O meu diarista português preferido escreveu que «na melhor
das hipóteses, a vida é uma soma de ausências. Na pior, uma soma de omissões».
Hoje terminei esta minha última temporada no restaurante da L. Fiquei com
imensas coisas para lhe dizer, digo fiquei porque ainda estão aqui comigo,
naquela zona da garganta que tem uma ligação directa com o saco lacrimal. Comi
uma caldeirada que corria por fora do menu, aparentemente resultara de uma ida pontual
e especialmente frutuosa à lota de Peniche. Por mais que me esforce não consigo
destrinçar o raio dos peixes e também não estava com disposição para conversas taxidérmicas
com nenhum empregado e muito menos com a L. Não sei ainda o que ela pensou
destas minhas idas ao restaurante, ela às vezes diz-me qualquer coisa, ou
manda-me uns recados, mas desta vez ainda não se descoseu (ausência, omissão?). Hoje apareceu na
sala umas quantas vezes, acenou-me como quem foge para uma barricada, mas nunca
chegou a insinuar que queria falar comigo (ausência, omissão?]. Já devo estar a forrar-lhe o baú das
recordações, fazendo companhia a algum bicho da madeira que por lá tenha ficado
a petiscar nas cartas de amor de alguém mais bem sucedido que eu. Comi uma
sobremesa clássica de restaurante de combate, um bolo de bolacha, fresquíssimo
mas previsível, e fiquei sem saber se ela terá remorsos das suas ausências ou
se, pelo contrário, terá vaidade das suas omissões. Comigo. Em todo o caso o
meu prémio de consolação só poderá ser um cantinho frio e seco na despensa da
saudade.
[fim da 3ª série. Citação do 'Diário da India' de Marcello Duarte Mathias]
