Crimeia é uma promoção face a Cuba. Onde Nicolau sonhou ir passar a sua reforma mais a sua Xaninha depois de abdicar, não fora outro Vladimir, o Ulianov, ter decidido não correr riscos. A partir de agora quem quiser ir a banhos a Yalta e for mascarado de Kerensky na melhor das hipóteses pode acabar a dar conferências na Califórnia.

Freudalismo Mágico #1


As mulheres só dizem a verdade quando estão histéricas

Lou Rita Andreas-Salomé Ferro

Grocery


O regime procura desesperadamente uma nova amália. Depois do falhanço com rosa mota e do eclipse rápido de vanessa fernandes, - esgotando assim o filão da corrida de fundo - nunca tendo chegado a sedimentar a iconografia oxigenada de marisa, assumiu o nosso orfanato musical e virou-se para as artes plásticas. Tenta agora segurar o efeito joana vasconcelos. Tem aparentemente tudo para virar popular, e passar sem envergonhar especialmente as elites, portanto não se pode perder a ocasião de testar o boneco. Queimamos ícones com o mesmo ritmo que se queimam putativos presidentes do bes ou pontas de lança no sporting, mas a vida é mesmo assim, sem se abrir o melão nunca se vai saber se é doce ou não. É muito ingrata a profissão de merceeiros da democracia.

chuva em janeiro amor em fevereiro


An Old Tibetan Carpet

Your soul that's sewn in love and mine
Threads in Carpet-Tibet-Land entwine.
Colours in love, ray within ray,

Stars courting each other across the sky.

Our feet rest on such weaving rare

Thousands-on-thousands-of stitches-far.

On musk-plant-throne, sweet Lama's son,

How long do my lips kiss your lips

And cheek to cheek as brightly-buttoned seasons run?


Else Lasker-Schüler  vivia já na indigência após divórcios sucessivos arrastando o seu filho, quando Franz Marc e Karl Krauss organizaram em Munique um leilão com pinturas oferecidas pelas nata expressionista da época (estamos em fevereiro de 1913), EL Kirchner, E Nolde, K Schimidt-Rottluff, O Kokoschka, P Klee, A. Macke, A Jawlensky, Kandinsky, etc. Ninguém comprou nada. Os artistas, para evitar o embaraço, e sem tempo para solicitar os serviços da Christie’s, licitaram as obras uns dos outros e reuniram à volta de 1.600 marcos para a rapariga. Hoje valeriam 50 mirós, 100 vá.
 

Os Escuteiros Mirós


Huguinho, Zézinho e Luisinho tinham como missão ajudar países em dificuldades a atravessar as troikas. Um dia viram Portugal a tentar passar pelo euro fora da passadeira e decidiram emprestar-lhe uma bengala feita de tsu’s entrelaçados em ratings. Mas nada feito, iria ser atropelado. Já no chão, apiedaram-se do pobre país e decidiram ajudá-lo fazendo uns trabalhos manuais no intervalo da catequese para que os missionários da austeridade os levassem e vendessem nos países dos ricos. Huguinho fez uma nossa senhora de Fátima em cortiça encastrada num mini altar de latas de sardinha, Zezinho fez um cristiano Ronaldo com restos de bolachas maria que sobejaram do banco alimentar, amassadas em molho coalhado de bitoque, e Luisinho pintou umas naturezas mortas com peras rocha vestidas de minhota. Teria sido um sucesso não fora uma providência cautelar de mme canavilhas dizendo com a arte não se brinca.

Clownfunding


Depois do sucesso da operação de crowdfunding que se mostrou ser o nosso irs para a fazenda nacional, e face aos últimos desenvolvimentos da realidade, também chamados de actualidade, penso que se abriu o caminho para criar uma nova forma de financiamento ligada à palhaçada produzida constantemente pela bolha das notícias. Descoberta a nossa vocação científica mais recente, a panteaologia, cada português deve agora dedicar uma parte do seu tempo e talento a discernir quais os féretros que merecem ou não arrendamento vitalício em local de pompa & destaque. Depois de dada esta contribuição para o bem-estar da nação consigo própria (todos podemos ser alain’s botton da pátria), devemos concentrar a nossa wisdom of the crowds no discernimento de todas as possibilidades (versão moderna de direitos) ainda não totalmente ao dispor da paneleiragem, para que estes se sintam benzinho, confortáveis e inclusivamente sem necessidade de planos cautelares. Sendo certo que esta será uma batalha sem fim, pois haverá sempre um paneleiro que se sentirá marginalizado por não estar a ser sodomizado em condições pelos do seu género, julgo que para intercalar poderemos dedicar-nos a decidir quais os meios de transporte que um chefe de estado poderá usar com dignidade para uma escapadela da primeira dama e, se é certo que a lambreta está completamente afastada, apanhar a carreira 28 ou o cacilheiro ainda parecem opções perfeitamente referendáveis. E como não há palhaçada que sobreviva sem drama, a realidade encarregou-se de o ir desencantar nas praxes das ondas do mar. Mas nada disto faria sentido se Rebelo de Sousa não nos brindasse ainda com mais uma pirueta, tendo inclusivamente prometido que se tiver amantes as leva todas as tardes aos pastéis de belém e de mão dada. O povo então que decida: ou quer uns gatafunhos do miró na mão ou dois paneleiros a voar. Valha-nos Sãoramago, agora entre os anjos a amaldiçoar as forças do mercado.