Freudalismo Mágico #1


As mulheres só dizem a verdade quando estão histéricas

Lou Rita Andreas-Salomé Ferro

Grocery


O regime procura desesperadamente uma nova amália. Depois do falhanço com rosa mota e do eclipse rápido de vanessa fernandes, - esgotando assim o filão da corrida de fundo - nunca tendo chegado a sedimentar a iconografia oxigenada de marisa, assumiu o nosso orfanato musical e virou-se para as artes plásticas. Tenta agora segurar o efeito joana vasconcelos. Tem aparentemente tudo para virar popular, e passar sem envergonhar especialmente as elites, portanto não se pode perder a ocasião de testar o boneco. Queimamos ícones com o mesmo ritmo que se queimam putativos presidentes do bes ou pontas de lança no sporting, mas a vida é mesmo assim, sem se abrir o melão nunca se vai saber se é doce ou não. É muito ingrata a profissão de merceeiros da democracia.

chuva em janeiro amor em fevereiro


An Old Tibetan Carpet

Your soul that's sewn in love and mine
Threads in Carpet-Tibet-Land entwine.
Colours in love, ray within ray,

Stars courting each other across the sky.

Our feet rest on such weaving rare

Thousands-on-thousands-of stitches-far.

On musk-plant-throne, sweet Lama's son,

How long do my lips kiss your lips

And cheek to cheek as brightly-buttoned seasons run?


Else Lasker-Schüler  vivia já na indigência após divórcios sucessivos arrastando o seu filho, quando Franz Marc e Karl Krauss organizaram em Munique um leilão com pinturas oferecidas pelas nata expressionista da época (estamos em fevereiro de 1913), EL Kirchner, E Nolde, K Schimidt-Rottluff, O Kokoschka, P Klee, A. Macke, A Jawlensky, Kandinsky, etc. Ninguém comprou nada. Os artistas, para evitar o embaraço, e sem tempo para solicitar os serviços da Christie’s, licitaram as obras uns dos outros e reuniram à volta de 1.600 marcos para a rapariga. Hoje valeriam 50 mirós, 100 vá.
 

Os Escuteiros Mirós


Huguinho, Zézinho e Luisinho tinham como missão ajudar países em dificuldades a atravessar as troikas. Um dia viram Portugal a tentar passar pelo euro fora da passadeira e decidiram emprestar-lhe uma bengala feita de tsu’s entrelaçados em ratings. Mas nada feito, iria ser atropelado. Já no chão, apiedaram-se do pobre país e decidiram ajudá-lo fazendo uns trabalhos manuais no intervalo da catequese para que os missionários da austeridade os levassem e vendessem nos países dos ricos. Huguinho fez uma nossa senhora de Fátima em cortiça encastrada num mini altar de latas de sardinha, Zezinho fez um cristiano Ronaldo com restos de bolachas maria que sobejaram do banco alimentar, amassadas em molho coalhado de bitoque, e Luisinho pintou umas naturezas mortas com peras rocha vestidas de minhota. Teria sido um sucesso não fora uma providência cautelar de mme canavilhas dizendo com a arte não se brinca.

Clownfunding


Depois do sucesso da operação de crowdfunding que se mostrou ser o nosso irs para a fazenda nacional, e face aos últimos desenvolvimentos da realidade, também chamados de actualidade, penso que se abriu o caminho para criar uma nova forma de financiamento ligada à palhaçada produzida constantemente pela bolha das notícias. Descoberta a nossa vocação científica mais recente, a panteaologia, cada português deve agora dedicar uma parte do seu tempo e talento a discernir quais os féretros que merecem ou não arrendamento vitalício em local de pompa & destaque. Depois de dada esta contribuição para o bem-estar da nação consigo própria (todos podemos ser alain’s botton da pátria), devemos concentrar a nossa wisdom of the crowds no discernimento de todas as possibilidades (versão moderna de direitos) ainda não totalmente ao dispor da paneleiragem, para que estes se sintam benzinho, confortáveis e inclusivamente sem necessidade de planos cautelares. Sendo certo que esta será uma batalha sem fim, pois haverá sempre um paneleiro que se sentirá marginalizado por não estar a ser sodomizado em condições pelos do seu género, julgo que para intercalar poderemos dedicar-nos a decidir quais os meios de transporte que um chefe de estado poderá usar com dignidade para uma escapadela da primeira dama e, se é certo que a lambreta está completamente afastada, apanhar a carreira 28 ou o cacilheiro ainda parecem opções perfeitamente referendáveis. E como não há palhaçada que sobreviva sem drama, a realidade encarregou-se de o ir desencantar nas praxes das ondas do mar. Mas nada disto faria sentido se Rebelo de Sousa não nos brindasse ainda com mais uma pirueta, tendo inclusivamente prometido que se tiver amantes as leva todas as tardes aos pastéis de belém e de mão dada. O povo então que decida: ou quer uns gatafunhos do miró na mão ou dois paneleiros a voar. Valha-nos Sãoramago, agora entre os anjos a amaldiçoar as forças do mercado.

Murmurando entendimento V – os princípios de Dona Confiança


A Família Confiança era uma família muito pura. Mesmo daquela pureza que já não se fabrica e só se encontra ou em alfarrabistas de p’reza ou em boutiques de produtos tradicionais. Está inclusivamente em fase de lançamento uma cadeia de lojas: ‘Confiança Portuguesa’. Não vai vender galos de barcelos, nem latas de sardinha, nem pães de deus, nem mesmo rendas da madeiras, mas antes uns pacotes com um sortido de confiança composto por: 1 Constituição encadernada em lombada francesa, um cartão da adse, um cartão de eleitor, um cartão de descontos do pingo doce, e uma ficha de inscrição no acp.

Mas voltemos à família Confiança, mais especificamente à menina Confiança. Nasceu ali à rua do Arsenal, entre duas lojas de bacalhau, bem pertinho donde enfiaram uns tiros no bom do dom Carlos e seu primogénito amado, e bem cedo se revelou uma moça que nunca quebrava as expectativas de ninguém.

O seu primeiro namorado, César Camacho, a primeira vez que lhe tentou dar um beijo levou com uma chave de fendas no olho esquerdo e ainda hoje vende as melhores castanhas assadas do País à porta do cemitério da Ajuda. Luís Gonçalves, o segundo, ainda ia com a sua mão direita a pouco mais de 3 cm acima do joelho de Confiança quando esta lhe enfia com uma faca de barrar manteiga pelo ouvido esquerdo, deixando-o numa espécie de permanente otite com pernas. Já tendo cristalizado a sua imagem de amante cruel, permitiu a primeira cópula digna desse nome a Gustavo Meirim, não deixando de posteriormente o humilhar publicamente revelando detalhes não dignificantes e ainda menos glorificantes, como sejam, um testículo ligeiramente pontiagudo que incomodamente a distraia no momento de gratificação. Gustava apenas conseguiu ter uma nova erecção já com 73 anos depois de uma dose de viagra intravenoso que lhe foi administrado a troco de um comodato de duas propriedades rústicas no sobral de monte agraço.

Menina Confiança, entretanto Dona Confiança, tinha assim bem sedimentada a fama de que quem lhe tocasse nunca mais se esqueceria. Sou uma mulher de princípios, dizia de forma quase solene, o meu corpo é como se fosse um artigo constitucional.

É evidente que este comportamento de Confiança (Fia, para os amigos que, obviamente, não tinha) tanto afastava clientela como atraia outra mais afoita. Foi assim que um belo dia, dois amigos, Pedro e Paulo, decidiram fazer uma aposta: qual deles a conseguiria conquistar sem que levasse mazelas significativas para casa.

Primeiro foi lá Paulo. Levava um relógio em contagem decrescente (quanto tempo faltava até que conseguisse molhar a sopa) e apresentou-se insinuando que tinha um dedinho maroto que fazia milagres, inclusivamente já conseguira transformar um protectorado numa casa de fado. Confiança olhou para ele com desdém e perguntou-lhe logo se o dedinho não lhe cabia no cuzinho. Espantado com a franqueza, Paulo decidiu que ainda tinha de tomar um bocado mais de balanço e, com o dedinho entre as pernas, foi fazer antes uma reforma de estado.

Pedro observou a cena à distância com uma certa apreensão, mas pensava ter uma arma secreta: a sua franja arrebatadora. Quando chegou à fala com Confiança todo ele eram falinhas mansas e não tardou a conseguir um tete a tete. Não prometia nada, sabia de antemão que ela tinha umas fornicatio legis muito restritivas mas ele estava disposto a todos os sacrifícios para cumprir (‘foder com jeitinho’ era a frase inspiradora que usava de si para si)

Dona Confiança pareceu claudicar com a primeira abordagem. Era um rapaz de indole respeitadora, as suas intenções apresentavam-se como das melhores, nem no inferno se encontrariam daquelas certamente. Nas primeiras horas a estratégia de Pedro começou a dar resultado, e um redondo e prolongado beijo parecia ir selar um compromisso entre Pedro e Confiança, com esta a permitir avanços pela sua constitucionalidade dignos dum coup d’état - olha para as minhas maminhas como se elas fossem duas bastilhas, chegou mesmo a sussurrar-lhe ao ouvido, enquanto Pedro já se via a mascar bastilhas.
Mas como qualquer macho, com ou sem franja, com ou sem agenda libertina, Pedro sabia que teria de ir testando passo a passo Confiança para ver até onde poderia ir - se me deres a tua betesga eu serei o teu rossio, foi a vez dele sussurrar. Pensava ele que depois da sua mão já ter poisado por terrenos de reserva natural, poderia doravante urbanizar e em propriedade horizontal por qualquer lado sem precisar de comprar maiorias na vereação. Quando a coxa já é um direito adquirido por que carga d’água terá um homem de recuar para o joelho, perguntava-se.
Mas Dona Confiança era muito zelosa dos seus princípios e estava convicta de que tinha adquirido um estatuto de inviolável que não poderia perder por qualquer franja por mais voluptuosa que ela fosse.
E assim, estava já Pedro a alçar a perna para um movimento mais acrobático quando Confiança se lhe escapa por entre os rins e decide ir acertar linha das sobrancelhas e pintar as unhas de outra cor, fazendo-o estatelar-se no arraiolos que nem um Junot de porcelana.

Será desprezo genuíno, será jogo, será apenas prudência, será capricho, ruminava Pedro por entre os ossos doridos a fazer de escombros. Mas Dona Confiança já estava noutra, remoçada e de peitos ao nível do entrecot, deixou Pedro a lamuriar-se com Paulo que entretanto já declarava aos quatro ventos que ela afinal nem era grande coisa e que mais valia uma pila na mão que duas vulvas a voar, ou melhor, um imposto novo na mão que duas constituições velhas a voar.

Murmurando entendimento IV – madibando-se para isto tudo


Cristina Lagarde veio reconhecer que tinha sido contratada para fazer uma fmímica gestual mas que entretanto começou a ter visões e baralhou-se toda. Não teve coragem para parar e seguiu fazendo as suas pantominas em forma de resgate porque não queria atrapalhar as cerimónias fúnebres.

Murmurando entendimento III – do cabaré para o convento, ida e volta


Simão Bivalves sempre fora um reformista da primeira hora. Vivera torturado pelos desmandos e manobras daquele que ficaria sorbonianamente especializado em tortura, e encontrara em Passos Coelho uma espécie de vamos-lá-ver-se-dá, tipo chave de fendas em promoção. Habituado a escarnecer e a elogiar, com uma discricionariedade da família dos pequenos caprichos, Simão punha-se agora a jeito para servir de mais um alibi ideológico a uma bateria de testes chamada pomposamente governo de salvação com troika em opção.

Pau para toda a colher, arrastou-se de gabinetes em gabinetes, tentando vender-se como eminência parda mas pago a preço de conselheiro laranja. Andou próximo do poder e sentiu-se recompensado por aquela sensação pirilâmpica de quem está tão próximo da luz que se julga ser interruptor.

Emprestou a alta verve, a média cultura e a baixa vergonha ao serviço do desdém olímpico e da cumplicidade banana, contradisse tudo o que já tinha dito com a limpeza típica das superioridades de ocasião, e ganhou referências que nunca sonhara sequer ter que suportar num grupo de sueca de reformados.

Inchou com o vento que teve à mão e desinchou com as picadelas dos ouriços do poder, esbracejando que não se pode ser maquiavel com medicis estragados.

Simão Bivalves dedica-se agora a mostrar que afinal sempre foi um espirito livre. Da mesma fora que nada prende o diáfano flato ao espasmódico colón.

Murmurando entendimento II – pib com laranja


Como o nosso PIB ainda está muito cru para enfrentar novamente a vida lá fora, há que o preparar.

Num almofariz coloque as reformas do estado, o crescimento e a competitividade.

Esmague até que fique uma pasta.

Num tabuleiro de ir à troika tempere o PIB por igual com as reformas de estado esmagadas.

Junte no tabuleiro 2 folhas de orçamento de estado, 3 manifestações de polícias, 4 exames de professores e o sumo de laranja.

Por fim coloque a manteiga.

Leve ao Bundesbank pré-aquecido e deixe assar aproximadamente ano e meio.

Entretanto, num tacho, leve à comissão europeia o restante caldo, o deficit público, a manteiga e os miúdos (as gerações mais novas).

Tempere um pouco com demagogia e corrupção.

Deixe cozer entre 4 a 5 meses, até as novas gerações ficarem tenrinhas.

Passado um ano do PIB estar no bundesbank vire-o de forma a que fique com as exportações para cima.

Depois das novas gerações estarem fodidas, perdão, cozidas, retire-as com um escorredor (qualquer instituto público serve) para um centro de emprego raso.

Ao caldo que sobrou junte água suficiente para afogar dois quarteis de bombeiros.

Deixe foder, perdão, ferver. Depois de ferver junte os reformados, mexa e aguente duas ou três inconstitucionalidades.

Entretanto, corte os miúdos (novas gerações) e desfie a parte do consumo privado do PIB. Não se esqueça de limpar bem a TSU.

Depois dos reformados fodidos, perdão, cozidos, junte os miúdos e misture.

Coloque tudo num tabuleiro de ir ao Bundesbank e espalhe. Por cima coloque uma rodelas de funcionários públicos.

Depois do PIB assado, retire-o.

Aumente a temperatura do Bundesbank para o máximo e coloque os reformados, os funcionários públicos e os desempregados a tostar. Passados dois meses retire.

Sirva o PIB em pedaços, acompanhado com os desempregados e rodelas de laranja.

Está pronto para servir aos mercados.

Murmurando entendimento I


Aparentemente «a troika reconhece erros mas são para manter» o que me parece uma atitude bastante acertada. Julgo até que da nossa brilhante história o ‘erro da troika’ é dos erros melhorzinhos que nós temos feito e para além disso tem a virtude de podermos dizer que não fomos nós, foram os outros meninos. Se considerarmos erros como por exemplo o terramoto de lisboa, a presidência de godinho lopes, a morte de dom Carlos, a aventura de alcácer quibir e a exportação da orsi feher , o memorandum e respectivos folhos foram dos melhores figurinos com que nos equipámos. Vamos-mos lá entender:  nós evoluímos na cadeia alimentar das crises, pois deixámos de ser um país com crise para sermos uma crise com país.

Como já vi escrito em qualquer lado: nós não somos os herdeiros dos que foram à Índia, nós somos herdeiros dos que ficaram.

Imaculado Campeão


Como é do conhecimento geral o campeonato de futebol que realmente interessa acabou ontem, no dia da Imaculada, e o Sporting sagrou-se campeão. Reparemos que não se usa por aqui o simples e matafísico verbo ser mas antes um verbo mais digno e adaptado às circunstâncias transcendentais da coisa: sagrar. A lagartada campeã (não é ir à frente, é campeão mesmo, qualquer pessoa decente reconhece que o verdadeiro campeonato acabou ontem) é o sinal que os deuses nos estão a dar num dia em que se celebrou a natureza virginal da concepção do messias. Também os lagartos, sem que nada o previsse, contra todas as regras da natureza, todas as causalidades, revelam-se líderes ao mundo. Limpos, serenos, sabendo compreender e até perdoar, quem quiser misericórdia pode assim aproximar-se que lhe será concedida, políticos e lampiões inclusive. Tal como a Virgem sem saber ler nem escrever se apanhou naqueles preparos, assim o nosso Leonardo nos coloca a todos prenhes, eu inclusive afago hoje a minha barriguita com uma sensação de campeão que já não sentia desde os babilónicos tempos de cativeiro. Que Nossa Senhora me perdoe a heterodoxia, mas o meu messias baby agora tem a cara de Montero e não há pastorinho bronzeado pelo sol da galileia que não se pareça com o William Carvalho, árvore esta que, sabe-se, veio redimir todas as figueiras devidamente amaldiçoadas.

Conto do estar para aqui




Calixto Semedo desistira de observar baleias desde que encontrara Luísa Ventura a tomar chá em Porto Formoso. Arreliada com a sua sorte Luísa fora desopilar ao sabor de chá verde com jasmim e quando viu que Calixto também para ali estava a pedir um desconto de tempo ao destino resolveu abordá-lo. Estar para ali é diferente de simplesmente estar ali e Luísa tinha esse marcador na gema, pois descobria sempre os que estão para ali por entre os que se limitam a estar ali, seja ali onde for.

Calisto estivera a observar baleias na Caloura toda a manhã e tirando ter sido atropelado por uma vaca sem nome nem badalo, nada a sorte lhe tinha colocado na ponta dos binóculos. Sem tendência para as costumeiras neuras insulares pegou na trouxa, respirou fundo três vezes testando o bom tempo nos canais e foi tomar um chá que lhe diluísse o que sobejara da bucha.

Pelo caminho rezou três avé marias com um olho no promontório e outro numa ciclista irlandesa que descia a ladeira sem travões na roda da saia que assim descobria uma bênção duplamente arredondada sur selle en cuir, respirou outra vez fundo sem especiais reacções expectorantes e alheado de restrições ditadas pela deontologia dos vigias, esticou distraidamente a vista para um mar livre de cetáceos, preparando-se para trocar os binóculos por uma chávena de folha fervida.

Quando Luísa lhe deu o primeiro beijo arrepiando um caminho que levara séculos a esbater por entre náufragos, vulcões e laranjas, Calixto despertou do seu estar para ali e passou a estar mesmo ali - mas ficou logo num ali que faz favor. Luisa, ex-vereadora sem pelouro, experimentada em manter assuntos pendentes em estado de graça, agora em fase de confronto com a realidade, perguntou-lhe se entre as mamas dela – ‘estas bolinhas aqui, mas não para aqui’, foi em rigor a expressão - e um mar em estado bulímico onde é que ele mais gostaria de procurar segredos da mãe natureza. Avesso aos mais ténues sinais de paganismo Calixto retirou os sentidos do Atlântico e desfazendo-se de todas os catarros submeteu-se aos desígnios dos deuses que escolheram a carne como porto de abrigo.

Entre folhas de chá e um ou outro delicado movimento de mãos & lábios, Calixto e Luísa, Semedo e Ventura, respectivamente, decidiram que já estavam criadas as condições para abordarem uma lagoa de médio porte e decidiram enfrentar os auspícios do Congro, num fim de tarde inesperadamente bem servido pelo sol em formato raio.

Depois de dois ou três esboços de relacionamento de índole flesh & juice, sem que nada o estivesse a prever, Calixto começou a sentir a nostalgia do cetáceo: um ardor na garganta, uma tosse seca mas contínua, uma respiração ofegante que lhe arranhava intermitentemente a entranhas superiores. Luisa, ainda possuída pelo lastro da carne, pensou que se tratava dalguma alergia momentânea, resultado de vapores sulfurosos menos tolerados por um habitante de promontórios e postos de vigia. Mas nada a fazer, Calixto estava para ali de rastos.

Subiram lentamente de mão dada pelo trilho até à estrada, Luisa ainda tentou dois ou três afagos no sentido de lhe acalmar as ‘inges (far & lar), mas nada, era certo que enquanto Calixto não avistasse um cachalote aquela sensação não lhe passaria, nem mesmo quando Luisa, numa encantadora, arrebatadora, manifestação de carinho, lhe lembrou que as suas coxas também eram rechonchudas, roliças, bojudas, nem mesmo assim Calixto retomou uma respiração limpa e desfricionada.

Já estava a escurecer quando chegaram ao alto da Caloura. Calixto apresentava um estado lastimável, com uma respiração rosnada e um olhar de carneiro bem morto. Luisa sentia-se para ali impotente, se pudesse transformava-se em broncodilatador mas Calixto apenas lhe dizia deixa-me para aqui com as minhas baleias, embebido na mística do incompreendido, incapaz.

E Luísa, que também tinha mais que fazer, deixou-o para ali.

Ensaio sobre a pieira


Gosto bastante do anticlericalismo em geral e do em particular também, depende, neste, das medidas de cintura e anca.

Uma das características interessantes do anticlericalismo de pendor ateu (também o há de pendor católico no qual eu tenho o prazer de participar) ou mero pendor parvo é que se organiza essencialmente numa forma de raiva elaborada sobre uma merda chamada fé que se concretiza numa merda chamada crentes.

O anticlericalismo parvo (para sintetizar conceitos) mais moderno revelou-se recentemente nas reacções às personalidades e posições de Bento XVI (agora é que vocês vão ver seus católicos laxistas e prevaricadores) e agora às de Francisco I (agora é que vocês vão ver seus católicos conservadores e hipócritas)

Em geral, o anti-clericalista parvo possui um pensamento da família da respiração com falhas. Arranha um pouco mas não chega a faltar o ar. A blogaria sempre foi fecunda em manifestações desta categoria mas, mais recentemente, certos fenómenos emergentes como o das ideologias de género militantes (os genercologistas), ou até a crise das esquerdas (não riam, vá, é a escardalhose) introduziram toda uma dinâmica de flatulência mental que só não cheira porque quando chega está à beirinha do intestino o duodeno remete para a procedência (daí a pieira mental)

Uma das mais charmosas insinuações do anti-clericalismo parvo é que a crença produz uma gaiola moral (‘my body is a cage’, como se sabe) na natureza, que nos torna (aos crentes) irracionais, intolerantes & absurdos (a ordem é arbitrária), algo que deve ser descodificado diária e sistematicamente, e ilustrado, de preferência, com as horríveis contradições do clero, desde a carmelita lésbica ao cardeal panasca passando pelo ermita insensível à violência doméstica.

Como se sabe, no tempo em que os leões papavam apóstolos o anticlericalismo era uma coisa séria e motivada por genuínos valores de cidadania como a ambição, o deboche, o poder e a ordem, mas hoje o anticlericalismo parvo não passa duma pieira neuronal, assim algo entre a gosma e o gargarejo.

DesmakerTv


Carl Rosenberg Smith era caracterizador de personagens ficcio-mitológicas desde que tinha sofrido um derrame cerebral em 1997, na sequência da queda de um pónei na feira popular. A sua primeira invenção de sucesso foi o zombie, da qual tem tirado imenso proveito, inclusive lhe permitiu comprar uma vivenda na Verdizela, sonho de criança - quando ia para lá apanhar pinhas para as sardinhadas que o seu pai fazia com os tios. Tendo passado ao lado dos lobisomens, apanhou novamente o comboio com os vampiros, que lhe permitiram comprar um barco de 20 metros, pena é que as finanças o tenham confiscado aquando do célebre irs de 2004, quando perdeu os papeis à porta dum bordel de luxo ali para as lados de são João do Estoril, estupefacto com Zeneida Gonçalves, que acabara de entrar na vivenda com um vestido azul que ele lhe tinha dado, mas abraçada a Gustavo Gomes, um concorrente seu e inventor dos wargs, personagem também de algum sucesso, que este vendera para o game of thrones, tendo recebido em pagamento o Z3 em que james bond dera algumas quecas de recurso, mas nada, nada mesmo, parecido com a nova coqueluche de Carl Smith: Koli – homem anjo. Os Koli’s caracterizam-se por passarem de homem a anjo depois de comerem umas bagas alegadamente venenosas que existem junto à pateira de sangalhos e que rapidamente os tornam em seres espirituais, imunes às arreliantes limitações de espaço, tempo e respectivos spreads. A invenção dos Kolis’s rapidamente correu por toda a indústria dos seriados e tornou-se cobiçada pelos principais canais. No entanto, desta feita, Carl Smith não estava disposto a abdicar da sua invenção por meia dúzia de patacos e quis ficar com uma palavra a dizer sobre os enredos, tanto mais que havia uma personagem que inventara no início da sua carreira e que nunca conseguira colocar - não por falta de mérito, registe-se - tratava-se de Lenar – a mulher-trufa. Aparentemente apenas destinada a filmes de animação, Lenar podia ter agora o seu momento, colada ao êxito de Koli. E assim foi, e de tal maneira que Lenar acabou por se assumir como uma personagem chave - uma mulher que conseguia ser imune a vampiros, zombies & lobisomens – que acabou a fazer uma perninha em todas as séries existentes, uma espécie de tipo O das personagens de mito-ficção, compatível com toda a malandragem desde mundo tão cruel e competitivo. Carl Smith ganhou assim a sua independência e comprou uma churrascaria no Turcifal, agora famosa pelo seu típico franguinho à koli, um frango no espeto recheado com um creme à base das bagas da pateira de sangalhos que, afinal, se veio a verificar, só eram venenosas às sextas-feiras dos meses ímpares. Era isto.

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Certo dia, enquanto de refrescava no golfo de tarento, veio ao salão encefálico de Hipaso de Metaponto a ideia de que todos os verdadeiros problemas apareciam quando se queria produzir qualquer coisa a dois. Um era bom, três era a conta que deus fez, mas dois era aquele número que trazia a maior das complicações. Só que era inexorável: o dois existia realmente, não se podia fugir a essa realidade. Como seria então possível construir um dois por forma a que ele não desse tantos problemas. Agarrou-se então à geometria. Juntou uns pauzinhos em mogno do Quénia, comeu duas romãs e três figos, e foi beber uns copos com o seu mestre Pitágoras que andava deprimido por causa de um cateto que lhe tinha entrado para a vista tentando convencê-lo que a solução estava na raiz quadrada do dois. Impossível, disse-lhe o mestre, nem mates a cabeça, não existe tal número, se alguma gaja te pôs os palitos desenrasca-te por outro lado, não esperes que a matemática te safe. Mas Hipaso não se ficou, meteu-se mesmo a caminho da raiz quadrada de dois, o tal número que a acasalar consigo próprio produziria o dois, numa espécie de clonagem avant la lettre, sem somas, sem merdas de complementaridades, nem unhas com carnes, apenas carnes com carnes.

Comia ele uns camarões panados à beira mar quando o tal número mítico lhe apareceu através da observação do triângulo pélvico de Isadocleia, uma moça que apresentava dotes académicos e anatómicos que o punham permanentemente em estado de hipertenusa.   

Mal sabia Hipaso que Pitagoras também andava de olho em Isadocleia, inclusivamente ela já teria posado para meia dúzia de teoremas seus, e este levou bastante a mal quando soube não só da descoberta de Hipaso, mas também que este a fizera não através da nobre arte da observação de aves, mas antes da passarinha de Isadocleia.

Descoberto o assombrado número, Hipaso, talvez ainda deslumbrado, começou por não saber bem o que fazer com ele. Por um lado tinha-se apaixonado por Isadocleia, havia ali um dois em perspetiva obtido pelo método clássico um mais um, mas por outro lado ele intuía que seria tudo mais perfeito se chegassem ao dois através da respectiva raiz quadrada, um número pelo qual se tinha obviamente apaixonado e ao qual, pensava, iria também conseguir atrair Isadocleia, indo assim ambos construir o dois mas em ambiente de potência mística. Esta hesitava e não queria ir pedir opinião a Pitágoras, a quem, inclusive, já tinha ouvido dizer: ‘quero que ele meta a raiz quadrada do dois no olho do seu singular cu’, frase que acabou por fazer escola no bas-fond da matemática como o ‘teorema da sodoismia’, que enunciava ser a raiz quadrada de dois tão chata e comprida que quando estava quase para parir o dois acabava por recuar e apenas resultar num 1,999, também conhecido como o ‘broche de dois’.

Enfim, abreviando, via-se que isto não iria acabar bem e Isadocleia pôs mesmo um par de palitos a Hipaso que se suicidou enfiando um pi nos cornos.

Excerto da Introdução à tese de mestrado sobre ‘Os números irracionais e as vulvas em desenvolvimento’, a defender no carnaval de 2014 em Sciences Po

Chaos isn’t a pit, chaos is a ladder.
Mindinho

A arca de Nelo #3


Quando Nelo, ex-nelo agora já Nelão Duarte, desembarcou ali na zona do cais do Sodré, decidiu subir a rua do alecrim para ver como paravam as modas no império. Deixou na barca a maior parte das parelhas e fez-se à calçada apenas com Sócrates que, tal como a sua amiga do peito nelinha moura guedes, estava desejoso de testar a popularidade, mas ninguém o convidara para apresentar concursos pelo que vivia torturado.

Chegados à zona da rua das flores e ainda sem tragédia à vista Nelo perguntou-se porque se viam tantos paneleiros num país que precisava de aumentar a sua natalidade. Ninguém lhe respondeu em condições, e ele deu-se conta de que havia relaxamento. Sacou do telemóvel e ditou: tenho de fazer um novo código de costumes, algo que fique para a posteridade e não nos deixe nas mãos de constituições mariconças. A par disso vou então fazer um programa cautelar, ou seja, cada português vai vender uma cautela da lotaria do natal a 4 alemães. No final o pinto da costa faz um sorteio e por coincidência a sorte grande sai a um árbitro da póvoa do varzim que estava a juntar para reforçar a marquise contra os ventos da maresia e que teria prometido 3 penalties ao fócuporto numa fase crítica do campeonato.

Já Nelão Duarte, envergando uma capa de arminho lilás comprada na Benetton, estava a distribuir autógrafos em frente à igreja dos mártires quando é chamado de urgência à barca: havia uma rebelião entre as parelhas, criara-se, na sua ausência, uma facção que queria antes desembarcar em Alcochete e vir tomar a capital pela ponte fairy (ex-vasco da gama), aproveitando para comer um peixinho grelhado.

Vou comer uns chocos fritos e já volto - disse Nelão Duarte à multidão que o aclamava.

A arca de Nelo #2


A arca de nelo está ancorada junto ao mar da palha com vista para a casa dos bicos, onde mme saramaga ainda pensa que estamos todos ceguinhos, e o ambiente no convés é de alguma expectativa: aparentemente portas e passos já foram na enxurrada mas ainda não se percebe se é o momento certo de desembarcar. Inesperadamente aparece um pardal vestido de Wellington a segurar um novo livro de gonçalo m tavares no bico, com o título: ‘pilhagens da minha terra’. Josefa Noémia avisa então Nelo Duarte de que se calhar os ingleses tomaram conta disto para fazerem corridas de galgos. Gera-se alguma consternação entre as parelhas de reserva mas Joana amaral dias, alheia às convulsões, avisa que só vai a terra se estiver garantido que o salão de beleza que lhe estica o cabelo e põe betume na cara ainda está operacional. Nelo acha que está na altura de largar o leme e tomar as rédeas. Reúne toda a tripulação, sobe para uma réplica do cavalo de d. José em gesso, e anuncia: doravante serei proclamado Nelão Duarte e irei tomar conta do País. Os casais que estiverem comigo serão nomeados generais de freguesia. Acabou o tempo do protectorado, das troikalinadas e dos cismas grisalhos, viva a União Platinada. Há lugar para todos: piegas, coninhas, machetes e zorrinhos, desde que chamem de imperatriz à minha josefa noémia. A minha primeira medida será fazer um viaduto sobre o marquês e um túnel entre o barreiro e o cais do Sodré: o povo deve perceber que há alternativas.  Distribuição de kerastase para todos os carecas e push-ups para as mamocas de todas as tábuas de engomar. Quero tudo de cabeça levantada e a encher o peito de ar.

A arca de Nelo


Nelo Duarte depois de ter sido Secretário de Estado da Pachacha social única e dos Medalhões de Vitela foi colocado como embaixador especial do instituto meteorológico na primavera árabe. Após ter sido enrabado na praça Tarhir ao ser confundido com uma jornalista da revista Burda, decidiu mudar completamente de vida e voltar à Pátria para a salvar da revolução em curso que estava a ser conduzida pelos libertários do Termidor orçamental.

O seu principal objectivo era juntar num cacilheiro, especialmente decorado pela omnipresente vasconcelas, um casal de representantes de toda esta gesta da reforma do Estado e Barracas afins, fazendo dela uma grande arca para que depois do dilúvio não se perdesse nada e Portugal voltasse a ser aquele sonho quinhentista que sempre foi e do qual nunca devia ter saído.

O primeiro casal a entrar foi a menina ferreira leite e o escuteiro bagão que tiveram direito a um camarote com vista para a Trafaria e com o rádio sintonizado na rádio renascença. Depois destes devidamente instalados entrou clara ferreira alves com um frasco de água oxigenada e de braço dado com pacheco pereira e que tiveram direito a um beliche duplo com vista para o cristo rei, e paredes meias com o camarote de judite de sousa e marcelo rebelo da mesma. Os vários casais foram subindo para o cacilheiro de forma ordeira e apenas se verificaram algumas escaramuças quando mário crespo se recusou a emparelhar com amélia de rey colaço pela compreensiva razão de que esta já não estava com boas cores.

Como Nelo Duarte era um verdadeiro institucionalista reservou um camarote onde juntou um contador de electricidade  marado com uma via verde a piscar amarelo e outro onde juntou uma constituição da república com dois baralhos de tarot. Chegou a ter uma cegonha da ren a acasalar com o dono dum restaurante chinês, mas o chinês não passou o controlo sanitário, não perdeu tempo e tinha de reserva uma funcionária pública que juntou a um pensionista viúvo de outra encaixando-os num camarote com vista para a rua da betesga. Ana drago conseguiu entrar mascarada de iva da restauração juntamente com marques mendes mascarado de boletim do euromilhões.

Inevitavelmente cada enviado da troika teve de se juntar com uma deputada da maioria e foi muito notada a escolha do careca por aquela moça do psd já entradota mas com uma franja toda janota.

Depois do cacilheiro ter ido fazer um cruzeiro na costa da Somália, Nelo Duarte mais a sua Josefa Noémia, já devidamente coroada de grumeta d’honor, entraram na barra e esperaram que aparecesse a pomba com o raminho de oliveira, o que poderia indiciar que francisco louçã já teria sido empossado de director geral das alfândegas, no entanto, constataram que ainda se estava na fase em que mario soares era o director das Al Pândegas.

(pode ser que ainda continue)