Uma república acima das nossas possibilidades


D. Duarte Pio – Isabelinha, minha querida, se calhar está na altura de fazermos um golpe de estado

D. Isabel – Senhor, acho que não tenho nada que vestir para uma ocasião dessas

D. Duarte Pio – No estado em que isto está o mais ajustado é um fato-macaco

D. Isabel – Querido, chamam-se jardineiras e já não me servem desde que entrámos para a moeda única

D. Duarte Pio – Tudo te fica bem, minha rainha, desde que não ponhas uma saia muito travada, pois podemos precisar de correr, por mim tudo bem

D. Isabel – Senhor, já mostras a magnanimidade dos grandes estadistas…

D. Duarte Pio – Achas que depois devemos manter o menino passos coelho e os outros como ministros do reino?

D. Isabel – Credo, Senhor, antes chamar a padeira de Aljubarrota e juntá-la com o Miguel de Vasconcelos

D. Duarte Pio – Então e exilamo-los para onde?

D. Isabel – Há aquela ilha das cagarras ….

D. Duarte Pio – Mas essa já está reservada para o senhor doutor anibal…e se lhes pusermos também umas anilhas e os deixarmos ir para casa, assim nem davam despesa?...

D. Isabel – Dava uma imagem de poupança, sim… e o que fazemos com os da troika?

D. Duarte Pio – Então, ao selassié fazemos barão da damaia e aos outros viscondes da bobadela

D. Isabel – E aos mercados?...

D. Duarte Pio – Então, montamos uma Câmara Alta no bolhão e pomo-los lá a perorar com yelds

D. Isabel – Mas isso é que é uma verdadeira mudança de regime, meu Amor, corre-te no sangue o fluido dos grandes reformadores

D. Duarte Pio – Sinto que estive os anos todos a ser preparado para este grande momento

D. Isabel – Mas olha, amor, eu hoje tinha combinado ir aos saldos, achas que podemos fazer o golpe de estado antes amanhã…eu até já teria o guarda-roupa mais adequado e tudo para a restauração 2.0

D. Duarte Pio – Vais ter de fazer sacrifícios, uma rainha tem de pensar primeiro no seu povo…

D. Isabel – Achas que o povo está à frente da minha reputação e tudo?

D. Duarte Pio – Não sei… isso vai ter de ficar definido na nova constituição

D. Isabel – Mas achas que vai ser preciso fazer outra!? Não serviria o catálogo da Redoute?

D. Duarte Pio – Não sei, eles com a república ficaram um bocado esquisitos

D. Isabel – Meus Deus, em que estado é que isto estará… Não seria melhor arranjarmos um regente?

D. Duarte Pio – Sim…e até podíamos deixar tudo como está !, só que passava a ser monarquia e já não eramos responsáveis pelas dívidas da república

Isabel – Amor, tanto talento desperdiçado, mas posso à mesma comprar roupa nova para o golpe de estado, não posso?

Uma salvação acima das nossas possibilidades



Baptista da Silva – olha lá, achas que está na altura de dar mais alguma entrevista?

Capitão Roby – eu noutro dia comi uma gaja que é pivot e meto-te na boa numa mesa redonda

Baptista da Silva – desta vez tinha pensado em dizer que era observador por parte do kremlin

Capitão roby – tem cuidado que eu uma vez comi uma ucraniana com tranças mas fiquei ulcerado no estômago, julgo que estava contaminada

Baptista da Silva – sim, tens razão, se calhar opto por dizer que sou fiscal d’excel

Capitão roby – por acaso noutro dia comi uma miúda em cima dum power point e ela disse-me que eu tinha um outlook fatal

Baptista da Silva – olha, estou a pensar apresentar um estudo que demonstra que há uma correlação directa entre a austeridade e a austeridade

Capitão roby – isso lembra-me uma vez em que eu andava a comer umas gémeas que também trabalhavam em correlação

Baptista da silva – a libido e a economia andam muito ligados…

Captão roby – não me digas…o mais parecido que comi com uma economista foi uma escritora de livros infantis

Baptista da Silva - sim, e na economia também se aprende a controlar os impulsos sob pena de tudo se esvair em superavits precoces...

Capitão roby – aishh... nessa onda o pior que me aconteceu foi numa fase em que andei com a mania da miúda única… passava o tempo com restrições e quando voltei ao mercado reparei que estava muito desvalorizado e nem tinha dado por isso, foi um castigo para voltar a sacar umas miúdas novas

Baptista da Silva – pois é, isso é terrível, eu se calhar vou antes fazer um estudo empírico a demonstrar que o que trama a moeda única é ela ser única, por exemplo, num país com várias moedas únicas acho que esta crise nunca aconteceria

Capitão roby – olha, lembras bem, uma vez andei com umas empíricas suecas e digo-te, nunca chegava a ser necessário arranjar uma teoria para aquilo tal a variedade de resultados, e bons, que se obtinha. Eu sou um apologista fanático do estado social em formato loiro e robusto, detesto escanzeladas, aliás, estou sempre em greve de escanzelo.

Baptista da Silva – eu também gosto muito do estado social, uma vez fiz um estudo para a rádio renascença em que demonstrava que há uma correlação directa entre o nº de terços rezados pelas pessoas juntinhas em Fátima e o número de avé marias produzidos pelo País…

Capitão roby – sim, sim, as religiosas são as melhores, um tipo tem é que lhes levar os filhos à catequese, ouvir uma ou outra ladainha, mas depois são muito certinhas, têm a noção do dever, não sei se estás a perceber?

Baptista da Silva – por isso é que eu já defendi que para nós termos bem a noção do dever, têm é de nos emprestar ainda mais, pois quanto mais devermos mais noção temos, e assim por diante, é logarítmico e tudo, já expliquei isso uma vez numa conferência para prémios nobel da paz que organizei no Porto Brandão

Capitão roby – nem me fales da Porto Brandão, pá, uma vez comi lá uma gajita a julgar que era a angelina joli e afinal era a empregada duma pastelaria na costa da Caparica que tinha perdido o autocarro e sofria de asma e tinha o peito metido para dentro

Baptista da Silva – meu Deus, o mundo é muito dado a confusões, é…, olha que ainda noutro dia estava a dar uma conferência para tipos com problemas de inserção social e depois descobri que aquilo era mesmo o conselho de ministros, e nem foi o tipo do lacinho que me levou lá!

Capitão roby – eu gosto muito de inserção social! Muito mesmo. Sem isso não há salvação. Aliás, só concebo mesmo a sociabilidade em geral num ambiente de inserção em particular.

Baptista da Silva - então se calhar hoje vou mesmo aceitar o estatuto de observador da salvação nacional, vendo bem uma pessoa não se pode estar sempre a expor, não é?

Capitão Roby - discrição acima de tudo, sim, o segredo é a cama do negócio

Uma democracia acima das nossas possibilidades


PSD – então rapazes, vamos lá fingir que chegamos a um acordo qualquer sobre qualquer coisa com um objectivo  qualquer

CDS – bem, eu já paguei o meu preço de reputação…, agora é a vossa vez

PS – queridos, eu só preciso de ir aguentando isto até às novas eleições, vocês já sabem…

PSD – primeiro temos de escolher um tema para estarmos de acordo…

CDS – podíamos escrever um texto sobre a cereja do fundão….

PS – é pá, também é chato dar cabo da reputação da cereja…

PSD – olhem, e se disséssemos que nos tínhamos reunido em boliqueime e isto ficava como o os ‘acordos de boliqueime’, desarmávamos o gajo…

CDS – pois, pois, e falávamos das amendoeiras em flor e assim…

PS – e vocês levavam a mal se intercalássemos uns versos do Manuel Alegre?

PSD – por mim tudo bem desde que eu ainda vá lanchar a casa…

CDS – e eu com isto já perdi a missa do meio-dia…

PS – a democracia tem um preço…

PSD – acham que 3 páginas chegam?

CDS – se calhar devíamos falar sobre as berlengas para dar um ar de ainda maior abrangência ao acordo?

PS – sim… tipo refúgio pós troika, o gajo anda obcecado com o pós troika… será que ele pensa que também há uma depressão pós troika?

PSD – já se bebia era qualquer coisa…detesto consensos assim com a boca seca

CDS – quando íamos com o Paulinho às feiras tínhamos sempre ginjinha com fartura…

PS – e não terá ele abusado da bebida?...

PSD – vá lá, não me distraiam que isto está quase pronto…olhem lá, se pusermos isto a acabar com um verso do Herberto Helder, então é que isto fica mesmo à prova de bala, hem?

CDS – não pode é ter palavrões por causa do bébé da ministra cristas!

PS – olha que até está a ficar um texto todo catita, sim senhor, belo Compromisso de Salv[e-se quem puder]ação Nacional que a gente aqui arranjou, hem!

PSD – vocês não acham que o gajo vai topar que isto é tudo só treta para ver se ele se cala?

CDS – na… ele quer é ir sossegado de férias e que a Mariazinha não o chateie, e que o bulhão pato seja amigo das ameijoas, o importante é o primado da família e…

PS – é pá esquecemos-nos de pôr isso…

PSD – meninos agora já não vai a tempo, falei da miscigenação das raças, da língua portuguesa, do pastel de nata, da ínclita geração e já foi um pau, agora tenho de me despachar porque já mandei pôr o pargo no forno lá em casa

CDS – isto está tão consensual que até o rato mickey assinava, pá!

PS – esperemos que agora não venha o soares e estrague isto que nos deu tanto trabalho a escrever

PDS – assim até dá gosto fazer Consensos & Compromissos nacionais, pá, ainda franchisamos esta coisa, melhor que nisto só mesmo nas cartas de demissão, ...agora é a vez do PS também fazer uma dessas para nós brincarmos, hem!

CDS – sim, senão depois disto brincamos com quê?! Este selassié nem usa rastas!

Um presidente acima das nossas possibilidades


M. – Filho, desta vez vais mostrar que és um homem, ou quê!?

A. – filha, estamos quase em férias…deixa lá isto passar…

M. – Nem penses! Ainda te chamam banana!

A. – mas ó filha, eu tinha prometido aos nossos netinhos que ia jogar com eles ao sete e meio para o Algarve!

M. – Eu levo os miúdos para baixo e tu ficas cá para mostrar que existes!

A. – mas eu existo…

M. – Tu não existes, filho, fora dos programas de comédia não existes, desta vez vais ter mesmo de fazer alguma coisa para te fazeres presidente existente!

A. – achas que se eu fizer outro discurso sobre o estatuto político dos Açores estará bem?

M. – Ó filho, tu atreve-te! Tu agora vais ter mesmo de deixá-los à toa! Não me interessa nada do que vais dizer, eles têm é de ficar: à toa.

A. – então…mas só se eu disser que aceito o Portas mas só se ele fizer um corte de cabelo igual do Nuno Melo…

M. – Não dá, filho, ele ainda compra um capachinho e safa-se, tens de ser mais incisivo, raio! Será que também vou ter que ser eu a resolver isto como tive de fazer ontem com os estores que estavam encravados!

A. – ó querida, isso é que me fazias mesmo um grande favor… eu estou aqui com uma dor nas cruzes e tudo por causa duma posição que tive de fazer com as costas durante a última tomada de posse

M. – Olha, tu vais lá e dizes que sim mas que não eventualmente assim-assim, ou então coiso.

A. – parece-me bem pensado e dá imagem de durão, mas olha…e depois posso ir para baixo com os netinhos?

M. – Só podes ir quando o Portas ficar careca, antes disso estás proibido. Deixo empadão no congelador e já limpei a gravata cor de salmonete que estava com aquela nódoa de sardinha assada

A. – e se eles depois me disserem: 'então agora tome conta disto'... o que é que eu faço?

M. – Nesse caso, chamas a troika e marcamos aquele cruzeiro na Somália para ver os piratas!

A. – mas ó filha, eu preferia ir antes jantar fora uns salmonetes ali a setúbal?

M. – Primeiro os piratas, depois, quando voltarmos, se setúbal ainda for nosso vamos aos salmonetes!

A. – estou com muito medo, já sem sei se consigo fazer a minha cara de pau…

M. – Consegues querido, claro que consegues, fazes assim: quando estiveres a ler o discurso pensa naquele dia em que o nosso netinho mais novo te bolsou para cima das calças e então faz a mesma cara!

A. – achas então que eu ainda sou muito homem?

M. – Claro, filho! Uma mulher nunca faria figuras destas!

Acabaram as gaspadinhas venha a lotaria popular


Pouco ou nada tenho escrito sobre a chamada realidade realmente real (tirando uns dispersos da vie au tanga, au bailout e au rachat) pois, como seria expectável, irei daqui a uns tempos escrever os textos que serão definitivos sobre o tema e preciso de manter o meu estatuto técnico de espectador distante - pois não tenho perfil churchilizável. Contudo, apenas uma doença de índole hemorroidal aguda e em fase eruptiva me impediria de sentar aqui neste momento e declarar que, dois pontos:
se por mero acaso, ou leviandade de punho, voltarmos a eleger um tal engenheiro técnico pós-graduado em velhas oportunidades, nem que seja para tesoureiro numa junta de freguesia, é porque somos uns tais de gajos que merecemos ser confiscados de todos os depósitos acima de qualquer valor.

Diz-me que blog não lês dir-te-ei quem és


Foi sem honra nem glória, seguindo os ventos que sopram, que este - quero dizer este aqui mesmo - absolutamente notável blog cumpriu há dias o seu décimo ano de existência, tão caprichosa quanto abnegadamente fútil. Incapaz de mudar a vida aos seus leitores, incapaz inclusive de ter leitores, soube criar uma austeridade avant la lettre: disfrutemos da parra na ausência da uva.

Almoços Grátis. série 3 [18]

O meu diarista português preferido escreveu que «na melhor das hipóteses, a vida é uma soma de ausências. Na pior, uma soma de omissões». Hoje terminei esta minha última temporada no restaurante da L. Fiquei com imensas coisas para lhe dizer, digo fiquei porque ainda estão aqui comigo, naquela zona da garganta que tem uma ligação directa com o saco lacrimal. Comi uma caldeirada que corria por fora do menu, aparentemente resultara de uma ida pontual e especialmente frutuosa à lota de Peniche. Por mais que me esforce não consigo destrinçar o raio dos peixes e também não estava com disposição para conversas taxidérmicas com nenhum empregado e muito menos com a L. Não sei ainda o que ela pensou destas minhas idas ao restaurante, ela às vezes diz-me qualquer coisa, ou manda-me uns recados, mas desta vez ainda não se descoseu (ausência, omissão?). Hoje apareceu na sala umas quantas vezes, acenou-me como quem foge para uma barricada, mas nunca chegou a insinuar que queria falar comigo (ausência, omissão?]. Já devo estar a forrar-lhe o baú das recordações, fazendo companhia a algum bicho da madeira que por lá tenha ficado a petiscar nas cartas de amor de alguém mais bem sucedido que eu. Comi uma sobremesa clássica de restaurante de combate, um bolo de bolacha, fresquíssimo mas previsível, e fiquei sem saber se ela terá remorsos das suas ausências ou se, pelo contrário, terá vaidade das suas omissões. Comigo. Em todo o caso o meu prémio de consolação só poderá ser um cantinho frio e seco na despensa da saudade. 

[fim da 3ª série. Citação do 'Diário da India' de Marcello Duarte Mathias]

Almoços Grátis. série 3 [17]

Estava um dia de sol abundante que entrava pelas janelas do restaurante ajudando a desenhar figuras geométricas de sombra por entre as mesas. Nada de artisticamente empolgante mas o suficiente para me distrair do essencial que era: comer. Devia estar há uns quantos minutos a distribuir olhares vazios pela sala quando me vêm exigir uma escolha de menu. Apontei para a cartolina plastificada e colorida sem olhar e pouco tempo depois apareceu-me a rapariga dos molhos com uma cabeça de pescada estendida numa travessa e um sorriso também travesso a atravessar-lhe a cara, da rapariga, não tanto da pescada. Teria mesmo apontado para aquela escolha ou seria ela a aproveitar-se? E traria aquilo alguma mensagem implícita? Ficámos a olhar um para o outro durante alguns segundos, cada um tentando sacar algum sinal que lhe servisse, mas julgo que quem nos visse asseguraria estar a observar um casting para múmias. Faço muito bem de múmia, benza-me Deus, eventualmente farei até um cadáver digno, mal empregado para crematório. Mas, na altura, presenciando o espectáculo dado pela corvina, não pensava nisto, fabulava apenas analogias possíveis para aquele prato e só me aparecia o bom do S João Baptista à imaginação. Seria essa a mensagem? Todos teremos uma Salomé à nossa espreita? O currículo duma mulher far-se-á com as cabeças que cortou ou com as cabeças que desprezou? Pedi um kiwi e larguei o pasto ainda a contar as grainhas esquecidas no céu-da-boca.

Almoços Grátis. série 3 [16]

Hoje apeteceu-me começar pelos doces. Pedi um gelado para começar, para me encher logo à partida. Lançaram-me uns olhares estranhos mas não passou disso, sentia-se conformismo no ar. Era um dia calmo no restaurante, mais de meia casa mas de gente sossegada, sem exigências especiais e também sem grandes intimidades com os empregados, tirando numa das mesas em que estava um tal de S. que tinha sido sócio do pai de L. no arranque do restaurante e por quem ela tinha – sempre teve - um certo fascínio. Cheguei a falar com ele uma ou duas vezes, era um tipo cheio de interesse e via-se que olhava para a L., para desgosto dela, com um carinho paternal. Hoje vivia entre Angola e cá, seguindo um roteiro muito preenchido e não se percebia bem se a vida lhe corria de feição ou apenas geria a fortuna como quem gere a gaveta das peúgas. Depois do gelado pedi uma espécie de empada de lebre, um prato com ares alentejanos e que, obviamente, não encaixou bem depois dum gelado. É irritante quando queremos subverter uma ordem qualquer e a coisa não nos corre bem. A L. depois de cumprimentar S. chegou perto da minha mesa e perguntou se se podia sentar. Estava com um ar triste e cansada mas ainda foi buscar recursos para me dar um sorriso pelo qual eu ainda nada tinha feito por merecer. Desde que a conheço que é a única pessoa que eu sinto ter de merecer. Isto é uma fragilidade de merda, sem qualquer explicação e que me condiciona como se fosse uma dor lombar que me faz andar de lado a pedir licença às costas para endireitar o pescoço. Peguei-lhe na mão, algo que não fazia há anos e subiu-me pelo corpo (também desceu) a desagradável sensação de que a tinha perdido. Comemos um gaspacho juntos e eu saí ainda com os lábios vermelhos a ruminar à volta duma tal de sorte macaca.