Boletim Cínico


O novo dicionário não ilustrado volta após largos meses de ausência para celebrar o nosso primeiro ponto no mundial que, de todo o modo, me parece ferido de inconstitucionalidade; vejamos como, através do nosso onze ideal:

O Ligamento cruzado – Tipo de ligamento que se insere entre a inconstitucionalidade e o mau feitio e que geralmente só descruza quando rompe, mesmo sem acordão.

O Adutor – músculo bastante usado nas exportações e que quando entra em deficit nos faz olhar mais para o lado interior da economia coxa.

O Tendão de Aquiles – Parte mais exposta de qualquer regime politico que sofre bastante com a famosa legitimidade mas que vive protegido por uma espécie de caneleira chamada legalidade.

Os Gémeos – músculos especialmente dedicados à astrologia e que só encontram sossego quando o Emprego estiver em Marte e o Crescimento em Vénus.

O Menisco – Protecções fornecidas pelos mercados para que as eventuais inconstitucionalidades possam ser torneadas sem ter de ajoelhar perante o povo

O Estiramento da coxa – esforço na base, ou tecido, produtivo que, ao insistir na produtividade, acaba agarrado à sobrevivência

A Pubalgia – tipo de inflamação informativa que transforma uma campanha de imagem numa má manobra publicitária
A Contratura – tipo de pancada que faz uma exceção tornar-se num contraciclo

A Rotura – tipo de movimento recessivo que faz uma anemia virar espiral sem passar por bolha.

A Tendinite – tipo de repetição que transforma um acontecimento isolado numa tendência

A Mialgia na região posterior direita  – Falhanço na política de regionalização e consequente viragem à esquerda

Iasnaia Poliana


Ela não precisa sequer que eu a ame, ela apenas precisa de uma coisa: que as outras pessoas pensem que eu a amo.

Mar de azov #10

Vladimir I agora só tem que se preocupar em não apanhar nenhuma pneumonia, como este

Nicolau I

Mar de azov #8


Calma, porque como dizia o bom do já citado WSC, os americanos acabam sempre por escolher a solução correcta depois de ter esgotado todas as outras.

Mar de azov #7


Em Viena, por volta de 1915, corria uma anedota que dizia: apareceu Franz Ferdinand vivo, afinal a guerra foi um erro.

Mar de Azov #6

Para cada sanção haverá uma dalila.

Mar de Azov #5


Quando Catarina a Grande limpou (ou Orlov limpou por ela) o sebo ao marido, fez informar à Europa que ele tinha morrido de hemorroidas. Vinte anos depois, o seu querido Potemkine, de rabinho são, entregava-lhe a Crimeia embrulhada em papel de fantasia.

Mar de Azov #4

"... is a riddle wrapped in a mystery inside an enigma" WSC

Mar de Azov #3

O lado mais sexy da Crimea crisis é ouvir a Amanpour a pronunciar fait accompli.
'What kind of a guy is he" quando se referia a Sergei Lavrov fica logo a seguir.

Mar de Azov #2 - Classificados


Procura-se russo sóbrio e de boa aparência para fazer de franz ferdinand. Bigodes opcionais. Assunto sério.

Mar de Azov #1


Todas as gerações têm direito à sua crise dos mísseis. Poderemos até dizer que a Crimeia é uma promoção face a Cuba. Onde Nicolau sonhou ir passar a sua reforma mais a sua Xaninha depois de abdicar, não fora outro Vladimir, o Ulianov, ter decidido não correr riscos. A partir de agora quem quiser ir a banhos a Yalta e for mascarado de Kerensky na melhor das hipóteses pode acabar a dar conferências na Califórnia.

Freudalismo Mágico #1


As mulheres só dizem a verdade quando estão histéricas

Lou Rita Andreas-Salomé Ferro

Grocery


O regime procura desesperadamente uma nova amália. Depois do falhanço com rosa mota e do eclipse rápido de vanessa fernandes, - esgotando assim o filão da corrida de fundo - nunca tendo chegado a sedimentar a iconografia oxigenada de marisa, assumiu o nosso orfanato musical e virou-se para as artes plásticas. Tenta agora segurar o efeito joana vasconcelos. Tem aparentemente tudo para virar popular, e passar sem envergonhar especialmente as elites, portanto não se pode perder a ocasião de testar o boneco. Queimamos ícones com o mesmo ritmo que se queimam putativos presidentes do bes ou pontas de lança no sporting, mas a vida é mesmo assim, sem se abrir o melão nunca se vai saber se é doce ou não. É muito ingrata a profissão de merceeiros da democracia.

chuva em janeiro amor em fevereiro


An Old Tibetan Carpet

Your soul that's sewn in love and mine
Threads in Carpet-Tibet-Land entwine.
Colours in love, ray within ray,

Stars courting each other across the sky.

Our feet rest on such weaving rare

Thousands-on-thousands-of stitches-far.

On musk-plant-throne, sweet Lama's son,

How long do my lips kiss your lips

And cheek to cheek as brightly-buttoned seasons run?


Else Lasker-Schüler  vivia já na indigência após divórcios sucessivos arrastando o seu filho, quando Franz Marc e Karl Krauss organizaram em Munique um leilão com pinturas oferecidas pelas nata expressionista da época (estamos em fevereiro de 1913), EL Kirchner, E Nolde, K Schimidt-Rottluff, O Kokoschka, P Klee, A. Macke, A Jawlensky, Kandinsky, etc. Ninguém comprou nada. Os artistas, para evitar o embaraço, e sem tempo para solicitar os serviços da Christie’s, licitaram as obras uns dos outros e reuniram à volta de 1.600 marcos para a rapariga. Hoje valeriam 50 mirós, 100 vá.
 

Os Escuteiros Mirós


Huguinho, Zézinho e Luisinho tinham como missão ajudar países em dificuldades a atravessar as troikas. Um dia viram Portugal a tentar passar pelo euro fora da passadeira e decidiram emprestar-lhe uma bengala feita de tsu’s entrelaçados em ratings. Mas nada feito, iria ser atropelado. Já no chão, apiedaram-se do pobre país e decidiram ajudá-lo fazendo uns trabalhos manuais no intervalo da catequese para que os missionários da austeridade os levassem e vendessem nos países dos ricos. Huguinho fez uma nossa senhora de Fátima em cortiça encastrada num mini altar de latas de sardinha, Zezinho fez um cristiano Ronaldo com restos de bolachas maria que sobejaram do banco alimentar, amassadas em molho coalhado de bitoque, e Luisinho pintou umas naturezas mortas com peras rocha vestidas de minhota. Teria sido um sucesso não fora uma providência cautelar de mme canavilhas dizendo com a arte não se brinca.

Clownfunding


Depois do sucesso da operação de crowdfunding que se mostrou ser o nosso irs para a fazenda nacional, e face aos últimos desenvolvimentos da realidade, também chamados de actualidade, penso que se abriu o caminho para criar uma nova forma de financiamento ligada à palhaçada produzida constantemente pela bolha das notícias. Descoberta a nossa vocação científica mais recente, a panteaologia, cada português deve agora dedicar uma parte do seu tempo e talento a discernir quais os féretros que merecem ou não arrendamento vitalício em local de pompa & destaque. Depois de dada esta contribuição para o bem-estar da nação consigo própria (todos podemos ser alain’s botton da pátria), devemos concentrar a nossa wisdom of the crowds no discernimento de todas as possibilidades (versão moderna de direitos) ainda não totalmente ao dispor da paneleiragem, para que estes se sintam benzinho, confortáveis e inclusivamente sem necessidade de planos cautelares. Sendo certo que esta será uma batalha sem fim, pois haverá sempre um paneleiro que se sentirá marginalizado por não estar a ser sodomizado em condições pelos do seu género, julgo que para intercalar poderemos dedicar-nos a decidir quais os meios de transporte que um chefe de estado poderá usar com dignidade para uma escapadela da primeira dama e, se é certo que a lambreta está completamente afastada, apanhar a carreira 28 ou o cacilheiro ainda parecem opções perfeitamente referendáveis. E como não há palhaçada que sobreviva sem drama, a realidade encarregou-se de o ir desencantar nas praxes das ondas do mar. Mas nada disto faria sentido se Rebelo de Sousa não nos brindasse ainda com mais uma pirueta, tendo inclusivamente prometido que se tiver amantes as leva todas as tardes aos pastéis de belém e de mão dada. O povo então que decida: ou quer uns gatafunhos do miró na mão ou dois paneleiros a voar. Valha-nos Sãoramago, agora entre os anjos a amaldiçoar as forças do mercado.

Murmurando entendimento V – os princípios de Dona Confiança


A Família Confiança era uma família muito pura. Mesmo daquela pureza que já não se fabrica e só se encontra ou em alfarrabistas de p’reza ou em boutiques de produtos tradicionais. Está inclusivamente em fase de lançamento uma cadeia de lojas: ‘Confiança Portuguesa’. Não vai vender galos de barcelos, nem latas de sardinha, nem pães de deus, nem mesmo rendas da madeiras, mas antes uns pacotes com um sortido de confiança composto por: 1 Constituição encadernada em lombada francesa, um cartão da adse, um cartão de eleitor, um cartão de descontos do pingo doce, e uma ficha de inscrição no acp.

Mas voltemos à família Confiança, mais especificamente à menina Confiança. Nasceu ali à rua do Arsenal, entre duas lojas de bacalhau, bem pertinho donde enfiaram uns tiros no bom do dom Carlos e seu primogénito amado, e bem cedo se revelou uma moça que nunca quebrava as expectativas de ninguém.

O seu primeiro namorado, César Camacho, a primeira vez que lhe tentou dar um beijo levou com uma chave de fendas no olho esquerdo e ainda hoje vende as melhores castanhas assadas do País à porta do cemitério da Ajuda. Luís Gonçalves, o segundo, ainda ia com a sua mão direita a pouco mais de 3 cm acima do joelho de Confiança quando esta lhe enfia com uma faca de barrar manteiga pelo ouvido esquerdo, deixando-o numa espécie de permanente otite com pernas. Já tendo cristalizado a sua imagem de amante cruel, permitiu a primeira cópula digna desse nome a Gustavo Meirim, não deixando de posteriormente o humilhar publicamente revelando detalhes não dignificantes e ainda menos glorificantes, como sejam, um testículo ligeiramente pontiagudo que incomodamente a distraia no momento de gratificação. Gustava apenas conseguiu ter uma nova erecção já com 73 anos depois de uma dose de viagra intravenoso que lhe foi administrado a troco de um comodato de duas propriedades rústicas no sobral de monte agraço.

Menina Confiança, entretanto Dona Confiança, tinha assim bem sedimentada a fama de que quem lhe tocasse nunca mais se esqueceria. Sou uma mulher de princípios, dizia de forma quase solene, o meu corpo é como se fosse um artigo constitucional.

É evidente que este comportamento de Confiança (Fia, para os amigos que, obviamente, não tinha) tanto afastava clientela como atraia outra mais afoita. Foi assim que um belo dia, dois amigos, Pedro e Paulo, decidiram fazer uma aposta: qual deles a conseguiria conquistar sem que levasse mazelas significativas para casa.

Primeiro foi lá Paulo. Levava um relógio em contagem decrescente (quanto tempo faltava até que conseguisse molhar a sopa) e apresentou-se insinuando que tinha um dedinho maroto que fazia milagres, inclusivamente já conseguira transformar um protectorado numa casa de fado. Confiança olhou para ele com desdém e perguntou-lhe logo se o dedinho não lhe cabia no cuzinho. Espantado com a franqueza, Paulo decidiu que ainda tinha de tomar um bocado mais de balanço e, com o dedinho entre as pernas, foi fazer antes uma reforma de estado.

Pedro observou a cena à distância com uma certa apreensão, mas pensava ter uma arma secreta: a sua franja arrebatadora. Quando chegou à fala com Confiança todo ele eram falinhas mansas e não tardou a conseguir um tete a tete. Não prometia nada, sabia de antemão que ela tinha umas fornicatio legis muito restritivas mas ele estava disposto a todos os sacrifícios para cumprir (‘foder com jeitinho’ era a frase inspiradora que usava de si para si)

Dona Confiança pareceu claudicar com a primeira abordagem. Era um rapaz de indole respeitadora, as suas intenções apresentavam-se como das melhores, nem no inferno se encontrariam daquelas certamente. Nas primeiras horas a estratégia de Pedro começou a dar resultado, e um redondo e prolongado beijo parecia ir selar um compromisso entre Pedro e Confiança, com esta a permitir avanços pela sua constitucionalidade dignos dum coup d’état - olha para as minhas maminhas como se elas fossem duas bastilhas, chegou mesmo a sussurrar-lhe ao ouvido, enquanto Pedro já se via a mascar bastilhas.
Mas como qualquer macho, com ou sem franja, com ou sem agenda libertina, Pedro sabia que teria de ir testando passo a passo Confiança para ver até onde poderia ir - se me deres a tua betesga eu serei o teu rossio, foi a vez dele sussurrar. Pensava ele que depois da sua mão já ter poisado por terrenos de reserva natural, poderia doravante urbanizar e em propriedade horizontal por qualquer lado sem precisar de comprar maiorias na vereação. Quando a coxa já é um direito adquirido por que carga d’água terá um homem de recuar para o joelho, perguntava-se.
Mas Dona Confiança era muito zelosa dos seus princípios e estava convicta de que tinha adquirido um estatuto de inviolável que não poderia perder por qualquer franja por mais voluptuosa que ela fosse.
E assim, estava já Pedro a alçar a perna para um movimento mais acrobático quando Confiança se lhe escapa por entre os rins e decide ir acertar linha das sobrancelhas e pintar as unhas de outra cor, fazendo-o estatelar-se no arraiolos que nem um Junot de porcelana.

Será desprezo genuíno, será jogo, será apenas prudência, será capricho, ruminava Pedro por entre os ossos doridos a fazer de escombros. Mas Dona Confiança já estava noutra, remoçada e de peitos ao nível do entrecot, deixou Pedro a lamuriar-se com Paulo que entretanto já declarava aos quatro ventos que ela afinal nem era grande coisa e que mais valia uma pila na mão que duas vulvas a voar, ou melhor, um imposto novo na mão que duas constituições velhas a voar.

Murmurando entendimento IV – madibando-se para isto tudo


Cristina Lagarde veio reconhecer que tinha sido contratada para fazer uma fmímica gestual mas que entretanto começou a ter visões e baralhou-se toda. Não teve coragem para parar e seguiu fazendo as suas pantominas em forma de resgate porque não queria atrapalhar as cerimónias fúnebres.

Murmurando entendimento III – do cabaré para o convento, ida e volta


Simão Bivalves sempre fora um reformista da primeira hora. Vivera torturado pelos desmandos e manobras daquele que ficaria sorbonianamente especializado em tortura, e encontrara em Passos Coelho uma espécie de vamos-lá-ver-se-dá, tipo chave de fendas em promoção. Habituado a escarnecer e a elogiar, com uma discricionariedade da família dos pequenos caprichos, Simão punha-se agora a jeito para servir de mais um alibi ideológico a uma bateria de testes chamada pomposamente governo de salvação com troika em opção.

Pau para toda a colher, arrastou-se de gabinetes em gabinetes, tentando vender-se como eminência parda mas pago a preço de conselheiro laranja. Andou próximo do poder e sentiu-se recompensado por aquela sensação pirilâmpica de quem está tão próximo da luz que se julga ser interruptor.

Emprestou a alta verve, a média cultura e a baixa vergonha ao serviço do desdém olímpico e da cumplicidade banana, contradisse tudo o que já tinha dito com a limpeza típica das superioridades de ocasião, e ganhou referências que nunca sonhara sequer ter que suportar num grupo de sueca de reformados.

Inchou com o vento que teve à mão e desinchou com as picadelas dos ouriços do poder, esbracejando que não se pode ser maquiavel com medicis estragados.

Simão Bivalves dedica-se agora a mostrar que afinal sempre foi um espirito livre. Da mesma fora que nada prende o diáfano flato ao espasmódico colón.