Depois do sucesso da operação de crowdfunding que se mostrou
ser o nosso irs para a fazenda nacional, e face aos últimos desenvolvimentos da
realidade, também chamados de actualidade, penso que se abriu o caminho para
criar uma nova forma de financiamento ligada à palhaçada produzida
constantemente pela bolha das notícias. Descoberta a nossa vocação científica mais
recente, a panteaologia, cada português deve agora dedicar uma parte do seu
tempo e talento a discernir quais os féretros que merecem ou não arrendamento
vitalício em local de pompa & destaque. Depois de dada esta contribuição
para o bem-estar da nação consigo própria (todos podemos ser alain’s botton da
pátria), devemos concentrar a nossa wisdom of the crowds no discernimento de
todas as possibilidades (versão moderna de direitos) ainda não totalmente ao
dispor da paneleiragem, para que estes se sintam benzinho, confortáveis e
inclusivamente sem necessidade de planos cautelares. Sendo certo que esta será
uma batalha sem fim, pois haverá sempre um paneleiro que se sentirá
marginalizado por não estar a ser sodomizado em condições pelos do seu género,
julgo que para intercalar poderemos dedicar-nos a decidir quais os meios de
transporte que um chefe de estado poderá usar com dignidade para uma escapadela
da primeira dama e, se é certo que a lambreta está completamente afastada, apanhar
a carreira 28 ou o cacilheiro ainda parecem opções perfeitamente referendáveis.
E como não há palhaçada que sobreviva sem drama, a realidade encarregou-se de o
ir desencantar nas praxes das ondas do mar. Mas nada disto faria sentido se Rebelo de
Sousa não nos brindasse ainda com mais uma pirueta, tendo inclusivamente prometido
que se tiver amantes as leva todas as tardes aos pastéis de belém e de mão
dada. O povo então que decida: ou quer uns gatafunhos do miró na mão ou dois
paneleiros a voar. Valha-nos Sãoramago, agora entre os anjos a amaldiçoar as
forças do mercado.
Murmurando entendimento V – os princípios de Dona Confiança
A Família Confiança era uma
família muito pura. Mesmo daquela pureza que já não se fabrica e só se encontra
ou em alfarrabistas de p’reza ou em boutiques de produtos tradicionais. Está
inclusivamente em fase de lançamento uma cadeia de lojas: ‘Confiança
Portuguesa’. Não vai vender galos de barcelos, nem latas de sardinha, nem pães
de deus, nem mesmo rendas da madeiras, mas antes uns pacotes com um sortido de
confiança composto por: 1 Constituição encadernada em lombada francesa, um
cartão da adse, um cartão de eleitor, um cartão de descontos do pingo doce, e
uma ficha de inscrição no acp.
Mas voltemos à família Confiança,
mais especificamente à menina Confiança. Nasceu ali à rua do Arsenal, entre
duas lojas de bacalhau, bem pertinho donde enfiaram uns tiros no bom do dom
Carlos e seu primogénito amado, e bem cedo se revelou uma moça que nunca quebrava
as expectativas de ninguém.
O seu primeiro namorado, César
Camacho, a primeira vez que lhe tentou dar um beijo levou com uma chave de
fendas no olho esquerdo e ainda hoje vende as melhores castanhas assadas do
País à porta do cemitério da Ajuda. Luís Gonçalves, o segundo, ainda ia com a
sua mão direita a pouco mais de 3 cm acima do joelho de Confiança quando esta lhe
enfia com uma faca de barrar manteiga pelo ouvido esquerdo, deixando-o numa
espécie de permanente otite com pernas. Já tendo cristalizado a sua imagem de
amante cruel, permitiu a primeira cópula digna desse nome a Gustavo Meirim, não
deixando de posteriormente o humilhar publicamente revelando detalhes não dignificantes
e ainda menos glorificantes, como sejam, um testículo ligeiramente pontiagudo
que incomodamente a distraia no momento de gratificação. Gustava apenas
conseguiu ter uma nova erecção já com 73 anos depois de uma dose de viagra
intravenoso que lhe foi administrado a troco de um comodato de duas
propriedades rústicas no sobral de monte agraço.
Menina Confiança, entretanto Dona
Confiança, tinha assim bem sedimentada a fama de que quem lhe tocasse nunca
mais se esqueceria. Sou uma mulher de princípios, dizia de forma quase solene,
o meu corpo é como se fosse um artigo constitucional.
É evidente que este comportamento
de Confiança (Fia, para os amigos que, obviamente, não tinha) tanto afastava
clientela como atraia outra mais afoita. Foi assim que um belo dia, dois
amigos, Pedro e Paulo, decidiram fazer uma aposta: qual deles a conseguiria
conquistar sem que levasse mazelas significativas para casa.
Primeiro foi lá Paulo. Levava um
relógio em contagem decrescente (quanto tempo faltava até que conseguisse
molhar a sopa) e apresentou-se insinuando que tinha um dedinho maroto que fazia
milagres, inclusivamente já conseguira transformar um protectorado numa casa de
fado. Confiança olhou para ele com desdém e perguntou-lhe logo se o dedinho não
lhe cabia no cuzinho. Espantado com a franqueza, Paulo decidiu que ainda tinha
de tomar um bocado mais de balanço e, com o dedinho entre as pernas, foi fazer
antes uma reforma de estado.
Pedro observou a cena à distância
com uma certa apreensão, mas pensava ter uma arma secreta: a sua franja
arrebatadora. Quando chegou à fala com Confiança todo ele eram falinhas mansas
e não tardou a conseguir um tete a tete. Não prometia nada, sabia de antemão
que ela tinha umas fornicatio legis muito restritivas mas ele estava disposto a
todos os sacrifícios para cumprir (‘foder com jeitinho’ era a frase inspiradora
que usava de si para si)
Dona Confiança pareceu claudicar com
a primeira abordagem. Era um rapaz de indole respeitadora, as suas intenções
apresentavam-se como das melhores, nem no inferno se encontrariam daquelas
certamente. Nas primeiras horas a estratégia de Pedro começou a dar resultado,
e um redondo e prolongado beijo parecia ir selar um compromisso entre Pedro e
Confiança, com esta a permitir avanços pela sua constitucionalidade dignos dum
coup d’état - olha para as minhas maminhas como se elas fossem duas bastilhas,
chegou mesmo a sussurrar-lhe ao ouvido, enquanto Pedro já se via a mascar
bastilhas.
Mas como qualquer macho, com ou
sem franja, com ou sem agenda libertina, Pedro sabia que teria de ir testando passo
a passo Confiança para ver até onde
poderia ir - se me deres a tua betesga eu serei o teu rossio, foi a vez
dele sussurrar. Pensava ele que depois da sua mão já ter poisado por terrenos
de reserva natural, poderia doravante urbanizar e em propriedade horizontal por
qualquer lado sem precisar de comprar maiorias na vereação.
Quando a coxa já é um direito
adquirido por que carga d’água terá um homem de recuar para o joelho,
perguntava-se.
Mas Dona Confiança era muito
zelosa dos seus princípios e estava convicta de que tinha adquirido um estatuto
de inviolável que não poderia perder por qualquer franja por mais voluptuosa
que ela fosse.
E assim, estava já Pedro a alçar a
perna para um movimento mais acrobático quando Confiança se lhe escapa por
entre os rins e decide ir acertar linha das sobrancelhas e pintar as unhas de
outra cor, fazendo-o estatelar-se no arraiolos que nem um Junot de porcelana.
Será desprezo genuíno, será jogo,
será apenas prudência, será capricho, ruminava Pedro por entre os ossos doridos
a fazer de escombros. Mas Dona Confiança já estava noutra, remoçada e de peitos
ao nível do entrecot, deixou Pedro a lamuriar-se com Paulo que entretanto já
declarava aos quatro ventos que ela afinal nem era grande coisa e que mais
valia uma pila na mão que duas vulvas a voar, ou melhor, um imposto novo na mão
que duas constituições velhas a voar.
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Murmurando entendimento IV – madibando-se para isto tudo
Cristina Lagarde veio reconhecer
que tinha sido contratada para fazer uma fmímica gestual mas que entretanto
começou a ter visões e baralhou-se toda. Não teve coragem para parar e seguiu fazendo
as suas pantominas em forma de resgate porque não queria atrapalhar as
cerimónias fúnebres.
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Murmurando entendimento III – do cabaré para o convento, ida e volta
Simão Bivalves sempre fora um
reformista da primeira hora. Vivera torturado pelos desmandos e manobras
daquele que ficaria sorbonianamente especializado em tortura, e encontrara em
Passos Coelho uma espécie de vamos-lá-ver-se-dá, tipo chave de fendas em
promoção. Habituado a escarnecer e a elogiar, com uma discricionariedade da
família dos pequenos caprichos, Simão punha-se agora a jeito para servir de
mais um alibi ideológico a uma bateria de testes chamada pomposamente governo
de salvação com troika em opção.
Pau para toda a colher,
arrastou-se de gabinetes em gabinetes, tentando vender-se como eminência parda
mas pago a preço de conselheiro laranja. Andou próximo do poder e sentiu-se
recompensado por aquela sensação pirilâmpica de quem está tão próximo da luz que
se julga ser interruptor.
Emprestou a alta verve, a média cultura
e a baixa vergonha ao serviço do desdém olímpico e da cumplicidade banana,
contradisse tudo o que já tinha dito com a limpeza típica das superioridades de
ocasião, e ganhou referências que nunca sonhara sequer ter que suportar num grupo
de sueca de reformados.
Inchou com o vento que teve à mão
e desinchou com as picadelas dos ouriços do poder, esbracejando que não se pode
ser maquiavel com medicis estragados.
Simão Bivalves dedica-se agora a mostrar que
afinal sempre foi um espirito livre. Da mesma fora que nada prende o diáfano flato ao
espasmódico colón.
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Murmurando entendimento II – pib com laranja
Como o nosso PIB ainda está muito cru para enfrentar
novamente a vida lá fora, há que o preparar.
Num almofariz coloque as reformas do estado, o crescimento e
a competitividade.
Esmague até que fique uma pasta.
Num tabuleiro de ir à troika tempere o PIB por igual com as
reformas de estado esmagadas.
Junte no tabuleiro 2 folhas de orçamento de estado, 3
manifestações de polícias, 4 exames de professores e o sumo de laranja.
Por fim coloque a manteiga.
Leve ao Bundesbank pré-aquecido e
deixe assar aproximadamente ano e meio.
Entretanto, num tacho, leve à
comissão europeia o restante caldo, o deficit público, a manteiga e os miúdos
(as gerações mais novas).
Tempere um pouco com demagogia e
corrupção.
Deixe cozer entre 4 a 5 meses, até
as novas gerações ficarem tenrinhas.
Passado um ano do PIB estar no
bundesbank vire-o de forma a que fique com as exportações para cima.
Depois das novas gerações estarem
fodidas, perdão, cozidas, retire-as com um escorredor (qualquer instituto
público serve) para um centro de emprego raso.
Ao caldo que sobrou junte água
suficiente para afogar dois quarteis de bombeiros.
Deixe foder, perdão, ferver. Depois de ferver
junte os reformados, mexa e aguente duas ou três inconstitucionalidades.
Entretanto, corte os miúdos (novas
gerações) e desfie a parte do consumo privado do PIB. Não se esqueça de limpar
bem a TSU.
Depois dos reformados fodidos,
perdão, cozidos, junte os miúdos e misture.
Coloque tudo num tabuleiro de ir
ao Bundesbank e espalhe. Por cima coloque uma rodelas de funcionários públicos.
Depois do PIB assado, retire-o.
Aumente a temperatura do
Bundesbank para o máximo e coloque os reformados, os funcionários públicos e os
desempregados a tostar. Passados dois meses retire.
Sirva o PIB em pedaços,
acompanhado com os desempregados e rodelas de laranja.
Está pronto para servir aos
mercados.
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Murmurando entendimento I
Aparentemente «a troika reconhece erros mas são para manter»
o que me parece uma atitude bastante acertada. Julgo até que da nossa brilhante
história o ‘erro da troika’ é dos erros melhorzinhos que nós temos feito e para
além disso tem a virtude de podermos dizer que não fomos nós, foram os outros
meninos. Se considerarmos erros como por exemplo o terramoto de lisboa, a
presidência de godinho lopes, a morte de dom Carlos, a aventura de alcácer
quibir e a exportação da orsi feher , o memorandum e respectivos folhos foram
dos melhores figurinos com que nos equipámos. Vamos-mos lá entender: nós evoluímos na cadeia alimentar das crises,
pois deixámos de ser um país com crise para sermos uma crise com país.
Como já vi escrito em qualquer lado: nós não somos os herdeiros
dos que foram à Índia, nós somos herdeiros dos que ficaram.
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Imaculado Campeão
Como é do conhecimento geral o campeonato de futebol que
realmente interessa acabou ontem, no dia da Imaculada, e o Sporting sagrou-se
campeão. Reparemos que não se usa por aqui o simples e matafísico verbo ser mas
antes um verbo mais digno e adaptado às circunstâncias transcendentais da coisa:
sagrar. A lagartada campeã (não é ir à frente, é campeão mesmo, qualquer pessoa
decente reconhece que o verdadeiro campeonato acabou ontem) é o sinal que os
deuses nos estão a dar num dia em que se celebrou a natureza virginal da
concepção do messias. Também os lagartos, sem que nada o previsse, contra todas
as regras da natureza, todas as causalidades, revelam-se líderes ao mundo.
Limpos, serenos, sabendo compreender e até perdoar, quem quiser misericórdia
pode assim aproximar-se que lhe será concedida, políticos e lampiões inclusive.
Tal como a Virgem sem saber ler nem escrever se apanhou naqueles preparos,
assim o nosso Leonardo nos coloca a todos prenhes, eu inclusive afago hoje a
minha barriguita com uma sensação de campeão que já não sentia desde os babilónicos
tempos de cativeiro. Que Nossa Senhora me perdoe a heterodoxia, mas o meu
messias baby agora tem a cara de Montero e não há pastorinho bronzeado pelo sol da galileia que não se pareça
com o William Carvalho, árvore esta que, sabe-se, veio redimir todas as
figueiras devidamente amaldiçoadas.
Conto do estar para aqui
Calixto Semedo desistira de observar baleias desde que
encontrara Luísa Ventura a tomar chá em Porto Formoso. Arreliada com a sua
sorte Luísa fora desopilar ao sabor de chá verde com jasmim e quando viu que
Calixto também para ali estava a
pedir um desconto de tempo ao destino resolveu abordá-lo. Estar para ali é diferente de simplesmente estar ali e Luísa tinha esse marcador na gema, pois descobria
sempre os que estão para ali por
entre os que se limitam a estar ali,
seja ali onde for.
Calisto estivera a observar baleias na Caloura toda a manhã
e tirando ter sido atropelado por uma vaca sem nome nem badalo, nada a sorte
lhe tinha colocado na ponta dos binóculos. Sem tendência para as costumeiras neuras
insulares pegou na trouxa, respirou fundo três vezes testando o bom tempo nos
canais e foi tomar um chá que lhe diluísse o que sobejara da bucha.
Pelo caminho rezou três avé marias com um olho no
promontório e outro numa ciclista irlandesa que descia a ladeira sem travões na
roda da saia que assim descobria uma bênção duplamente arredondada sur selle
en cuir, respirou outra vez fundo sem especiais reacções expectorantes e
alheado de restrições ditadas pela deontologia dos vigias, esticou distraidamente
a vista para um mar livre de cetáceos, preparando-se para trocar os binóculos
por uma chávena de folha fervida.
Quando Luísa lhe deu o primeiro beijo arrepiando um caminho
que levara séculos a esbater por entre náufragos, vulcões e laranjas, Calixto
despertou do seu estar para ali e
passou a estar mesmo ali - mas ficou
logo num ali que faz favor. Luisa, ex-vereadora
sem pelouro, experimentada em manter assuntos pendentes em estado de graça, agora
em fase de confronto com a realidade, perguntou-lhe se entre as mamas dela – ‘estas
bolinhas aqui, mas não para aqui’, foi em rigor a expressão - e um mar em
estado bulímico onde é que ele mais gostaria de procurar segredos da mãe
natureza. Avesso aos mais ténues sinais de paganismo Calixto retirou os
sentidos do Atlântico e desfazendo-se de todas os catarros submeteu-se aos
desígnios dos deuses que escolheram a carne como porto de abrigo.
Entre folhas de chá e um ou outro delicado movimento de mãos
& lábios, Calixto e Luísa, Semedo e Ventura, respectivamente, decidiram que
já estavam criadas as condições para abordarem uma lagoa de médio porte e
decidiram enfrentar os auspícios do Congro, num fim de tarde inesperadamente bem
servido pelo sol em formato raio.
Depois de dois ou três esboços de relacionamento de índole flesh & juice, sem que nada o
estivesse a prever, Calixto começou a sentir a nostalgia do cetáceo: um ardor
na garganta, uma tosse seca mas contínua, uma respiração ofegante que lhe
arranhava intermitentemente a entranhas superiores. Luisa, ainda possuída pelo
lastro da carne, pensou que se tratava dalguma alergia momentânea, resultado de
vapores sulfurosos menos tolerados por um habitante de promontórios e postos de
vigia. Mas nada a fazer, Calixto estava para ali de rastos.
Subiram lentamente de mão dada pelo trilho até à estrada,
Luisa ainda tentou dois ou três afagos no sentido de lhe acalmar as ‘inges (far
& lar), mas nada, era certo que enquanto Calixto não avistasse um cachalote
aquela sensação não lhe passaria, nem mesmo quando Luisa, numa encantadora,
arrebatadora, manifestação de carinho, lhe lembrou que as suas coxas também
eram rechonchudas, roliças, bojudas, nem mesmo assim Calixto retomou uma
respiração limpa e desfricionada.
Já estava a escurecer quando chegaram ao alto da Caloura. Calixto
apresentava um estado lastimável, com uma respiração rosnada e um olhar de
carneiro bem morto. Luisa sentia-se para ali impotente, se pudesse transformava-se em
broncodilatador mas Calixto apenas lhe dizia deixa-me para aqui com as minhas baleias, embebido na mística do
incompreendido, incapaz.
E Luísa, que também tinha mais que fazer, deixou-o para ali.
Ensaio sobre a pieira
Gosto bastante do anticlericalismo em geral e do em
particular também, depende, neste, das medidas de cintura e anca.
Uma das características interessantes do anticlericalismo de
pendor ateu (também o há de pendor católico no qual eu tenho o prazer de
participar) ou mero pendor parvo é que se organiza essencialmente numa forma de
raiva elaborada sobre uma merda chamada fé que se concretiza numa merda chamada
crentes.
O anticlericalismo parvo (para sintetizar conceitos) mais
moderno revelou-se recentemente nas reacções às personalidades e posições de
Bento XVI (agora é que vocês vão ver seus católicos laxistas e prevaricadores)
e agora às de Francisco I (agora é que vocês vão ver seus católicos
conservadores e hipócritas)
Em geral, o anti-clericalista parvo possui um pensamento da
família da respiração com falhas.
Arranha um pouco mas não chega a faltar o ar. A blogaria sempre foi fecunda em
manifestações desta categoria mas, mais recentemente, certos fenómenos
emergentes como o das ideologias de género militantes (os genercologistas), ou
até a crise das esquerdas (não riam, vá, é a escardalhose) introduziram toda
uma dinâmica de flatulência mental que só não cheira porque quando chega está à
beirinha do intestino o duodeno remete para a procedência (daí a pieira mental)
Uma das mais charmosas insinuações do anti-clericalismo
parvo é que a crença produz uma gaiola moral (‘my body is a cage’, como se
sabe) na natureza, que nos torna (aos crentes) irracionais, intolerantes &
absurdos (a ordem é arbitrária), algo que deve ser descodificado diária e
sistematicamente, e ilustrado, de preferência, com as horríveis contradições do
clero, desde a carmelita lésbica ao cardeal panasca passando pelo ermita
insensível à violência doméstica.
Como se sabe, no tempo em que os leões papavam apóstolos o
anticlericalismo era uma coisa séria e motivada por genuínos valores de
cidadania como a ambição, o deboche, o poder e a ordem, mas hoje o
anticlericalismo parvo não passa duma pieira neuronal, assim algo entre a gosma
e o gargarejo.
DesmakerTv
Carl Rosenberg Smith era caracterizador de personagens ficcio-mitológicas
desde que tinha sofrido um derrame cerebral em 1997, na sequência da queda de
um pónei na feira popular. A sua primeira invenção de sucesso foi o zombie, da
qual tem tirado imenso proveito, inclusive lhe permitiu comprar uma vivenda na
Verdizela, sonho de criança - quando ia para lá apanhar pinhas para as
sardinhadas que o seu pai fazia com os tios. Tendo passado ao lado dos lobisomens,
apanhou novamente o comboio com os vampiros, que lhe permitiram comprar um
barco de 20 metros, pena é que as finanças o tenham confiscado aquando do
célebre irs de 2004, quando perdeu os papeis à porta dum bordel de luxo ali
para as lados de são João do Estoril, estupefacto com Zeneida Gonçalves, que
acabara de entrar na vivenda com um vestido azul que ele lhe tinha dado, mas
abraçada a Gustavo Gomes, um concorrente seu e inventor dos wargs, personagem
também de algum sucesso, que este vendera para o game of thrones,
tendo recebido em pagamento o Z3 em que james bond dera algumas quecas de
recurso, mas nada, nada mesmo, parecido com a nova coqueluche de Carl Smith: Koli
– homem anjo. Os Koli’s caracterizam-se por passarem de homem a anjo depois de
comerem umas bagas alegadamente venenosas que existem junto à pateira de
sangalhos e que rapidamente os tornam em seres espirituais, imunes às
arreliantes limitações de espaço, tempo e respectivos spreads. A invenção dos Kolis’s rapidamente
correu por toda a indústria dos seriados e tornou-se cobiçada pelos principais
canais. No entanto, desta feita, Carl Smith não estava disposto a abdicar da
sua invenção por meia dúzia de patacos e quis ficar com uma palavra a dizer
sobre os enredos, tanto mais que havia uma personagem que inventara no início
da sua carreira e que nunca conseguira colocar - não por falta de mérito, registe-se - tratava-se de Lenar – a mulher-trufa.
Aparentemente apenas destinada a filmes de animação, Lenar podia ter agora o seu
momento, colada ao êxito de Koli. E assim foi, e de tal maneira que Lenar
acabou por se assumir como uma personagem chave - uma mulher que conseguia
ser imune a vampiros, zombies & lobisomens – que acabou a fazer uma
perninha em todas as séries existentes, uma espécie de tipo O das personagens
de mito-ficção, compatível com toda a malandragem desde mundo tão cruel e
competitivo. Carl Smith ganhou assim a sua independência e comprou uma
churrascaria no Turcifal, agora famosa pelo seu típico franguinho à koli, um
frango no espeto recheado com um creme à base das bagas da pateira de sangalhos
que, afinal, se veio a verificar, só eram venenosas às sextas-feiras dos meses
ímpares. Era isto.
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Certo dia, enquanto de refrescava no golfo de tarento, veio ao
salão encefálico de Hipaso de Metaponto a ideia de que todos os verdadeiros problemas
apareciam quando se queria produzir qualquer coisa a dois. Um era bom, três era
a conta que deus fez, mas dois era aquele número que trazia a maior das
complicações. Só que era inexorável: o dois existia realmente, não se podia
fugir a essa realidade. Como seria então possível construir um dois por forma a
que ele não desse tantos problemas. Agarrou-se então à geometria. Juntou uns
pauzinhos em mogno do Quénia, comeu duas romãs e três figos, e foi beber uns
copos com o seu mestre Pitágoras que andava deprimido por causa de um cateto
que lhe tinha entrado para a vista tentando convencê-lo que a solução estava na
raiz quadrada do dois. Impossível, disse-lhe o mestre, nem mates a cabeça, não
existe tal número, se alguma gaja te pôs os palitos desenrasca-te por outro
lado, não esperes que a matemática te safe. Mas Hipaso não se ficou, meteu-se mesmo
a caminho da raiz quadrada de dois, o tal número que a acasalar consigo próprio
produziria o dois, numa espécie de clonagem avant la lettre, sem somas, sem
merdas de complementaridades, nem unhas com carnes, apenas carnes com carnes.
Comia ele uns camarões panados à beira mar quando o tal
número mítico lhe apareceu através da observação do triângulo pélvico de
Isadocleia, uma moça que apresentava dotes académicos e anatómicos que o punham
permanentemente em estado de hipertenusa.
Mal sabia Hipaso que Pitagoras também andava de olho em
Isadocleia, inclusivamente ela já teria posado para meia dúzia de teoremas seus,
e este levou bastante a mal quando soube não só da descoberta de Hipaso, mas também
que este a fizera não através da nobre arte da observação de aves, mas antes da
passarinha de Isadocleia.
Descoberto o assombrado número, Hipaso, talvez ainda
deslumbrado, começou por não saber bem o que fazer com ele. Por um lado
tinha-se apaixonado por Isadocleia, havia ali um dois em perspetiva obtido pelo
método clássico um mais um, mas por outro lado ele intuía que seria tudo mais
perfeito se chegassem ao dois através da respectiva raiz quadrada, um número
pelo qual se tinha obviamente apaixonado e ao qual, pensava, iria também
conseguir atrair Isadocleia, indo assim ambos construir o dois mas em ambiente
de potência mística. Esta hesitava e não queria ir pedir opinião a Pitágoras, a
quem, inclusive, já tinha ouvido dizer: ‘quero que ele meta a raiz quadrada do
dois no olho do seu singular cu’, frase que acabou por fazer escola no bas-fond
da matemática como o ‘teorema da sodoismia’, que enunciava ser a raiz quadrada
de dois tão chata e comprida que quando estava quase para parir o dois acabava
por recuar e apenas resultar num 1,999, também conhecido como o ‘broche de dois’.
Enfim, abreviando, via-se que isto não iria acabar bem e
Isadocleia pôs mesmo um par de palitos a Hipaso que se suicidou enfiando um pi
nos cornos.
Excerto da Introdução à tese de mestrado sobre ‘Os números
irracionais e as vulvas em desenvolvimento’, a defender no carnaval de 2014 em
Sciences Po
A arca de Nelo #3
Quando Nelo, ex-nelo agora já Nelão Duarte, desembarcou ali
na zona do cais do Sodré, decidiu subir a rua do alecrim para ver como paravam
as modas no império. Deixou na barca a maior parte das parelhas e fez-se à calçada
apenas com Sócrates que, tal como a sua amiga do peito nelinha moura guedes,
estava desejoso de testar a popularidade, mas ninguém o convidara para
apresentar concursos pelo que vivia torturado.
Chegados à zona da rua das flores e ainda sem tragédia à
vista Nelo perguntou-se porque se viam tantos paneleiros num país que precisava
de aumentar a sua natalidade. Ninguém lhe respondeu em condições, e ele deu-se
conta de que havia relaxamento. Sacou do telemóvel e ditou: tenho de fazer um
novo código de costumes, algo que fique para a posteridade e não nos deixe nas
mãos de constituições mariconças. A par disso vou então fazer um programa
cautelar, ou seja, cada português vai vender uma cautela da lotaria do natal a
4 alemães. No final o pinto da costa faz um sorteio e por coincidência a sorte
grande sai a um árbitro da póvoa do varzim que estava a juntar para reforçar a
marquise contra os ventos da maresia e que teria prometido 3 penalties ao
fócuporto numa fase crítica do campeonato.
Já Nelão Duarte, envergando uma capa de arminho lilás comprada
na Benetton, estava a distribuir autógrafos em frente à igreja dos mártires
quando é chamado de urgência à barca: havia uma rebelião entre as parelhas,
criara-se, na sua ausência, uma facção que queria antes desembarcar em Alcochete
e vir tomar a capital pela ponte fairy (ex-vasco da gama), aproveitando
para comer um peixinho grelhado.
Vou comer uns chocos fritos e já volto - disse Nelão Duarte
à multidão que o aclamava.
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A arca de Nelo #2
A arca de nelo está ancorada junto ao mar da palha com vista
para a casa dos bicos, onde mme saramaga ainda pensa que estamos todos
ceguinhos, e o ambiente no convés é de alguma expectativa: aparentemente portas
e passos já foram na enxurrada mas ainda não se percebe se é o momento certo de
desembarcar. Inesperadamente aparece um pardal vestido de Wellington a segurar
um novo livro de gonçalo m tavares no bico, com o título: ‘pilhagens da minha
terra’. Josefa Noémia avisa então Nelo Duarte de que se calhar os ingleses
tomaram conta disto para fazerem corridas de galgos. Gera-se alguma consternação
entre as parelhas de reserva mas Joana amaral dias, alheia às convulsões, avisa
que só vai a terra se estiver garantido que o salão de beleza que lhe estica o
cabelo e põe betume na cara ainda está operacional. Nelo acha que está na
altura de largar o leme e tomar as rédeas. Reúne toda a tripulação, sobe para
uma réplica do cavalo de d. José em gesso, e anuncia: doravante serei
proclamado Nelão Duarte e irei tomar conta do País. Os casais que estiverem
comigo serão nomeados generais de freguesia. Acabou o tempo do protectorado,
das troikalinadas e dos cismas grisalhos, viva a União Platinada. Há lugar para
todos: piegas, coninhas, machetes e zorrinhos, desde que chamem de imperatriz à
minha josefa noémia. A minha primeira medida será fazer um viaduto sobre o
marquês e um túnel entre o barreiro e o cais do Sodré: o povo deve perceber que
há alternativas. Distribuição de
kerastase para todos os carecas e push-ups para as mamocas de todas as tábuas
de engomar. Quero tudo de cabeça levantada e a encher o peito de ar.
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A arca de Nelo
Nelo Duarte depois de ter sido Secretário de Estado da
Pachacha social única e dos Medalhões de Vitela foi colocado como embaixador especial do instituto
meteorológico na primavera árabe. Após ter sido enrabado na praça Tarhir ao ser confundido
com uma jornalista da revista Burda, decidiu mudar completamente de vida e
voltar à Pátria para a salvar da revolução em curso que estava a ser conduzida
pelos libertários do Termidor orçamental.
O seu principal objectivo era juntar num cacilheiro,
especialmente decorado pela omnipresente vasconcelas, um casal de representantes
de toda esta gesta da reforma do Estado e Barracas afins, fazendo dela uma grande arca para que
depois do dilúvio não se perdesse nada e Portugal voltasse a ser aquele sonho
quinhentista que sempre foi e do qual nunca devia ter saído.
O primeiro casal a entrar foi a menina ferreira leite e o
escuteiro bagão que tiveram direito a um camarote com vista para a Trafaria e
com o rádio sintonizado na rádio renascença. Depois destes devidamente
instalados entrou clara ferreira alves com um frasco de água oxigenada e de braço dado com pacheco pereira e que
tiveram direito a um beliche duplo com vista para o cristo rei, e paredes meias
com o camarote de judite de sousa e marcelo rebelo da mesma. Os vários casais
foram subindo para o cacilheiro de forma ordeira e apenas se verificaram
algumas escaramuças quando mário crespo se recusou a emparelhar com amélia de
rey colaço pela compreensiva razão de que esta já não estava com boas cores.
Como Nelo Duarte era um verdadeiro institucionalista
reservou um camarote onde juntou um contador de electricidade marado com uma via verde
a piscar amarelo e outro onde juntou uma constituição da república com dois baralhos de tarot. Chegou a ter
uma cegonha da ren a acasalar com o dono dum restaurante chinês, mas o chinês não
passou o controlo sanitário, não perdeu tempo e tinha de reserva uma
funcionária pública que juntou a um pensionista viúvo de outra encaixando-os num
camarote com vista para a rua da betesga. Ana drago conseguiu entrar mascarada
de iva da restauração juntamente com marques mendes mascarado de boletim do
euromilhões.
Inevitavelmente cada enviado da troika teve de se juntar com
uma deputada da maioria e foi muito notada a escolha do careca por aquela moça
do psd já entradota mas com uma franja toda janota.
Depois do cacilheiro ter ido fazer um cruzeiro na costa da Somália,
Nelo Duarte mais a sua Josefa Noémia, já devidamente coroada de grumeta d’honor,
entraram na barra e esperaram que aparecesse a pomba com o raminho de oliveira,
o que poderia indiciar que francisco louçã já teria sido empossado de director
geral das alfândegas, no entanto, constataram que ainda se estava na fase em que mario soares
era o director das Al Pândegas.
(pode ser que ainda continue)
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La vie au Rachat
Alice no país das Braguilhas
É evidente que o título pode parecer apenas um chamariz, no
entanto hoje vou-vos contar a história de Marilyn Munro, uma sex symbol que fez
carreira no competitivo mundo das mulheres fatais através da sua enorme capacidade
para criar ilusões nos homens, e deixou uma legião de fans absolutamente arrasados
quando decidiu casar com Carroll Higgs, um engatatão escocês que se valia dum
talento raro que consistia em conseguir enfiar um protão onde outros apenas – e
em sonhos – viam cavernas para aceleradores de platões.
Munro & Higgs rapidamente se transformaram no casal de
todas as invejas, e estas atingiram o cume quando foram ambos nomeados nobeles
da química pela invenção conjunta da cópula anaeróbica. Ora esta cópula
consistia num movimento de ligação molecular em que a mulher recitava sem
respirar um acto inteiro do Hamlet enquanto o homem fazia dois big bangs sem
tirar nenhum protão do túnel de aceleração.
Tal experiência apenas foi possível pois Marilyn Munro
levantava a saia dentro dum túnel de vento e Higgs tinha esfregado os protões
em esponjas de coral da ilha de Lampetusa, perdão, Lampedusa.
Quando Higgs fechava a braguilha a fim de resguardar o seu
potencial atómico para uma nova fusão de núcleos, Marilyn estirava-se no seu
boudoir de veludo verde azeitona e dizia em tom solene: sinto-me uma gata
depois de me rebolar num bozão quente.
Munro acabou por contar as suas experiências moleculares num
livro com o título do post, o que não a impediu de ser nomeada para o pulitzipper
prize, o famoso concurso que premeia as autoras que conseguem fazer uma
braguilha abrir-se mais rápido que a fissura dum núcleo de neutrão depois de
ser embebido em limoncelo fresquinho.
Como prémio Marilyn Munro recebeu um bozão em formato de
coelhinho branco, todo revestido a renda, da autoria da nossa Vasconcelos, e
chorou compulsivamente quando Carroll Higgs lhe disse que desde o primeiro dia que
a vira que antecipou que seria com ela que o seu protão iria saber o que era o
amor de uma mulher.
«Marta, Marta,
andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é
necessária.»
Ao evoluírmos no e pelo tempo – fenómeno também conhecido
por idade – dois caminhos nos são oferecidos,
por regra: o caminho da intolerância máxima (já não estamos para aturar parvos,
damo-nos ao luxo de nos irritarmos ou desprezarmos o que não nos agrada,
ficamos com aquilo que chamamos pomposa e um pouco petulantemente, exigência,
critério, não admitimos manchas em machetes, nem desatinos em isaltinos ), ou então
o caminho da tolerância olímpica (aceitamos tudo como fruta da época,
compreendemos os defeitos dos outros, vemos anúncios das telhas Umbelino
Monteiro com o mesmo prazer que os anúncios dos perfumes da ralph lauren, e se
para um martelo tudo é um prego, para um tolerante tudo é vaselina).
Ambos são caminhos perturbadores, pois ambos nos puxam para
o pior de nós, ou seja, ambos nos exigem uma experiência de racionalidade assistida
para a qual não estamos talhados.
O único movimento humano no qual podemos
encontrar uma certa aproximação da perfeição é indubitavelmente quando gostamos
de alguém duma forma irracional. Ou
seja, quando tolerar ou exigir não nos trespassam sequer a epiderme.
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sanatório
Hipóteses de remodelação de Ego #5
Vivermos iludidos é uma inevitabilidade. A grande invenção não é o inconsciente mas sim a dita consciência. No fundo, chamamos
ilusão aquilo que realmente existe
Desclassificar intelectualmente a realidade é o melhor que
fazemos para nos defendermos, dado que temos desvalorizado os sentidos em detrimento
do fantasma racional.
Doravante apenas o certo: tatearei, saborearei, cheirarei, verei e
ouvirei. Se me sobrar alguma energia apostarei o resto no reflexo condicionado.
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