Alice no país das Braguilhas


É evidente que o título pode parecer apenas um chamariz, no entanto hoje vou-vos contar a história de Marilyn Munro, uma sex symbol que fez carreira no competitivo mundo das mulheres fatais através da sua enorme capacidade para criar ilusões nos homens, e deixou uma legião de fans absolutamente arrasados quando decidiu casar com Carroll Higgs, um engatatão escocês que se valia dum talento raro que consistia em conseguir enfiar um protão onde outros apenas – e em sonhos – viam cavernas para aceleradores de platões.

Munro & Higgs rapidamente se transformaram no casal de todas as invejas, e estas atingiram o cume quando foram ambos nomeados nobeles da química pela invenção conjunta da cópula anaeróbica. Ora esta cópula consistia num movimento de ligação molecular em que a mulher recitava sem respirar um acto inteiro do Hamlet enquanto o homem fazia dois big bangs sem tirar nenhum protão do túnel de aceleração.

Tal experiência apenas foi possível pois Marilyn Munro levantava a saia dentro dum túnel de vento e Higgs tinha esfregado os protões em esponjas de coral da ilha de Lampetusa, perdão, Lampedusa.

Quando Higgs fechava a braguilha a fim de resguardar o seu potencial atómico para uma nova fusão de núcleos, Marilyn estirava-se no seu boudoir de veludo verde azeitona e dizia em tom solene: sinto-me uma gata depois de me rebolar num bozão quente.

Munro acabou por contar as suas experiências moleculares num livro com o título do post, o que não a impediu de ser nomeada para o pulitzipper prize, o famoso concurso que premeia as autoras que conseguem fazer uma braguilha abrir-se mais rápido que a fissura dum núcleo de neutrão depois de ser embebido em limoncelo fresquinho.

Como prémio Marilyn Munro recebeu um bozão em formato de coelhinho branco, todo revestido a renda, da autoria da nossa Vasconcelos, e chorou compulsivamente quando Carroll Higgs lhe disse que desde o primeiro dia que a vira que antecipou que seria com ela que o seu protão iria saber o que era o amor de uma mulher.

«Marta, Marta,


andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária.»

Ao evoluírmos no e pelo tempo – fenómeno também conhecido por idade – dois caminhos nos são oferecidos, por regra: o caminho da intolerância máxima (já não estamos para aturar parvos, damo-nos ao luxo de nos irritarmos ou desprezarmos o que não nos agrada, ficamos com aquilo que chamamos pomposa e um pouco petulantemente, exigência, critério, não admitimos manchas em machetes, nem desatinos em isaltinos ), ou então o caminho da tolerância olímpica (aceitamos tudo como fruta da época, compreendemos os defeitos dos outros, vemos anúncios das telhas Umbelino Monteiro com o mesmo prazer que os anúncios dos perfumes da ralph lauren, e se para um martelo tudo é um prego, para um tolerante tudo é vaselina).

Ambos são caminhos perturbadores, pois ambos nos puxam para o pior de nós, ou seja, ambos nos exigem uma experiência de racionalidade assistida para a qual não estamos talhados.
O único movimento humano no qual podemos encontrar uma certa aproximação da perfeição é indubitavelmente quando gostamos de alguém duma forma irracional. Ou seja, quando tolerar ou exigir não nos trespassam sequer a epiderme.

Hipóteses de remodelação de Ego #5


Vivermos iludidos é uma inevitabilidade. A grande invenção não é o inconsciente mas sim a dita consciência. No fundo, chamamos ilusão aquilo que realmente existe

Desclassificar intelectualmente a realidade é o melhor que fazemos para nos defendermos, dado que temos desvalorizado os sentidos em detrimento do fantasma racional.

Doravante apenas o certo:  tatearei, saborearei, cheirarei, verei e ouvirei. Se me sobrar alguma energia apostarei o resto no reflexo condicionado.

The walking bald-headed


Por detrás de uma grande derrota está sempre a vingança de uma mulher. Armando Cigarra bebeu desse fel quando perdeu as eleições à liderança da freguesia de Miranda do Corno. Depois de ter sido tornada pública a sua separação com Zulmira de Lousa, Armando ficou incapaz de colocar todo o seu carisma na campanha e acabou por se arrastar com os dois pés a prometer insanidades mais próprias dum calceteiro reformado. Enquanto isso, Zulmira, caprichando no seu aspecto de falsa fragilidade, ia-se enriquecendo de companhias várias e distintas, gente de poder e influência, distribuindo insinuantes olés ao seu antigo more than everything, que estava careca de saber que a situação tinha acabado com ele e com as suas ambições. Como não bastasse de humilhação para Armando, Zulmira publica com êxito estrondoso um livro sobre a vida do enigmático padre Cunhal, um missionário que introduziu o cristianismo no Cazaquistão e acabou por morrer de cirrose depois de desinfectar um furúnculo no testículo esquerdo com vodka destilado à pressa.

Ciente do efeito funesto que a separação de Zulmira tinha colocado na sua carreira politica, Armando Cigarra entrega-se a uma vida de bola, bebida y cacahuetes, passando os dias a ver resumos jurássicos do tempo em que o seu, dele, Benfica tinha defesas laterais, pretos em condições, e inclusivamente treinadores que logravam colocar o sujeito discretamente antes do predicado.

Não está devidamente estudado o efeito da vingança feminina na carreira do homem e por isso Armando foi apanhado desprevenido, até talvez empolgado – iludido, claro - com a hipótese de seduzir algum eleitorado que visse nele mais um homem que tinha sabido libertar-se do jugo de uma bela cabra.

Mas Armando não precisaria de ter consultado a sua careca de cristal para saber que não se pode dar as rédeas mediáticas da separação a uma mulher quando se tem uma carreira em risco, tanto mais que a mulher vai ter a tentação de ocupar o seu espaço politico e não poucas vezes verá servida a sua vingança num prato não com a cabeça luzidia do ex-parceiro conubial mas, antes, com esse mesmo cargo politico.

Zulmira de Lousa foi de facto a grande vencedora das eleições em Miranda do Corno e quando Armando Cigarra voltar a fazer relatos de bola ela estará disfrutando dos direitos de autor escolhendo uma freguesia junto ao mar para nas próximas eleições se candidatar, acompanhada ainda dum rapaz de frondosa cabeleira para mostrar ao mundo que nunca mais faria de tabela de bilhar em tempos de austeridade.

O resgate da recepcionista Riana


Simon Werstein era emissário do BCE em troikas e quadrigas várias pela europa fora havia mais de 5 anos. Já estava habituado a esta vida de itinerância e quando casou com Gloria Fuentes, uma mexicana hospedeira da Lufhtansa não se pode dizer que a escolha fosse apenas ditada pelo amor e pelo seu, dela, belo par de pernas e outros apetrechos arredondados ao qual acresciam umas bochechinhas desenhadas por tintoretto numa tarde em que tinha sido soprado pelos querubins do pincel e pelas potestades do carvão.

Naquele dia tinham dormido ambos num hotel em Lisboa, ela fazia escala para Buenos Aires e ele tinha várias reuniões com aquilo que se costuma chamar representantes das autoridades financeiras portuguesas. Enquanto Simon fazia a barba, Gloria já estava na fase final do aperaltamento e ele evitava olhar para gloria et ses jambes para que não desse cabo daquela extraordinária parte do corpo humano que se chama pescoço com um movimento de lâmina mais descuidado. Simon concentrava-se assim nos rácios que lhe iriam tomar conta do dia, mas passava-lhe igualmente pela imaginação o último olhar cândido que Mariana, uma auditora interna dum banco com tendência para a depressão, lhe tinha endereçado na véspera, sem contar com a antevéspera, e inclusivamente outras vésperas atrás, basicamente não havia véspera em que ela não tivesse olhado fixa e apelativamente para ele, quase como se ele fosse uma espécie de spread com pernas e ela uma lobista de pestana.

Gloria de nada se dava conta e já devia estar a entrar com as ancas no cockpit quando Simon dava os últimos retoques na gravata sonhando ora com os olhos melancólicos e cavados de Mariana, ora com uma puta duma soma que não havia maneira de lhe bater certa há mais de uma semana. Os dramas dos emissários são as somas pois com as parcelas eles convivem bem.

Simon era um exímio avaliador de países e era-lhe reconhecido o seu talento por todos. Bastava-lhe uma análise rápida ao movimento de 2 ou 3 indicadores, somado a uma pergunta indiscreta e um dedo colocado bem no centro da virilha de um secretário de estado em vulnerabilidade e fotografava um país sem instagrames. Passava despercebido, almoçava sempre sozinho e lia sempre ao fim da tarde umas páginas dos salmos, algo que aparentemente lhe dava energia para as noitadas que se seguiriam, fossem elas mais com as elevações de glória ou com as fossas de mariana.

Sabendo que carregava consigo uma responsabilidade para a qual ninguém está preparado Simon sentia-se quase uma personagem bíblica passeando na estrada de damasco aguardando visões que o esclarecessem. A ninguém contava estas suas angustias senão a Riana Semedo, recepcionista do hotel onde costumava ficar, que assim se foi tornando numa cassandra da nação, mulher imune a influências e dotada daquela sabedoria de balcão que tudo ouve, tudo cala, tudo compreende e tudo insinua. Afinal a nação não está nas mãos de uma hospedeira de pernas afiadas, nem no olhar deprimido de uma auditora, mas sim nas boquinhas da Riana da recepção.

Hipóteses de remodelação de Ego #4


A duplicidade de personalidade (uma espécie de economia paralela da psique) é um tema recorrente, todos a sentimos e há mesmo quem faça disso modo de vida quando não até de subsistência.

Sermos apenas um só é um luxo - e um risco - que nem os poetas querem correr. Esta multiplicidade encerra no entanto vários problemas de diversa índole, entre eles, e à cabeça, o problema escatológico da salvação, pois desde logo fica a questão: seremos julgados por qual de nós.

Sendo um problema humano ainda com muito por desbravar devemos abordá-lo com a sabedoria dos ignorantes: ir dando a face que estiver mais habituada às bofetadas e guardar sempre uma outra que possa realçar os cremes de beleza.

Doravante terei sempre uma face em estado imaculado para qualquer circunstância.

quatro esquentamentos e um pingo nasal


Filinto Valente tornara-se o psicólogo da crise. Aproveitando as circunstâncias ímpares que proporcionam os momentos de dificuldade dita colectiva, criara um modelo de ‘psique em tempos turbulentos’ e, como não era parvo, tratou de emblogar o tema dando-lhe um aspecto moderno assim entre a literatura e a consulta ao domicílio, que satisfaz um largo espectro de clientela, desde os puros curiosos até às puras menopausadas passando, claro está, pelos próprios neuróticos, que não suportam saber que é a dificuldade que comanda a vida.

Filinto Valente estava ciente que na base do seu sistema tinha de estar um enunciado cativante; era este: todas as nossas neuras individuais participam de uma espécie de neura colectiva; meramente junguiano poderão pensar já alguns, meramente pragmático diz-vos este vosso servidor.

Mas, tal como numa conversa entre porteiras e mulheres a dias não é suficiente um enunciado, há que tirar conclusões e criar potezinhos onde ir encaixando as várias flausinas da vizinhança. Daí que Filinto, à volta do seu enunciado em forma de punchline, tudo levava a crer que definiria uma tipologia e um estilo de abordagem.

Arrumemos a questão do estilo: hermético-estiloso; óbvio, algo que o destacasse imediatamente dos palavrosos (como o machado vaz) ou dos apenas inarráveis (como aquele Eduardo que nem sequer tem mãos de tesoura). A cripticolírica é uma técnica de fácil acesso: citar autores apanhados em googladas em modo shufle, e tirar conclusões como quem deixa a massa no forno. Como nos blogues não se vê a cara, Filinto tinha igualmente de ir dando um ou outro exemplo da sua vasta experiencia pessoal como zorro de inconscientes e ben-hur de cefaleias.

Mas tal não era suficiente para o sucesso, um outro condimento faltava e é tão importante para os psicoterapetas como é importante a serra tico-tico para os bricolásticos: é preciso saber dar uma na compreensão e logo de seguida outra na exigência; e muitas vezes sem tirar.

Falta-me falar da tipologia de Filinto. Esperaram em vão pois Filinto, tinha avisado, não é parvo. Estava escrutinado pelas blogostéricas, não podia correr o risco da contradição, e assim optou pela chamada neura deslizante, ou seja, em momentos de crise isto anda tudo ainda muito mais ligado do que o habitual e, assim, a melhor opção era abordar a neura como um work in progress. Bom para a psique, bom para a audiência, bom para o negócio.

Como achava que dominava a técnica do humor sem fazer rir acabava as consultas em blogoscopia dizendo: olhe, antes isso que uma circuncisão mal feita ou andar sempre a fungar do nariz.


A angústia do guarda décimas no momento do cálculo do PIB


Tibério Lamas aguardava com ansiedade os últimos dados. Dois stands de mercedes, um minimercado em Elvas e uma serração de madeira de Arganil tinham-se atrasado a preencher o inquérito mensal e isso poderia fazer a diferença. Já não lhe bastara o sufoco provocado no dia anterior uma correcção feita pela EDP por causa de um contador estragado em Ponte de Lima e agora este atraso. «Para que décima está a pender?» perguntara-lhe o Dr. Chamusca logo pela manhã - aparentemente o secretário de estado não dormira de noite por causa da úlcera e começara a ligar antes do expediente começar.

Tibério lidava mal com estes momentos em que o algoritmo de cálculo fazia vingar as suas prerrogativas, e até a vírgula que marcava a décima bailava no monitor comandada pelos caprichos dos luciferes da estatística ou da bela Sechat, arrasando-lhe com o músculo levantador das pálpebras, já de si cansado depois da sua, dele, Clotilde ter resistido às suas, dele, iniciativas de arredondamento lúbrico durante mais de 40 minutos bem medidos no relógio despertador, ainda a madrugada soltava as suas primeiras taxas de inflacção.

Estava quase na hora, felizmente tinha sido um bom mês no consumo de bebidas espirituosas, o álcool aparece sempre quando precisamos dele, graças a Deus, e pelo menos uma décima de bónus fora garantida pelos fermentados. Tibério sorriu devotamente e agradeceu como quem carrega o PIB às costas a caminho da Capelinha das Aparições.

Passava das 11 quando o servidor principal ameaçou estar com uma ressaca depois de uma noite dedicada a emborcar taxas de fecundidade, nada fode mais um chip que uma grávida a parir em cima dum fecho de mês. Tudo resolvido pelo meio-dia, já com Tibério a pensar que a puta da décima lhe iria atrasar o almoço de chocos, encomendado de véspera no restaurante da tia Licas, ali ao Arco do Cego. Como cega também deve ser a estatística, dizia de si para si, naqueles momentos de pausa em que se recolhia sob os auspícios dos Deuses da Vírgula.

Tu levas isso demasiado a peito, dizia-lhe vezes sem conta Clotilde, e ele respondia-lhe com um sorriso maroto, tu sabes bem que quando eu estou com a ansiedade da décima os meus apêndices apresentam uma taxa de crescimento superior e toda o húmus familiar beneficia. É a deusa Sechat, já sei, respondia-lhe Clotilde enviando bejinhos com os lábios em forma de barco rabelo.

Era quase uma da tarde quando a vírgula começa a estabilizar e a décima reclina-se sobre o seu dorso, como num desenho de pietá, e toda a economia nacional está no regaço do monitor de Tibério, olhando para ele, suplicando-lhe mais uma casa na esperança de um arredondamento. Carrega nos ombros a esperança duma nação, as ajudas de custo dos enviados da troika, as úlceras dos ministros, e a cona de Clotilde.

Hipóteses de remodelação de Ego #3


Está na ordem do dia – da literatura e da ciência – a manipulação da memória. Nesta moda relevam os minimalismos (decoração tipo cortinado japonês) e os maximalismos (sanefa e folhinhos) tendo como objectivo torná-la o mais inofensiva possível ou mais o mais interventiva possível.

Pondo as técnicas de esquecimento a par das técnicas de lembrança todos teremos a experiência de que controlamos mais as segundas que as primeiras. O segredo de qualquer motor que está ligado às rodas é dominar-lhe o ponto morto.

Doravante lembrar-me-ei sempre de como não aconteceu. Aí sim: quod abundat non nocet.

Hipóteses de remodelação de Ego #2


Por regra-se retira-se mais prazer do perdão do que da acusação. No entanto, a acusação mostra-se mais redentora nos chamados pequenos detalhes da vida. Talvez seja porque por detrás de uma acusação há sempre um perdão, o que nos levaria à omnipresença do perdão, algo que a nossa psique também não pode admitir naquelas suas leis de autossuficiência.

Por outro lado, se somos imperfeitos isso nota-se mais a perdoar do que a acusar, algo estranho a não ser na tal ótica de que a perfeição da acusação deriva da presença implícita dum perdão.

Doravante, nunca mais perdoarei, pois posso estar apenas a servir de apoio a uma qualquer acusação.

Hipóteses de remodelação de Ego #1


Por regra somos sempre mal entendidos. O segredo - prático - está na aproximação. As relações mais perfeitas são as que desvalorizam o entendimento em detrimento do equilíbrio, jogando mais na mecânica que na química, ou então aquelas que optam por definir entendimento casuisticamente, segundo a máxima de não ter princípios demasiado elevados para não ter que estar constantemente a rebaixá-los consoante as circunstâncias.

Claro que existe uma outra categoria, de mais difícil acesso a seres geralmente denominados por humanos, que é a dos que percebem que o entendimento é apenas mais uma das hipóteses retirada dos manuais de lógica e retórica, uma coisa dos livros, uma Kantilena, vá.

Doravante serei compulsivamente desentendido.

Vietnamitas que viveram 40 anos na selva querem voltar

por Lusa, texto publicado por Sofia Fonseca

Os dois homens, pai e filho, que viveram totalmente isolados na selva no centro do Vietname durante mais de quatro décadas não estão a conseguir adaptar-se à civilização e já pediram às autoridades para regressarem à floresta.

Aero-remodelismo


Raul Bilirrubina, o famoso escritor de utopias literárias , nas quais usava o pseudónimo de Cardoso Cuco Castelo, aquando da apresentação do seu último livro disse que se iria dedicar à politica.

A audiência primeiro pensou que se trataria duma blague para chamar a atenção, mas rapidamente percebeu que representava uma decisão séria.

Ao se ter criado um ambiente de alguma surpresa, Cardoso Cuco Castelo, ou melhor Raul Bilirrubina, achou por bem dar mais detalhes sobre o que iria fazer. E eis que revela algo ainda mais inesperado: tinha sido convidado para Ministro das Florestas e preparava-se para aceitar.

Não podemos tomar a árvore pela floresta, relembrou, e como ele ficaria com o pelouro da floresta teria ocasião de olhar para todos os outros e dizer-lhes: «vocês só estão a ver a árvore, deixem comigo que eu vejo a floresta»

A audiência saltava de estupefacção em estupefacção, apesar de não terem chegado a ficar estupefacientes, e agora já nem sabiam se deviam considerar aquilo uma brincadeira, ou uma grande ingenuidade do escritor, ou até uma maior ingenuidade de quem o tivesse, eventualmente, convidado, e no limite até terá havido um ou outro convidado que tenha pensado que ali se revelava finalmente uma qualquer genialidade até aí escondida.

Claro que apareceu logo um brincalhão de serviço que esganiçou o previsível aparte de que todos os guardas florestais iriam ser promovidos a secretários de estado, mas em geral as pessoas entreolhavam-se num silêncio pontilhado daquele típico esgar de lábio em meia-lua e olhos quase arregalados.

Já se estava na fase dos autógrafos quando Cardoso Cuco Castelo, aliás Raúl Bilirrubina, disse a um dos assistentes que era preciso ter cuidado pois se uma andorinha não fazia uma primavera uma árvore já podia fazer uma floresta. Este último, intrigado, perguntou como seria isso? Tudo tem a ver com as sementes, respondeu com algum enigmatismo Cardoso CC, - aliás, bem, já sabem o nome dele - e nesta remodelação pretendeu-se voltar a ver as coisas mais por cima da rama.

O incidente passou, as pessoas também já estavam mais a pensar em ir para casa jantar e assistir aos comentários sobre os novos episódios da nova telenovela Les Irrévocables, mas no final da sessão uma pessoa foi ficando, ficando até só restar ela e o próprio futuro ministro das florestas, os dois especados na sala que nem dois pinheiros preparados para lhes sacarem a resina.

Senhor ministro, acho que lhe poderia ser útil. Como assim, respondeu Cardoso CC, entre o surpreendido e o negligente sem esconder o incomodado. Tenho muita experiência no desbaste e calculo que vai ter muito que desbastar. Talvez, respondeu Cardoso, cofiando um bigode que não tinha há mais de 15 anos, mas ainda não lhe despertando a atenção a ponto de ter desistido de fazer ir fazer uma mijinha - não se esqueça do que tem para me dizer, mas já não aguentava mais; aaahh, ffff.

Aquele momento em que um homem espera que outro mije geralmente é ocupado pelo que espera com pensamentos de registo obscuro, no entanto aquele representante do que restava de uma audiência não perdeu tempo e disse bem alto: veja lá se esse ministério não vai servir para que os outros tenham onde fazer uma mijinha na hora do desbaste de custos.

Cardoso saiu da casa de banho ligeiramente alterado, nada que lhe tivesse perturbado o sempre delicado movimento do fecho éclair mas o suficiente para o colocar em expectativa – o que quer dizer com isso?

Senhor ministro, acho que na remodelação lhe deram esse ministério não por causa daquela lengalenga da árvore e da floresta, mas para terem um sítio qualquer onde os cortes sejam fáceis e naturais de fazer e, pelo sim pelo não, sempre lá podem ir fazer uma mijadela de vez em quando. Diga-lhes só para não mijarem contra o vento.

Uma república acima das nossas possibilidades


D. Duarte Pio – Isabelinha, minha querida, se calhar está na altura de fazermos um golpe de estado

D. Isabel – Senhor, acho que não tenho nada que vestir para uma ocasião dessas

D. Duarte Pio – No estado em que isto está o mais ajustado é um fato-macaco

D. Isabel – Querido, chamam-se jardineiras e já não me servem desde que entrámos para a moeda única

D. Duarte Pio – Tudo te fica bem, minha rainha, desde que não ponhas uma saia muito travada, pois podemos precisar de correr, por mim tudo bem

D. Isabel – Senhor, já mostras a magnanimidade dos grandes estadistas…

D. Duarte Pio – Achas que depois devemos manter o menino passos coelho e os outros como ministros do reino?

D. Isabel – Credo, Senhor, antes chamar a padeira de Aljubarrota e juntá-la com o Miguel de Vasconcelos

D. Duarte Pio – Então e exilamo-los para onde?

D. Isabel – Há aquela ilha das cagarras ….

D. Duarte Pio – Mas essa já está reservada para o senhor doutor anibal…e se lhes pusermos também umas anilhas e os deixarmos ir para casa, assim nem davam despesa?...

D. Isabel – Dava uma imagem de poupança, sim… e o que fazemos com os da troika?

D. Duarte Pio – Então, ao selassié fazemos barão da damaia e aos outros viscondes da bobadela

D. Isabel – E aos mercados?...

D. Duarte Pio – Então, montamos uma Câmara Alta no bolhão e pomo-los lá a perorar com yelds

D. Isabel – Mas isso é que é uma verdadeira mudança de regime, meu Amor, corre-te no sangue o fluido dos grandes reformadores

D. Duarte Pio – Sinto que estive os anos todos a ser preparado para este grande momento

D. Isabel – Mas olha, amor, eu hoje tinha combinado ir aos saldos, achas que podemos fazer o golpe de estado antes amanhã…eu até já teria o guarda-roupa mais adequado e tudo para a restauração 2.0

D. Duarte Pio – Vais ter de fazer sacrifícios, uma rainha tem de pensar primeiro no seu povo…

D. Isabel – Achas que o povo está à frente da minha reputação e tudo?

D. Duarte Pio – Não sei… isso vai ter de ficar definido na nova constituição

D. Isabel – Mas achas que vai ser preciso fazer outra!? Não serviria o catálogo da Redoute?

D. Duarte Pio – Não sei, eles com a república ficaram um bocado esquisitos

D. Isabel – Meus Deus, em que estado é que isto estará… Não seria melhor arranjarmos um regente?

D. Duarte Pio – Sim…e até podíamos deixar tudo como está !, só que passava a ser monarquia e já não eramos responsáveis pelas dívidas da república

Isabel – Amor, tanto talento desperdiçado, mas posso à mesma comprar roupa nova para o golpe de estado, não posso?

Uma salvação acima das nossas possibilidades



Baptista da Silva – olha lá, achas que está na altura de dar mais alguma entrevista?

Capitão Roby – eu noutro dia comi uma gaja que é pivot e meto-te na boa numa mesa redonda

Baptista da Silva – desta vez tinha pensado em dizer que era observador por parte do kremlin

Capitão roby – tem cuidado que eu uma vez comi uma ucraniana com tranças mas fiquei ulcerado no estômago, julgo que estava contaminada

Baptista da Silva – sim, tens razão, se calhar opto por dizer que sou fiscal d’excel

Capitão roby – por acaso noutro dia comi uma miúda em cima dum power point e ela disse-me que eu tinha um outlook fatal

Baptista da Silva – olha, estou a pensar apresentar um estudo que demonstra que há uma correlação directa entre a austeridade e a austeridade

Capitão roby – isso lembra-me uma vez em que eu andava a comer umas gémeas que também trabalhavam em correlação

Baptista da silva – a libido e a economia andam muito ligados…

Captão roby – não me digas…o mais parecido que comi com uma economista foi uma escritora de livros infantis

Baptista da Silva - sim, e na economia também se aprende a controlar os impulsos sob pena de tudo se esvair em superavits precoces...

Capitão roby – aishh... nessa onda o pior que me aconteceu foi numa fase em que andei com a mania da miúda única… passava o tempo com restrições e quando voltei ao mercado reparei que estava muito desvalorizado e nem tinha dado por isso, foi um castigo para voltar a sacar umas miúdas novas

Baptista da Silva – pois é, isso é terrível, eu se calhar vou antes fazer um estudo empírico a demonstrar que o que trama a moeda única é ela ser única, por exemplo, num país com várias moedas únicas acho que esta crise nunca aconteceria

Capitão roby – olha, lembras bem, uma vez andei com umas empíricas suecas e digo-te, nunca chegava a ser necessário arranjar uma teoria para aquilo tal a variedade de resultados, e bons, que se obtinha. Eu sou um apologista fanático do estado social em formato loiro e robusto, detesto escanzeladas, aliás, estou sempre em greve de escanzelo.

Baptista da Silva – eu também gosto muito do estado social, uma vez fiz um estudo para a rádio renascença em que demonstrava que há uma correlação directa entre o nº de terços rezados pelas pessoas juntinhas em Fátima e o número de avé marias produzidos pelo País…

Capitão roby – sim, sim, as religiosas são as melhores, um tipo tem é que lhes levar os filhos à catequese, ouvir uma ou outra ladainha, mas depois são muito certinhas, têm a noção do dever, não sei se estás a perceber?

Baptista da Silva – por isso é que eu já defendi que para nós termos bem a noção do dever, têm é de nos emprestar ainda mais, pois quanto mais devermos mais noção temos, e assim por diante, é logarítmico e tudo, já expliquei isso uma vez numa conferência para prémios nobel da paz que organizei no Porto Brandão

Capitão roby – nem me fales da Porto Brandão, pá, uma vez comi lá uma gajita a julgar que era a angelina joli e afinal era a empregada duma pastelaria na costa da Caparica que tinha perdido o autocarro e sofria de asma e tinha o peito metido para dentro

Baptista da Silva – meu Deus, o mundo é muito dado a confusões, é…, olha que ainda noutro dia estava a dar uma conferência para tipos com problemas de inserção social e depois descobri que aquilo era mesmo o conselho de ministros, e nem foi o tipo do lacinho que me levou lá!

Capitão roby – eu gosto muito de inserção social! Muito mesmo. Sem isso não há salvação. Aliás, só concebo mesmo a sociabilidade em geral num ambiente de inserção em particular.

Baptista da Silva - então se calhar hoje vou mesmo aceitar o estatuto de observador da salvação nacional, vendo bem uma pessoa não se pode estar sempre a expor, não é?

Capitão Roby - discrição acima de tudo, sim, o segredo é a cama do negócio

Uma democracia acima das nossas possibilidades


PSD – então rapazes, vamos lá fingir que chegamos a um acordo qualquer sobre qualquer coisa com um objectivo  qualquer

CDS – bem, eu já paguei o meu preço de reputação…, agora é a vossa vez

PS – queridos, eu só preciso de ir aguentando isto até às novas eleições, vocês já sabem…

PSD – primeiro temos de escolher um tema para estarmos de acordo…

CDS – podíamos escrever um texto sobre a cereja do fundão….

PS – é pá, também é chato dar cabo da reputação da cereja…

PSD – olhem, e se disséssemos que nos tínhamos reunido em boliqueime e isto ficava como o os ‘acordos de boliqueime’, desarmávamos o gajo…

CDS – pois, pois, e falávamos das amendoeiras em flor e assim…

PS – e vocês levavam a mal se intercalássemos uns versos do Manuel Alegre?

PSD – por mim tudo bem desde que eu ainda vá lanchar a casa…

CDS – e eu com isto já perdi a missa do meio-dia…

PS – a democracia tem um preço…

PSD – acham que 3 páginas chegam?

CDS – se calhar devíamos falar sobre as berlengas para dar um ar de ainda maior abrangência ao acordo?

PS – sim… tipo refúgio pós troika, o gajo anda obcecado com o pós troika… será que ele pensa que também há uma depressão pós troika?

PSD – já se bebia era qualquer coisa…detesto consensos assim com a boca seca

CDS – quando íamos com o Paulinho às feiras tínhamos sempre ginjinha com fartura…

PS – e não terá ele abusado da bebida?...

PSD – vá lá, não me distraiam que isto está quase pronto…olhem lá, se pusermos isto a acabar com um verso do Herberto Helder, então é que isto fica mesmo à prova de bala, hem?

CDS – não pode é ter palavrões por causa do bébé da ministra cristas!

PS – olha que até está a ficar um texto todo catita, sim senhor, belo Compromisso de Salv[e-se quem puder]ação Nacional que a gente aqui arranjou, hem!

PSD – vocês não acham que o gajo vai topar que isto é tudo só treta para ver se ele se cala?

CDS – na… ele quer é ir sossegado de férias e que a Mariazinha não o chateie, e que o bulhão pato seja amigo das ameijoas, o importante é o primado da família e…

PS – é pá esquecemos-nos de pôr isso…

PSD – meninos agora já não vai a tempo, falei da miscigenação das raças, da língua portuguesa, do pastel de nata, da ínclita geração e já foi um pau, agora tenho de me despachar porque já mandei pôr o pargo no forno lá em casa

CDS – isto está tão consensual que até o rato mickey assinava, pá!

PS – esperemos que agora não venha o soares e estrague isto que nos deu tanto trabalho a escrever

PDS – assim até dá gosto fazer Consensos & Compromissos nacionais, pá, ainda franchisamos esta coisa, melhor que nisto só mesmo nas cartas de demissão, ...agora é a vez do PS também fazer uma dessas para nós brincarmos, hem!

CDS – sim, senão depois disto brincamos com quê?! Este selassié nem usa rastas!

Um presidente acima das nossas possibilidades


M. – Filho, desta vez vais mostrar que és um homem, ou quê!?

A. – filha, estamos quase em férias…deixa lá isto passar…

M. – Nem penses! Ainda te chamam banana!

A. – mas ó filha, eu tinha prometido aos nossos netinhos que ia jogar com eles ao sete e meio para o Algarve!

M. – Eu levo os miúdos para baixo e tu ficas cá para mostrar que existes!

A. – mas eu existo…

M. – Tu não existes, filho, fora dos programas de comédia não existes, desta vez vais ter mesmo de fazer alguma coisa para te fazeres presidente existente!

A. – achas que se eu fizer outro discurso sobre o estatuto político dos Açores estará bem?

M. – Ó filho, tu atreve-te! Tu agora vais ter mesmo de deixá-los à toa! Não me interessa nada do que vais dizer, eles têm é de ficar: à toa.

A. – então…mas só se eu disser que aceito o Portas mas só se ele fizer um corte de cabelo igual do Nuno Melo…

M. – Não dá, filho, ele ainda compra um capachinho e safa-se, tens de ser mais incisivo, raio! Será que também vou ter que ser eu a resolver isto como tive de fazer ontem com os estores que estavam encravados!

A. – ó querida, isso é que me fazias mesmo um grande favor… eu estou aqui com uma dor nas cruzes e tudo por causa duma posição que tive de fazer com as costas durante a última tomada de posse

M. – Olha, tu vais lá e dizes que sim mas que não eventualmente assim-assim, ou então coiso.

A. – parece-me bem pensado e dá imagem de durão, mas olha…e depois posso ir para baixo com os netinhos?

M. – Só podes ir quando o Portas ficar careca, antes disso estás proibido. Deixo empadão no congelador e já limpei a gravata cor de salmonete que estava com aquela nódoa de sardinha assada

A. – e se eles depois me disserem: 'então agora tome conta disto'... o que é que eu faço?

M. – Nesse caso, chamas a troika e marcamos aquele cruzeiro na Somália para ver os piratas!

A. – mas ó filha, eu preferia ir antes jantar fora uns salmonetes ali a setúbal?

M. – Primeiro os piratas, depois, quando voltarmos, se setúbal ainda for nosso vamos aos salmonetes!

A. – estou com muito medo, já sem sei se consigo fazer a minha cara de pau…

M. – Consegues querido, claro que consegues, fazes assim: quando estiveres a ler o discurso pensa naquele dia em que o nosso netinho mais novo te bolsou para cima das calças e então faz a mesma cara!

A. – achas então que eu ainda sou muito homem?

M. – Claro, filho! Uma mulher nunca faria figuras destas!

Acabaram as gaspadinhas venha a lotaria popular


Pouco ou nada tenho escrito sobre a chamada realidade realmente real (tirando uns dispersos da vie au tanga, au bailout e au rachat) pois, como seria expectável, irei daqui a uns tempos escrever os textos que serão definitivos sobre o tema e preciso de manter o meu estatuto técnico de espectador distante - pois não tenho perfil churchilizável. Contudo, apenas uma doença de índole hemorroidal aguda e em fase eruptiva me impediria de sentar aqui neste momento e declarar que, dois pontos:
se por mero acaso, ou leviandade de punho, voltarmos a eleger um tal engenheiro técnico pós-graduado em velhas oportunidades, nem que seja para tesoureiro numa junta de freguesia, é porque somos uns tais de gajos que merecemos ser confiscados de todos os depósitos acima de qualquer valor.